Unintended
23 Capítulo 22 - Declínio
Notas iniciais
Sesshomaru andou como um zumbi do cômodo onde deixara Rin até seus aposentos, a mente completamente em branco. Mas havia uma chama dentro dele, algo que acabara de ser acendido e se recusava a apagar, desesperada para consumir todo o combustível que encontrasse, até que não restasse mais nada dele.
Ele deslizou a porta e entrou em seu quarto, o cômodo escuro recebendo-o com um ar frio e solitário.
O cômodo de onde ele acabara de sair estava frio daquele jeito também? Ele não parecia se lembrar de nada além do calor e de uma sensação incrível, indescritível, que corria por suas veias como lava fresca. Faziam apenas alguns minutos, e ele já sentia desesperadamente a falta daquela sensação. Todos os seus instintos pareciam implorar para que ele voltasse lá e saciasse o restante daquela necessidade incessante.
O que está acontecendo comigo?
O youkai procurou respirar fundo, concentrando-se por um instante, forçando-se a permanecer bem ali onde estava. A curta meditação nada fez para acalmar as batidas de seu coração. Sentia-se como se estivesse cercado de inimigos poderosos. Mas não havia ninguém ali, apenas ele e toda aquela adrenalina que parecia vir de lugar nenhum.
Seu corpo estava inquieto, quase como se estivesse tomado por sede de sangue, como se estivesse ansioso por uma boa batalha. Mas não existia nenhum traço de violência contida nele.
Sesshomaru rosnou em frustação, sentando-se sobre uma grande almofada, uma mão correndo pelos cabelos em uma tentativa de se acalmar. Ele não conseguia entender o que era aquilo que ele tanto queria, que ele tanto desejava.
Eu devia apenas matar alguém e ver se passa.
Mas ele rejeitou a ideia no mesmo instante em que pensou nela. Rin não gostaria disso.
Rin.
Ele congelou diante daquele nome, mil coisas passando por sua cabeça de uma vez, tão rápido que ele mal podia processá-las.
Primeiramente, por que ele se importava se Rin gostaria ou não que ele matasse alguém? Por que ele tinha que estar sempre tão preocupado em fazê-la pensar que ele era algum tipo de herói virtuoso?
Depois, por que ele simplesmente não pôde deixá-la ir, quando claramente já havia concordado que seria a melhor opção? Ela não devia estar no Oeste, não era o lugar dela. E Hayashi podia muito bem levá-la, ele apenas não queria que ela fosse. Não conseguia se imaginar sendo privado da presença dela por tempo indeterminado. Ele já suspeitava que sentiria a falta dela eventualmente, mas a tal ponto de ele nem ao menos conseguir permitir que ela partisse para que pudesse começar a sentir falta dela, para início de conversa?
Ainda, por que diabos ele a beijara daquela maneira? Apenas para fazê-la parar de gritar, em uma tentativa de manter o assunto deles em privado? E se fosse o caso, por que ele se demorara tanto no beijo, por que a segurara daquela forma tão terna e ao mesmo tempo tão íntima? O que diabos ele estava tentando fazer, além de prolongar ao máximo a sensação que aquela ação impensada desencadeou?
E, por último, era por causa disso tudo que ele estava agindo dessa forma incompreensível?
Quando Rin confessou seu amor por ele e pediu uma resposta, ele sabia que estava mentindo em certo nível, ocultando verdades, por assim dizer. Ele sabia que ela significava para ele mais do que qualquer outra pessoa jamais significou. Ela era alguém que ele desejava proteger a qualquer custo, alguém que ele queria manter sempre por perto, mesmo que de forma egoísta, mesmo sabendo que ela estaria melhor em outro lugar, ele não parecia conseguir tirar as garras de cima daquela menina. Rin era alguém que trazia luz para sua vida obscura, que trazia um equilíbrio de bondade e pureza para algo que sempre foi apenas crueldade e corrupção.
Ela fora a primeira a fazê-lo experimentar todos aqueles sentimentos. A compaixão por uma outra vida. O instinto protetor. O medo – não, pavor – da perda. A agonia de deixá-la, a saudade em sua ausência, e o júbilo do reencontro.
