Unintended
41 Capítulo 40 - Reviravoltas
Notas iniciais
Rin e Hayashi vinham conversando já fazia um prolongado período de tempo, o assunto delicado do verdadeiro motivo para a presença de Rin ali se misturava ocasionalmente com os comentários bem-humorados e impossivelmente inapropriados de Hayashi de uma forma que apenas o inuyoukai conseguia providenciar.
A humana estivera tão focada no diálogo dos dois que foi só quando ela se deparou com o fim da pequena estrada de terra que percebeu que estiveram caminhando durante aquele tempo todo. A voz familiar e amigável de Hayashi era tão reconfortante que era fácil demais esquecer até mesmo que os dois estavam mortos naquele momento, mas assim que alcançaram o destino, ele cessou o tagarelar e sua expressão foi novamente tomada por seriedade. À frente da dupla, se encontrava um misterioso buraco negro, com bordas irregulares e dotado de uma escuridão tão grande que era absolutamente impossível ver sequer um palmo do que jazia do outro lado.
— O-o que é isso? — Perguntou ela, a boca semi-aberta em choque com o tamanho colossal daquela estranha forma.
Hayashi apenas observou o portal em silêncio, seus olhos dourados fixados na escuridão, os lábios fechados em uma linha inexpressiva. Ainda sem responder à pergunta verbalmente, ele inclinou a cabeça para o lado, indicando com o queixo o vão abismal que existia depois da beira lateral da estrada.
Rin seguiu a direção apontada com o olhar, e a visão a fez arfar em surpresa, mais por não ter reparado nela em primeiro lugar do que pela imagem grotesca propriamente dita.
— Isso, — Ele respondeu finalmente, apontando para o portal negro casualmente e, em seguida, para a direção que a menina ainda encarava estupefata. — É onde você vai ter que dar um jeito de passar tudo isso.
No abismo das profundezas do Meidou, erguiam-se montanhas e mais montanhas sem fim de corpos em podridão empilhados para que ela arrumasse, maiores do que qualquer coisa que ela já havia imaginado que podia sequer existir.
Almas perdidas que há muito haviam abandonado a esperança de encontrar liberação daquele tédio eterno, que apenas deitavam ali, imóveis, enquanto o tempo progredia, apenas esperando por alguém que os salvasse.
Alguém como Rin.
Será que era possível para alguém morto passar mal? Pois naquele momento a humana sentiu que podia desmaiar a qualquer instante. Ela gostava especialmente da forma como Hayashi havia dito “dar um jeito”, como se estivesse tudo nas mãos dela.
Rin analisou as cadeias de montanhas cuidadosamente, voltando-se em seguida para o amigo com um olhar que desesperadamente pedia socorro.
— Não olhe para mim com essa cara, — Hayashi disse, erguendo ambas as mãos em defensiva. — Não foi eu quem foi designado pelas forças místicas, ou sejá lá o que for, para limpar essa bagunça. Agradeça ao seu marido.
Ela bufou, revirando os olhos diante da resposta nada imprevisível e, mais uma vez, voltou a olhar para o trabalho que tinha pela frente.
Corajosamente, a humana tomou fôlego, dando um passo em direção ao estranho portal das profundezas do inferno. Hayashi estava logo ao seu lado, lhe oferecendo as orientações que ela desesperadamente precisava.
— Apenas se posicione na entrada, você deverá ser automaticamente reconhecida como a nova guardiã quando se aproximar. — Instruiu ele, com sua sabedoria misteriosa.
Rin seguiu as instruções, depositando a confiança no amigo, tendo em mente que realmente não tinha nada a perder. Estava morta, longe de sua família. O que mais de ruim poderia lhe acontecer?
Ela arriscou um olhar hesitante para dentro da escuridão absoluta, seus pés parando na linha exata que separava o fim da estrada de terra do portal. Podia sentir um gentil fluxo de vento agitar seus cabelos e, de repente, aquele lugar não lhe parecia mais tão frio como sempre.
Subitamente, o vento cessou, e ela se voltou novamente para Hayashi, erguendo uma sobrancelha questionadora. Ele riu, despreocupado.
— E então? Já se sente imortal?
— Era só isso? — Rin estava um pouco desapontada. Esperava algo mais impressionante do que apenas não sentir frio.
Hayashi deu de ombros, levemente divertido com a decepção de Rin, antes de sua expressão se tornar séria novamente.
— É melhor você ir começando. — Disse ele, encarando a montanha de corpos imóveis ao lado. — Logo Sesshomaru vai mandar um certo alguém para cá, e algo me diz que seria bom você cuidar desse de uma vez por todas.
Ela seguiu o olhar dele, um pouco preocupada com aquele conselho, mas mais ainda com a quantidade surreal de almas que ela precisava encaminhar. Suspirou em cansaço antecipado só de imaginar a tarefa.
Aquilo parecia que levaria algum tempo...
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Sesshomaru levantou-se mecanicamente, sua postura parecia mais fria e rígida do que o normal, enquanto cuidadosamente repousava o delicado corpo de Rin novamente sobre o solo. Seus olhos flamejantes se acalmaram por um momento enquanto ele se dirigia à Guarda do Lírio, que assistia à cena trágica sem tentar ocultar as expressões de horror nos rostos de seus integrantes.
— Vocês juraram protegê-la. — Sesshomaru os lembrou, suas emoções contidas com muito esforço, o tom de voz impossível de ser analisado. Mas a ferocidade em seu olhar era o suficiente para fazer com que os guardas engolissem em seco.
— Mas senhor, nós não-
— Então protejam. — Ele cortou, o comando sério e imponente. — Encontrem Inuyasha e levem Rin até a miko.
Os guardas assentiram prontamente, acatando a ordem em silêncio. Cuidadosamente, Kotarou recolheu o corpo do Lírio do Oeste, prosseguindo para a tarefa de retirá-la do meio daquela batalha, como seu senhor havia ordenado.
Sesshomaru desviou o olhar de volta para o azul do céu acima, evitando olhar para Rin enquanto ela era removida da cena. Ele não suportaria ver a forma como sua cabeça e braços penderiam de seu corpo ao ser erguida do chão, como seu sangue continuaria a escorrer em correntes abundantes, drenando o belo tom corado de sua pele.
Ele não podia lidar com nada daquilo naquele momento, não se quisesse se ater ao resquício de força que ainda lhe restava, já que a maior parte dela parecendo se esvair a cada gota do sangue de Rin que pingava no solo.
