Unintended
14 Capítulo 13 - Elucidação
Notas iniciais
Sesshomaru podia ouvir os soluços dela do começo do longo corredor. Ele se apressou até chegar à porta de onde vinha o som, Jaken vinha logo atrás. Havia uma criada parada ao lado da porta, que se atirou ao chão assim que o viu ali, se curvando em submissão máxima.
— Meu senhor, eu juro que não fiz nada à humana! – A criada garantiu, com a testa tocando o chão de madeira. – Eu mal toquei nela! Não sei porque ela está assim!
— Deixem-nos. – Disse ele para ambos a criada e Jaken.
A mulher rapidamente pôs-se de pé e desapareceu junto a Jaken, sem uma palavra.
Ele bateu na porta uma única vez, e o som da voz de Rin rapidamente respondeu:
— Eu já disse que não quero falar com você, senhor Jaken!
— Rin. – Ele chamou alto o bastante para que ela pudesse ouvir. – Abra a porta.
Ele a ouviu arfar em surpresa, passos apressados no chão e coisas sendo derrubadas acidentalmente.
— Rin? – Ele repetiu, ficando impaciente com a espera por uma resposta.
Ela o fez esperar por mais algum tempo, e ele estava quase cogitando entrar de qualquer forma, até que a porta se abriu. À sua frente, estava Rin. Agora limpa e com os cabelos penteados, um novo quimono perfeitamente arrumado cobrindo seu corpo. Mas o rosto estava vermelho e inchado, com lágrimas que ela tentara inutilmente esconder marcando suas bochechas coradas.
— Jaken sugeriu que eu viesse vê-la. – Ele disse, convidando a si mesmo para entrar, já que ela permanecia sem reação.
Ele passou por ela, avaliando brevemente o arranjo do cômodo que havia sido designado a ela. Paredes elegantes exibiam painéis com pinturas de flores em galhos e pássaros de cores vibrantes intrínsecos que dançavam por entre as pétalas. Lanternas de papel iluminavam o ambiente com uma luz alaranjada, conferindo uma sensação de conforto aos ocupantes.
Havia alguns armários de madeira e um biombo para trocas de roupas, também belamente decorado com pintura. Um espelho com moldura trabalhada repousava em um dos cantos. Um grande e confortável futon estava preparado no centro, com incontáveis almofadas de seda e cobertores quentes sobre ele. No fundo, amplas janelas se abriam para a escuridão da noite. Encostado contra uma parede, havia uma banheira redonda de madeira, ainda com a água usada para seu último banho. Ele podia sentir o doce cheiro de rosas tanto imerso no líquido quanto impregnado na pele da garota atrás dele.
— O que há de errado? – Perguntou, se sentindo incomodado por ter que ser ele a preencher o silêncio. Raramente iniciava as conversas dos dois.
— O senhor... Nunca me disse. – Ela falou pela primeira vez, a voz frágil como uma folha de papel de seda.
Ele se virou para olhá-la, dúvida em sua expressão. Mas ao se lembrar do motivo pelo qual ele a deixara com o Jaken mais cedo, rapidamente a resposta veio:
— Fala sobre Mizuno? – Sesshomaru disse, e prosseguiu quando ela assentiu. – Você nunca me perguntou.
Rin o encarou em descrença. Honestamente! Como ele pudera esconder algo tão vital quanto a existência de uma noiva, e por quê?
Ela sabia que sua reação estava exagerada, que ela não tinha o direito de reagir do jeito que reagira, mas ainda assim... Ela não podia evitar, ao ver seus sonhos mais impossíveis se tornarem mais se afastarem ainda mais do seu alcance, tão distantes que ela começava a ter dificuldade de sequer vislumbrá-los. Agora pareciam tão completamente impossíveis que nem ao menos no âmbito dos sonhos aquilo poderia existir.
A tarde inteira, ela se mantivera trancada naquele quarto, pensando sobre seu cruel destino. Era verdade que ela já havia decidido deixar de lado seus sentimentos proibidos pelo nobre youkai. Há muito, muito tempo ela havia aceitado a impossibilidade daquele desejo, e se conformado com o fato de que ela jamais o teria.