Além de tudo isso, como se não fosse o bastante, ela ainda tinha que crescer para se tornar aquela moça tão bela. Com grandes olhos amendoados que guardavam toda a sua inocência da infância, os lábios estreitos que formavam um bico quando ela estava insatisfeita com algo, as sobrancelhas finas e arqueadas que a tornavam tão expressiva, as maçãs do rosto bem marcadas que constantemente traziam um tom róseo de timidez, a moldura de cabelos negros que finalizava impecavelmente a perfeição daquele quadro, com ondas suaves e textura tão irresistível que uma vez que ele começasse a acariciar aqueles fios, teria dificuldade em parar.
E aquele sorriso. Um sorriso que podia iluminar até as profundezas do Meidou. O sorriso que o conquistou no momento em que ele o viu pela primeira vez e, desde então, nunca falhava em tocá-lo de uma forma tão profunda que ele já desistira há muito tempo de tentar compreender.
E ainda havia o resto. O pescoço magro coberto por aquela pele translúcida, os seios modestos de formato exatamente perfeito — que ele acabara vendo melhor do que pretendia naquela noite gélida que passaram no norte -, o abdômen plano, os quadris que se abriam em curvas suaves e femininas, um par de pernas longilíneas na espessura ideal.
Ele imaginava como aquelas curvas se encaixariam perfeitamente nas mãos dele...
Sesshomaru parou, percebendo aonde seus pensamentos o estavam levando. Muito, muito além de qualquer limite aceitável.
Não...
As garras dele se enterraram na almofada sob seu corpo, facilmente rasgando o tecido e revelando o enchimento por dentro.
Só podia haver uma única explicação para aquela linha de pensamentos absurda, dada a semelhança com os absurdos que a própria Rin havia confessado a ele mais cedo. Mas não podia ser, não devia ser!
Não poderia ser possível que ele fosse cometer o grotesco e inconcebível erro de... Desejar uma humana?! Ou ir até mesmo... Além...
Sesshomaru pôs-se de pé, o enchimento da almofada flutuando preguiçosamente ao redor dele com o movimento brusco. Ele fechou os olhos, tentando pensar com clareza no meio daquele caos em sua mente.
De todos os youkais do mundo, ele devia ser o último idiota a cometer aquele erro colossal. Não havia aprendido em primeira mão com a história infeliz do próprio pai? O que infernos ele pensava que estava fazendo agora, repetindo os mesmos atos que, além de detestáveis e imorais, só poderiam terminar em tragédia? Uma grande tragédia para ele, para Rin, para o Oeste.
Nada bom poderia sair de algo assim, nada!
Se os seus inimigos atuais apenas viam a humana como algum tipo de concubina, e ainda assim havia uma multidão deles tentando matá-la, só para provocá-lo um pouco... O que eles não fariam se descobrissem o que ela realmente significa para ele? O que seria dele se eles soubessem que, se Rin fosse sequestrada e usada como refém, não haveria nada, nada, que ele não faria para que ela não se ferisse. Se eles soubessem que ele entregaria tudo por aquela humana, o território, a fortuna, os títulos, o orgulho, tudo. Que ele daria a própria vida, sem arrependimentos, em troca da dela...
Eu devo estar perdendo minha sanidade. Ele pensou, circulando em passos apressados pelo quarto, o som rítmico de suas botas no piso de madeira ajudando-o a controlar a própria respiração.
Não, ele sabia que aquilo não podia acontecer. Com certeza era tudo um mal entendido, uma indução que a confissão de Rin provocara nele mesmo, causando a ilusão de que ele poderia—
Talvez;
Quem sabe;
Possivelmente;
Por um acaso
— sentir o mesmo. E o restante não devia passar de mera tensão sexual. Devia ser facilmente resolvível com uma distração boa o bastante.
Aquilo tudo só podia ser algum tipo de feitiço que aquela humana — se é que ela era realmente humana — pusera sobre ele. Certamente tinha algo a ver com aquele olhar dela, ou então o sorriso... Os malditos sorrisos...
Mas ele era Sesshomaru, um guerreiro temido e formidável e que, principalmente, não conhecia o conceito de rendição.
Eu não vou cair sem uma luta, Rin.
Decidido, ele endireitou sua postura, cuidadosamente vestindo sua máscara de seriedade e afastando para algum canto de sua mente toda a confusão e caos que estavam se emaranhando lá dentro, guardando-os em algum lugar para que pudesse se preocupar com isso somente em outro momento.
