Unidas pela guerra
6 Mulan e a primeira batalha
Notas iniciais
O primeiro castelo que tentariam recuperar era da família Matina. Os saqueadores haviam atacado em uma noite tranquila, quando estavam todos dormindo.
Mulan se sentia estranhamente nervosa. Já lutara várias vezes antes, mas nunca estivera em uma guerra de verdade. Essa seria sua primeira grande batalha. Parou de pensar por um instante, respirou e tentou se acalmar. Tudo daria certo. Estavam em vantagem numérica. Todos voltariam bem para casa.
– No que você está pensando? – Questionou Isabel.
– Em nada. Estou apenas um pouco nervosa. Mas eu tenho você aqui pra me tranquilizar, então vai ficar tudo bem. – Respondeu Mulan segurando a mãe da amada.
Após algumas horas de viagem finalmente chegaram ao território da família Matina. O castelo era enorme, com torres altas e um grande bosque ao redor. O bosque facilitava a situação deles, pois ocultaria a chegada, mas as torres facilitava o ataque dos adversários. Apesar de tudo, aquela noite não seria nada fácil.
– Certo, chegamos! – Anunciou Pedro. — Hora de separar as equipes. Os que irão para frente de ataque comigo podem preparar suas armas e me seguir. Abriremos alguns metros à frente da equipe de apoio.
– Os soldados da equipe de apoio também podem se preparar, assim que eu der o sinal, seguiremos atrás da frente de ataque. – Disse Robin.
– Bom, os arqueiro já podem começar a se posicionar. Procurem por lugares altos, com visão para o castelo e para o campo aberto. Porém, mantenham-se escondidos. Nossas flechas podem ser mortais, mas as flechas inimigas também. – Ordenou Filipe.
Todos os soldados seguiram as ordens de seus respectivos lideres. Isabel achou um lugar onde tinha uma visão ampla e direta das duas maiores torres. Mas ao mesmo tempo era um lugar escondido e protegido por grandes pedras.
– Eu vou ficar aqui mesmo. Consigo visualizar as duas torres principais e um pouco do portão de entrada.
– Tudo bem. Mas se mantenha atrás das pedras. Você precisa se proteger, não se esqueça de que eles também têm arqueiros. – Pediu Mulan.
– Não se preocupe só alguém com uma mira melhor que a minha me acertaria. E eu acho que não existe ninguém com a mira melhor que a minha. – Respondeu Isabel rindo.
– Eu preciso voltar. Vou ficar com o Filipe, pois nenhum de nós usa arco e flecha. Então, ficaremos liderando vocês dá entrada do bosque.
– Certo, mas você também precisa se proteger. – Dito isso Isabel abraçou Mulan.
– Eu te amo. – Disse a Mulan.
– Eu também te amo. – Respondeu Isabel.
O abraço forte durou longos segundos e foi finalizado por um beijo intenso e apaixonado. E como Mulan era louca por aquele beijo. Seu maior medo agora era nunca mais tê-lo.
Quando chegou onde Filipe se encontrava, Mulan achou-o montado em seu cavalo sozinho.
– Todos os arqueiros já estão em posição. E a equipe do Robin acabou de partir. A primeira batalha acaba de começar. – Disse o príncipe à amiga.
De onde estava, Mulan tinha uma visão privilegiada do castelo. Podia ver o campo aberto, a entrada e todas as torres. Era como se tivesse pegado o melhor lugar na plateia para assistir a uma peça teatral.
Acompanhou a equipe de ataque avançar durante alguns minutos, quando finalmente um inimigo apareceu em uma das torres e atirou a primeira flecha. O alvo era Pedro, que foi rápido o suficiente para se proteger com o escudo. Logo em seguida um dos arqueiros respondeu com uma flecha certeira, que atingiu o peito do homem. “Aposto que foi a Isabel.” pensou Mulan.
Foi a partir disso que a batalha realmente começou. Os portões se abriram e cerca de 10 homens saíram em seus cavalos com suas espadas em mão.
O tempo de resposta da equipe de ataque foi surpreendente. Eles começaram a avançar mais rápido. Quando finalmente estavam lutando a adrenalina se espalhou pelo corpo de Mulan. Ela viu soldados sendo atingidos em ambos os lados, mas a vantagem da equipe liderada por Pedro era evidente. Estavam em número maior e lutavam melhor.
Espadas atingiram armaduras. Flechas atingiram cavalos. Houve baixas em ambos os lados. Mulan e Filipe quase não tiveram que trabalhar, apenas gritaram algumas ordens para os arqueiros como: “Atire na torre norte!”, “acerte o soldado da torre sul!”.
Após muito sangue derramado, sendo a grande maioria sangue inimigo, a batalha terminou. A equipe de ataque finalmente entrou e tomou o castelo.
– Venham, arqueiros! Vamos nos juntar aos outros dentro do castelo. – Gritou Filipe.
Ao passar cavalgando pelo campo aberto, Mulan não conseguia desviar os olhos dos corpos estendidos no chão. Agradeceu por ter visto apenas três rostos conhecidos. Todos os outros eram inimigos.
– Por mais que eles fossem nossos inimigos, eu estou mais triste do que achei que estaria. – Comentou Isabel, resgatando Mulan de seus pensamentos.
– Talvez com o tempo a gente se acostume e acabe não sentindo nada. – Respondeu Mulan.
