Unintentionally
5 Thank you, Scott
Notas iniciais

Depois do pequeno encontro com a Alexia, sai correndo como se fosse um rato fugindo de um gato. É claro que ela não me seguiu, mas fui direto pra casa mesmo assim, afinal, ficava ali perto: um prédio com fachada azul-celeste, com detalhes em branco e alguma plantas perto da porta. Entrei e subi pelas escadas indo direto para o meu apartamento, sem cumprimentar ninguém.
Fui para a cozinha e tomei um copo de água por causa da garganta seca e depois me deitei no sofá, tentando me lembrar de todos os detalhes da festa. Desde o meu quase beijo com a garota misteriosa até o momento em que voltei para casa. Mas o rosto dela não estava lá em nenhum deles, e eu não sabia de mais ninguém que tivesse visto ela além de mim, do Scott e da Lissa.
Tentei tirar isso da cabeça, ir ler alguma coisa, mas não estava conseguindo. As lembranças daquela noite me açoitavam como um chicote (Poético, não é?) , principalmente a memória das costas dela se afastando de mim, com seus belos cabelos esvoaçando ao seu redor e aquela roupa extravagante...
De repente, o telefone tocou me tirando do meu transe. Ao atender, uma voz conhecida estava no outro lado da linha.
— E aí, cara? – Scott.
— E aí? Fala logo que eu estou ocupado – aquilo era quase uma verdade.
— Não, você não está. Você está pensando naquela garota, não é? A da festa da escola.
— Desde quando você virou o Professor Xavier? Tá, eu estava mesmo, mas fala logo o que você quer – minhas referências estão mais frequentes ultimamente. Ele deu uma gargalhada.
— Não é nenhum assunto nerd, para o seu azar, mas é bem o contrário disso. Falta um jogador no time de futebol americano da escola e eu estava pensando se você não...
— Não – respondi imediatamente – E quais seriam os seus argumentos para me fazer levantar do meu sofá para ir correr atrás de uma bola com um bando de homens atrás de mim?
— Quer mesmo saber? Eu só preciso de dois.
— Pode falar.
— Primeiro: você tem que sair um pouco de casa. Segundo: como você acha que eu consigo pegar tantas garotas assim? Talvez até a menina misteriosa venha atrás de você.
~*~
— Eu sabia que você viria quando desligou o telefone na minha cara! – Scott, usando o uniforme vermelho e preto do time de futebol, estava me esperando no corredor. Ele abriu os braços, como se estivesse esperando um abraço – Eu já falei com o treinador, então não se preocupe. Você só tem que ir pegar um uniforme com ele.
— Tudo bem, mas antes disso tenho que ir colar um negócio no quadro de anúncios – disse, continuando a caminhada pelo corredor.
— O que é? – ele perguntou, me seguindo.
— Eu tenho uns quartos sobrando lá no meu apartamento e vou colocar um aviso ali para o caso de alguém querer dividir o apartamento comigo.
— Você tem quartos sobrando?! Porque não me disse antes?! Eu poderia ir morar com você! – ele quase gritava, chamando a atenção de várias pessoas que nos olhavam com expressões esquisitas. Eu sabia o que eles estavam pensando, então só tenho que te dar um muito obrigado, Scott.
— Ei, fale mais baixo. Se você dividisse as contas comigo, até daria para...
— Que foda, cara! Imagina como isso seria legal! Nós poderíamos... – e ele continuou gritando até chegarmos ao quadro de avisos, o que demorou alguns minutos angustiantes.
O quadro estava cheio de bilhetes, papeis e anúncios dos mais variados tipos, tamanhos e cores, mas por sorte ainda sobrava um pequeno espaço numa ponta. Prendi o papel ali com um alfinete e me virei enquanto Scott ainda falava, dando de cara com uma das pessoas que eu menos queria ver na minha vida.
Judy tinha acabado de sair de um banheiro feminino, vestida para jogar tênis. Uma faixa rosa na testa e em cada um dos pulsos e um uniforme branco com um shorts bem curto que me fez pensar em coisas das quais não preciso mencionar aqui. Ela me percebeu ali e veio imediatamente na minha direção, com uma expressão de surpresa e felicidade tão fofa que quase me fez derreter.
— Oi, Kurt. Será que eu posso falar um pouquinho com você? – agora tinha uma expressão de arrependimento e sua voz saiu tão docemente que quase me fez derreter de verdade. Eu olhei para o Scott indo embora, deixando-nos a sós. Fomos para um canto do corredor.
— Olha, Kurt, eu me sinto mal por ter te dado um fora daquele jeito. É que foi tudo muito rápido e eu fiquei assustada, então eu queria pedir desculpas – ela me olhou com uma expressão de puro arrependimento que me deixou completamente desnorteado.
— N-não se preocupe com isso. Eu é que fui um idiota. Afinal, que tipo de garoto acaba de conhecer uma menina e já pede para ficar com ela? – gaguejei. Ela deu uma risadinha que provavelmente me fez corar.
— Quase todos eles.