Pensar no beijo de Rin trazia outras urgências preocupantes à frente de suas prioridades, e ele, o mais calmamente possível, se preparou para cuidar delas da melhor forma que conhecia.
Abrindo a porta de volta para o corredor, ele observou o ambiente à sua volta, seus olhos sérios encontrando quase automaticamente a segunda porta à direita, que era famoso por ser o maior quarto depois dos aposentos do mestre do castelo, e por ter a melhor vista para o jardim e para as montanhas. Também era conhecido por ser o quarto da futura senhora daquele castelo, que não perdera a oportunidade de tomá-lo para si quando foi-lhe dada a escolha. Ambiciosa desde criança. Eles dois realmente combinavam em muitos aspectos.
Se ele fizesse aquilo, então o conselho ficaria satisfeito, mais uma vez tendo manipulado com sucesso as decisões do líder do oeste. Mas o conselho podia ir se danar, havia muito mais em jogo agora do que apenas o capricho dele. Se era realmente de uma fêmea que ele precisava, então ele teria uma.
Era verdade que qualquer fêmea serviria, mas ele sabia bem que Mizuno era a melhor disponível, não importando o quanto ele quisesse negar. Se ela não fosse capaz de sobrepujar o desejo dele por aquela mulher humana em particular, Sesshomaru sabia que estava perdido.
Postando-se de frente para a porta, o daiyoukai franziu o cenho, seu nariz aguçado trabalhando com mais afinco até que ele chegou à conclusão desesperadora de que Mizuno não estava lá dentro, o quarto estava vazio.
Sesshomaru ergueu uma sobrancelha, mentalmente calculando as horas passadas desde seu encontro com Rin até ali. Certamente já era noite, uma hora mais que adequada para uma moça prometida estar recolhida, e justo na hora — única hora — em que ele mais precisava dela! Justo na hora crucial que teria sido a oficialização de tudo que ela vinha esperando por tantos séculos... O destino era mesmo cruel.
— Senhor Sesshomaru.
Ele estivera tão concentrado em seus próprios pensamentos caóticos que, de alguma forma não percebera a aproximação de Rin. Ela estava bem ao lado dele, o chamando com aquela voz doce e um sorriso tímido no rosto avermelhado de vergonha.
Ele tinha tudo sob controle. Tudo que precisava fazer era dizer que estava ocupado, mandá-la embora.
Em vez disso, ele se virou para olhá-la, a mão desistindo da maçaneta da porta.
— O senhor tem um tempo? Eu precisava... Conversar... – Ela pediu timidamente, vendo que tinha a atenção dele.
Não, ele não tinha tempo. Ele tinha uma fêmea para encontrar e um casamento para consumar.
Mesmo com a resposta na ponta da língua, ele assentiu, respondendo, em vez disso:
— Certamente, Rin.
Feitiçaria, só podia ser feitiçaria, ele pensou.
xXx
Sesshomaru permitiu que Rin guiasse o caminho e não podia dizer que ficou surpreso ao ver que ela o levou até os jardins.
O céu estava escuro, mas diversas lanternas estavam acesas, presas a belos postes ornamentados que se espalhavam harmoniosamente pelo caminho, com intervalos exatamente iguais entre um e outro. A luz amarelada das chamas tornava aquele lugar ainda mais belo no meio da escuridão, flores brancas parecendo douradas e radiantes.
Ela se sentou sobre um banco após tomar um breve momento para admirar as flores ao seu redor, o youkai tomou o assento ao seu lado, a curta extensão do banco forçando-os a manter certa proximidade. Ele esperou, mas a humana mantinha-se calada, o rosto escondido pelas grossas mechas de seu cabelo escuro. Ela estava tímida demais para começar aquela conversa, então Sesshomaru não hesitou:
— Não muito comunicativa, eu vejo.
Ela ergueu a cabeça, finalmente deixando à mostra bochechas rosadas e um sorriso nervoso, usando uma mão para colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Honestamente, eu não sei como começar. – Ela admitiu, rindo em desconforto.