Deixando de lado seu lamento por um instante, Sesshomaru procurou focar em sentimentos mais intensos em vez disso, deixando que o ódio o preenchesse e nublasse sua mente, de forma que ele pudesse abafar a dor em sua consciência e substituí-la pela ferocidade de sua insconsciência.
Seu lado irracional aflorava, tomando conta de seu corpo e despertando seus poderes contidos em uma onda de absoluta fúria. O demônio em seu interior rosnava, sedento por uma retaliação.
Takayama encarou o inu de olhos vermelhos abaixo, finalmente podendo experimentar o prazer pelo qual ansiara desde a invasão ao castelo do Oeste. A satisfação de ver a expressão ferida de descontrole na face de seu inimigo era uma imagem doce demais para o falcão.
— Parece que o cão está bravo porque eu destruí seu brinquedo favorito. — Ele provocou, não resistindo à oportunidade de tentar acentuar ainda mais a dor do adversário.
Entretanto, as palavras não surtiram o efeito desejado, passando completamente despercebidas pelo daiyoukai que lhe rosnava sem nenhuma alteração de humor. Afinal, eram palavras de um homem morto. De que serviria a Sesshomaru tentar prestar atenção no que um morto dizia?
Ele já não ouvia ou registrava coisa alguma, sua mente feral estava completamente focada em um único instinto, o instinto de destruição, uma vontade insaciável e incontrolável de despedaçar tudo o que estivesse em sua frente. A pouca racionalidade que era capaz de manter, usou para se certificar de concentrar-se em apenas um único alvo.
E aquele alvo estava prestes a ver o que acontecia quando se retirava do cenário o único fator que o obrigava a ter qualquer autocontrole naquela batalha para começo de conversa. Seu alvo estava prestes a conhecer o que seria enfrentar alguém que já não tinha nada a perder ali.
Se Rin havia partido, ele podia destruir o mundo, já não fazia mais diferença. O monstro dentro dele estava mais do que ansioso para fazê-lo, nunca tendo estado tão livre de suas amarras e inibições. Afinal de contas, a inocente criança humana foi o que fizera com que ele quisesse se tornar um guerreiro mais contido desde que a conhecera. Sem mais derramamento de sangue apenas por se postarem em seu caminho, sem mais carnificinas desnecessárias.
Sesshomaru bem que podia colocar os velhos hábitos de volta em prática agora que ela não estava mais ali para julgá-lo. Não que ela fosse fazê-lo, de qualquer forma.
Mesmo com a visão ampla e aguçada, Takayama foi incapaz de detectar o movimento seguinte, tamanha a rapidez com que aconteceu. Em um piscar de olhos, uma massa violenta se chocava contra ele em pleno ar, lançando as duas figuras ao chão com um estrondo e uma enorme nuvem de poeira e neve.
As espadas de Sesshomaru estavam devidamente guardadas em sua cintura, enquanto ele pressionava o corpo do adversário sob o seu, prendendo-o na terra. Usar a Bakusaiga seria muito fácil, muito rápido, não satisfaria a sede de sangue que emanava de seu poderoso youki. Em vez disso, eram suas afiadas garras que se enterravam na pele exposta do rosto da ave, marcando a face com quatro linhas paralelas profundas, que rapidamente traziam o sangue abundante para a superfície.
Em uma tentativa de libertar-se, as garras longas de Takayama logo trataram de revidar, perfurando os braços desprotegidos do inuyoukai. Este, no entanto, nem parecia sentir o ferimento, nem um pouco preocupado em defender-se. Todos os instintos mais absolutos de Sesshomaru estavam apenas focados em ataque e nada mais, todo o dano causado pelas garras inimigas em si próprio ficavam em segundo plano, por mais graves que pudessem vir a ser.
E, portanto, continuar o ataque foi o que ele fez, deixando que sua presa escapasse da restrição, apenas para agarrá-lo de novo pelo pescoço quando tentou levantar voo mais uma vez, usando sua força descontrolada para lançá-lo contra uma árvore. O choque fez o tronco se partir de imediato, derrubando as árvores adjacentes em um impressionante efeito dominó que obrigou uma chuva de pequenos pássaros alojados nos galhos a voar para longe em busca de outro abrigo. Afinal, apenas uma ave ali precisava sofrer naquele dia, e a mesma estava encontrando imensa dificuldade em escapar dos avanços atrozes de seu agressor.
Takayama não teve tempo nem para se erguer após o impacto, um punho firmemente fechado golpeando-o na lateral do rosto logo em seguida, mais veloz do que qualquer reação de reflexo, lançando-o cambaleando para trás. Apesar da dor aguda somada aos cortes anteriores ao longo da face, ele ainda conseguia falar, após cuspir uma generosa porção de sangue no chão.
— Você pode continuar com isso o quanto quiser, mas não vai tê-la de volta. — Lembrou ele, observando os olhos escarlate o encararem de volta, ainda completamente irracionais, como se as palavras não significassem mais para o inu do que o piar agudo dos pássaros que a essa altura já sumiam no horizonte. — E isso significa que uma humana jamais vai governar sobre youkais. Então, de qualquer forma, eu venci.
Vitória ou derrota, nada daquilo tinha qualquer relevância para Sesshomaru. Aquela disputa estava além de política, de qualquer outro conceito. Agora era pessoal, era uma questão de vingança. Se os youkais sobreviventes ali se livrariam de serem dominados por uma governante humana ou não, ele não podia se importar menos. Só uma coisa importava: Takayama iria morrer.
Sesshomaru avançou contra sua vítima mais uma vez, dispensando o diálogo em prol do som muito mais agradável de sangue inimigo pingando no solo que ele ansiava por ouvir cada vez mais. Sua velocidade era incomparável agora que se enfrentavam em terra e Takayama estava bastante ciente disso, de forma que a primeira ação do falcão foi abrir as asas, preparando os pés para tomar impulso.
O inu o segurou pela ponta articulada da asa esquerda antes que tomasse altura, usando sua força descomunal para obrigá-lo a voltar para baixo. Certificou-se de torcer o membro em torno do eixo em um ângulo não natural, fazendo o falcão gemer em agonia, embora o som fosse rapidamente abafado pelo estalar das articulações se deslocando e, por fim, o osso se rompendo, cedendo ao esforço da torção. Aquele barulho era ainda mais agradável para o daiyoukai.
Ele deixou a asa de lado, permitindo que ela pendesse como um inútil pedaço de trapo. Os dentes de Takayama estavam trincados em uma tentativa de conter a dor, mas o próximo golpe o forçou a abrir a boca em surpresa, quando o punho do atacante atravessou facilmente sua armadura, pele, músculos e órgãos, rasgando seu abdômen de um lado a outro.
