Unintended
2 Capítulo 1 - Terrores
Notas iniciais
Fazia um dia desde a derrota de Naraku, o dia em que aquela batalha que parecia sem fim havia finalmente terminado. A Joia de Quatro Almas fora finalmente destruída, e todos os objetivos foram alcançados.
Sesshomaru ouvira a conclusão dos fatos apenas por alto. Seu meio-irmão havia destruído a Joia junto à sacerdotisa, mas retornara da batalha final sozinho. Aparentemente, a humana havia desaparecido para sempre.
O youkai fazia pouco caso disso. Aquela garota nunca pareceu pertencer àquele lugar, de qualquer forma.
Sesshomaru estava muito mais preocupado com outra coisa. Ele observava, à distância, Rin brincar casualmente com o garoto Kohaku, correndo atrás dele em meio às ruinas do vilarejo que Naraku destruiu. O jyaki já havia sido purificado, e Rin parecia ter esquecido rapidamente de todo o terror da batalha a essa altura.
Ele, no entanto, ainda não esquecera. O grande youkai havia lutado guerras sangrentas ao longo de seus séculos de existência. Tantas, que ele não podia mais contar quantos inimigos havia dilacerado em campo de batalha. Ele nunca entendera, entretanto, o conceito do que os outros homens chamavam ‘o terror da guerra’. A guerra nunca parecera terrível para o youkai. Pelo contrário, ele até a considerava uma forma de entretenimento.
Fora somente naquela batalha contra Naraku que Sesshomaru veio a entender o conceito. O terror de perder Rin para sempre. Ele era um homem que finalmente aprendera a temer a morte, mas não a própria morte, e sim... o esmaecer daqueles brilhantes olhos castanhos cheios de curiosidade. O desvanecer daquele sorriso que podia alegrar os dias mais tristes.
Ele trincou os dentes, não conseguindo bloquear a memória de quando achou que tudo isso estava perdido para sempre, tudo graças à sua própria irresponsabilidade. Que tipo de imbecil carrega uma criança constantemente para situações perigosas, onde até mesmo um guerreiro habilidoso poderia padecer? Ele sabia desde o início que era a última pessoa no mundo qualificada para tomar conta daquela menina, mas a sua teimosia falara mais alto todas as vezes. Afinal, ele a encontrara morta, o que significa que a espécie dela também não fizera lá um trabalho tão melhor que o dele.
Rin... O que vou fazer com você? Ele se perguntou, pressionando as pontas dos dedos contra a têmpora.
— Senhor Sesshomaru, o senhor está se sentindo bem? – A voz de Rin soou, e ele abriu os olhos para encontrar a menina logo a sua frente, com um olhar preocupado. O garoto Kohaku estava logo ao lado dela.
— Acho que ele só estava concentrado, Rin. – O exterminador opinou.
— Ah, você acha, Kohaku? – Ela perguntou, se voltando para ele com todo o interesse, como se a preocupação com o bem estar de Sesshomaru estivesse completamente esquecida.
Sesshomaru encarou os dois com uma sobrancelha erguida, sem se preocupar em ser pego, pois as duas crianças já não prestavam a menor atenção nele. Ele não podia evitar lembrar daquela situação que ocorrera tão recentemente, no dia que ele perdeu o Meido Zangetsuha para Inuyasha.
“Senhor Sesshomaru, por quê?!” Ela questionou quando percebeu que a arma que ele usava havia sido otimizada com a ajuda de Naraku. “O Naraku tentou matar o Kohaku!”
Aquelas palavras se repetiam toda vez que ele observava os dois juntos. Rin falou com ele naquele dia com a voz tão cheia de reprovação, de decepção, de indignação. Ela nunca havia falado daquela forma com ele antes, e o que a compelira a fazê-lo naquele momento fora Kohaku. De todos os motivos para ela ficar brava por ele se aliar ao Naraku, que já a havia sequestrado para usá-la como isca; sido o responsável por reviver o Exército dos Sete, cujos alguns membros quase causaram sua morte... Ela tinha que ficar brava por causa daquele menino insignificante.
