Unintended
1 Prefácio
Notas iniciais
A garotinha observou, solitária, as pessoas do vilarejo se retirarem para as suas cabanas, no conforto de seus lares, na companhia de suas famílias — algumas delas certamente problemáticas, mas famílias de qualquer forma, — com suas barrigas cheias e sorrisos cansados do dia de trabalho, mas satisfeitos.
A menina ouviu sua barriga fazer sons monstruosos, mas a essa altura já aprendera a conviver com eles. Ela abraçou a si mesma, os pequenos braços envolvendo seu abdômen para tentar conter a fome. Decidiu que era hora de ela também se retirar para sua cabana, se é que podia chamar assim aquele cubículo de madeira, isolado, à beira do rio.
Mais uma vez, a comida que lhe era tão "gentilmente" oferecida pelos outros aldeões — nada mais que restos e, de vez em quando, uma pequena porção de arroz — não havia sido o suficiente para aplacar a fome que a consumia aos poucos, todo dia um pouco mais, até ela começar a se perguntar se amanhã ainda restaria algo dela. Às vezes ela chegava a questionar se ela ao menos queria que restasse, ou se preferia esvair-se de uma vez.
Mas a menina não tinha coragem de dar fim a própria vida, depois do esforço que seus pais fizeram para protegê-la dos bandidos, e se entregar à morte lenta que seria a desnutrição era doloroso e desconfortável demais, de forma que toda vez que ela se recuperava o bastante de uma surra dos aldeões, se aventurava novamente em seus pequenos furtos para suprir suas necessidades por conta própria.
Eu não sei por quanto tempo mais eu posso suportar isso... Ela pensou para si mesma no caminho para casa, os pés descalços se arrastando pelo cascalho da margem do riacho. Eu prometo tentar, mãe... Mas se puder me enviar alguma ajuda, seria bom.
Ela suspirou, não sabendo realmente se sua silenciosa oração atingiria realmente seu destino, ou pelo menos alguma entidade qualquer com bom coração, mas no momento era um dos poucos recursos que a menina possuía.
Quando ela conseguiu dormir, ignorando os protestos de seu estômago vazio, sonhou que sua mãe havia lhe enviado um anjo, e aquela foi a primeira noite em que Rin não teve pesadelos com o dia em que ela perdera tudo.
Rin queria gritar ao observar aquele homem perigoso comandar seus lobos, mas medo era apenas uma pequena parte de sua motivação. Ela queria gritar de frustração, não conseguindo entender porque os deuses insistiam em persegui-la de forma tão cruel. Era injusto, ela queria berrar. Como era injusto que essas coisas ruins continuassem acontecendo justo agora que ela havia encontrado ele, que tudo ia ficar bem... Quanta dor mais ela teria que suportar até que seu destino cansasse de brincar com ela dessa forma sádica?
Ela estremeceu, observando os lobos famintos se aproximando como um presságio de seu fim se materializando bem em frente aos seus olhos.
Ela sabia que só havia uma alternativa, só havia uma chance. Não estava em condições de correr, suas pernas doíam. Só conseguia manter um dos olhos abertos, e o outro estava com a visão completamente embaçada por lágrimas. Ela seria presa fácil e sabia disso, mas se conseguisse fugir só o suficiente para chegar até ele... Ela já podia até sentir a sensação de conforto e segurança que teria quando o encontrasse, como um porto seguro, um primeiro suspiro de ar puro após muito tempo embaixo d’água.
Mas a medida que ela corria, Rin começava a perceber mais e mais que corria em direção ao seu próprio fim. Com um último tropeço, a pequena criança pôde apenas agradecer à bondade dos lobos, que puseram fim a sua infeliz vida com um único rasgar doloroso de pele e músculos. Pelo menos foi rápido, pensou, antes de sucumbir à escuridão.
Ela o seguiu, tinha que seguir. Não conseguia nem ao menos cogitar algum motivo pelo qual não deveria. Aquele homem... Ou criatura... Chamava por ela, como uma vela acesa chama pela mariposa, e a mariposa, em sua ingenuidade, é simplesmente incapaz de pensar em qualquer razão que seja para não atender ao chamado. Aquele estranho ser esverdeado que a fazia lembrar de um sapo o havia chamado de senhor Sesshomaru e, para Rin, aquele nome agora seria sinônimo da própria vida, e pela primeira vez em um longo tempo, esse termo vinha com uma promessa de felicidade, algo pela qual Rin agora ansiava, em vez de temer.
— Senhor Sesshomaru, por quanto tempo mais essa... Coisa... Pretende nos seguir? — O bicho verde perguntou, a encarando com olhos semicerrados.
Rin imediatamente voltou seus olhos para as costas do seu salvador que seguia a frente do pequeno e peculiar grupo, desesperada por uma afirmação positiva. Seu pequeno coração se contraiu a escalas impossivelmente menores só de imaginar o que seria dela caso a resposta dele fosse desfavorável.
A nobre criatura, porém, nada respondeu, deixando ambos os seus companheiros com expressões apreensivas, a espera de uma resposta que provavelmente nunca viria. Rin já havia percebido que ele era extremamente silencioso, mas ficou surpresa ao ver que o bicho verde não insistiu, apenas soltando um suspiro de pesar e a encarando com desgosto mais uma vez.