Rin se lembrava do momento de sua epifania, de quando ela percebera a forma como ela sorria diferente quando estava com ele, como ela reagia quando ele falava com ela naquele tom grave e sério. O jeito que os joelhos dela enfraqueciam quando ele a tocava casualmente. Como o mundo dela parecia um eterno vazio quando ele ia embora. Os batimentos acelerados, a respiração entrecortada, o rubor no rosto, a timidez excessiva. O desejo. A vontade.
O amor.
Ela sabia que mencionar qualquer uma dessas coisas para ele seria fortemente desaconselhável. Sabia que seus sonhos jamais passariam daquilo: sonhos. Então, ela recolhera todos os seus sentimentos espalhados pelo chão e os guardara a sete chaves nas profundezas de seu coração. Assim, quando ela olhasse no fundo daqueles olhos dourados que pareciam sempre querer roubar seu fôlego, ia ter dignidade o bastante para manter sua sanidade e saber o seu lugar.
Ela havia aceitado.
Então por que agora doía tanto? Era como se a revelação de Mizuno tivesse feito um rombo em seu baú de segredos, abrindo todas as feridas, deixando-a sangrar livremente. Como se todo aquele afeto em excesso que ela tinha trancafiado ali agora estivessem totalmente expostos e raivosos por terem sido privados da liberdade por tanto tempo. Ela não conseguia mais contê-los, se sentia perdida.
Rin sabia que nunca o teria. Mas pelo menos eram boas as chances de que ninguém mais fosse ter, tampouco. Ele nunca fora do tipo sentimental, ou que deixa as pessoas se aproximarem facilmente. Muito provavelmente, ela estaria morta muito antes de ele encontrar uma youkai por quem se apaixonaria.
Como ela estivera horrivelmente enganada!
— De qualquer forma, é irrelevante. – Ele disse, preenchendo o silêncio estrangulado dela. – Eu não tenho planos de dar prosseguimento à essa união.
As palavras dele eram como uma repentina luz do sol no meio da tempestade. A postura de Rin se endireitou, imediatamente alerta.
— Não tem?
O youkai se afastou dela, seu olhar se dirigindo a uma direção qualquer.
— Você sabe como os cães domésticos que você conhece hoje surgiram a partir de lobos, Rin? – Sesshomaru perguntou, deixando-a confusa com o tópico repentino.
— Er... Não... – Ela admitiu, levemente constrangida.
— Iniciou-se quando lobos começaram a se aproximar de vilas humanas. – Narrou ele. – Vinham em busca de restos de alimentos, mas, com o tempo, alguns passaram a apresentar um comportamento mais amigável. Os humanos perceberam isso e começaram a tentar domesticar aqueles animais selvagens. Eles decidiram promover a cruza dos menores e mais mansos lobos e, dessa cruza, resultavam lobos ainda menores e ainda mais gentis. Após sucessivas cruzas seletivas, após inúmeras gerações, o resultado era um tipo de lobo de menor estatura e pouco agressivo, conhecido hoje como cão.
— Então os humanos perceberam que podiam selecionar características através das cruzas, pois elas eram passadas de pai para filhote. – Ele prosseguiu. – E, se ambos os pais possuíssem uma determinada característica, o filhote apresentava essa característica ainda mais marcante.
— É por isso que os filhos se parecem tanto com os pais, não é verdade? – Rin acrescentou, interessada no conto do youkai.
— Exatamente. Apesar da descoberta, entretanto, os humanos foram tolos demais para tentar aplicá-las a si mesmos. Suas cruzas continuavam levando em consideração apenas fatores irrelevantes, como afeto, aparência física e status social. – Sesshomaru se virou para olhá-la, indicando que estava finalmente chegando ao seu ponto. – O clã dos inuyoukai, por outro lado, decidiu usar essa técnica para benefício próprio. Foi dessa forma que progredimos e aperfeiçoamos nosso potencial de energia sinistra. Dessa forma, garantimos que a próxima geração de inuyoukais será sempre muito mais poderosa que a anterior.
