Unintended
32 Capítulo 31 - Escuridão
Notas iniciais
As nuvens eram escuras e pesadas sobre o Oeste naquela tarde, a atmosfera parecendo quase sombria com a promessa de chuva que tardava a chegar naquele período do ano, os raios de sol completamente ocultos.
Sesshomaru não era do tipo supersticioso, então em nenhum momento pensou em associar o clima com um mal presságio, embora um trovão soasse coincidentemente quando Jaken entrou pela porta com uma expressão arrasada.
— Senhor Sesshomaru... — Ele disse, hesitantemente, mantendo uma boa distância, como se temesse a reação do inuyoukai às notícias que trazia.
Sesshomaru imediatamente ficou tenso ao reparar na forma como o servo agia, e sua mente prontamente se dirigiu para Rin. Se alguma coisa tivesse acontecido com ela...
Mas, antes que pudesse chegar a conclusões precipitadas, seu nariz captou um odor que chamou sua atenção, vindo do corredor. Ele pausou, confuso com o cheiro tão familiar no primeiro momento, mas compreensão atingiu seu rosto quando o cheiro pútrido da morte foi identificado junto àquele que ele conhecia tão bem desde a infância. O cheiro de Hayashi.
— Senhor Sesshomaru, — tentou Jaken novamente, respirando fundo para falar com mais clareza. — Há uma mensagem para o senhor. Eu achei melhor...
— Entre. — Ele falou em voz alta para quem quer que aguardasse do lado de fora, cortando os rodeios de Jaken.
O pequeno youkai verde engoliu em seco, saindo do caminho para que um soldado pudesse passar, carregando um embrulho em suas mãos. O homem nada disse, apenas colocou o embrulho cuidadosamente sobre a mesa em frente a Sesshomaru e se afastou com uma mesura.
Sesshomaru não precisava abrir o pacote para saber o que havia lá dentro, mas o fez mesmo assim, seus dedos puxando o tecido sem cerimônias. O general encarou a cabeça decepada sobre sua mesa com os olhos inexpressivos de sempre, sem denunciar para os outros dois ocupantes da sala nenhum de seus pensamentos caóticos.
Ele achava que aquilo seria mais fácil, muito mais fácil. Achou que estava preparado para a possibilidade de que algo assim pudesse acontecer quando enviou Hayashi ao sul com os desertores. Mas havia algo ali, um sutil aperto em seu peito, a respiração prendendo inconscientemente, o punho se fechando sobre a mesa enquanto fitava o rosto sem vida do maior aliado que conhecera.
Os olhos dourados, tão similares aos seus, estavam fechados para a eternidade, mas a boa encontrava-se entreaberta, os característicos cabelos pálidos espalhados livremente pela superfície da mesa, manchados por vestígios de sangue aqui e ali.
Quanta tolice, ele pensou com desprezo. A vida de um guerreiro estava constantemente cercada por acontecimentos como aquele, e Sesshomaru cresceu sabendo disso, aprendendo desde cedo a não sentir nenhum tipo de pesar, nem mesmo quando o próprio pai faleceu ao resgatar a amada e o filho recém-nascido. Era apenas a forma como as coisas funcionavam, pessoas nasciam e morriam todos os dias.
Entretanto, desde que passou pela experiência de perder Rin no castelo da mãe alguns anos atrás e a agonia que vinha com o conhecimento de que nunca mais poderia ter a companhia dela de novo, aqueles sentimentos de luto e impotência pareciam ter encontrado um caminho sem volta para o seu coração. Era o tal requisito para se dominar a espada Tenseiga: conhecer o peso de uma vida e a dor de perder alguém querido.
E, agora, quando Sesshomaru encarava a cabeça morta de Hayashi, sua frustração extravasou por suas defesas, manifestando-se da forma que lhe era mais familiar, fazendo o ódio brotar finalmente em suas feições.
Ele bateu o punho sobre a mesa, o som sobressaltando os outros dois youkais, seus dentes cerrados para tentar conter um rosnado violento. Já era a segunda vida que Takayama lhe devia, e o demônio interior de Sesshomaru estava furioso para fazê-lo pagar cada gota de sangue derramado em seu nome, por ousar ameaçar acrescentar a vida de Rin àquela lista.
Não, não Rin. Já era o suficiente ter perdido seu melhor homem. Mas com certeza a hora da vingança chegaria, e ele se certificaria de fazer espirrar em todas as direções possíveis o sangue do responsável por tudo aquilo.
Com tristeza, ele lembrou que apenas aquilo não traria o amigo de volta, e sua fúria multiplicou-se imensamente ao pensar nisso. Apenas sonhar em derramar sangue não era o suficiente para contê-la, e Sesshomaru precisava responsabilizar alguém que não fosse ele mesmo. Ele precisava ferir alguém como uma forma de retaliação. Se não Takayama, quem quer que estivesse ao seu alcance no momento.
— Matem o mensageiro. — Ele ordenou friamente, dirigindo-se ao soldado que permanecia de pé. Um outro trovão soou à distância, envolvendo a voz grave e colérica do general.
— M-mas senhor... — Jaken interrompeu, intimidado pela raiva que emanava do daiyoukai.
— Silêncio! — Sesshomaru cortou, ríspido. — Faça o que eu disse, agora.
O soldado assentiu, um pouco preocupado, mas não o suficiente para afrontar aquela ordem.
— Imediatamente, senhor! — Acatou, antes de se retirar o mais rápido que conseguia.
