Uniforme de Astronauta
1 Laika
Notas iniciais
Quando Peter decidiu deixar a sua tristeza para trás (por enquanto), deu espaço para fascinação. Afinal, não era qualquer um que conseguia voar pelo espaço. Seus dedos tocaram no vidro de uma pequena janela e o garoto continuou fitando o vazio e as estrelas.
— Wow... — sussurrou baixinho. Às vezes ponderava se aquilo tudo era um sonho, mas então um alien vinha bater na porta metálica indelicadamente.
— Acorda, pirralho! — A voz gritou do outro lado do metal. Peter rolou os olhos.
Certo. Piratas espaciais. Ele vivia se esquecendo disso.
As batidas ocorreram mais intensamente e o menino abriu a porta, revelando Kraglin coçando os olhos de sono, porém com uma expressão não muito agradável. Mas se Peter for honesto consigo mesmo, ninguém era muito agradável naquela nave.
Aparentemente Xandarianos — e a maioria das espécies de aliens ali — tinham um sistema cronológico diferente de Peter, o que significava que quando o menino dormia, os outros começavam o seu dia, e vice-versa.
Era tudo muito problemático, todavia a equipe arranjava um jeito. Yondu disse que o corpo de Peter se acostumaria com o tempo.
Peter tinha certas dúvidas sobre a inteligência do capitão nesse tipo de assunto, mas decidiu não comentar.
— Yondu quer ver você depois do café da manhã. — E com isso Kraglin voltou a andar pelos corredores. Peter já tinha até almoçado há essa hora, mas não falou nada.
O garoto pegou seu Walkman e o levou consigo até o deck, onde Yondu lia algo na sua tela principal.
— Yondu, — Peter o chamou e o capitão virou a cadeira para encará-lo. — O que você tá lendo?
O garoto, com sua curiosidade de criança de oito anos, tentou ver o artigo, entretanto percebeu que não conseguia ler nada. Yondu abriu um de seus raros sorrisos — os que só reservava para Peter, mas jamais o deixaria saber disso.
— Nada, na verdade. — respondeu. O menino franziu o cenho.
— Nada?
— Esses idiotas acreditam tudo o que eu disser, e não se importam em questionar — ele olhou para os Krees e Xandarianos sentados na mesa de jantar conversando animadamente — Se eu parecer ocupado, não vão me incomodar.
Peter sentiu-se mais confuso ainda, e Yondu deu outra risada.
— Enfim, eu chamei você aqui para esclarecer umas coisinhas, — Peter engoliu em seco. — Nós vamos aterrissar em Luganenhum, e você vai vir também.
Antes de Peter começar a tagarelar e sorrir como um idiota — porque finalmente ele iria explorar o espaço — o capitão o interrompeu.
— Não, não é um planeta. É difícil de explicar, só... — Ele suspirou e passou a mão em seus olhos cansados. — Não vá andando por aí, não cause problema, fique calado, não olhe nos olhos de ninguém, e se encontrar algum soldado da Nova Corps, corra. Entendido?
Peter assentiu animadamente e tentou parecer sério.
— Não fugir, evitar Nova Corps. Entendido — E em seguida foi correndo contar a Kraglin e os outros.
Yondu imaginava se encontraria alguma babá para o garoto no caminho. O Terráqueo estava o dando nos nervos.
—-
— Wow! Olha só aquilo! — Peter apontava pela vigésima vez para algum objeto brilhante do qual não tinha a mínima ideia do que era. Kraglin foi forçado a segurar a mão do garoto para que este não tentasse descobrir por si só.
Aparentemente Peter obedeceu a sua regra de “não fugir, evitar Nova Corps”, mas não deu a mínima sobre a de Yondu: “não cause problemas, cale a boca”
Yondu fez o seu melhor para ignorar o moleque, mas não conseguiu lutar contra o sorriso que apareceu graças ao entusiasmo do garoto. Terráqueos eram impressionados bem facilmente, o capitão percebeu.
Os saqueadores seguiram o seu capitão até o Coletor, e se Peter não conseguia ficar calado nas ruas da cidade, ele quase explodiu ao ver a grande coleção de... bem, praticamente tudo. Espécies de plantas, alienígenas, metais e animais rodeavam o lugar e os olhos de Peter não pararam de observar dentro das cápsulas.
— Sejam bem-vindos, — O Coletor cumprimentou Yondu e então pôs seus olhos em Peter, que se mexeu desconfortavelmente sob o olhar estranho do homem — Vocês trouxeram uma criança? — Ele se abaixou e fitou o rosto do garoto cuidadosamente — Um Terráqueo? Que criatura adorável. — Um arrepio percorreu a espinha de Peter ao notar o sorriso assustador do Coletor.
— Não está a venda, — Yondu interveio com um tom de irritação na voz. Ele mandou um olhar a Kraglin e este puxou Peter para si e fora dos olhos do Coletor. — Vamos acabar logo com isso.
— Como quiser. — O homem de cabelos brancos deu de ombros e começou a tagarelar com o capitão sobre sua mercadoria. Minutos se passaram e Peter se entediou com a conversa e decidiu observar os objetos brilhantes.
Kraglin deixou o menino explorar uma pequena coleção de conchas espaciais quando Yondu o chamou. E foi nesse momento que Peter ouviu um latido e virou para uma pequena cápsula na qual continha um cachorro.
Com um uniforme de astronauta.
Aquilo definitivamente chamou sua atenção.
— Wow, — Peter fitou o animal mais de perto e podia jurar que já tinha o visto em algum lugar. Na televisão, talvez? — Você não foi aquele cachorro que viajou para o espaço? — O cão latiu outra vez e abanou a cauda. O Terráqueo sorriu. — Não, é claro que não. Você deve ser só outro cãozinho alienígena.
Peter tocou no vidro para observá-lo melhor — podia jurar que tinha visto uma bandeira naquele uniforme — quando de repente a cápsula abriu com o simples toque e, sem nem perder tempo, o cachorro correu em direção à saída.
— Não, não, não, não! — O garoto sussurrou desesperado enquanto tentava pegar o cão e falindo miseravelmente. — Droga, droga, droga!
Peter seguiu o pobre animal até as ruas movimentadas de Luganenhum e já sabia que Yondu iria matá-lo ao perceber que tinha fugido, e seria ainda pior se ele perdesse o maldito cachorro. Depois de alguns segundos — que mais pareciam horas – de perseguição o garoto pegou o cão entre seus braços. O animal persistiu, mas Peter o segurou firme.
Na frente do pescoço do cão o garoto notou uma coleira que se lia “Laika” e do lado, estampado no uniforme, uma bandeira nacional. Da Rússia, talvez?
— Você é fêmea, então... Eu acho. E da Terra. — Peter ponderou por um segundo até perceber todos os alienígenas correrem na sua direção. O garoto pensou que queriam algo com ele, até notar que estavam fugindo.
Ele olhou para os lados e avistou fogo e ouviu explosões e gritos. Antes de conseguir fazer alguma coisa, dois soldados pararam em sua frente com o símbolo da Nova Corps estampado nos uniformes e apontaram suas armas para ele. Peter sentiu vontade de chorar e apertou Laika em seu peito.
— Quill!! — O garoto ouviu alguém o chamando e virou para trás, identificando Yondu no meio de toda aquela fumaça.
— Capitão, encontramos uma criança Xandariana. — Um dos soldados informou e depois Peter não se lembrava de mais nada.
Fale com o autor