— É tradição no nosso clã que sempre que um herdeiro nasce, seja providenciada uma parceira a altura, para assegurar a boa procedência das linhagens. – Ele explicou, sob os olhos atentos e curiosos dela. – Meus pais literalmente encomendaram Mizuno ao segundo casal mais poderoso do clã e, de acordo com as regras do conselho, ela foi prometida a mim desde então. Está destinada a ser a fêmea alfa, ela foi criada com apenas esse propósito, afinal.
Rin o encarava, ainda mais confusa do que antes. Tudo que ele falava só reforçava ainda mais a ideia do noivado dos dois. Ela não conseguia ver o motivo pelo qual Sesshomaru queria ir contra esses planos tão bem traçados.
— E por que o senhor não iria querê-la, então? – Ela verbalizou suas dúvidas. – Se ela foi escolhida como a melhor combinação possível para gerar os melhores herdeiros possíveis, por que o senhor não iria querê-la?
A expressão dele era perfeitamente séria, como se apenas pensar no motivo o deixasse irritado.
— Não é óbvio? Toda a decisão foi tomada sem meu consentimento, e imposta a mim pelo conselho. – Ele esclareceu. – Basicamente, eu não tenho nenhuma escolha no assunto. E eu não vou aceitar ser controlado por anciãos miseráveis que vivem sentados em suas cadeiras.
Pensando daquela forma, Rin via que realmente era óbvio. Ela não conseguia imaginar um mundo onde Sesshomaru sucumbiria às vontades de terceiros como um escravo sem livre arbítrio, não importando o quão lógica fosse a decisão. Ele sempre fora um espírito independente e indomável nesse aspecto.
— Agora, você vai me dizer o motivo da sua pequena cena? – Ele perguntou, fazendo-a corar completamente. – O que importa para você o que ela é ou não?
Rin foi pega de surpresa com a pergunta, não esperando que o assunto da conversa fosse mudar para ela. Mas é claro que ela não podia esperar escapar tão facilmente de questionamentos, depois da reação tão desproporcional que tivera, e na presença de todo mundo, ainda por cima.
Ela rapidamente procurou algo para dizer que não fosse nem mentira, nem a verdade escancarada de que ela o amava com a força de mil sóis incandescentes.
— Porque o senhor se casaria com ela. – Ela explicou, esperando que fizesse sentido. – Não ficaria chateado se eu fosse me casar com Kohaku, por exemplo?
Ignorando o fato de que apenas a menção do nome já o deixava chateado, Sesshomaru respondeu com uma nova pergunta:
— Por que ficaria?
— Porque não poderíamos ficar juntos. – Ela disse, com sinceridade, mas procurou completar seu raciocínio quando ele ergueu uma sobrancelha para ela, claramente chegando a conclusões precipitadas sobre o que ela queria dizer. – Se eu me casasse com Kohaku, não poderia mais viajar com o senhor da forma como tenho feito. Seria impróprio.
— Socialmente impróprio, você diz? À essa altura, a opinião alheia ainda significa tanto assim para você?
Não, ela não se importava. Não podia se importar, ou iria acabar enlouquecendo. Toda a sua vida ela ouvira desaforos por seu envolvimento com Sesshomaru, não importando o quão inocente fosse. Independente das circunstâncias, as pessoas sempre iriam meter o nariz na vida deles, afinal. Mas, levando em consideração um hipotético casamento, a coisa mudava de figura, de certa forma.
— A opinião do meu esposo teria que ser levada em conta... Um casamento significa responsabilidades e estabilidade, eu não acho que uma vida de nômade seria aceitável em um cenário como esses, o senhor não concorda?
Sesshomaru pareceu pensar por alguns instantes, percebendo rapidamente que ela estava certa naquele ponto. O tópico apenas acentuou ainda mais o abismo existente entre eles, agora que ele pensava nisso. Rin era humana, e ele, um youkai. Ele pertencia à classe da nobreza, com o mais puro sangue, enquanto ela não passava de uma filha de camponeses. Ela era fêmea, com todas as limitações impostas a esse gênero e ele, por sua vez, um macho que dificilmente seria julgado ao ser visto por aí na companhia de um exemplar do sexo oposto.