Jaken estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas o mestre o impediu, impaciente:
— Você suma daqui também, Jaken.
Quando o irritante servo saiu, Sesshomaru afastou o embrulho recebido para um canto da mesa, farto de encará-la. Deixou sua compostura de lado finalmente, apoiando ambos os cotovelos sobre a mesa e abaixando a cabeça sobre as mãos, os olhos fechados bem apertados.
Não era apenas a morte de Hayashi, mas o acúmulo de todas as coisas que recaíam sobre seus ombros. Tudo aquilo era muito mais difícil do que ele originalmente pensou que seria. Seus pais faziam parecer tão fácil, mantendo as coisas na linha por muitos e muitos séculos, enquanto ele, em apenas alguns meses, conseguiu perder um exército, uma noiva e um amigo.
Respirou fundo, correndo os dedos pelo cabelo para tirar a franja do rosto, procurando se recompor. Tinha que ter Rin em primeiro lugar em sua mente, ela era sua prioridade acima de tudo. Ele jurou que a protegeria, e manteria a promessa nem que fosse a última coisa que fizesse e, para cumpri-la, precisava manter-se firme e levar aquilo até o fim. Precisava deixar de lado o sentimentalismo que insistia em tentar enfraquecê-lo toda vez, era isso o que Takayama queria, constantemente jogar empecilhos em seu caminho para abalar suas estruturas. Primeiro com a mãe, depois com os mercenários caçando sua protegida, agora mais isso. Tudo porque era covarde demais para simplesmente desafiá-lo em um duelo singular e resolver de vez quaisquer diferenças que eles pudessem ter.
O daiyoukai permaneceu completamente sozinho na escuridão do seu gabinete por muito mais tempo do que deveria, ponderando suas opções diante da desesperança dos últimos acontecimentos. Até que finalmente se levantou, reunindo sua coragem para o que seria a parte mais difícil de tudo aquilo:
Falar com Rin e ter que ver a dor que ele sabia que estaria nos belos olhos dela quando ouvisse a notícia.
xXx
Rin estava prestes a sair para o pátio, pretendendo ficar um pouco nos jardins naquele dia. Com a chegada dos soldados das terras centrais, o castelo havia ficado um pouco lotado nos últimos tempos e ela podia aproveitar um pouco de tranquilidade para variar. O jardim não era o lugar favorito dos guerreiros, o que fazia dele um dos poucos lugares onde ela podia ficar um pouco sozinha com suas belas flores. Contanto, é claro, que a Guarda do Lírio mantivesse-se nas redondezas.
A bela humana tinha um de seus característicos sorrisos no rosto enquanto pensava nos arranjos que faria, mas aquela expressão serena imediatamente se dissipou no momento em que ela ouviu um grito agudo e desesperado vindo do salão de entrada do castelo. Ela parou, a mão sobre o coração, processando o som em sua cabeça e ficando cada vez mais nervosa à medida que identificava os traços daquela voz. Era feminina e infantil.
Sem pensar duas vezes, Rin pôs-se a correr em direção ao som, seus volumosos quimonos tornando a tarefa mais difícil do que normalmente seria. Mesmo assim, ela correu, ignorando os questionamentos de seus guardas, que apenas a seguiam em sua pressa.
Ela finalmente chegou até a entrada, ofegante, observando com confusão a linha de homens que se formava ao redor de alguma coisa. Tomando fôlego, ela se aproximou, ainda ouvindo aquele grito ecoar em sua cabeça como um chamado constante de socorro que se repetia sem parar.
Antes que ela pudesse dar mais um passo, a mão de Kotarou segurou seu ombro delicadamente, parando-a no lugar. Ela o encarou, questionamento em seus olhos ansiosos. Ele apenas a olhou de volta com certo receio.
— Rin... — Disse, anormalmente cauteloso. — É melhor você não ir lá...
Aquilo apenas a deixou mil vezes mais preocupada. Decidida, ela se libertou da mão restritiva, avançando lentamente, com medo do que poderia encontrar, com medo do que Kotarou havia farejado para fazê-lo alertá-la daquela maneira.
Assim que passou pelos homens, seus olhos curiosos vasculharam os arredores, parando na figura estirada no chão, seu coração pareceu apertar em seu peito, lágrimas imediatamente preenchendo seus olhos, a expressão horrorizada.
Ali, sobre o belíssimo piso de madeira, estava o corpo de uma menininha humana, seus olhos castanhos sem vida encarando o vazio. Vestia uma youkata simples, o tecido gasto e sujo. Seus cabelos escuros estavam emaranhados. E, em seu pescoço, um corte fatal, ainda sangrando abundantemente.
Rin nem ao menos precisou pensar, correndo o resto da distância entre elas e se ajoelhando ao lado do corpo, sua orelha encostando no lado esquerdo do peito da criança que não devia ter mais de dez anos de idade, rezando para ouvir alguma coisa, para que não fosse tarde demais...
Era. Aquela pobre criatura angelical estava morta, e os youkais ao redor encaravam a situação como se fosse mais um dia comum, mais uma execução de rotina.
Ela olhou ao redor, indignada e desolada, até avistar aquele que ainda segurava a espada ensanguentada, como se não se envergonhasse dela. Rin o encarou com olhos duros, pondo-se de pé, tentando abafar as lágrimas e extravasar sua mágoa.
— O que foi que você fez?! — Ela o confrontou, surpreendendo os outros que observavam. — É só uma criancinha!