Ao recolher o braço, Sesshomaru se certificou de usar suas garras para tornar o percurso de volta o mais doloroso possível, adicionando sadicamente uma generosa dose de seu veneno mais concentrado, que instantaneamente começava a corroer os tecidos em contato.
A combinação de sensações excruciantemente agonizantes foi o bastante para colocar o falcão de joelhos, enquanto ele sentia suas entranhas serem consumidas pela substância altamente corrosiva, e seu sangue jorrava como um impressionante poço artesiano, formando rapidamente uma profunda poça no chão.
O demônio em Sesshomaru se regozijava com aquela cena. O olhar de triunfo que estivera na expressão do inimigo quando este aplicara um golpe semelhante àquele em uma frágil humana já havia há muito desaparecido de suas feições. Afinal de contas, não era tão agradável quando se estava no lugar da vítima.
As garras se alongaram, preparando-se para mais uma investida que prometia ser ainda mais cruel do que a última. O falcão, parecendo prever essa promessa, esforçou-se para levantar, mas, antes que pudesse fazer algum progresso, o pé de Sesshomaru estava pisando firmemente sobre a ponta de sua asa quebrada que se arrastava pelo chão, não apenas forçando-o a manter-se no lugar como também enviando uma nova onda de dor para suas terminações nervosas quando o osso partido foi mexido.
Takayama sibilou, mas a dor aguda adicionada à queimação insuportável dentro de seu abdômen apenas fortaleceu sua resolução de colocar alguma distância entre ele e o agressor. Em uma medida que beirava o desespero, ele invocou seu youki para lançar uma rajada de fagulhas espinhosas com toda a potência que conseguia. Os pequenos mas afiados e numerosos espinhos facilmente rasgavam pela pele do inuyoukai, o sangue rapidamente manchando as roupas alvas nos locais atingidos. Entretanto, Sesshomaru não recuou, seus olhos vermelhos ainda fitavam o inimigo com a mesma ferocidade, e suas garras continuavam determinadas a atacar, rapidamente envolvendo o pescoço do oponente e enterrando-se em sua carne.
Takayama sacou a espada finalmente, embora a força começasse a lhe faltar, e se esforçou para acertar um golpe que pudesse forçar o oponente a se recolher. Porém, não encontrou sucesso quando sua lâmina apenas perfurou a lateral entre duas das costelas de Sesshomaru, para logo em seguida ser segurada sem cerimônias pela mão livre do mesmo, que removeu a arma de dentro de sua carne e facilmente a arrancou das mãos do takayoukai, arremessando-a para longe. Apesar do sangramento dos novos ferimentos, o inu não parecia dar atenção ao próprio estado em que se encontrava. Não havia espaço para autopreservação em sua mente, sua guarda estava perfeitamente aberta, tudo em que ele conseguia pensar era em matar.
As garras de sua outra mão ainda envolviam o pescoço de seu alvo, a coloração mudando para um tom esverdeado brilhante, o veneno consumindo a pele por baixo. A respiração do falcão foi bloqueada em sua traqueia, a falta de ar começando a competir com a perda de sangue e o envenenamento para ver qual dos três faria seu coração parar de bater primeiro. Sesshomaru assistia atentamente os olhos aflitos do adversário começarem a rolar para cima até que não fosse mais possível ver suas pupilas amarelas, ansioso para descobrir qual seria o resultado, qual seria o fator que colocaria um fim de uma vez por todas à vida de sua detestável presa.
Por fim, o corpo derrotado do inimigo amoleceu em seu aperto, e a cabeça teria pendido sem vida do pescoço, se Sesshomaru não o estivesse estrangulando com tanta agressividade que, no fim das contas, o crânio simplesmente se desprendeu com a ajuda do veneno corrosivo, caindo no chão aos seus pés.
Seus olhos vermelhos encararam a cabeça decepada pelo que pareceu um longo tempo, um grande vazio preenchendo-o enquanto ele começava a perceber que seu objetivo havia sido alcançado, muito embora não se recordasse de ter tomado a decisão consciente de acabar com a vida de Takayama de forma tão abrupta. Não, ele apenas não estivera prestando atenção na intensidade de força que estivera aplicando e, quando percebera, a cabeça já estava rolando pelo chão. Aos poucos, a cor dourada usual voltou às suas írises, a fúria demoníaca em seu interior desaparecendo, deixando apenas uma dormência para trás em seu peito.
O general liberou um longo fôlego, finalmente deixando de lado o cadáver destroçado aos seus pés e erguendo a cabeça para analisar o cenário ao seu redor como se tivesse esquecido completamente onde estava. Por todos os lados, incontáveis cadáveres em estados semelhantes se espalhavam pelo terreno, o cheiro metálico de sangue era a única coisa que seu nariz conseguia detectar no meio de tudo aquilo.
Alguns guerreiros permaneciam de pé, travando batalhas entre eles, pois a morte do líder daquele ataque em nada diminuía a convicção dos que foram até ali para repreender de uma vez por todas o governo do Oeste e sua inaceitável afeição a fêmeas humanas.
Apenas a visão das lutas foi o suficiente para trazer o tom carmim de volta aos olhos do general inuyoukai. Mesmo que aqueles oponentes tivessem decidido se render, não apagava o fato de que eles haviam ido até ali para matar Rin, que qualquer um deles seria capaz de tê-lo feito se tivessem a oportunidade.
Sesshomaru deixou que suas garras e caninos se alongassem e os expôs em ameaça, como um último aviso antes de investir contra o youkai do exército rival mais próximo com um rosnado. Ele mataria cada um deles, um após o outro, até que já não restasse mais nenhum alvo para sua insaciável vingança.
À medida que ele avançava por dentro do campo de batalha, destroçando todos os inimigos em seu caminho, os soldados do Oeste se certificavam de se afastarem do massacre, bastante cientes de que, no estado de descontrole em que seu comandante se encontrava, nenhum deles estava a salvo de se tornar um alvo para a fúria do daiyoukai se permanecessem por perto.
Sesshomaru estava perfeitamente safisfeito em lidar sozinho com todos os remanescentes do exército de Takayama, que já eram poucos no início e apenas diminuíam cada vez mais. Ele prosseguia sem hesitar para a vítima seguinte assim que a anterior era eliminada, quase não encontrando nenhuma resistência, até que seu punho foi segurado firmemente por uma força um pouco mais forte do que as que ele havia enfrentado até ali. Sem pensar, ele apenas liberou seu veneno, atacando o punho que o segurava para forçá-lo a soltar.