Contanto, obviamente, que esse exemplar fosse de sua própria espécie. Até mesmo as relações entre classes sociais eram permitidas a ele, enquanto não passassem de envolvimentos estritamente limitados ao campo físico e fosse tomado o devido cuidado para prevenir a proliferação de bastardos.
Quando ele pensava em todas aquelas regras, só conseguia concluir o quão inútil era a maioria delas. Era estranho pensar que, não muito tempo atrás, ele estava inclinado a concordar com tudo aquilo. O nobre não sabia ao certo quando havia começado a deixar de lado a solidez de suas ideias conservadoras, mas algo dizia que devia ter alguma coisa a ver com o momento em que ele havia permitido que a primeira delas fosse ignorada, quando ele aceitou a presença de uma humana em sua vida.
Olhando para trás, naquele momento, ele não conseguia se convencer de que se arrependia daquela decisão impensada. Não quando ele olhava para frente e via o fruto de toda aquela jornada bem ali, na forma de uma jovem crescida e curiosa, que dedicava a ele toda a sua lealdade.
Será que ele realmente esperava que, quando Rin decidisse se casar, ela continuaria presente em sua vida? Ele finalmente entendeu o que ela queria dizer e sim, a ideia de que ela fosse deixar de fazer parte de sua rotina para se ocupar de outro homem o incomodava. Mas, mesmo que ele pretendesse se unir à Mizuno, o mesmo não se aplicaria a ele. A existência de uma esposa, fruto de um casamento arranjado, pouco significaria para alguém como ele.
— Senhor Sesshomaru? – Rin o chamou de volta à conversa, sem ter certeza de que ele realmente estivera ouvindo o que ela disse.
— Apesar de ser importante manter certas aparências, nem tudo que você fizer deve levar a opinião de terceiros em consideração. – Ele aconselhou, rapidamente deixando de lado seus pensamentos para voltar ao raciocínio inicial. – Agora, pare de se preocupar com bobagens.
— S-sim, senhor. – Rin disse, seu rosto ainda corado por ter se envergonhado tanto com uma reação descabida daquelas. – Desculpe-me.
Sesshomaru assentiu para ela brevemente, antes de voltar o olhar para a paisagem lá fora através da janela. A noite avançava sobre o oeste, uma lua brilhando no céu, sem nenhuma nuvem para esconder sua beleza.
— Apenas ignore Mizuno. – Ele disse, ainda com o olhar distante. – Em breve, ela não mais residirá aqui e será o problema de outra pessoa.
Rin andou lentamente até ele, curiosa para ver o que ele tanto olhava lá fora. Ela parou ao seu lado, maravilhada com a vista de tão alto. Ela podia ver a cidade se estendendo além dos muros, pequenas construções parcialmente ocultas na escuridão da noite.
— Mas o senhor não disse que não havia escolha? – Ela perguntou, com um pouco de receio e um pouco de curiosidade ao mesmo tempo.
Ele a observou pelo canto do olho por um instante, antes de voltar seu olhar para a lua.
— A única escolha que me foi dada nessa questão é a do momento da consumação. – Ele explicou, com seu tom monótono de sempre, embora Rin pudesse identificar uma certa tensão por baixo. – Mas mesmo essa escolha está se esvaindo das minhas mãos. Com a morte confirmada de ambos os meus progenitores, meu tempo encontra-se esgotado.
A respiração de Rin, que havia se acalmado quando ele revelara suas intenções para o casamento, voltou a acelerar exponencialmente, o estômago se contorcendo de forma desconfortável. Apenas a possibilidade de que Sesshomaru e Mizuno fossem...
— Há sempre uma forma de contornar essas regras, no entanto. – Ele continuou, percebendo a respiração exasperada da humana ao seu lado. – De uma forma ou de outra, não é nada que caiba a você se preocupar.
Ela piscou em surpresa com as palavras, as maçãs do rosto rapidamente voltando a adquirir um tom rosado.
— Como estão suas acomodações? – Ele perguntou de repente, mudando completamente de assunto, enquanto se virava de volta para o quarto.
Ela levou um momento para responder, confusa com o tópico leve inesperado depois de toda a tensão do anterior.