Ele a fitou com grande surpresa ao ver uma humana gritar com ele daquela forma. Por mais que fosse Rin, a queridinha de todos, principalmente de Sesshomaru, aquilo era inadmissível e ela devia saber disso.
O soldado deu um passo na direção dela, seu queixo erguido em afronta. Rin não recuou, até que Kotarou a puxasse para trás, a Guarda intervindo com olhares firmes de aviso para o youkai desafiante.
— Por quê?! — Ela questionou, ignorando totalmente as tentativas de sua Guarda de evitar um conflito. — Por que alguém faria algo tão horrível? O que essa garotinha poderia ter feito?
A voz de Rin quebrou no fim de suas perguntas, seu fôlego prendendo na garganta enquanto ela tentava tão desesperadamente compreender.
— Ela trouxe más notícias. — O homem explicou, não parecendo exatamente arrependido, mas também não muito confortável. — Senhor Sesshomaru ordenou a execução.
A humana paralisou no lugar, seus olhos congelados, fixados no rosto do homem que lhe falava, como se lutasse para procurar algum sentido nas palavras que ele dizia.
Não podia ser verdade, simplesmente não podia. Só podia ser mais um truque de alguns opositores restantes para assustá-la, para magoá-la, como aquela mulher decapitada de frente para a janela de Sesshomaru no dia da rebelião.
Rin se virou, respirando fundo, determinada a denunciar aquela atitude repulsiva a seu senhor. Ele certamente saberia o que fazer, puniria os culpados e os mentirosos que procuraram colocar a responsabilidade daquele assassinato abominável nos ombros do general. E dessa vez Rin não teria pena deles.
Tolos, mal sabiam eles que Rin sabia, melhor do que qualquer pessoa naquele mundo, que Sesshomaru jamais machucaria uma criança inocente como aquela. Ou ela mesma não estaria ali hoje.
Entretanto, antes que pudesse avançar em direção ao gabinete onde ela sabia que Sesshomaru estaria, Rin o viu adentrar o salão em passos lentos. Todos se silenciaram de imediato diante da presença imponente do daiyoukai, algo em sua expressão servia como um aviso para que tivessem cautela, e Rin foi a primeira a perceber.
Havia algo nos olhos de seu amado, algum tipo de angústia, parecia algo quase doloroso... A visão imediatamente trouxe um reflexo daquela dor para o peito dela também. Não fosse pela presença de tantos ali, Rin teria lhe dado um abraço, mesmo sem saber o porquê, só sabia que alguma coisa havia dado errado. Muito errado.
A humana arfou, lembrando-se das palavras do soldado anteriormente: “Ela trouxe más notícias. Senhor Sesshomaru ordenou a execução.”
Agora que olhava nos olhos de Sesshomaru, Rin podia ver claramente que o carrasco não havia mentido. Certamente havia más notícias gravíssimas por trás do olhar desolado de seu senhor. Mas, se era mesmo verdade, então...
— Por que, senhor Sesshomaru? — Ela perguntou, os olhos marejados de lágrimas que ela se recusava a derramar em público novamente. Mas seu coração doía tanto diante da possibilidade, ela não podia suportar saber a verdade e ao mesmo tempo precisava muito saber. — Me diga que o senhor não fez isso, por favor, apenas me diga!
Ele parou, sem desviar o olhar dos profundos olhos castanhos que observavam em expectativa, ansiosos por uma explicação plausível. Infelizmente, ele não tinha nenhuma a oferecer, exceto pela admissão vergonhosa de sua falta de atenção. O inu franziu o cenho, o cheiro do sangue humano da criança preenchendo suas narinas, aumentando exponencialmente sua revolta. Suas garras se alongaram, implorando para se enterrarem nas entranhas do desgraçado responsável por lhe pregar aquela peça. Takayama!
Como se não bastasse que ele tivesse que comunicar Rin sobre a morte de um amigo tão querido para ela, Takayama ainda precisava causar-lhe mais dor desnecessária, ao enviar uma criança inocente para entregar a mensagem. Embora Sesshomaru reconhecesse que não precisava ter matado a menina de qualquer forma, ainda era culpa daquele ser miserável que ela estivesse ali em primeiro lugar.
— Não é verdade, é? — A humana continuava a questioná-lo, cada vez mais desesperada com a falta de respostas. Suas perguntas cada vez mais tentavam induzi-lo a responder o que ela queria, o que ela precisava ouvir. — Não foi o senhor quem ordenou isso, foi?
Sesshomaru sabia que devia a verdade, era sua responsabilidade. Mas, ao olhá-la nos olhos e perceber o que estava prestes a confessar, ao prever a decepção que veria neles, tudo que ele pode fazer foi assentir com a cabeça.
Rin demorou um segundo inteiro para absorver o significado daquele simples gesto e então finalmente perdeu o controle, começando a chorar copiosamente, tentando ocultar o espetáculo de lágrimas por trás das mangas do quimono.
— Não, o senhor não faria isso! — Ela insistiu, aproximando-se dele até que estivessem frente a frente, quase encostados. Não se importava mais com os observadores, aquilo era mais importante do que todo o resto. — Eu sei que não faria! O que está acontecendo, senhor Sesshomaru?
O daiyoukai suspirou pesadamente, finalmente farto de toda aquela confusão. Precisava limpar sua mente e aliviar a humana daquela angústia. Não podia trazer a criança de volta, mas começava a perceber que o fato de Rin pensar que aquilo tudo havia sido proposital era um agravante muito mais sério para o seu sofrimento. Pelo menos aquela dor ele podia aliviar.
