Unintended
44 Extra 02
Notas iniciais
O sol do início da manhã era gentil sobre as colinas do Oeste, se esforçando aos poucos para aparecer por cima das altas cadeias montanhosas que protegiam a costa. A areia fina se aquecia gradualmente com a luz do dia e a maré baixa deixava pequenas poças de água salgada presas entre as rochas da praia, vez ou outra encurralando alguma criatura marinha que ficara para trás e não tinha escolha a não ser esperar pelo retorno do mar.
O ruído preguiçoso e aconchegante das ondas tomava conta da atmosfera do lugar, mas era ofuscado de tempos em tempos pelo característico som de risadas infantis.
Sesshomaru tinha os olhos atentos nas pequenas figuras que brincavam na beirada, o que permitia que sua humana pudesse cochilar tranquilamente em seu colo, o corpo confortavelmente estirado pela areia enquanto as garras do youkai corriam lentamente pelos fios de seus cabelos. Ele observava Hayashi e Miyuki explorarem livremente a praia, sem nunca pararem para descansar. Eles corriam de um lado a outro, encontrando esconderijos de caranguejos, atirando areia para todos os lados com seus pés, espirrando água salgada nos rostos um do outro em amigáveis provocações, construindo um ambicioso castelo, depois destruindo-o, depois construindo outro.
— Senhor, olhe isso! — Hayashi gritou de onde estava, com os pés enfiados na água e as hakamas molhadas até os joelhos, acenando com uma estrela-do-mar na mão.
Miyuki aparecia por trás dele, o rosto e os cabelos negros todos respingados de areia e água. Habilidosamente, ela roubou a criatura das mãos distraídas do irmão, analisando-a por conta própria.
— Ei! Eu que achei! — O menor protestou, erguendo-se nas pontas dos pés para recuperar a conquista. Miyuki tratou de usar sua altura como vantagem para manter a estrela-do-mar longe do alcance dele, o que rapidamente colocou uma expressão enfurecida no rosto do príncipe. — Me devolva isso agora mesmo!
Sesshomaru quase podia rir da forma como Hayashi soava exatamente como ele quando ficava autoritário daquela forma, embora normalmente fosse por motivos completamente bobos. Ele permaneceu quieto, disposto a observar a disputa dos filhotes e ver quem sairia vencedor, mas é claro que sua esposa trataria de arruinar seu entretenimento.
Rin despertou prontamente ao ouvir as crianças discutindo calorosamente, levantando-se a tempo de vê-los rolando pela areia, lutando por alguma coisa que ela não conseguia identificar dali.
— Vocês dois, parem com isso! — Ela repreendeu, colocando-se de pé e indo até eles, rapidamente tratando de tomar o objeto do conflito para si. — Eu vou precisar tomar isso dos dois ou vocês vão brincar juntos?
As duas crianças se endireitaram, abaixando as cabeças a contra-gosto.
— Nós vamos brincar juntos. — Hayashi murmurou de má vontade, a irmã assentindo em concordância.
A expressão séria de Rin se dissolveu em um sorriso caloroso, como se nunca tivesse estado lá. Alegremente, ela entregou a estrela-do-mar de volta para os filhos e acariciou brevemente os cabelos de cada um.
Sesshomaru balançou a cabeça em negativa de onde estava sentado. Rin não conseguia manter um minuto da fachada de mãe rígida. Em um instante ela estava sentada na areia com as crias, se divertindo tanto quanto elas ao explorar o curioso animal.
— Vamos deixar a pobrezinha em paz agora. — Ela sugeriu, depois de terem se entretido o suficiente e saciado a curiosidade. — Devolvam-na para o mar.
A humana pegou o mais novo no colo, já que era ele quem tinha a estrela-do-mar nas mãos, e calmamente caminhou com ele até a água chegar na metade das pernas, sem se preocupar em molhar os quimonos. As ondas eram tranquilas demais para desequilibrá-la e queria se certificar de liberar o animal em profundeza suficiente para que não acabasse perdido na praia de novo.
Hayashi obedientemente libertou a criatura na água, deixando que afundasse e desaparecesse da superfície. Rin assentiu em aprovação, logo em seguida notando um estranho movimento da criança em seus braços.
O menino não parecia perceber, mas suas pernas se moviam repetidamente em movimentos alternados. Curiosa, a humana o ergueu sobre a água e Hayashi automaticamente parecia preparado para nadar, mesmo sem ter encostado na água. Nunca havia tido a chance de ensinar os filhos a nadar, pensara em fazer isso quando fossem um pouco mais velhos e, por isso mesmo, dissera para que ficassem apenas na beirada naquele dia.
Intrigada, ela gentilmente baixou o filhote até que estivesse parcialmente inserido no mar, mas tomando o cuidado de mantê-lo seguro caso fosse afundar. Não parecia que seria o caso, então ela o soltou cuidadosamente. E, como imaginara, o menino pôs-se a nadar com facilidade, os pés e as mãos batendo contra a água, levantando suaves borrifos, apenas a cabeça erguida para fora.
A humana se virou para olhar seu senhor, acenando com o queixo como se perguntasse se ele estava vendo aquilo. Sesshomaru assentiu, pondo-se de pé e vindo até ela para observar mais de perto enquanto Hayashi se aventurava pelas águas, rodeando-os.
— Não sei por que você parece tão surpresa. — Ele comentou, passando um braço casual ao redor da cintura dela quando uma onda um pouco mais forte a balançou. — Todos os inu sabem nadar.
Bem, ela não tinha como imaginar que seria o caso. Afinal, humanos geralmente precisavam ser ensinados. Animada, ela sinalizou para a filha, convidando-a a juntar-se a eles.