— Anh... É... É incrível, senhor Sesshomaru! – Ela respondeu finalmente, observando também a perfeição de seu mais novo quarto. – Eu nunca vi nada assim em toda a minha vida. Esse lugar inteiro é maravilhoso. Apesar de...
— Apesar de?
Rin juntou as duas mãos, como fazia quando estava nervosa, e seu olhar automaticamente se dirigiu para o chão.
— Eu me sinto um pouco deslocada... – Ela confessou em voz baixa. – Todos parecem bastante surpresos com a minha presença aqui. Senhor Jaken teve muito trabalho para convencer os outros empregados de que o senhor realmente me deixou ficar neste quarto...
— Embora não haja regra oficial que proíba a presença de humanos no castelo, é um acontecimento bem incomum. Único, eu diria. Além disso, os criados estavam seguindo o protocolo. – Ele esclareceu, fazendo-a voltar a erguer a cabeça em curiosidade. – Você não deveria ser alocada neste corredor, pois trata-se da ala do mestre do castelo.
Rin arfou em surpresa, voltando a olhar o quarto como se, de repente, tudo a respeito dele tivesse mudado. Havia toda uma nova luz sobre o cômodo após aquela revelação. Sesshomaru havia dado a ela um quarto ao lado do dele?
Era verdade que ele sempre dera a ela tratamento especial, mas isso era apenas dentro do círculo contendo Jaken e Ah-Un. Não havia como o status dela ser tão alto com tantos observadores ali.
— Não havia necessidade de tanto, senh-
— Quero mantê-la por perto. – Ele explicou, deixando-a ainda mais surpresa e mais ruborizada. – Eu não confio completamente nessa corte. E você fará bem em fazer o mesmo.
O pequeno sorriso que havia se formado nos lábios da humana rapidamente desapareceu, dando lugar a uma expressão preocupada. Ela se viu sussurrando, como se as paredes tivessem criado ouvidos de repente:
— O senhor acha que estou em perigo?
— Iminente, não. Estou apenas me precavendo. – Ele respondeu, honestamente. – Qualquer um que ousar me desafiar seria um completo imbecil. Mas imbecis estão sempre à espreita onde menos se espera.
— Entendo... – Rin disse, ainda não completamente aliviada.
Ela passou em sua mente flashes de todos os rostos novos que havia visto desde que chegaram, desde Mizuno até os guardas dos portões e, de fato, nenhum deles lhe parecera particularmente amigável. Exceto, talvez, por...
— Posso confiar no senhor Hayashi, pelo menos? Ele me pareceu uma boa pessoa.
— Hayashi é um outro tipo de imbecil. – Ele respondeu, surpreendendo-a. A surpresa era por Rin ter a impressão de que Sesshomaru não estava realmente querendo insultá-lo, e sim apenas provocá-lo de forma amigável. – Pode confiar nele.
Rin sorriu e assentiu, satisfeita por não ter se enganado sobre o caráter do youkai que conhecera mais cedo naquele dia.
— Você devia ir descansar agora. – Sesshomaru aconselhou, se dirigindo até a porta calmamente. – Foi uma viagem difícil.
— Sim, senhor. Tem razão. – Respondeu ela, levemente desapontada por ser deixada sozinha de novo. Era tão raro que conversassem tanto daquela forma.
Ele deslizou a porta e pôs apenas um pé para o lado de fora, antes de se voltar para ela com uma última mensagem:
— Vou estar ouvindo, se qualquer coisa acontecer. Então não se preocupe.
Ela sorriu abertamente em resposta. Não existia sensação melhor para a garota do que estar sob a vigilância de seu eterno protetor.
— Certo, meu senhor. – Disse ela, complementando com um aceno da cabeça. – Tenha uma boa noite.
Sesshomaru apenas assentiu, finalmente se retirando do quarto e fechando a porta atrás de si.
Antes mesmo de abrir a porta para os seus aposentos, o daiyoukai franziu o cenho, tendo que conter um rosnado, diante do cheiro que seu nariz detectou vindo do outro lado da superfície elegante de madeira.
Após passar algum tempo com Rin, seu humor havia se acalmado facilmente, embora ele achasse que a havia perdoado rápido demais depois do que ela fizera na batalha contra o mercenário, mais cedo naquele dia. Ele não podia evitar, era sempre tão difícil ficar irritado com a humana por muito tempo.