Eu não sabia como continuar a conversa, então não falei nada. Na verdade, eu sabia o que deveria fazer, e provavelmente o que ela estava esperando que eu fizesse: a convidasse para sair. Mas é claro que não seria tão simples assim, e ela não aceitaria depois de toda essa idiotice que eu acabei de falar e do que fiz com...
— Você quer, sei lá, ir tomar um sorvete comigo ou algo assim? – Judy perguntou, interrompendo os meus pensamentos. Nesse momento eu tenho certeza que corei, e tive vontade de enfiar minha cabeça em um buraco, ou de simplesmente sair correndo dali. Mas isso me faria parecer mais idiota ainda, então decidi responder.
— C-claro, eu estou livre depois do meu treino de futebol, então se você puder nós...
— Você está no time de futebol? Que legal! Eu também tenho que ir pro meu treino de tênis agora... – obrigado, Scott. Depois dessa eu não te deixaria apenas morar comigo, mas poderia até dormir comigo se quisesse. Certo, acho que isso soou mal.
— Ok, então eu te encontro na porta do colégio em uma hora e meia, pode ser?
— Certo. Então, te vejo depois – e ela me deu um beijo na bochecha e saiu andando pelo corredor.
Não sei por quanto tempo fiquei ali parado, talvez alguns minutos, mas de repente o Scott apareceu magicamente do meu lado e me despertou do transe em que aquele pequeno beijo tinha me deixado.
— Cara, você conseguiu, não é? – apenas trocamos olhares e já valeu como uma resposta – Uou, eu falei que o futebol fazia milagres! Depois dessa, você tem que me deixar morar com você sem choro!
— Ok, você conseguiu, mas depois acertamos tudo, porque agora eu tenho que ir pegar o uniforme, me trocar e entrar em um campo de batalha de bárbaros sanguinários correndo atrás de uma bola.
~*~
Não vou comentar sobre o treino, mas posso revelar que foi um belo desastre. Porém, infelizmente o PUTO do treinador me colocou no time principal, só porque faltava um jogador. Resumindo: eu me ferrei muito, então não quero nem pensar no que aconteceu lá.
No vestiário, depois de uma ducha e uma rápida troca de roupas, já estava pronto para o encontro. O Scott me acompanhou até a entrada, gritando novamente sobre como seria quando ele se mudasse para a minha casa e de quando falaria com seus pais sobre a mudança, parando apenas para dar alguns sorrisinhos ocasionais para algumas garotas.
Judy estava me esperando na porta do colégio e parecia estar falando com alguém no celular. Despedi-me do Scott e fui falar com ela. Quando me viu, tirou o telefone da orelha e me deu um abraço que me pegou de surpresa.
— Ei, eu tinha esquecido que tinha marcado de ir com umas amigas no cinema agora, mas não quero desmarcar o nosso encontro, então o que acha de ir conosco? – ela perguntou sem rodeios.
Meia hora depois, já estávamos no cinema do centro, que por extrema coincidência ficava perto do meu apartamento. Então, se alguma coisa desse errado, não iria precisar me preocupar na hora de sair correndo.
E é claro que algo ia dar errado, e eu já percebi isso no instante em que entramos no cinema. A sala estava lotada, e praticamente TODOS eram os tais amigos da Judy. É sério, eu acho que com toda aquela gente eu poderia combater um batalhão de Stormtroopers. Ou melhor, eles seriam os Stormtroopers, porque todos pareciam ser estranhamente iguais, com seus cabelos loiros ou castanhos claros e olhos azuis ou verdes. E foi por causa disso que eu me perdi da Judy logo no momento em que entramos na sala. Entrei em pânico e simplesmente sentei no primeiro lugar que vi: no meio de dois bárbaros do time de futebol que estavam no treino de antes e ficaram me zoando pelas duas horas seguintes. E, para piorar a situação, o filme que assistimos era uma porcaria, uma comédia romântica com piadas ruins e clichês a cada minuto. E os grandalhões ainda pareceram estar gostando.
Depois do filme, enquanto todos saiam e eu esperava a fila que se formou ali cessar, só pensei em ir correndo para casa assistir alguma série na Netflix e me livrar logo daquela droga de “encontro”. Porém, de repente, a Judy apareceu.
— Ei, Kurt, onde você estava? Pensei que iria sentar do meu lado – as amigas que a acompanhavam saíram de perto quando ela começou a falar.
— Ah, é que eu esqueci que tenho que ir visitar os meus pais hoje e... – não era uma das melhores desculpas, e por isso acho que ela percebeu que era uma mentira.
— Oh, eu pensei que poderíamos ir a algum outro lugar depois daqui. Então, acho melhor eu me despedir – a garota foi se aproximando até que nossos lábios estivessem encostados. O beijo foi rápido e doce, porém não foi suficiente.
— S-Sabe, a-acho que posso cancelar com eles, então nós poderíamos ir para o meu apartamento. Ele fica bem perto daqui – ela deu uma risadinha, e então saímos juntos da sala do cinema.
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