— Maldição, Sesshomaru! — O oponente protestou com um sibilar, automaticamente recolhendo a própria mão e pressionando a pele recém-queimada contra o tecido do haori vermelho que ele vestia. — Já chega, pare logo com isso!
Sesshomaru encarou o meio-irmão com olhos vermelhos que gradualmente se acalmaram para a cor dourada suave, embora sua expressão séria e impaciente em nada tivesse se alterado.
— Saia da minha frente. — Ele comandou e a voz nunca havia soado tão fria. — Ou vou te matar também.
Inuyasha revirou os olhos com a ameaça familiar, já ouvira aquilo dezenas de vezes. Entretanto, algo lhe dizia que naquele dia em especial o irmão tendia a falar um pouco mais sério sobre seus impulsos assassinos. Ao lembrar-se do motivo para tal, o hanyou abaixou as orelhas, liberando um longo fôlego pesaroso.
— Você não acha que já é o suficiente? — Questionou, observando a devastação do que um dia poderia ter sido considerada uma bela campina e que no momento já começava a ser sombreada pelos corvos que circundavam os céus acima, à espreita por uma oportunidade de se banquetearem nos cadáveres ainda frescos.
O daiyoukai pausou, seguindo o olhar de Inuyasha e finalmente percebendo que ele tinha razão. Já não restava ali ninguém para ser combatido, nenhuma conta a ser cobrada. Nada que lhe desse um novo objetivo, agora que o vazio começava a preenchê-lo de novo.
A sensação era desoladora e frustrante, não havia triunfo naquela vitória. Não podia ser apenas isso, não podia acabar assim, tão facilmente. Tinha que haver algo mais que ele pudesse fazer para compensar a frustração daquele desfecho, simplesmente não podia deixar do jeito que estava.
O daiyoukai silenciosamente tomou na mão o cabo de sua Tenseiga, lentamente expondo a lâmina brilhante, seus olhos focados na figura alada decapitada que já estava esquecida em um canto do campo de batalha.
Talvez o miserável fosse durar mais da segunda vez. O suficiente para fornecer algum tipo de distração que fosse.
Ainda não havia sido o bastante.
— Ei, o que você pensa que vai fazer com isso? — A voz reprovativa de Inuyasha falou, sua mão empurrando a lâmina da ressurreição de volta para a proteção da bainha, o que lhe rendeu um rosnado de Sesshomaru.
— Esse assunto é meu, Inuyasha.
O hanyou imediatamente se postou na frente do irmão, seu corpo formando uma sólida barreira entre Sesshomaru e o cadáver de Takayama. Já havia percebido perfeitamente a intenção dele em reviver o inimigo a fim de poder torturá-lo até a morte uma segunda vez. Admitia que talvez até fizesse o mesmo se estivesse no lugar dele, já que apenas uma morte não parecia realmente punição o suficiente para os crimes cometidos naquela batalha.
Por outro lado, podia ver claramente o estado do daiyoukai, suas roupas cobertas de sangue, um resultado de suas matanças indiscriminadas até ali. Sesshomaru estava ferido e furioso ao ponto da irracionalidade, quando Inuyasha sabia bem que um dos maiores fatores responsáveis pelas habilidades do irmão em uma luta era sua fria calma impecável, que o permitia calcular com precisão cada movimento.
Reviver um inimigo, que retornaria dos mortos perfeitamente curado e em excelentes condições físicas, dificilmente parecia um bom plano. E ele não havia ficado aquele tempo todo trancafiado naquele castelo asqueroso para ver mais um aliado morrer inutilmente ali.
Estava ali para ajudar, mesmo que sua ajuda fosse indesejada.
— Escuta aqui. — Ele começou, percebendo que se continuasse tentando bloquear Sesshomaru, não demoraria até terminar levando um belo murro no meio da cara. — Você tem mais o que fazer do que perder seu tempo-
Subitamente ele se encontrou falando com o vento, quando o inuyoukai o evadiu com sua surpreendente velocidade, estando no instante seguinte ao lado do corpo que pretendia ressuscitar.
Sesshomaru ignorou os sermões gratuitos do meio-irmão, usando a oportunidade que tinha em mãos para finalmente tomar a Tenseiga e cumprir seu mais novo objetivo. Mas, quando a lâmina foi erguida e seu poder foi chamado por seu mestre, uma desagradável surpresa se revelou quando absolutamente nada aconteceu.
O inu franziu o cenho, sua boca se curvando para baixo em uma expressão claramente insatisfeita.
Mas o que significa isso?
Ele não entendia o porquê de não estar vendo os emissários do outro mundo, quando não fazia nem sequer um dia desde que aquele miserável havia sido morto. Para seu maior desgosto, mal teve tempo para ponderar o que poderia causar aquela estranha falta de funcionalidade de sua espada — como se ela já não fosse inútil o suficiente antes -, já que logo Inuyasha estava novamente em seu encalço.
— Olha só, eu entendo que você só queira matar todo mundo mil vezes seguidas se puder. Principalmente esse desgraçado. — Ele chutou a lateral do cadáver sem cerimônias com a ponta do pé, fazendo-o rolar levemente no chão. — Mas não se esqueça que ainda tem alguém aqui que precisa mais do que nunca da sua atenção agora. Alguém muito mais relevante do que qualquer um desses perdedores.
Aquele lembrete conseguiu atrair a atenção dispersa de Sesshomaru, que finalmente levantou os olhos para olhar o rosto de seu locutor.
Miyuki...
— Seu filhote está lá, em um lugar estranho e frio, ela vai sentir fome logo. — Continuou. — Não acha que já é hora de você levá-la pra casa? O sol logo vai se pôr e vai esfriar ainda mais... A pirralhinha já nasceu no meio da neve... Se ela ficar doente ou algo assi-
— Cale-se. — O mais velho interrompeu, deslizando a espada inutilizada de volta à bainha.
Dando as costas ao meio-youkai, o general inu se voltou finalmente aos seus guerreiros que ainda permaneciam silenciosamente nos entornos, apenas aguardando pela próxima ordem.
— Vocês, retornem ao castelo.
Os homens assentiram em quietude, percebendo no tom de voz do líder a ausência completa de qualquer sinal de uma comemoração ou mesmo uma parabenização pela vitória. De certa forma, todos sabiam que não houvera vitória, mesmo que não restasse mais um único inimigo de pé.