A memória do Exército dos Sete imediatamente desencadeou outra lembrança desagradável.
Quando Rin se enfiara no Monte Hakurei, onde ele estava tento dificuldades de entrar, devido à poderosa barreira sagrada que ameaçava destroçar sua energia demoníaca ao menor sinal de fraqueza. Ele não podia ir atrás dela, mas não foi um problema, pois ela voltou para ele por conta própria. Porém, quando ele perguntou a ela se o Kohaku estava lá dentro... Ele pôde ver tão claramente a hesitação da menina humana, ele podia ver que ela temia pela vida de seu improvável amigo exterminador, e isso era compreensível, pois ela tinha um coração compassivo.
O que não era compreensível era aquela hesitação tão insegura. Sesshomaru pôde ver claramente que ela planejou, mesmo que por um instante, simplesmente mentir para ele.
Ele não gostava disso. Não sabia bem porque o incomodava, já que era mesmo natural que Rin se conectasse com alguém de idade mais próxima da sua, de espécie mais próxima da sua. Mas o incomodava imensamente, principalmente por ele se ver obrigado a aturar o garoto, só para satisfazer aquela menina humana que havia inegavelmente o cativado de alguma forma em algum ponto da jornada deles.
Mas já bastava de tudo aquilo.
— Rin. – Ele chamou, capturando a atenção da humana imediatamente. – Se prepare para irmos.
Ele fez questão de falar diretamente para ela, deixando claro que o convite não se estendia ao seu amigo.
— Mas já, senhor Sesshomaru? – Ela questionou, com olhos levemente tristes, que espelhavam o olhar do exterminador.
— Senhor Sesshomaru. – O menino falou, tomando a liberdade de apoiar uma mão sobre o ombro de Rin. – Eu posso sugerir que...
— Não. – Ele cortou, se pondo de pé.
O garoto pareceu surpreso com a reação, recuando por um momento.
— Ah, bem... O que o senhor pretende fazer, agora que Naraku foi derrotado? – Kohaku perguntou.
— Rin. – Ele chamou de novo, já se virando para partir, decidindo ignorar o moleque intrometido.
— Sesshomaru, espere! – Dessa vez quem o interrompera fora a exterminadora, irmã mais velha do garoto de quem ele tentava se livrar. – Eu tinha mesmo que falar com você!
Ela vinha acompanhada do monge, que auxiliava a velha sacerdotisa líder do vilarejo a caminhar.
— Não tenho mais nenhum assunto a discutir com vocês. – Ele esclareceu de uma vez por todas.
— É sobre a menina Rin. – A velha humana especificou, ganhando a atenção dele. – Acredito que seja do seu maior interesse.
—-
Rin observava, apreensiva, esperando que Sesshomaru finalmente terminasse a conversa que estava tendo com a senhora Kaede na cabana improvisada dela. Kohaku já tentara confortá-la, mas desde que revelaram sobre o que se tratava a conversa, ela não podia mais relaxar até que Sesshomaru saísse e viesse dizer a ela que eles iriam embora.
Era verdade que, a princípio, ela considerou perguntar a ele se não poderiam ficar mais uns dias, ou se talvez ele não pudesse deixar ao menos ela ficar uns dias a mais com Kohaku. Mas, diante da perspectiva de que o que estava sendo discutido ali era a sua estadia permanente no vilarejo, a menina estava simplesmente apavorada. Ela não queria ficar ali por mais que uma semana, não queria deixar a companhia de Sesshomaru por nada!
A essa altura já tinham desistido de dizer para que ela se acalmasse, e apenas observavam em silêncio a pequena roer nervosamente a unha do polegar.
Então, finalmente, Sesshomaru apareceu pela porta da cabana, com uma expressão ilegível. A senhora Kaede vinha logo atrás.
— Senhor Sesshomaru... – Ela sussurrou, com medo do som da própria voz. Suas lágrimas estavam entaladas como um nó sufocante em sua garganta.
— Rin. – Ele saudou de volta, sem desperdiçar um olhar sequer aos outros que estavam presentes. – Vamos.