Quando chegaram ao salão principal do castelo encontraram Pedro e o Rei Augusto posicionados de frente para todos os soldados.
– Estou imensamente agradecido pela ajuda de vocês. Agora que tenho minha casa de volta, prometo lutar com a mesma determinação para recuperar os outros reinos. E todos os meus homens farão o mesmo. – Disse o Rei.
Mulan estava encantada com o castelo. O salão principal era enorme, com grandes e deslumbrantes esculturas por todos os lados. Mas a peça mais bela era o trono. Com estrutura de ouro e um estofado vermelho de veludo magnífico. Estava se aproximando de uma escultura enorme quando foi pega de surpresa. Um homem saltou de trás da escultura com a espada na mão e posicionou-a com a ponta na garganta de Mulan.
– Ora, ora. Uma mulher em batalha. – Disse o homem enquanto andava, obrigando Mulan a ir de costas em direção ao centro do salão.
Não demorou mais que alguns segundos até que todos percebessem o que estava acontecendo. De repente inúmeras armas estavam apontadas para eles. Flechas posicionadas nos arcos, espadas estendidas e facas prontas para serem lançadas. Mas Mulan estava muito vulnerável. Qualquer movimento de um de seus aliados faria com aquele homem atravessasse sua garganta.
– Caso não tenha percebido, você está cercado. Pode ser que consiga me matar, mas jamais vai conseguir escapar. Talvez, se você não fizer nenhuma besteira, podemos te deixar sair vivo. – Disse Mulan com toda a calma que conseguiu encontrar naquele momento.
Com o canto do olho achou Isabel. Ela estava com o arco posicionado pronto para disparar. Mulan tinha certeza de que ela não erraria. Mas não tinha certeza se a flecha chegaria antes que a espada a degolasse.
– Eu não sou idiota, sei que vocês me matarão de qualquer forma. Mas posso te levar comigo, o que seria uma grande vitória, dada a minha posição. – Provocou o soldado.
– Não, nós não iremos te matar se você deixá-la ir. Te dou minha palavra que você sairá inteiro daqui. – Prometeu Filipe.
– Sua palavra? – Debochou o homem. – O meu líder também me deu a palavra dele. Ele prometeu que se invadíssemos os castelos teríamos finalmente um lugar seguro para morar e que ninguém se machucaria. Mas agora todos os meus amigos estão mortos e o desgraçado nem estava aqui para nos ajudar!
– Eu não sou como o seu líder. Nenhum de nós é! – Indagou Pedro.
Ao olhar mais uma vez com o canto do olho para Isabel, Mulan percebeu que ela estava se aproximando. O homem estava distraído e não percebia. Mas por que ela estava se aproximando, em vez de simplesmente atirar?
– Nós estamos te dando uma chance de sair vivo e livre daqui. Você abaixa essa espada, nós abaixamos nossas armas. Então, você poderá atravessar a porta e ninguém irá atrás de você. – Falou Filipe.
Isabel estava agora a apenas dois metros deles, mas ela não estava se aproximando do agressor, ela estava se aproximando de Mulan. “Mas o que ela está fazendo?” pensou Mulan.
– Eu perdi tudo, não tenho mais pelo o que viver. A única coisa que pode me dar satisfação agora é vingar a morte dos meus amigos.
A partir daí tudo aconteceu incrivelmente rápido. Mulan viu o homem recuar a espada para pegar impulso, mas de repente havia alguém entre eles. A espada desceu. Uma flecha zuniu e atingiu a nuca do inimigo, atravessando seu pescoço. O homem olho nos olhos de Mulan, olhou para baixo, olhou novamente para Mulan e sorriu. Seus olhos se reviraram e então ele desabou.
Atordoada, Mulan olhou para sua barriga e viu que não havia sido atingida. Então olho para o chão e seu mundo desmoronou. Isabel havia entrado na frente. Ela não estava se aproximando para atacar o homem, ela estava se aproximando para proteger Mulan.
A guerreira se ajoelhou ao lado de sua amada, colando a cabeça dela em seu colo.
– Isabel! Por que você fez isso? – Perguntou Mulan com a voz embargada pelo choro.
– Eu tinha que te proteger. Jamais conseguiria acertá-lo sem que ele te acertasse antes. Eu tinha que garantir que você iria ficar bem. – Respondeu Isabel com um leve sorriso no rosto.
Mulan olhou para a espada e agradeceu aos céus quando percebeu que não havia atravessado. Apenas a ponta da espada havia entrado. Se corressem para o acampamento e cuidassem bem da ferida, Isabel iria ficar bem. Isabel tinha que ficar bem.
Filipe se aproximou e pegou Isabel no colo, levando-a até uma das carruagens. Mulan os acompanhava logo atrás.
– Mulan, ela vai ficar bem. Nós vamos conseguir chegar a tempo de salvá-la. – Disse Filipe tentando consolar a amiga, que nada respondeu.
Logo todos estavam a caminho do acampamento, deixando apenas cinco homens para guardar o castelo e enterrar os corpos no bosque.
Mulan segurava a mão de Isabel o tempo todo e fazia de tudo para mantê-la acordada. “Só mais um pouquinho, aguenta só mais um pouquinho.” ela pedia. E Isabel aguentou, depois de poucas horas chegaram ao acampamento, com Isabel ainda acordada. Nesse momento precisavam correr contra o tempo para que ela sobrevivesse.
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