A passos desanimados, eles começaram a marchar lentamente de volta pelo caminho de onde vieram, enquanto o general ficava para trás.
— Você pode ficar aí se quiser. — Sesshomaru disse ao irmão mais novo, enquanto simplesmente abandonava o campo ensanguentado, seguindo na direção oposta à que seus homens haviam tomado.
Já podia detectar claramente o rastro de Kagome floresta adentro, agora que a barreira sagrada da miko havia sido desfeita. Ele deixou o nariz guiar seus pés, a mente automaticamente se desligando durante a caminhada, escondendo-se da escuridão da realidade em qualquer limbo da consciência que pudesse encontrar. Inuyasha estava certo, independentemente da perda que sofrera — ou, até mesmo, por causa dela— precisava agora, mais do que nunca, colocar sua prioridade bem definida no único ser que era digno de tal posição.
Sua prole, o último presente de despedida de Rin. Aquilo pelo qual ela se sacrificara de tantas formas distintas, e que agora cabia apenas a ele cuidar.
Quando Sesshomaru se aproximou da caverna, a primeira coisa que ele ouviu foram os soluços desconsolados na voz familiar de Kagome. O sol descia no horizonte, pintando o céu numa cor intensa de escarlate que, mesmo em toda a sua vividez, ainda falhava em superar o tom sangrento daquele dia. Era a cor do sangue nos céus, mas na terra certamente havia muito mais.
Inuyasha vinha logo atrás, tendo respeitado o silêncio pensativo do mais velho durante toda a caminhada até ali. Ele parou na entrada, os braços cruzados, os ombros e os olhos abaixados.
A Guarda do Lírio estava postada um pouco mais distante, os semblantes dos guerreiros claramente abalados. Eles se curvaram em respeito quando o líder fez contato visual, mas Sesshomaru os ignorou prontamente, adentrando a cavidade cavernosa em silêncio e a passos leves.
Lá dentro, Kagome e Jaken erguiam a cabeça para recebê-lo, os grandes olhos do servo tão dramaticamente inundados de lágrimas quanto os azuis da sacerdotisa.
— Acabou? — A voz chorosa de Kagome questionou, claramente referindo-se à batalha.
Acabou, ele respondeu apenas em sua mente, seu olhar desviando-se para a figura que encontrava-se deitada no centro do espaço disponível. A palidez em sua pele nada fazia para roubar a beleza de seu rosto, as mãos estavam cruzadas sobre o peito, o quimono banhado em sangue. O coração, silencioso. Sim, estava acabado.
— Eu sinto muito... — Kagome lamentou em voz baixa, mas suas condolências foram incapazes de chamar a atenção do youkai de volta para si. Ele continuava a fitar o corpo no chão, o rosto inexpressivo. — Ainda não acredito que isso aconteceu...
Ele apenas a ignorou, insensível à sua tentativa de conforto. Não queria conforto, muito menos vindo dela. Nada seria capaz de confortá-lo diante daquela situação.
Embora a miko tivesse seguido seu comando e cessado a tentativa de diálogo, uma outra pequena voz foi o bastante para lembrar o youkai que talvez ainda houvesse algo pelo o que valia a pena se importar. Seus olhos desviaram para o embrulho nos braços de Kagome, o filhote oculto pelos lençóis emitindo um tímido ruído, como se o estivesse chamando.
Silenciosamente, ele foi até ela e Kagome prontamente o ofereceu o emaranhado de mantas felpudas, deixando que ele a segurasse em seus braços.
Após observar ternamente o rosto da pequena por um instante, dolorosamente reconhecendo as feições de Rin estampadas ali, ele a aconchegou contra o peito, enterrando o nariz em seus cabelos negros para aspirar seu aroma. O vazio em seu peito parecia pulsar. O cheiro era tão similar ao da mãe, tão cheio de vida.
Ele rapidamente recuou, notando que acabara sujando o bebê de sangue com aquele gesto de proximidade. Só agora começava a ficar ciente do quão coberto do líquido espesso vermelho ele se encontrava àquela altura e, embora parte fosse de fato provinda de Takayama e dos outros miseráveis — era impressionante como o sangue podia espirrar longe quando se está desmembrando alguém raivosamente -, uma boa quantidade era atribuída a ele próprio. O número de movimentos evasivos que ele havia se preocupado em executar em suas mais recentes lutas havia sido um total de zero.
A pequena hanyou não parecia se incomodar com o cheiro de sangue. Seus curiosos olhos dourados o fitavam com uma tranquilidade que ele invejava, como se não houvesse nada de errado no mundo. Mas, por outro lado, ele ficava feliz por ela.
A inocência ingênua de Miyuki era um alívio, era um privilégio que ela ainda fosse incapaz de entender o conceito de perda, que ela ainda fosse incapaz de sofrer com isso. Ele não imaginava como lidaria com a situação se ela fosse um pouco mais velha e ele se visse no papel de ter que confortá-la de alguma forma, quando mal podia fazer isso por si mesmo.
Ao mesmo tempo, a noção de que Miyuki cresceria sem a mais remota lembrança de como sua mãe havia sido em vida chegava a ser revoltantemente trágica. Poderia haver destino mais cruel do que esquecer-se de Rin? Não ter a chance de conhecer mais profundamente a pessoa mais cativante e amável...
Você a teria amado, Miyuki, ele pensou na confidência de sua mente, erguendo uma mão para tocar o rosto do filhote, mas recolhendo-a de imediato ao notar suas garras banhadas em sangue. Todos amavam.
Ele, mais do que qualquer um.
Sesshomaru suspirou, sentindo-se inacreditavelmente exausto. Não da batalha, mas daquela realidade perturbadora e imutável. Silenciosamente, ele devolveu Miyuki para os braços de Kagome.
No momento, já havia tido o bastante. A criança era demasiadamente parecida com a mãe para que ele conseguisse olhar nos olhos dela sem enxergar uma sombra da esposa o olhando de volta como se ainda estivesse esperando que ele fosse dar um jeito de salvá-la.
Rin nunca deixava sua crença nele se abalar. Mas dessa vez ele a decepcionaria. Não havia mais nada que pudesse fazer.
Mesmo sabendo que não havia salvação, ele relutava em simplesmente abandoná-la assim tão cedo. Sabia que havia ido até ali para buscar Miyuki e levá-la de volta para casa, mas ainda precisava de mais um tempo para permanecer ali com Rin. Preferencialmente, sem a presença de uma audiência.