Mas a princesa permanecia com os pés fincados na areia. Quando Rin a chamou mais uma vez, a menina apenas fez que não com a cabeça, decidida.
Sesshomaru ergueu uma sobrancelha para a filha, decidindo intervir.
— Venha, Miyuki.
— Estou bem aqui. — Ela insistiu, a voz baixa em clara insegurança.
O inuyoukai não podia acreditar que ela estava realmente com medo de um pouco de água. Ele a encarou com um olhar desafiador e determinado, e Rin imediatamente percebeu o que estava se passando pela cabeça de seu senhor.
Ele soltou a humana ao seu lado e pôs-se a caminhar de volta em direção à praia, em direção à filha, ignorando quando Rin tentou segurá-lo brevemente.
— Senhor Sesshomaru... — Ela tentou impedi-lo, pensando que talvez não fosse uma boa ideia que forçasse a barra, mas não teve jeito.
Antes que Miyuki pudesse correr, ele a estava capturando habilidosamente, sem dar à princesa uma chance de escapatória.
— Quer dizer que meu filhote tem medo do mar? — Ele provocou, retornando com ela para onde o resto da família estava.
— Não, senhor... — Ela negou, nada convincente. Os olhos dourados encaravam a água que ficava cada vez mais profunda à medida que avançavam, as garras fincadas no haori do pai.
— Como eu disse, todos os inu sabem nadar.
— Senhor-
Rin tentou interceder, mas já era tarde. Sesshomaru já havia desengatando as garras da filha de si e colocava a criança apavorada na água, por conta própria. A humana moveu-se para ajudá-la, mas, no mesmo instante, viu não ser necessário.
Dito e feito, a princesa agora nadava facilmente pelo mar. A princípio, tinha os olhos fechados com força como se estivesse apenas esperando a morte chegar. Mas, assim que percebeu que estava instintivamente se mantendo erguida sobre a superfície, a menina abriu um sorriso, seguido de uma risada satisfeita, orgulhosa de si mesma.
Rin riu junto com a alegria da criança.
Logo, os dois irmãos voltavam a competir, testando qual dos dois era o mais rápido. Eles não saíram da água pelo resto da manhã, mesmo quando os pais cansaram da umidade e foram se secar na areia.
Àquela altura, o sol já era quente sobre a família, propiciando um clima mais do que adequado para as crianças que refrescavam-se ao mar. Rin os observava cuidadosamente, uma mão esticada rente à testa, em uma tentativa de bloquear a luz direta do sol para que pudesse ver os pequenos com mais clareza.
— Você honestamente pensou que eu fosse deixá-la se afogar? — Sesshomaru perguntou de repente, o som grave de sua voz sendo sedutoramente embalado pelo som das ondas quebrando no litoral.
A humana virou-se para olhá-lo ao seu lado, deixando de monitorar os filhos por um instante. Havia notado que ele estivera aquele tempo todo bastante pensativo, silencioso demais até mesmo para ele. Então era aquele o questionamento que estivera em sua mente?
— É claro que não. — Ela respondeu, com honestidade. — Eu apenas fiquei preocupada que a pressão fosse deixá-la ansiosa e ela não fosse conseguir se concentrar em nadar.
Ele revirou os olhos com aquilo, era mais bobo do que havia pensado.
— É instinto. Ela não precisa de concentração. — Sesshomaru a lembrou, tendo em mente que não era natural para ela pensar assim. Humanos tendiam a recorrer à racionalidade até nas situações mais desnecessárias, não era de surpreender que tivessem reflexos tão lentos.
Mas era outra questão que chamava sua atenção naquele momento. Ele girou o tronco completamente para que pudesse olhá-la de frente, seus olhos dourados se intensificavam com a luz do sol e refletiam nada que não fosse a mais absoluta seriedade quando falou:
— Acho que seria bom te dar um conselho para o futuro. Eu compreendo que, por ser a mãe deles, você se preocupe. Mas lembre-se de que isso é apenas o começo. — Disse ele, enquanto observava a testa dela se franzir com a tensão que circundava o que ele dizia. Não era sua intenção preocupa-la com antencedência, mas realmente achava que seria melhor se ela estivesse preparada. — Hoje, eles estão nadando pela primeira vez. Amanhã...
Ele não precisou completar aquela frase, Rin sabia o que ele queria dizer. Hoje, estavam nadando pela primeira vez e, amanhã, estariam segurando uma espada pela primeira vez, estariam entrando em uma batalha. Pensar nisso ainda lhe trazia um arrepio. Ela olhou de volta para os dois, ainda se divertindo, alheios a toda a tensão da conversa dos pais. Sabia que não seriam apenas aquelas crianças frágeis para sempre, mas sempre seriam seus filhos.
Sesshomaru levou uma mão até a lateral de seu rosto, trazendo o olhar dela de volta para si.
— Não estou dizendo que não deve preocupar-se. — Ele a tranquilizou, tentando certificar-se de que ela não pensasse que a estava reprimindo naquele aspecto. — Apenas que, quando a hora chegar, você deve ter fé neles.
Rin se esforçou para deixar de lado a insegurança que a atingia quando falavam daquele assunto, se concentrando na mensagem que ele queria lhe passar e o quão importante ela era, principalmente vindo de seu senhor. Ele, que por toda a sua vida havia duvidado da capacidade de meio-youkais fazerem qualquer coisa notável, estava tendo que sentar ali e dizer à ela para que tivesse fé nos filhotes.
Quase podia rir da ironia, mas, em vez disso, o presenteou com um sorriso caloroso como o sol daquela tarde.
— Eu farei isso, senhor Sesshomaru.
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