Porém, bastou aquele cheiro para fazê-lo perder a paciência novamente. Aquele dia infernal nunca terminaria?
Sesshomaru deslizou a pesada porta dupla, decidido a acabar com aquilo de uma vez por todas.
Ali, sentada de forma elegante, com uma postura impecável, sobre o futon espaçoso no centro do cômodo, estava Mizuno.
Havia uma criada de joelhos atrás dela, removendo os últimos adereços de seu cabelo afim de deixá-los soltos para a noite. A nobre vestia apenas um fino quimono de dormir. A peça estava precariamente presa com um laço amarrado na frente, o tecido frouxo provocantemente deslizando por seu ombro, deixando à mostra a pele pálida iluminada pela luz do luar que entrava pelas janelas.
— Bem-vindo, meu senhor. – Ela saudou primeiro, enquanto ele permanecia parado na entrada, com olhos tão raivosos que ameaçavam abrir um buraco na cabeça dela só de encará-la.
— Saiam. As duas. – Sesshomaru disse, sem pestanejar. Não desperdiçaria palavras em uma situação tão absurda como aquela.
A criada rapidamente pôs-se de pé, se curvando e passando por ele o mais rápido possível para sair pela porta, como se temesse perder a cabeça no meio do percurso.
Mizuno, entretanto, não se moveu.
— Eu preciso lhe falar.
— Se tem que falar comigo, peça uma audiência, como todos fazem. – Ele disse, impaciente. – Não convide a si mesma a entrar em meus aposentos, seminua, quando eu não estiver.
— Acredito que Hayashi e eu tenhamos sido lógicos o bastante para convencê-lo a rever suas prioridades. – Ela argumentou, pondo-se de pé finalmente, apenas para caminhar até ele. O tecido de sua yukata deslizou ainda mais com o movimento, oferecendo ampla vista de seu colo.
— Você saberá quando isso acontecer. – Garantiu ele, afastando-a quando ela chegou perto demais de seu corpo. – Até lá, aguarde em seu próprio quarto.
— Meu senhor estava com sua humana? – Mizuno perguntou, desviando o rumo da conversa.
— Eu já não lhe disse para sair? – Sesshomaru lembrou, agora realmente farto da invasão.
A fêmea suspirou com um pesar teatral, por um momento lembrando bastante a forma como a falecida regente costumava se expressar. Esse gesto apenas agravou ainda mais a antipatia do daiyoukai.
— Mais de um século atrás, o senhor me abandonou aqui sob o pretexto de obter o poder para se tornar tão digno quanto o senhor seu pai. – Ela recordou, um pequeno sorriso irônico se formando em seus lábios pintados. – Mais de um século depois, o senhor retorna com uma energia sinistra de fato muito superior à dele... E uma fêmea humana muito similar à dele. Eu me pergunto o que isso quer dizer...
Sesshomaru estreitou os olhos para ela, procurando manter o controle. Rosnar e enterrar suas garras naquela pele perfeita de porcelana, diante de tal assunto, apenas revelaria mais sobre Rin e ele do que ele gostaria naquele momento. Era o suficiente que ela soubesse que a humana era sua protegida. Todos os outros detalhes afetivos que circundavam o relacionamento dos dois eram irrelevantes.
Se Mizuno queria deixar sua imaginação correr livremente sobre o assunto, era problema dela. Não obteria quaisquer esclarecimentos vindos dele, isso era certo.
— Eu não me faria ter que me repetir, se eu fosse você. – Ele ameaçou, o tom de voz tão calculadamente calmo que evidenciava claramente a perigosa fúria contida por baixo.
— Não podemos ter uma única conversa civilizada sem partir para ameaças, meu senhor? – Ela insistiu, mas sabiamente se afastou dois passos para trás, pondo uma distância segura entre eles. – O que tenho para tratar é de suma importância.
— Vamos conversar de forma civilizada quando você não estiver tendo a ousadia de transgredir minhas demandas. – Ele respondeu de forma ríspida, a voz grave inevitavelmente adquirindo um tom agressivo.