— Vocês podem ir na frente. — Ele instruiu calmamente, sem desviar o olhar do corpo feminino que permanecia em repouso no chão.
Sabia que a esposa de InuYasha cuidaria bem de Miyuki pelo menos por enquanto. Pelo menos por enquanto, ele precisava ficar ali, onde pudesse apenas olhar para Rin por um pouco mais de tempo.
O que ele não daria por apenas um pouco mais de tempo com ela? Apenas mais um maldito dia…
Lentamente, a caverna foi se esvaziando, enquanto os acompanhantes do casal se retiravam para respeitar a vontade do recém-viúvo. Eles não disseram nada, e logo não havia mais ninguém ali para dizer, o que era tristemente irônico, visto que agora Sesshomaru estava na companhia apenas da criatura mais tagarela que já conhecera.
E só havia silêncio.
A atmosfera da caverna era fria. Lá fora, o sol já havia se posto e a temperatura naturalmente começava a baixar. A iluminação era precária, limitada à difusa faixa de luz lunar que invadia a cavidade pela entrada, e o conjunto de todos aqueles fatores melancólicos parecia refletir o humor pesaroso do youkai.
Quão adequado, ele pensou. Como o próprio cenário parecia lamentar a partida daquela que costumava iluminar tudo com seus sorrisos, como os próprios raios de sol. Sem isso, o mundo certamente seria um lugar mais obscuro, como costumava ser para ele, antes de conhecê-la.
Quão cruel e injusto, que o destino o tivesse forçado a ceder à luz e calor que aquela humana emanava, depois de ele ter passado tanto tempo fugindo daqueles sentimentos, convencido de que não lhe trariam nada além de prejuízo. Até que ele se acostumou com o novo cenário ao ponto de chegar a depender dela, apenas para ser lançado de volta ao frio e à escuridão, agora que já havia fincado raízes no lado luminoso.
Mas não havia sentido em ficar ressentido agora. Não havia sentido em nada.
Resignado, o inuyoukai caminhou a passos lentos até o centro e sentou-se ao lado do corpo da amada, em um ângulo de onde pudesse observá-la com toda a atenção, como se ela fosse desaparecer dali ao menor sinal de distração.
Ele sabia que eventualmente teria que se distanciar dela, que aquilo que ele guardava com irracional possessividade não passava de um casco vazio agora. Mas, só por enquanto, ele permaneceu ali. Não estava pronto para deixá-la ainda. No momento em que não pudesse mais vê-la, teria que aceitar que sua preciosa Rin realmente havia partido para sempre; ele nunca mais poderia olhar para ela de novo e, sabendo disso, olhá-la era tudo o que conseguia fazer agora.
Gentilmente, ele usou uma mão para acariciar seus longos cabelos, as garras deslizando pelos fios negros, tentando a todo custo guardar aquela simples sensação sedosa na memória para quando não pudesse mais reproduzi-la. Afastando a franja espessa do rosto pálido, ele se inclinou para depositar um delicado beijo sobre sua testa. Uma última despedida.
Se fechasse os olhos, Sesshomaru quase podia sentir novamente o calor característico na pele dela e, por um instante, sua imaginação fértil fez seu coração acelerar ao ponto em que ele podia ouvi-lo batendo vigorosamente, muito embora quase não pudesse senti-lo dentro do próprio peito.
Não devia estar exatamente surpreso com isso, já que antes de Rin aparecer em sua vida, ele mesmo duvidara da existência daquele órgão em si, que só havia sido acordado pela primeira vez diante do sorriso dela. Fazia sentido então que, agora que ela se fora, seu coração fosse apenas um fantasma do que viera a ser, mas ainda era peculiar que pudesse ouvi-lo tão nitidamente.
Devia estar finalmente ficando louco.
Mas não estava. Os seus sentidos nunca lhe enganavam e o que lhe tapeava era a própria descrença e desesperança, que o impediam de acreditar que aquele som ritmado de batimentos cardíacos estava realmente ali. E realmente estava.
Apenas não vinha do peito dele.
Sesshomaru afastou-se do cadáver apenas o suficiente para aferir se sua sanidade ainda encontrava-se intacta, e o resultado apenas o deixou mais preocupado ao verificar que, de fato, era o coração de Rin que parecia bater.
Ótimo, agora ele havia começado a imaginar coisas.
Cautelosamente, o youkai ergueu uma mão para tocá-la novamente, mas antes que pudesse, olhos castanhos se abriram em surpresa, a boca deixando escapar um súbito arfar como se ela tivesse ficado muito tempo embaixo da água. Sesshomaru quase copiou o gesto, mas segurou o impulso no último segundo, tendo quase completo sucesso em manter sua dignidade, não fosse pela expressão estupefata estampada em seu rosto quando aqueles olhos que ele pensou que nunca mais veria de novo se voltaram para ele.
— Senhor Sesshomaru... — A doce voz o chamou, um pouco falhada, mas perfeitamente compreensível e inconfundível. Não era magia de raposa, não era loucura. Era Rin.
Sem pensar duas vezes, o inu avançou sobre a humana, suas mãos impulsivamente puxando a abertura do quimono que ela vestia, deslizando-o pelos ombros para que ele pudesse averiguar o estado da pele nua por baixo.
Sobressaltada, a humana ruborizou, inconscientemente cobrindo os seios com um braço enquanto ele insistia em abrir suas roupas até a altura do umbigo.
— Senhor Sesshomaru! Sentiu tanto assim a minha falta? — Ela questionou em um tom bem humorado.
— Você estava ferida. — Ele respondeu, por sua vez, em um tom perfeitamente sério, algo que beirava o desespero. — Gravemente ferida.
Mortalmente ferida.
Mas ali estava ele, fitando embasbacado a pele que agora re-adquirira o usual tom saudável corado, perfeitamente lisa e intacta. Incrédulo, ele tentou usar os dedos para afastar a camada de sangue seco que ainda restava, apenas para se certificar de que realmente não havia ferimento algum por baixo.
— Ai! — Rin protestou, quando ele descuidadamente a espetara com as pontas das garras em sua busca incessante por provas do corte que havia estado lá apenas momentos atrás. — Cuidado com isso, o senhor vai me mandar de volta para o mundo dos mortos desse jeito.
Em um movimento absurdamente rápido, ele a estava segurando pelo queixo, os olhos dourados queimando sobre os dela, a respiração anormalmente acelerada. Rin reparou apenas em segundo plano que as mãos dele também estavam cobertas de sangue, mas dificilmente conseguiria desviar o olhar das pupilas que a encaravam fixamente.