— Um simples erro de informação. — Explicou por fim, permitindo-se pousar uma mão sobre o ombro dela em um sutil sinal de conforto. — Eu não estava ciente da identidade do mensageiro quando ordenei que fosse morto.
Rin abriu a boca, surpresa com a revelação. Apesar de realmente sentir um pesar enorme pela morte da menina, seu coração batia mais forte em preocupação com seu senhor naquele momento. O que havia acontecido com seu perfeito Sesshomaru? Que tipo de má notícia ele poderia ter recebido para deixá-lo naquele estado? Já era muito estranho que ele estivesse furioso o suficiente para pedir a execução de alguém e não fizesse questão de fazê-lo por conta própria ou, no mínimo, olhar quem quer fosse azarado o suficiente para tê-lo irritado até aquele ponto nos olhos. Mas nem mesmo se dar o trabalho de conferir antes?
Rin nunca havia visto Sesshomaru ser tão descuidado, ele devia estar muito, muito abalado com o que quer que aquela criança tivesse noticiado.
Ela se aproximou do daiyoukai apenas mais um passo, o último possível antes que seus corpos estivessem colados um no outro, seus olhos castanhos se suavizando em uma tentativa de confortá-lo sem precisar tocá-lo como queria, como sentia que ele precisava. Quase ergueu uma mão em direção ao seu rosto, mas se conteve diante dos muitos olhares sobre o casal. Já iria ser difícil o bastante explicar aquela interação até ali, mas, de qualquer maneira, foi o próprio Sesshomaru quem sugeriu que deixassem as pessoas desconfiadas sobre o relacionamento secreto deles.
— O que aconteceu, senhor Sesshomaru? — Ela perguntou por fim, o tom de voz agora suave, as lágrimas de tristeza desaparecendo para dar lugar à expressão de preocupação genuína pelo amado.
— Venha comigo. — Ele chamou, preferindo que aquela notícia fosse dada em um lugar mais privado. Aquela exposição toda já havia ido longe demais.
Rin o observou com confusão e um sutil medo em sua feição, mas permaneceu parada onde estava.
— Mas… E ela? — Perguntou, se virando em direção ao cadáver da criança, que permanecia sangrando no assoalho como um animal abatido.
Sesshomaru resistiu ao impulso de dizer à ela que na verdade não dava a mínima. Afinal, a garota estava morta e, para os inu, aquele era o fim do corpo físico e, portanto, pouco importava o que seria feito dele. Se ao menos ainda tivesse a Tenseiga em sua posse, poderia se preocupar um pouco mais com o assunto, mas não era o caso. Havia questões mais urgentes em sua cabeça naquele momento, mas ele fez um esforço para ser mais compreensivo ao ver a tristeza retornar àqueles olhos amendoados que ele tanto amava.
— Recolham o corpo da garota. — Ele disse, dirigindo-se aos soldados que permaneciam de pé ali, esperando por instruções. — Ela deverá ser enterrada além das fronteiras.
Sesshomaru e Rin abriram espaço para que os outros youkais pudessem trabalhar, suas mãos discretamente se tocando quando ficaram lado a lado, aproveitando daquela distração para finalmente obterem um pouco de conforto um do outro. Ele a olhou brevemente e ela assentiu timidamente em aprovação, grata por ele pelo menos ter se preocupado em providenciar à criança um descanso adequado, de acordo com a tradição humana. Rin fez uma nota mental para pedir que ele a levasse até o túmulo algum outro dia, já pensando em quais flores levaria para enfeitá-lo e prestar suas condolências.
Mas não seria hoje, ela sabia, pois claramente tinham notícias muito sérias com as quais lidar primeiro.
O casal se encontrava na confortável sala de reuniões, xícaras de chá postadas na frente de cada um, com um bule fumegante ao lado para que se servissem à vontade, sem a necessidade de serem interrompidos por servos. Rin bebia o dela em silêncio, aliviada por estarem finalmente a sós, mas ainda muito preocupada com a situação da qual ela ainda não estava completamente a par. Sesshomaru esperou que ela bebesse, seu próprio copo intocado. Esperava que a bebida quente ajudasse a acalmá-la depois de toda aquela confusão com a criança morta e, esperançosamente, que pudesse confortá-la diante da notícia ainda pior que cabia a ele lhe dar agora.
— O senhor vai me contar qual era a mensagem que causou tudo isso? — Rin perguntou, como se estivesse lendo a mente dele, seus olhos inteligentes o analisando com cuidado. Sua voz era delicada, cautelosa, como se estivesse se esforçando para não magoá-lo.
O daiyoukai assentiu em resposta, sabendo que quem terminaria mais magoada no fim de tudo seria ela. Por mais que conhecesse Hayashi por muito, muito mais tempo, era Rin que amava tão intensamente as pessoas tão facilmente. E, consequentemente, era ela a sofrer mais quando alguém que ela amava se feria.
Sesshomaru levou uma mão até a armadura, retirando um pequeno item que mantinha guardado ali dentro, desde que saíra do gabinete. Em silêncio, ele colocou o objeto sobre a mesa, para que a humana pudesse analisá-lo por conta própria.
Rin olhou por um longo instante a mecha de cabelos lilases sobre o tampo de madeira escura. Com uma mão trêmula, ela finalmente se moveu para pegá-la como se fosse a coisa mais delicada, sentindo os fios sedosos entre os dedos. A realidade ainda não a atingira, mas estava bem ali na porta, batendo incessantemente até que ela deixasse entrar. Mas não deixou, não podia, embora a mera percepção de que aquela realidade estava ali tentando entrar fosse o suficiente para deixar seus olhos marejados em lágrimas que se acumulavam a uma velocidade alarmante.