Rin podia finalmente liberar o ar que estava entalado em seu peito. Ele disse ‘vamos’, o que quer dizer que tomara sua decisão e ficaria com ela! Ela não conseguia evitar o sorriso que se instalava em seu rosto diante de tamanho alívio. Estava tão ansiosa e contente que nem se incomodou em se despedir de Kohaku e dos outros, correndo para acompanhá-lo o mais rápido que podia, com medo de que se o perdesse de vista, ele desapareceria para sempre.
Eles caminharam apenas uma pequena distância, entretanto, até que Sesshomaru interrompesse seu ritmo, se virando para encarar a menina humana. Foram apenas longe o bastante para se abrigarem dos olhares curiosos dos outros, escondidos pela barreira de árvores e arbustos.
— Aqui é onde nos separamos, Rin. – Ele declarou, o que foi como um soco no estômago para a menina. Ela sentia que podia cair ao chão com a força do golpe.
— Não...
— Não quero que discuta, a decisão já foi tomada. – Ele disse severamente, sem dar espaço para protestos. Mas sua postura era menos intimidadora, pois se abaixava sobre um joelho, para ficar à altura da humana. – Aqui será mais seguro para você.
Rin cerrou os olhos com tanta força que começou a ver pontinhos coloridos por trás das pálpebras apertadas. Se lembrava de quando o conhecera, e da primeira vez que ele a salvara, que ela o definira oficialmente como seu porto seguro. Não havia nada mais seguro do que ele, nada!
— Eu não quero voltar a viver em um vilarejo, senhor Sesshomaru! – Ela declarou, não conseguindo se segurar, mesmo sabendo que ele já havia dito para não discutir. – O senhor sabe... O senhor sabe o que eles faziam, eu-
— Será diferente dessa vez. – Ele prometeu. – Essas pessoas vão te tratar bem.
— Mas eu só quero acompanhar o senhor... Nós ficaríamos juntos... Para sempre! – Não suportando mais segurar, Rin deixou as lágrimas transbordarem, lutando para ao menos ser discreta, mas falhando ao deixar escapar o primeiro soluço, a partir do qual se seguiram vários outros, e a cada lágrima que escorria, parecia que um pedaço dela ia junto.
Rin ainda mantinha os olhos apertados, mas os abriu em choque quando sentiu os braços do youkai a envolverem tão delicadamente. Por um instante ela voltou a sentir aquele companheirismo e afeição que sentira quando ele a tocara em seu segundo ressuscitar. Ela não podia resistir àquele gesto, se deixando aninhar no peito dele, pressionando seu rosto molhado pelas lágrimas contra a armadura do youkai.
— Rin. – Ele chamou quase ternamente, apoiando uma mão sobre sua bochecha como fizera daquela vez, mas desta vez estendendo um polegar na tentativa de secar as lágrimas dela. – Não dificulte mais a situação.
Rin se afastou minimamente para olhar nos olhos dourados dele, tentando desesperadamente guardar aquela memória nas profundezas de sua mente, para garantir que jamais esqueceria.
— Por que, senhor Sesshomaru? Por quê? Foi algo que eu fiz? – Ela insistiu em questionar, se recusando a compreender.
— É necessário. – Ele respondeu. – Você precisa voltar a conviver com o seu povo.
— Eu só preciso do senhor...
O youkai a afastou finalmente, colocando uma distância confortável entre ele e a garota inconsolável.
— Nosso tempo juntos chegou ao fim, Rin.
Ela só conseguia chorar mais diante dessa sentença, tentando fechar a distância entre eles mais uma vez, mas Sesshomaru voltou a se afastar, dando um passo para trás.
— O senhor ao menos virá me visitar? – Ela pediu, tentando encontrar um jeito de se conformar, sabendo que ele não mudaria de ideia e ela nada poderia fazer.
— Eu não sei. – Ele respondeu simplesmente, o que não ajudou a confortá-la em nenhum nível. – Talvez um dia nossos caminhos voltem a se cruzar. Agora vá, siga a trilha de volta para o vilarejo, não estamos longe.