— Da próxima vez que você fizer isso comigo, eu mesmo vou te matar.
A voz ameaçadora teria feito qualquer inimigo tremer, tamanha a seriedade, mas Rin reconhecia bem a forma sombria com a qual seu senhor tentava fazer piadas. Ela riu, não se deixando abalar pelas palavras macabras.
— Realmente espero que o senhor esteja brincando quanto a isso. — Respondeu, a risada se esvaindo mas deixando para trás um sorriso doce. — Já que agora é a única pessoa que pode cumprir essa ameaça.
O inuyoukai não disse nada, apenas a soltou e ergueu uma sobrancelha questionadora para a parceira.
— Não me olhe assim. Foi coisa do Hayashi.
— Me diga que você deu um soco nele quando teve a chance. — Ele pediu, e Rin riu com a lembrança.
— Acredite, faltou muito pouco.
O humor contido na frase da humana, entretanto, se perdeu facilmente em meio a atmosfera ainda pesada e insegura que cercava o casal. Enquanto encarava a cena que se desenrolava bem em sua frente, Sesshomaru só conseguia pensar em uma única coisa a dizer, mesmo que soubesse que haveria tempo para explicações mais tarde.
Ele precisava saber e, portanto, as próximas palavras a saírem de sua boca combinavam perfeitamente com a expressão confusa em seu rosto deslumbrado:
— O que aconteceu, Rin? — Perguntou ele finalmente, depois de ter procurado o suficiente por uma explicação plausível em sua mente e obtido pouco sucesso. As palavras de sua mãe anos atrás ecoavam em sua mente:
Não espere outra chance.
Ainda assim, ali estava Rin. Ali estava o Lírio do Oeste, em todas as suas cores e sorrisos enervantemente apaixonantes. Em sua terceira chance.
Era como se nada houvesse sequer acontecido. Mas claramente havia, mais do que ele era capaz de imaginar.
Ele havia feito uma pergunta tão simples, mas com uma resposta tão complexa. Rin lutou para buscar uma forma de ao menos começar a contar ao seu senhor sobre suas aventuras inesperadas no submundo. Porém, quanto mais ela buscava, mais perdida ela se tornava até o ponto em que nem mesmo em sua mente nada daquilo fazia o menor sentido lógico.
Era algo assustador, não importando quão positivo o desfecho. Mover todos aqueles corpos para seus respectivos destinos não fora tão difícil quanto parecia a princípio, a partir do momento em que ela percebeu que lhe bastava apenas a força de vontade para erguê-los e direcioná-los até o portal.
Àquela altura, mesmo a condenação era mais desejável do que a noção de passar a eternidade naquele lugar, olhando para o nada absoluto. E, por isso, a maioria das almas foi grata e colaborativa, não lhe causando grandes dificuldades.
A nova guardiã do inferno, por outro lado, sentia-se apenas insegura e assustada, e imensamente cansada. O peso de tudo aquilo pressionava com força os seus ombros, todas as dúvidas nublando sua mente apesar de tudo o que Hayashi havia lhe dito.
E se, ao fazer o trabalho que lhe era requisitado, ela selasse o próprio destino? E se nunca mais pudesse escapar?
E se nunca mais pudesse estar com seu senhor Sesshomaru de novo?
Com aquele último pensamento, a senhora do Oeste estremeceu, a agonia daquela possibilidade subindo até sua garganta, trazendo lágrimas silenciosas aos seus olhos. Agora que se encontrava de volta no conforto da realidade, após ter facilmente manipulado o Meidou para que deixasse sua alma retornar ao corpo após o serviço estar acabado, a única coisa que ela conseguiu fazer foi se atirar aos braços de Sesshomaru, deixando seu rosto e lágrimas se ocultarem no peito ensanguentado dele enquanto tomava um longo fôlego para controlar sua respiração falha.
Ela estava bem. Estava mais do que bem, estava viva! E nos braços daquele a quem ela mais amava, além de tudo.
Parecia que, ao providenciar passagem a tantas almas atormentada naquela noite, a garota humana conseguira salvação para si mesma. Seu próprio céu pessoal, onde ela teria permissão de passar a eternidade no calor de seu amado inuyoukai.
Os dois imediatamente relaxaram com aquele arranjo, os dois precisavam tanto do conforto um do outro após aquele dia exaustivo.
Sesshomaru sentiu o impulso de fechar os olhos quando pressionou a bochecha contra a dela, mas em vez disso os manteve bem abertos e alertas, admirando por completo a incomparável beleza de sua esposa. Nunca mais queria perder aquela humana de vista. Havia passado muito mais tempo do que desejava tentando se conformar com o pensamento de que esta noite seria a última vez em que ele a veria, e agora não conseguia mais desviar o olhar.
— Ninguém vai te ferir agora, Rin. — Ele prometeu em uma voz baixa mas firme e determinada, os braços se apertando com mais força ao redor do corpo frágil e quente, a puxando para tão perto quanto era possível, como uma forma de reforçar sua promessa.
Rin suspirou e assentiu, se esforçando para manter seu derrame emocional sob controle. Levantou o rosto avermelhado para olhá-lo, com um pequeno sorriso se formando em seus lábios.
— Mesmo se ferissem, eu ia apenas continuar voltando para perturbá-los. — Ela afirmou, se divertindo ao ver seu senhor voltar ao estado confuso de antes, ao tentar decifrar o significado de suas palavras.
A princípio, Rin havia se preocupado que, por mais que sua alma fosse imortalizada, não haveria maneira de voltar a utilizar um corpo tão fatalmente ferido como o dela havia sido. Mas, no fim das contas, uma alma é a verdadeira energia que mantém a vitalidade de um corpo físico. Um corpo saudável sem uma alma não servia para absolutamente nada, afinal. Já uma alma infinita, era capaz de realizar verdadeiros milagres, como aquele que o casal testemunhava naquele momento.
— Como? — Ele perguntou, tentando compreender.
A humana distraidamente correu os dedos pelos alvos cabelos dele, franzindo o cenho levemente ao se deparar com alguns coágulos de sangue seco espirrados aqui e ali, maculando a perfeição da cor pura dos fios longos. Nunca o havia visto em um estado tão desleixado após uma batalha, ele sempre aniquilava os inimigos com a mesma graça que um artista, um verdadeiro profissional em derramar sangue sem deixar quaisquer evidências do massacre à vista.
Sabia que tinha feito bem em seguir o conselho de Hayashi e dar prioridade em enviar Takayama diretamente para o inferno, onde era o lugar dele. Deixar que Sesshomaru o revivesse apenas renderia mais uma luta desnecessária com a qual o inu não tinha condições psicológicas de lidar.