Delicadamente, ela fechou o punho ao redor da mecha, pressionando-o contra o peito em seguida, quando o primeiro soluço escapou por seus lábios. Seus olhos estavam fechados, então só percebeu que Sesshomaru havia se movido quando o sentiu sentar-se atrás dela, seus braços puxando-a para ele, seu queixo apoiado sobre o topo da cabeça dela.
Perdendo totalmente a compostura, ela se virou no colo de seu amado youkai, envolvendo o pescoço dele em um abraço apertado, o rosto se afundando no peito dele enquanto ela chorava desoladamente, desesperadamente. Sesshomaru apenas permitiu que ela chorasse o quanto precisasse, sabendo que não era o mais indicado quando se tratava de oferecer conforto a alguém, preferindo manter seu silêncio e esperar até que ela se sentisse melhor.
Rin chorava ao ponto de se engasgar com os próprios soluços cada vez mais frequentemente, ao ponto de mal poder respirar. Ela se agarrava a ele como se fosse a única coisa sólida no mundo, a única coisa que pudesse impedi-la de cair no precipício de escuridão que parecia ter se aberto sob seus pés, convidando-a para uma queda eterna de pesar. Toda vez que ela começava a pensar que já tinha sido o suficiente, que devia voltar a tentar agir como uma adulta e se recompor, as memórias de Hayashi voltavam à sua mente, como uma tortura insistente e sem fim, um lembrete cruel de que nunca teria a chance de vivê-las de novo.
A primeira vez que se conheceram e como ele havia sido a primeira pessoa ali a ser gentil com ela, mesmo que tivesse todos os motivos do mundo para querer se manter reservado. Como ele não sossegou até que a fizesse se sentir mais em casa, com não reclamava de ter que lhe fazer companhia em seus passeios sem propósito, ou suas conversas bobas. Como ele não a havia julgado ou ridicularizado quando ela confiou nele para contar seus segredos mais profundos sobre Sesshomaru e como ele a havia ajudado de mais de uma forma diferente a estar ali nos braços dele agora.
Ela chorava mais ainda ao lembrar da forma como ele a protegeu sem pestanejar quando o mundo inteiro pareceu se voltar contra ela. Como ele a aconselhou e tranquilizou quando ela estava em desespero. Lembrou de como ela o recebeu quando ele voltou para casa depois de mais de um mês fora e chorou muito mais ao pensar que nunca mais teria a oportunidade de fazer aquilo de novo, que ele nunca mais voltaria, que nunca mais o ouviria chamá-la de humana de estimação outra vez.
Sesshomaru a observava, realmente preocupado com aquela reação. Ele sabia que seria difícil para ela, mas jamais imaginou que chegaria àquilo. Sentia-se impotente, como se estivesse fazendo um péssimo trabalho como parceiro, apenas sentando ali e acariciando o cabelo e as costas dela enquanto as horas passavam, sem nenhum sinal de melhora. A luz, que já era precária devido ao céu nublado, havia desaparecido completamente àquela altura, e sua preciosa humana parecia apenas se despedaçar mais e mais enquanto ele a deixava expressar livremente seu sofrimento.
Como ele desejava que houvesse algo que pudesse fazer para tornar aquela estrada mais fácil para ela, para que o mundo fosse mais justo. Talvez devesse realmente arriscar algumas palavras de conforto, embora nunca antes tivesse feito algo assim. Não fazia ideia de por onde começar.
— Rin, já basta. — Ele falou suavemente, tentando afastá-la de seu peito apenas o suficiente para poder ver seu rosto e depositar um breve beijo em sua testa. — Chorar não vai resolver nada. Se acalme.
Rin tentou respirar fundo e olhá-lo nos olhos, mas voltou a abaixar a cabeça ao lembrar que devia estar horrível de tão inchada. Sua respiração falhou, as lágrimas continuavam a descer e não havia nada que ela pudesse fazer para pará-las. De certa forma ainda estava esperando que as próximas palavras a saírem da boca dele fossem para dizer que na verdade nada de grave havia acontecido a Hayashi, que ele estava bem, ou ia ficar bem. Afinal, apenas uma mecha de cabelo não provava nada. Mas ele não disse nada daquilo, apenas a deixou chorar, confirmando suas suspeitas de que realmente estava acabado.
Sesshomaru suspirou em frustração, não por Rin ser incapaz de seguir suas instruções, mas por ele mesmo ser incapaz de apaziguar a dor dela com a escolha de palavras correta.
— Aquele imbecil. — Ele murmurou para si mesmo, mas, com a proximidade e o silêncio no cômodo, Rin podia ouvi-lo perfeitamente. — Foi morrer desse jeito, que patético.
Aquelas palavras chamaram mais a atenção da humana do que as anteriores, seu olhar finalmente sustentando o de seu senhor. Ela fungou, tentando se recuperar, percebendo algo gritante naquelas simples palavras de descaso. A forma como ele agia, tão fechado e distante, falando daquela maneira, era quase como uma proteção. O mesmo tipo de proteção que ele usou com ela por tanto tempo, tentando impedi-la de despertar nele sentimentos, tentando impedir a si mesmo de se importar. Era exatamente o que ele tentava fazer agora.