Durante toda a sua infância, e grande parte da adolescência, ele fora obrigado a conviver com aquela fêmea e com a forma como ela sempre parecia querer tudo feito de seu jeito, sabendo que sua posição futura como senhora daquelas terras era inevitável e inquestionável.
Era verdade que a beleza dela era mais do que satisfatória e o potencial de seu poder era grandioso. Por outro lado, a personalidade dos dois era parecida demais, os dois sempre em uma busca incessante por poder, e apenas aquilo era o bastante para destruir qualquer apreço que Sesshomaru pudesse nutrir por aquela fêmea. Enquanto ele buscava os próprios meios para atingir seus objetivos, os objetivos dela só podiam ser conquistados através dele, e ele se recusava a ser um instrumento para tal fim.
Sempre houvera muito atrito entre os dois e, naquele momento, o contato já estava começando a liberar faíscas. Pela lei, ele não podia matá-la. Mas ainda podia puni-la por desobediência. A cada instante, a ideia se tornava mais e mais tentadora.
Mizuno suspirou, sua postura recuando. Ela ajeitou as vestes e assentiu.
— Está bem. Me perdoe, então. – Ela se curvou, antes de se dirigir à porta.
Sesshomaru estava tão irritado que não conseguia decidir se preferia que ela ficasse para que ele tivesse uma desculpa para cumprir suas ameaças ou se ele preferia que ela desaparecesse de sua frente de uma vez por todas.
— Você perderia menos tempo se desculpando se, em vez disso, se preocupasse mais em não me desafiar. – Ele decidiu dizer como um último aviso, antes que ela saísse. – Minha paciência com você não será infinita.
A fêmea absorveu as palavras do prometido em silêncio, antes de se retirar com uma última mesura.
—---
A noite se estendia, a lua caminhava pelo céu à medida que o tempo corria, e Sesshomaru monitorava aquela trajetória como se o corpo celestial fosse desaparecer se ele desviasse o olhar. Apesar de toda a atenção, entretanto, sua mente estava muito além dali.
O daiyoukai ponderava incansavelmente sobre o que estaria por vir dali para frente. Sobre todas as questões que ele precisava resolver, e toda a responsabilidade que repousava, pesada como chumbo, sobre suas costas.
Sesshomaru sempre fora um youkai que vive para o campo de batalha, um guerreiro nato. Pelo maior tempo possível, ele tentou fugir daquelas responsabilidades entediantes da sociedade aristocrata na qual estava inserido desde o nascimento, mas agora elas voltavam ainda mais exigentes.
Mizuno, e sua ânsia incessante de estar embaixo dos lençóis com ele o mais breve possível.
O exército, e seus números incertos diante da longa ausência de seu líder atual e o agravamento futuro desse problema, caso as previsões de Hayashi e Mizuno estivessem corretas.
O conselho, e sua sede por usurpar o poder que deveria ser soberanamente dele.
Os assassinos de sua mãe, que permaneciam ocultos nas trevas, provavelmente observando cada passo dele e esperando o momento certo para fazerem sua próxima aparição.
E, por fim, aquela que continuava errante em seus pensamentos, oscilando entre uma frustração e outra. Rin. Aquela criatura frágil que ele, mais uma vez, insistira em arrastar para o centro de seus problemas, como se já não tivesse aprendido a lição na primeira vez.
Rin, aquela que aparentemente se tornara alvo de matadores de aluguel incógnitos, por motivos desconhecidos.
Aquela que automaticamente agravaria toda aquela situação em pelo menos o dobro, simplesmente por estar ali. Questionamentos seriam feitos, perguntas que ele não queria, não podia responder.
Quem é essa humana para você?
O que ela faz aqui?
Qual é o seu verdadeiro envolvimento com ela?
Para muitas daquelas perguntas, nem ele mesmo sabia as respostas. Não queria saber. Ele não queria pensar naquilo mais do que o necessário. Mas os pensamentos continuavam vindo toda vez que ele tentava fugir.
Rin é apenas Rin. E eu vou protegê-la. Para isso, vou mantê-la por perto.
Por quê?
A alternativa é inaceitável.

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