Resgatando as memórias recentes, ela começou a narrar os acontecimentos que prosseguiram sua morte, se encolhendo com o olhar reprovativo que recebera ao chegar ao trecho em particular onde ela bloqueara as habilidades da Tenseiga, propositalmente impedindo seu senhor de usá-la em Takayama.
Felizmente, o pequeno trespasse foi devidamente esquecido a partir do momento em que ela falou da própria ressurreição, assim como a promessa de imortalidade que vinha junto com seu novo papel como Guardiã do Inferno.
Sesshomaru não sabia bem o que pensar sobre aquele último detalhe. Já havia passado por muitas reviravoltas naquele relacionamento. Desde ver humanos como meros insetos que jamais seriam dignos de sua atenção, muito menos de compartilhar seu título nobre; até se apaixonar por uma e aceitar o curto tempo que teria para passar com ela; apenas para mais tarde perceber que esse tempo seria ainda mais curto do que imaginava, ao vê-la morrer em seus braços; para no mesmo dia estar abraçado ao corpo revivido dela novamente, além de descobrir que teria séculos e séculos pela frente para mantê-la naquele mesmo abraço, se quisesse.
O destino não se cansava de brincar com ele.
Mas, por hora, não iria reclamar.
A guerra havia acabado, seus inimigos estavam mortos e, mais importante do que qualquer outra coisa, a fêmea que ele inegavelmente amava estava a salvo. E não havia alívio maior do que saber que até o mais implacável dos obstáculos, aquele que Sesshomaru sabia que nem mesmo ele podia superar, havia sido vencido. A morte.
Era quase impossível de acreditar, não fosse pelo fato de ele ter visto acontecer com os próprios olhos. Por outro lado, tinha dificuldades para absorver o fato de que sua frágil Rin havia, de uma hora para outra, se tornado algo mais duradouro do que ele mesmo podia ser.
— De qualquer forma, não vou deixar que te machuquem. — Ele disse, se recusando a abdicar de seu papel protetor tão facilmente assim. — Como vamos saber se essa história tem garantia?
Rin pensou por um momento, pensando que realmente não se sentia nem um pouco diferente. Então, ela discretamente levou uma mão à cintura do parceiro, encontrando a Tenseiga com facilidade. Usando somente o polegar, ela ergueu o punho da espada apenas o suficiente para expor poucos centímetros da lâmina e, sem hesitar, pressionou a ponta do dedo indicador levemente sobre o lado cortante.
Com um sibilar baixo, a humana recolheu a mão rapidamente, sentindo a familiar sensação ardente de um corte fresco aberto em sua pele delicada.
Sesshomaru imediatamente tratou de segurar o pulso dela, erguendo-o para analisar o dano causado. Àquela altura, não devia realmente ficar surpreso com mais absolutamente nada que acontecesse, mas após tantos anos amaldiçoando a inofensibilidade da Tenseiga, era sempre peculiar vê-la causar algum dano em alguém.
A pele clara de Rin exibia apenas uma linha fina de sangue, mas já era muito mais do que qualquer ser vivo normal apresentaria ao entrar em contato com a lâmina da ressurreição. Aquilo era prova definitiva de que a mulher que ele observava em sua frente realmente não era mais uma criatura daquele mundo e, portanto, não podia ser morta por uma arma daquele mundo.
Silenciosamente, ele levou o dedo ferido até os lábios, gentilmente sugando a pequena quantidade de sangue fresco em uma tentativa de acelerar a cura.
— Me desculpe por ter te preocupado… — Rin sussurrou timidamente, observando com o rosto ruborizado enquanto seu senhor trabalhava em seu corte, até que ele se deu por satisfeito com o resultado e liberou seu pulso. — Eu nã-
A humana foi subitamente interrompida quando o youkai resolveu lhe responder com um exigente beijo, as mãos voltando à sua cintura para forçar um encontro poderoso dos dois corpos.
Sesshomaru se deixou levar pela intensidade de sensações que afloravam enquanto ele aprofundava o beijo, se deliciando novamente no sabor da fêmea como se fosse o mais requintado dos elixires. Os lábios dela estavam um pouco ásperos pelo tempo em que permaneceram sem hidratação, mas cada detalhe da textura apenas servia para aumentar suas percepções de uma forma que era mais do que bem-vinda depois do desconcertante período de dormência que experimentara quando pensou que ela estava morta para sempre.
Seus sentidos se acendiam como vaga-lumes, seu fôlego era impiedosamente roubado de seus pulmões, onde só havia espaço para a incomparável fragância única de Rin. E era exatamente o cheiro que ela deveria ter o tempo inteiro, o que tanto lhe fizera falta. O cheiro de vida.
Sem abandonar os lábios dela por um instante, ele percorreu a extensão das costas femininas, não deixando passar despercebido o fato de ela ainda estar seminua devido à sua precipitada reação quando ela acordara. Não iria reclamar daquilo, tampouco.
Porém, enquanto ele a pressionava apertado contra o peito, o familiar e doce aroma de leite materno que ela exalava trouxe sua mente de volta para as questões mais urgentes, além do fato de que realmente estavam se deixando levar pelas emoções exaltadas e levando a situação a um nível não apropriado para o local onde estavam, no estado em que estavam.
Esse pensamento apenas reuniu o foco de Sesshomaru. Quanto mais cedo estivessem de volta em casa e colocassem tudo nos eixos, mais cedo podiam continuar com aquela promissora atividade.
E foi apenas com essa promessa que ele foi capaz de se distanciar de Rin finalmente, embora ainda estivesse próximo o bastante para sentir a respiração ofegante dela soprar em seu rosto.
— Nós temos que ir.
O tom de voz grave e suave do youkai não falhou em trazer arrepios para a coluna da humana, e ela inconscientemente se viu procurando novamente os lábios dele, ignorando completamente o que ele havia acabado de dizer.
— Miyuki deve estar sentindo sua falta. — Ele lembrou, sabendo que era exatamente o que precisava para ganhar a atenção dela.
Certeiramente, Rin ergueu a cabeça e endireitou a postura, finalmente alerta à realidade. Apressada, tratou de ajeitar as roupas, colocando-se de pé logo em seguida.
— Mas nós dois ainda vamos nos ver mais tarde. — Ela exigiu, ganhando um olhar afiado de interesse do marido.
Eles não podiam estar mais em concordância quanto àquilo.

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