Fungando mais uma vez para cessar definitivamente sua crise de choro, ela ergueu uma mão e a pousou delicadamente sobre a lateral do rosto dele, deixando sua palma sentir a pele quente por baixo. Ela sabia que provavelmente estava ridícula, parecendo um bebê chorão, mas tentou olhá-lo de forma acalentadora.
— Não faça isso. — Ela disse, correndo os dedos delicadamente sobre as marcas na bochecha dele.
— Isso o quê?
— O senhor não precisa fingir que não se importa. Não para mim. Está tudo bem. — Rin respondeu, se esforçando para sorrir de forma doce, transmitindo sua confiança a ele. — Ele era seu amigo, é claro que está triste.
Sesshomaru pareceu surpreso com aquelas palavras por um instante, apenas então percebendo o quanto ele realmente estava segurando, sem nem perceber. Era uma reação natural, quase instintiva. Rin percebeu imediatamente a mudança de postura dele, a forma como ele parecia quase desconcertado por um momento. Sem pensar duas vezes, ela apenas deslizou sua mão para a nuca dele, subindo pelos cabelos sedosos até a parte de trás da cabeça, gentilmente puxando-o para ela.
Sesshomaru deixou que ela o guiasse e, quando percebeu, era ele quem tinha a cabeça deitada confortavelmente sobre o ombro dela, seu nariz pressionado contra a lateral do pescoço da humana, aspirando seu doce aroma. E era ela quem o confortava com suaves carícias, os dedos percorrendo os longos fios de cabelo prateado, desde a raiz até as pontas.
O youkai fechou os olhos, permitindo a si mesmo o aconchego daquele momento, por mais inadequado que lhe parecesse. Era como se ali, nos braços daquela mulher, todos os problemas do mundo desaparecessem completamente.
— Não vamos nos preocupar. — Ela disse baixinho, prosseguindo com seus toques irresistíveis. — Vamos encontrar aquele monstro e ele nunca mais poderá machucar ninguém.
Sesshomaru apenas assentiu, não podendo concordar mais com a fala dela, ao mesmo tempo em que preferia não dizer nada, estando tão em paz ali que quase não conseguia encher sua mente com pensamentos sedentos por vingança. Quase.
— Sim! Vamos encontrar aquele monstro! — Ela repetiu em voz alta de repente, afastando o youkai, tentando se desvencilhar dos braços dele e se colocar de pé, sua expressão ainda chorosa, mas determinada.
Antes que ele pudesse perguntar o que estava se passando na cabeça dela, Rin já estava correndo para fora da sala, forçando-o a se levantar e ir atrás dela.
— Rin! — Ele chamava o nome dela pelos corredores, apenas para tentar descobrir o que a humana estava tramando, pois podia segui-la de perto muito facilmente. — Aonde está indo?
A garota não respondeu, apenas corria o mais rápido que podia, subindo o lance de escadas até a ala Oeste do castelo. Rin abriu a porta para seu quarto quando a alcançou, Sesshomaru vindo logo atrás, tendo desistido de fazer perguntas àquela altura. Ela foi direto até o pequeno armário, deixando-se guiar pela memória na escuridão, sem nem ao menos se preocupar em acender uma vela, o que lhe rendeu uma batida do dedo mindinho do pé contra algum móvel, mas ela ignorou a dor e alcançou o colar sobre uma das prateleiras, onde ela o mantinha desde seu primeiro e último treinamento.
Lutando para recuperar o fôlego depois de todo aquele exercício, Rin colocou a Meidou Seki ao redor do pescoço. Sesshomaru estava ao seu lado em um instante, segurando-a pelo braço como se temesse que ela fosse desaparecer a qualquer momento. Depois da notícia daquele dia, não suportaria se alguma coisa acontecesse a ela.
— O que está fazendo, Rin?
— Indo tirar algumas satisfações. — Ela respondeu, fechando os olhos e tentando se concentrar.
— Não. Solte iss-
Antes que Sesshomaru pudesse repreendê-la e impedi-la de fazer algo perigoso, um grande vão circular se abriu à frente deles, apenas escuridão e alguns pontos avulsos de luz visíveis do outro lado. Ele encarou a humana com surpresa, não estando esperando que ela realmente conseguisse fazer aquilo funcionar, mesmo que estivesse apavorado com a possibilidade. Recuperando-se do espanto, ele deu um passo à frente, seus olhos fixos no caminho do outro lado.
— Fique aqui. Eu vou. — Ele disse, determinado, uma mão se certificando de que a Bakusaiga estivesse bem presa em sua armadura.
Rin colocou a mão na dele, entrelaçando seus dedos firmemente.
— Não, eu vou também.
— Rin-
— Senhor Sesshomaru. — Ela interrompeu, antes que ele começasse a argumentar. — Eu não sei como essa coisa funciona ainda, posso não conseguir te trazer de volta, posso perdê-lo para sempre na imensidão daquele lugar, sem saber onde abrir o portal mesmo que eu consiga abrir algum. Eu tenho que estar junto!
— Não. Eu encontrarei um jeito. Você fica. — Insistiu, embora o que ela dissesse fizesse muito sentido. Ainda assim, colocar Rin em risco só para poder garantir a segurança de si mesmo... Não era algo que ele faria.
— Se o senhor não voltar, quem vai me proteger aqui? — Rin desafiou, cruzando os braços em teimosia. — Se Takayama souber que o senhor está preso para toda a eternidade no Meidou, a primeira coisa que fará é vir aqui pessoalmente e me matar.