Como seu salvador permanecera calado sobre o assunto, Rin apenas desviou o olhar do bicho verde, decidindo ignorá-lo. Ela seguiria, gostasse ele ou não.
— Qual o seu nome, humana?
Rin se sobressaltou ao ouvir aquela voz grave tão familiar se dirigindo a ela após algum tempo de viagem silenciosa.
Ela engoliu em seco, procurando as palavras, mas parecia que nada vinha. Ela simplesmente não sabia como pronunciar os pensamentos organizados em sua cabeça, nada saía por sua garganta, por tanto tempo inutilizada.
— Sua insolente, o senhor Sesshomaru lhe fez uma pergunta! — o bicho verde gritou em um tom exasperado. — Responda agora mesmo, ou vai se arrepender!
Ela o encarou, levemente assustada com suas ameaças, seu olhar automaticamente escorregando de volta para a figura a frente deles, imaginando se ele realmente permitiria que ela fosse punida por algo que estava simplesmente fora de seu poder.
— O que? Ainda insiste em ignorar o grandioso senhor Sesshomaru?! — a criatura verde questionou, abismada. — Meu senhor, permita-me colocar esse inseto no lugar dele!
Rin automaticamente se encolheu ao ver a criatura verde erguer aquele estranho bastão de madeira, mas a voz monótona da imponente figura de branco ressoou, cessando seu movimento.
— Jaken. — Ele disse, sem em nenhum momento se exaltar. — Deixe-a.
—S-sim, meu senhor! — o dito Jaken acatou, imediatamente se atirando ao chão, se curvando ao máximo.
Nenhuma palavra a mais foi dita até o cair da noite, quando Rin começou a diminuir o passo inconscientemente, seus pés descalços começavam a doer de tanto caminhar, e ela se sentia exausta, mas se recusava a ficar para trás, decidida a seguir aquela criatura mística até que suas últimas forças se esvaíssem, se necessário.
Não foi necessário, porém, pois naquela noite eles pararam, e seu salvador, ignorando os questionamentos de seu servo sobre a pausa, ordenou que este fosse preparar uma fogueira.
Ali, na escuridão da floresta, observando a criatura branca majestosamente repousar contra o tronco de uma antiga árvore, Rin não pôde evitar uma certa sensação de déjà vu, como nos encontros secretos que eles compartilharam durante dias, enquanto ele se recuperava de seus ferimentos. Ali, com somente eles dois e a luz da lua semiescondida por folhagens escuras das copas das árvores, Rin pode se sentir de novo em seu porto seguro, decidindo que este não era um lugar, e sim uma pessoa.
Com aquela estranha sensação de conforto, de estar de volta ao lar finalmente, de repente ela se viu sussurrando quase que acidentalmente:
— Rin. — Ela disse em uma voz trêmula pelo desuso. — Meu nome é Rin. Senhor Sesshomaru. — Ela acrescentou, lembrando do título que o bicho verde estava sempre repetindo, devia ser importante.
Ele voltou olhos dourados inexpressivos em sua direção, o movimento da íris refletiu a luz por um mínimo instante, tão rápido que Rin não teve certeza se tinha imaginado o flash branco nos olhos dele.
— Rin. — Ele repetiu, como quem testa uma palavra nova para saber como soa em sua voz. — O seu vilarejo foi atacado por lobos e youkais.
A informação não era exatamente nova para ela, mas apesar de todos os momentos difíceis vividos naquele lugar, Rin ainda se sentia mal pelo que acontecera aos seus antigos companheiros.
— Eu sei... Eu achei que eles tinham me matado também, mas...
— Você não tem mais família? — Sesshomaru questionou, ainda usando o mesmo tom monótono de quem não poderia se importar menos.
Diante desse assunto específico, a menina abaixou a cabeça.
— Mas não foram os lobos. — Ela explicou em um fio de voz. — Meu pai, minha mãe e meu irmão, todos eles foram mortos... Por bandidos humanos, há algum tempo atrás.
— Hm. — Foi tudo que ele disse a respeito, o que surpreendeu a menina. Mesmo dentre os que mais a maltratavam em seu vilarejo, quando o assunto era seu luto, eles sempre proferiam condolências, apenas porque era o educado a se fazer. — Você está só, então.
Diante dessa conclusão ela ergueu a cabeça novamente, tentando entender o sentido de tal afirmação. Se houve um tempo em que ela esteve só, definitivamente não era aquele.
— Rin tem o senhor Sesshomaru agora. — Ela esclareceu seus pensamentos, ganhando um pouco mais de atenção dele. — E aquele Jaken. E o dragão também. — Ela incluiu, gesticulando na direção do silencioso animal de duas cabeças. — Rin não está sozinha.
Ele permaneceu em silêncio por tanto tempo depois disso que Rin começou a ficar nervosa, temendo que ele estivesse pensando em uma forma gentil de dizer que não ficaria com ela.
— Muito bem, então. — Ele afirmou, logo antes do bicho em forma de sapo aparecer com os pequenos braços repletos de galhos secos.
Jaken apenas olhou de Rin para Sesshomaru, e depois para Rin de novo. Ela sabia que ele estava se perguntando porque ela parecia tão feliz.
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