Ela respirou fundo, tentando absorver o mínimo de positividade que essa possibilidade apresentava. Ela já sabia que a sua causa estava perdida, sabia que espernear mais iria apenas desperdiçar o precioso tempo de seu senhor. Ela tinha que aceitar, por mais que lhe doesse.
— Eu aguardarei então, senhor Sesshomaru. – Conseguiu dizer em uma voz interrompida por soluços remanescentes. – Se algum dia sentir minha falta... Lembre-se que estarei sentindo muito a sua.
Ele apenas assentiu, tomando mais distância, como se estivesse se esforçando para se afastar dela também.
— Muito obrigada por tudo. – Ela achou necessário dizer, se curvando uma última vez. Depois de tudo que ele havia feito por ela, sem ter a menor obrigação de fazer... Rin devia ao menos isso. Sua gratidão era a única coisa que ela tinha a oferecer.
— Obrigado, Rin. – Ele respondeu em voz baixa, mas ela ouviu e se ergueu, surpresa.
— Pelo que, senhor Sesshomaru?
Ele se virou, como se não pretendesse responder, afinal. Rin sabia bem que era provável que esse fosse mesmo o caso.
Porém, logo antes de ele se preparar para levantar voo, ela ainda pôde ouvir, embora não tivesse exatamente certeza:
— Por você.
Então ele subiu aos céus, como o anjo que retorna do lugar de onde veio, depois de ter pousado na vida de sua protegida em um momento de necessidade. Rin suspirou ao vê-lo desaparecer entre nuvens escuras, sabendo que devia ser grata pela presença dele em sua vida, mesmo que tivesse sido apenas temporária. Ela não teria sido nada sem ele, mas agora ele havia dado a ela a chance de voltar a ser o que ela nunca achou que poderia ser novamente um dia.
Uma humana comum... Vivendo entre humanos... Ela poderia fazer isso?
Apesar de ele ter dito para que ela retornasse, Rin ficou perdida em seus pensamentos por tanto tempo que as pernas começaram a doer. Foi só então que uma voz a chamou, sobressaltando-a completamente.
— Vamos logo, pirralha. Você não pode ficar parada aí para sempre.
Ela se virou para ver o hanyou de pé logo atrás dela, os braços cruzados e um olhar indiferente.
— Inuyasha. – Ela saudou, ainda meio aérea para o mundo real. – Você estava aqui há muito tempo?
Ele desviou o olhar, seus cabelos prateados acompanhando o movimento brusco da cabeça.
— Keh. Eu não estava xeretando de propósito, foi o Sesshomaru que decidiu se despedir de você logo aqui. Eu estava só...
Ela compreendeu ao ver o olhar dele se dirigir ao chão, uma súbita melancolia emanando do hanyou.
— Você estava no poço, esperando. – Ela deduziu, lembrando que isso era só o que o meio-youkai fizera desde ontem.
— Er... – Ele hesitou, parecendo meio constrangido por um momento. Mas não havia muito espaço para outras emoções, pelo visto, pois quase imediatamente a tristeza retornou à sua expressão. – Sim...
Rin lhe lançou um olhar compassivo, o qual Inuyasha rejeitou, se virando para a trilha.
— Vamos. – Ele chamou de novo, e Rin correu para chegar ao lado dele.
— É engraçado. – Ela comentou, acompanhado a caminhada calma. Ele a olhou sem compreender como algo podia ser engraçado depois do drama que ele ouvira sem querer.
— O que diabos é engraçado?
— Não realmente engraçado, — Ela esclareceu. – Só... Curioso. Agora parece que você e eu podemos nos compreender bem, não é? – Ela sorriu um sorriso triste, pensando na perda que acabara de sofrer, que quase arrancara um pedaço de seu próprio coração. Rin ainda não sabia como iria superar isso.
Ele entendeu o que ela quis dizer, podendo sentir o mesmo tipo de tristeza envolver os dois corações abandonados naquela noite estrelada, mas que parecia escura aos dois.
— É, pirralha. – Ele respondeu em um fio de voz. – Parece que sim.
Só que aquele cachorro babaca vai voltar pra você, cedo ou tarde, pensou o meio-youkai, voltando a olhar para o caminho a sua frente. E você... Kagome?
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