O daiyoukai parou, congelado por aquelas palavras. Não, não Rin. Ela era a única pessoa que simplesmente não podia morrer em toda aquela história. E a única forma de garantir isso era se certificando que ela não saísse do lado dele, não cometer o erro que seu pai cometeu com Izayoi.
Sesshomaru voltou a segurar a mão dela firmemente e a puxou para perto, garantindo que estivesse minimamente à frente dela. Então, os dois saltaram para a escuridão sem fim.
xXx
O peculiar par pisou ao mesmo tempo sobre a familiar estrada de terra que determinava o caminho para as profundezas do inferno. Pela primeira vez naquele verão, Rin ficou grata por estar vestindo todas aquelas roupas, com o frio que fazia ali dentro. Sesshomaru passou um braço ao redor da cintura da humana, mantendo-a grudada ao seu lado esquerdo, deixando sua mão direita livre para qualquer ameaça. Sabia por experiência que apenas a Tenseiga podia efetivamente “matar” os mortos que ali habitavam, mas golpes normais pareciam pelo menos atrasá-los, o que já era bom o bastante. Não estava ali para lutar com fantasmas, de qualquer maneira, e sim para desafiar um certo youkai.
— Takayama! — Ele chamou em voz alta na escuridão, em nenhuma direção em particular. — Apareça, seu verme!
Nada além do mais absoluto silêncio podia ser ouvido, a ausência de qualquer som era tão evidente que fazia os ouvidos de Rin zumbirem com o desuso.
— Venha. — O inuyoukai disse, guiando-a estrada à frente, seus passos oferecendo algum conforto ao quebrar o silêncio ensurdecedor. Ela o acompanhou sem hesitar, mantendo os olhos atentos ao redor, estranhando a quietude do lugar.
Os dois caminharam a esmo por um bom tempo, antes das primeiras ameaças começarem a surgir no caminho.
Uma criatura esquelética e grotesca, que não se parecia com nada do que tivessem visto no mundo dos vivos, flutuou logo em frente ao casal, sua grande mandíbula se abrindo em ameaça, um guinchar soando em uma voz estridente. Sesshomaru permitiu que Rin se afastasse, de forma que ele pudesse ter liberdade para se movimentar, suas garras venenosas partindo as costelas da criatura, arrancando mais um som desesperador dela.
O monstro infernal se desvencilhou do youkai, mudando de ideia e indo em direção à humana indefesa, com a boca aberta preparada para engoli-la. Sesshomaru bloqueou o ataque, postando-se entre os dois e deferindo mais um golpe sobre o crânio exposto da aberração.
— Rin, você está bem? — Perguntou, só para ter certeza, ao ver a criatura recuar com a dor.
— Sim...
Para a surpresa dos dois, uma voz extra soou à distância, aveludada e falsamente amigável:
— Oh Rin, olá mais uma vez.
A humana pulou de susto ou ouvir seu nome, e seu parceiro automaticamente assumiu uma postura protetora ao seu redor, seu nariz procurando freneticamente a fonte da voz, sem sucesso.
— Vejo que ainda se esconde atrás de seus truques, Takayama. — O inuyoukai comentou, sua voz fria e calculada, contendo toda a violência acumulada em suas garras, que ansiavam por reduzir aquele inimigo a tiras de músculos disformes e sangrentas. — Será que me teme tanto assim?
— Vocês receberam o meu presentinho, Sesshomaru? — Perguntou ele, divertido, ignorando a pergunta anterior. — Francamente, não precisava ter matado a menina humana, ela era apenas uma pequena provocação.
Sesshomaru e Rin pararam no lugar, fitando direções aleatórias de onde cada um acreditava que o som poderia estar vindo. Como ele poderia saber daquilo? Havia ocorrido apenas horas atrás! Poderia ser que tinha um espião dentro do Oeste?
— Não acha que já está na hora de parar de mandar outros fazerem o seu serviço sujo e vir me encarar você mesmo? — Rosnou Sesshomaru, irritado com o fato de não poder simplesmente destruir aquele homem ali e agora.
— Parece que a morte daquele seu amigo inútil realmente te afetou, Sesshomaru. Ele era um idiota, no fim das contas...
— Cale a boca! — A voz aguda de Rin soou de repente, antes que ela pudesse se controlar. Lágrimas ameaçavam voltar a cair com a lembrança ainda dolorosa da perda. — Quem é você para falar dele? Só um covarde fraco e patético, escondido como um garotinho assustado, porque sabe que não é páreo para o senhor Sesshomaru!
Sesshomaru quase riu da explosão de sua humana, podendo perfeitamente ter feito dele as palavras dela. Aproveitando a deixa, ele voltou-se para o rival.
— Então, vai apenas deixar uma humana falar com você dessa maneira? — Provocou, tentando tirá-lo da toca. — Você deve mesmo ser um youkai bem vergonhoso.
— Sesshomaru, você não vai querer falar de vergonha comigo. — Takayama rebateu, o tom de diversão que usava antes parecendo ter sido afetado pelas palavras de Rin. — Não sou eu dividindo os lençóis com essa criaturazinha pífia do seu lado.
— Ah sim, eu ouvi falar que alguns machos têm dificuldades para executar tais atividades com uma fêmea... Não me admira que você seja tão frustrado.
Rin não conseguiu segurar uma risada baixa diante daquele comentário, apesar do rubor inconsciente em seu rosto ao ouvi-los falarem daquele assunto tão privado. Do outro lado da comunicação, apenas um breve grunhido foi ouvido por um momento.