Sesshomaru se permitiu admirar o som daquela risada por apenas um momento, antes de assumir de volta a expressão de seriedade em seu rosto, se forçando ao máximo para reerguer as barreiras em volta de seus sentimentos tão perigosamente ariscos ultimamente. Barreiras essas que aquela humana sempre conseguia derrubar com um único sorriso, como se não fossem nada.
Não dessa vez, Rin.
Ele já havia jogado aquele jogo arriscado por tempo demais e, até então, deixara que ela vencesse todas as vezes, sempre dando a ela o que queria, deixando-a destruir suas defesas e fazendo pouco caso de tudo aquilo. E o pior era que ele gostava disso. Era a única situação na qual ele era derrotado miseravelmente em algo e simplesmente não se importava.
Tolo, ele nem ao menos percebeu aonde eles estavam indo com aquilo até que já estivessem lá. Mas ainda não era tarde demais para voltar atrás, para retornar à sua zona de conforto. Daquela vez, ele estava preparado, ele sabia o que estava vindo e como se defender.
— Se esse é o caso, não se incomode. Não precisa me dizer nada.
— Espere! – Ela chamou antes que ele pudesse dar o assunto por encerrado antes mesmo de começar. – Eu... Eu não entendo o que está acontecendo, senhor Sesshomaru... O que... Aconteceu...
Olhando em frente, para a luz brilhante pendendo de um dos postes, ele respondeu com uma expressão ilegível.
— Não há nada para entender, Rin. Você tende a se preocupar demais com pequenas coisas.
Ele não achou necessário explicar que, na verdade, nem ele mesmo entendia.
Rin o encarou com descrença, o coração ainda acelerado de nervosismo.
— Pequenas coisas? Será que estamos falando do mesmo assunto? — Ela questionou, lutando para conter o tom de indignação que ameaçava escapar pelas laterais de suas palavras. — Depois de tudo que eu revelei, depois de o senhor me dizer, olhando nos meus olhos, que não significo nada para você, o senhor me beijou!
A última palavra foi dita com um sussurro e uma olhada cautelosa ao redor, como um segredo terrível.
Os olhos dourados se voltaram de novo para ela, o brilho das irises competindo diretamente com as lanternas no jardim ao redor deles.
— Sim, eu o fiz. — Confirmou o youkai, em um tom perfeitamente monótono e distante.
— Por quê?
— Eu nunca disse que você não significava nada para mim, Rin. — Sesshomaru lembrou, voltando à acusação anterior em uma evasão óbvia da pergunta dela.
— Então... – A humana tentou erguer uma mão em um impulso de tocá-lo no rosto, tendo dificuldade para se controlar depois de terem estado tão íntimos mais cedo, mas Sesshomaru afastou a mão com a sua própria, segurando-lhe o pulso delicadamente.
— Eu disse que não a vejo dessa forma. – Ele completou, não querendo confundi-la ainda mais. Entretanto, ele não sabia se aquilo ainda era tão verdade quanto ele achava que era quando conversaram mais cedo.
Rin discordou, balançando a cabeça em negativa repetidamente. Ela não aceitava aquela resposta, o que ele dizia a ela agora não era compatível com o que os corações deles disseram no momento em que se conectaram naquele cômodo vazio no fim da tarde.
A humana o olhou, seus olhos castanhos brilhantes na luz fraca, os lábios apertados em insegurança. Relutantemente, Sesshomaru se viu respondendo, o tom de voz condescendente e suave.
— Eu não queria vê-la partir.
A boca dela se abriu em leve surpresa, fechando-se em seguida pela falta de palavras. O youkai observou o movimento inocente com a atenção que um gato observa um peixe suculento, os olhos acompanhando cada detalhe.
Por fim, Rin suspirou, os lábios que ele tão atentamente monitorava tremendo levemente antes que ela parasse a reação com uma leve mordida.
— Então... Foi apenas... Um artifício para me fazer mudar de ideia sobre ir embora?
A forma com a voz dela soava trouxe imediatamente à tona o impulso de abraçá-la, ao qual Sesshomaru resistiu firmemente. O único conforto que ele decidiu oferecer foram suas palavras verdadeiras:
— Não. Não foi por isso.
Mas o que mais ele poderia dizer à ela? O que ele diria para explicar um ato que ele mesmo tinha dificuldade em aceitar?