— Veremos quem será o frustrado quando eu colocar o seu castelo abaixo, Sesshomaru.
— Estou ficando cansado de esperar você cumprir suas ameaças, verme.
Uma risada soou, o som alto e inesperado instintivamente fazendo humana e inuyoukai virarem as cabeças de novo, procurando a fonte.
— Estou muito perto agora. Primeiro eu queria destruir aqueles que você protege e, com Hayashi, já estou quase lá.
Rin sentiu seu peito doer mais uma vez com a menção daquele nome, sua mão se apertando ao redor da mecha de cabelo que ela ainda segurava, era como se pudesse senti-lo ali, alguma energia que a rondava. Não, era algo que vinha de dentro, e ao mesmo tempo algo que vinha de fora, como dois pontos separados que tentavam formar uma reta.
Então ela percebeu que o ponto não estava dentro dela, e sim na pedra pendurada em seu pescoço. E o outro ponto parecia perdido na escuridão do espaço, como um guia. Hesitantemente, Rin retirou o colar, erguendo-o no ar e voltando a face negra da pedra na direção de onde ela sentia a força puxar. Com um pulsar de energia ao seu redor, um outro portal se abriu exatamente no lugar onde o ponto estivera. Do outro lado, a imagem de um youkai alado chocado se revelava.
Sesshomaru, que olhava para uma direção completamente diferente, imediatamente se virou para o local, seu olfato captando no mesmo instante a presença daquele takayoukai. Olhos dourados furiosos encararam olhos alaranjados assustados e, sem uma palavra, Sesshomaru sacou a Bakusaiga e saltou em direção ao portal recém-aberto a toda velocidade. Takayama pareceu se recuperar do choque rapidamente, mexendo desesperadamente em alguma coisa que fez a imagem do outro lado rotacionar por um momento, até se apagar em escuridão. O portal se fechou, e Sesshomaru parou no meio do ar, fitando o vazio com um rosnado de frustração escapando por sua garganta.
Um familiar grito de socorro interrompeu seu lamento pela fuga do inimigo, sua atenção voltando-se imediatamente para sua parceira, que apontava para uma criatura esquelética que retornava, completamente regenerada da batalha recente.
Sesshomaru foi até ela, aproveitando que já tinha a arma a postos e cortando a aparição com sua Bakusaiga, fazendo-a cair pesadamente sobre a estrada de terra. Mas logo a criatura se reerguia, como se nada tivesse acontecido. Sesshomaru sibilou, preparando o próximo ataque que seria tão ineficiente quanto. Porém, antes que pudesse executar o golpe, percebeu outras criaturas se aproximando, pretendendo juntar-se ao monstro solitário. Não havia sentido em uma batalha que não podia vencer e, apesar de não ter conseguido matar Takayama, começava a pensar que a experiência não havia sido tão em vão assim.
— Rin. — Ele chamou, deferindo mais um golpe que apenas serviu para manter os monstros afastados por um momento. — Nos tire daqui.
Ela o encarou com olhos arregalados, pega de surpresa pela ordem, mas assentiu rapidamente, segurando a Meidou Seki e fechando os olhos, tentando focar no que quer que fosse que precisasse focar para poderem sair daquele lugar.
Sua curta meditação se esvaiu quando sentiu o corpo de Sesshomaru empurrá-la minimamente para trás enquanto ele tentava bloquear o avanço dos monstros infernais sobre eles. Quando abriu os olhos, o pequeno grupo de adversários havia crescido enormemente, eles estavam quase cercados.
— Eu não consigo me concentrar assim! — Ela avisou, gritando quando a barriga de um dos monstros passou voando sobre sua cabeça, antes de ser cortada por Sesshomaru.
O inu apenas golpeou com a lâmina mais uma vez ao seu redor, guardando a espada em seguida e pegando a humana no colo, levantando voo para longe da confusão de monstros que tentava inutilmente segui-lo, sendo deixados para trás pela velocidade incomparável do youkai.
Sesshomaru pousou quando encontrou um trecho tranquilo da estrada de terra, aparentemente sem monstros a vista. Ele colocou Rin no chão, deixando que ela tentasse mais uma vez.
A humana rapidamente voltou a fechar os olhos, com pressa para fazer aquilo antes que fossem atacados de novo. Segurando a Meidou Seki em suas mãos, ela respirou fundo, procurando sentir algum vestígio daquela energia que sentiu quando encontrou Takayama. Lembrava-se de como estivera pensando tanto e Hayashi na hora, então decidiu que precisava de um pensamento forte para ancorar seu desejo.
Casa. Eu quero ir para casa.
Visualizou as belíssimas paredes trabalhadas, o piso brilhante e elegante de madeira, as janelas amplas, os cômodos arejados e bem decorados do castelo... E lá estava, aquele mesmo centelho de energia que a envolvia e começava a pressioná-la levemente, como um pulsar, junto a uma leve corrente de ar. Abrindo os olhos, Rin viu que a brisa vinha de casa, do portal que mostrava em imagem nítida seu familiar quarto.
— Consegui! — Ela comemorou, animada com seu progresso. Honestamente, não fazia ideia se aquilo funcionaria.
Sesshomaru pegou na sua mão como fizera antes, encorajando-a a entrar no portal, pressentindo a chegada de mais monstros em breve.
— Bom trabalho, Rin. — Elogiou, um certo tom de orgulho em sua voz que a fez sorrir em resposta.
Então, os dois atravessaram juntos a abertura, retornando à segurança do lar.
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