Deveria dizer à ela que não suportava a ideia de que ela vivesse uma vida sem ele por perto? Deveria dizer que no momento em que ele a viu se esvaindo de suas mãos, perdeu todo o controle? Que no momento que a beijara, fora uma reação completamente impensada, algo automático, quase por instinto? Havia sido simplesmente a manifestação da necessidade de mostrar para o próprio desespero que eles estavam juntos, tão juntos que podiam sentir um ao outro, tão juntos que jamais se separariam de novo.
Ele poderia dizer à ela que, naquele momento, sentados ali no jardim, enquanto ele observava os lábios dela liberarem uma respiração controlada, tudo que ele queria era beijá-los mais uma vez?
— Não podemos fazer isso, Rin. — Ele falou enfim, preenchendo o silêncio com a suavidade de suas palavras.
Não podia deixar de reparar que, apesar de ter falado para ela, era a ele quem ele mais tentava convencer.
— Então... O senhor quer dizer que aquilo não vai mais se repetir, por isso eu devia esquecer.
Sesshomaru ponderou aquelas palavras por um momento, vendo sabedoria nelas, embora parte de sua mente começasse a trabalhar, sem permissão, meios para que aquela não tivesse que ser a única solução.
O relacionamento dele com aquela humana sempre foi algo fora de sua compreensão, um ponto fora da curva. Apesar de todos os seus preconceitos, da forma como ele costumava desprezar a raça dela, ele sempre teve um afeto especial por ela, um comportamento diferente.
Sim, ele ainda via como um grande absurdo a mera possibilidade da existência de algo tão tolo quanto amor entre eles, não era algo que ele se julgava ao menos capaz de sentir, mas quanto a todo o resto...
Ele a protegia, a presenteava, conversava com ela e lhe fornecia mais de sua atenção do que a qualquer outro. Ele se preocupava com ela e a admirava, recentemente até mesmo a tocara de forma terna em mais de uma ocasião e nada terrível havia resultado disso. Pelo contrário, ele lembrava bem o prazer a satisfação que lhe trazia quando ele deslizava suas garras suavemente pela pele macia dela, ou pelos cabelos sedosos.
Diante de tudo aquilo, ele realmente não devia se incomodar com o fato de que ele a havia beijado nos lábios de forma tão intensa. A sensação era ótima e ela estava entregue, não havia nada de muito errado naquilo, afinal. Não quando se limitava apenas àquilo e nada mais além.
Mesmo naquele momento, ele ainda desejava poder repetir aquele ato proibido, sentir o gosto dela em sua língua mais uma vez.
Mas Sesshomaru sabia que aquilo era algo a ser evitado, por mais que tentasse se convencer ser apenas um novo hábito do relacionamento deles. Era um comportamento nocivo, e com o tempo as consequências certamente se apresentariam, se ele não fosse cuidadoso.
Ele sabia bem que não seria tão simples assim. A partir do momento em que tais atos se tornassem tão normais para eles, não tardaria até que eles passassem a querer mais, até que percebessem que ainda não era o bastante. Tudo aquilo estaria fadado a se tornar um vício destrutivo e, logo Sesshomaru se veria caminhando pela mesma estrada em declínio que seu pai outrora caminhou, escravo das próprias emoções, refém das próprias fraquezas. Incapaz de tomar uma decisão racional diante da obsessão sem limites por uma única mulher humana.
Isso tudo, sem falar no dano emocional que ele poderia provocar à Rin, estando ciente de que, para ela, era quase impossível separar o ato de um mero beijo de sentimentos profundos como o amor que ela tinha por ele.
Não, ele não permitiria que chegasse àquele ponto. Cortaria o mal pela raiz enquanto ainda podia. Aquilo terminaria hoje.
Decidido a comunicar sua decisão final, ele se voltou para Rin, que o observou de volta com olhos amendoados ansiosos. E, com aquele único e inocente olhar, toda a sua resolução desmoronou como um castelo de areia levado pelo mar. Pelos deuses, como ele a queria!
Segurando o queixo dela entre o indicador e o polegar, ele puxou o rosto delicado e feminino para mais perto de si e se permitiu experimentar mais uma vez daqueles lábios que eram, certamente, o próprio inferno disfarçado de paraíso. E como era quente!
A condenação viria mais tarde, ele sabia, mas era algo para se preocupar só mais tarde. Naquele momento, ele apenas a beijou, doce e gentil, mas caloroso e urgente.
A resposta dela veio com atraso, afetada pela surpresa, mas não falhou em trazer à superfície todo o desejo reprimido, pronto para ser exposto. Os olhos se fecharam, o corpo relaxou, a coluna amoleceu, deixando seu tronco leve e entregue aos braços daquele youkai tão intimidante, mas que, naquele momento, parecia tão incerto quanto ela.
Ambos se regozijaram naquela incerteza, sem saber quanto tempo exatamente havia se passado desde o primeiro selar dos lábios até o arfar do primeiro fôlego quando finalmente se separaram.
Olhos dourados a fitaram, inconstantes. Ela observou com atenção aquele breve espetáculo de sentimentos lá dentro que pareciam correr para todos os lados, procurando um lugar para se esconderem em pleno campo aberto, algo que só era visível naquele breve instante em que ela pode olhar tão profundamente dentro daquelas irises cor de mel. Tão de perto que ela podia distinguir a mudança de nuances que começava mais escura nas bordas e ficava mais clara à medida que se aproximava das pupilas negras como a noite, ferozes como as de um animal.
A mente de Sesshomaru estava em branco novamente enquanto ele lutava para manter a si mesmo sob controle, procurando bloquear a súbita onda de pensamentos inapropriados que tentava invadir sua consciência. E como ele desejava que a falta de propriedade fosse de cunho sexual... Não... Era muito pior. Eram pensamentos doces e afetuosos, que despertavam pequenos flashs de fantasias onde aquela humana pertencia a ele, onde ele podia dizer aquilo à ela com todas as palavras cuja pronúncia ele ainda desconhecia, mas que estavam perigosamente perto de deslizar por sua língua ao menor sinal de distração.
É apenas um beijo, ele tentou dizer a si mesmo de novo e de novo, como um mantra.
Rin não havia dito uma palavra, observando-o em silêncio de forma analítica, íntima. Como se ela pudesse ver através da pele dele, lá no fundo de sua alma, coisas que até ele desconhecia, coisas que ele duvidava existirem. Era uma sensação desconfortável, inquietante, mas, ao mesmo tempo, eufórica. Ele permitiria que ela olhasse, só ela, e só daquela vez.
Sesshomaru percorreu uma mão pelos cabelos soltos dela, os fios deslizando por entre os dedos, e se preparou para conectar seus lábios mais uma vez.
Amanhã, aquilo acabaria, com certeza. Sim, ele ia deixar para amanhã.
Por hoje, ele ainda iria prolongar aquela pequena porção de satisfação em meio a tanto caos, ainda iria beber um pouco mais daquele saquê proibido que vinha da boca dela, inebriante e delicioso.
Só por essa noite, ele prometeu a si mesmo, antes de beijá-la novamente.
xXx
Rin se sentia como se estivesse em um estado catatônico, como se nem ao menos ainda habitasse o próprio corpo.
Ela perdeu a conta de quantas vezes ele a havia beijado em um intervalo tão curto de tempo e isso, por mais incrível que parecesse, a deixava irritada.
Levara tanto tempo para que ela tomasse a coragem necessária para confessar a ele o que sentia, e fora necessária tanta força para que ela tomasse a decisão que ela sabia ser a correta, após receber a já esperada rejeição. E tudo aquilo fora facilmente destruído diante de um mero beijo. Nenhuma declaração de afeto, nenhuma promessa para o futuro, nada além de um beijo. Apenas um beijo que podia significar tudo e, ao mesmo tempo, nada.
A partir daquele primeiro beijo, vários outros foram trocados enquanto estiveram no jardim. A princípio tímidos e um pouco desconfortáveis, mas logo eles pareceram deslizar facilmente para uma zona de conforto onde eles estavam completamente à vontade para explorar a boca um do outro, de novo e de novo, como se toda vez fosse haver alguma coisa nova para descobrir com a experiência. Como se não houvesse nenhuma apreensão de que alguém pudesse ver. Como se não houvesse nenhuma preocupação com suas diferenças de raça, de status, nada daquilo podia chegar até eles no lugar elevado, em meio às nuvens, onde eles se encontravam.
Ela o parara por um breve instante, por fim. O peito subia e descia em intervalos rápidos com a falta de ar.
— Por que o senhor faz isso comigo? – Ela perguntou em voz baixa, o rosto parecendo congelado em um estado permanente de coloração avermelhada. Sua voz soava baixa e preguiçosa, parecia que ela estivera falando enquanto dormia, exceto que ela estava acordada, parada bem no meio de um sonho.
Era doce e feliz naquele momento, mas ela quase podia prever com exatidão o ponto quando a dor viria, o ponto onde o pesadelo tomaria conta de sua alegria.
Por que ele era tão cruel? Por que ele não tinha um pouco de piedade?
— Não era o que você queria? – Ele perguntou em um tom inocente, mas ela sabia que ele sabia que não.
— O senhor sabe que o eu quero vai muito além disso...
Sesshomaru ergueu uma sobrancelha para ela.
— Você é exigente, Rin.
E talvez ela fosse. Talvez ela quisesse demais. Mas, era realmente tão ruim alguém acreditar que merece mais do que o que lhe é oferecido?
Era tão errado assim que ela acreditasse que merecia mais do que alguns beijos escondidos na escuridão da noite?
Parando para pensar, provavelmente era.
Quem ela pensava que ela era? Era apenas uma plebeia que deu o azar de se apaixonar por um nobre daiyoukai que tinha os cabelos tão prateados quanto a lua e os olhos tão dourados quanto o sol.
Se, por algum motivo do acaso, o daiyoukai previamente mencionado decidisse agraciá-la com um ou dois beijos, sem ter absolutamente nenhuma obrigação de fazê-lo, – deuses, ele devia matá-la por sequer ousar desejá-lo dessa forma – aquilo não seria muito, muito mais do que ela jamais poderia esperar?
Ela não devia estar grata?
E estava, mas não era o suficiente. Ela queria ainda mais, muito mais! E a injustiça que era a sua vida a impedia de apreciar com totalidade aquele momento que ela tanto sonhou, o momento em que ela estaria nos braços dele daquela maneira.
Porque ela não queria um beijo ou dois. Ela queria a ele! Mais que tudo, ela queria o coração dele, da mesma forma que ele tinha o dela apertado entre suas garras.
Percebendo sua angústia, Sesshomaru delicadamente pousou a palma da mão sobre a lateral de seu rosto, como se estivesse se preparando para aparar quaisquer lágrimas insolentes que ousassem cair por ali.
— Não me entenda mal, Rin. — Disse ele, suavemente. — Eu sou exigente também. Eu sempre tive tudo aquilo que eu queria e é difícil aceitar que há certas coisas que eu não posso ter. É difícil para mim também, talvez mais do que você imagina.
— E o que o senhor queria? — A humana não pode evitar perguntar, o peito se contraindo em ansiedade pela resposta.
Sesshomaru suspirou, mantendo a mão no rosto dela e usando a mão livre para resgatar um objeto de dentro de seu haori.
— Que pudesse ser diferente. — Respondeu, oferecendo a Meidou Seki de volta para aquela que a herdara verdadeiramente.
Rin a pegou hesitantemente, os dedos delicados envolvendo as contas do colar quase receosos. Quando ela estava prestes a puxar o objeto para mais perto de si, Sesshomaru o retomou, tomando a liberdade de passá-lo ao redor da cabeça dela, deixando que enfim repousasse, pendurado novamente em seu pescoço.
Ela deixou o ar escapar de seus lábios lentamente, sentindo o peso extra sobre seus ombros como uma forma de conforto. Como um sinal de que o colar estava de volta ao seu lugar, de que ela estava de volta ao seu lugar.
— Permaneça ao meu lado. — O daiyoukai disse, antes se finalmente se levantar do banco onde estivera sentado sabe-se lá por quanto tempo. — E veremos o que acontece.
Sesshomaru ofereceu uma mão para ajudá-la a ficar de pé também. Ela o olhou timidamente, uma das mãos distraidamente indo brincar com o pingente de seu colar enquanto a outra aceitava a ajuda dele. No instante em que as palmas se tocaram e Sesshomaru fez o primeiro impulso para erguê-la, os olhos dela fitaram o vazio repentinamente, e a humana caiu, desacordada, nos braços ágeis do youkai que a ampararam.

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