Notas iniciais
Olá, queridos e queridas. Antes, gostaria de ressalvar as notas da história: "Uni&Verso" é derivada (sim, um spin-off) de "Mnemônico", também escrita por mim e disponível para leitura aqui na Nyah, Spirit Fanfics, Wattpad e Inkspired. Mas, afinal, por que escrevi este extra? Primeiro porque não tenho vergonha na minha fuça de burguesa (Deus mi livre, mas quem me dera) safada e estou enrolando para dar continuidade à história-fonte; segundo porque quis participar do desafio mensal com um tema sugerido pelo projeto SquadYuri - um projetinho maravilhoso criado com o intuito de enaltecer e aumentar as fanfics e histórias com o gênero Yuri - da Spirit. Inclusive, sou membro oficial dele e auxilio como Beta Reader, quero divulgá-lo, então, utilizarei de meu melhor armamento para tal. :v Outra vez, ressalvando: críticas/sugestões, desde que construtivas, comentários fofinhos dizendo que gostou, são (sempre) bem-vindos. Boa leitura!

— Vick, a professora vai brigar com a gente de novo se você não vir logo. — Trinity alertou pela terceira vez no dia. Vitória revirou os olhos, mas se apressou em acompanhar a turma, como a amiga recomendou.

Para começo de conversa, em realidade, Trinity não era amiga de Vitória. As duas eram excluídas — como seres renegados — da turma.

Trinity, gorda, com seus óculos de fundo de garrafa e roupas infantis, tendia a não ser uma boa pedida para o ciclo de amizades — a não ser para um belo alvo de bullyng.

Vitória, recém transferida em virtude de uma expulsão pela segunda escola que frequentara na vida, num tempo recorde capaz de ganhar um Oscar, tinha o pavio mais curto que um palito de dente, o que, para alegria dos afortunados e afortunadas, foi um presente pós-férias de verão para a prática de provocações alheias. Em parte, deu certo, entretanto, ninguém contava com os hematomas — e não foi Vitória que os recebeu.

Resumindo: se afastam de Trinity por preconceito e desdém; de Vitória, por medo e ódio. No fim das contas, a minoria se une ao combate, não é? Ou, pelo menos, a ideia é essa.

Outra vez, Vitória se perde visualizando os grandes esqueletos animalescos de um dos principais museus de Dallas, Texas. E era fato não ser a primeira vez a ir em Perot, entretanto, era também sempre interessante todo a evidência de ciência e natureza que o lugar disponibilizava. Gostava de visualizar os detalhes, comparar os tamanhos, ler as plaquetas com informações da exposição e todas essas coisas que, normalmente, ninguém na sua idade daria tanta bola, ao passo que não percebia a sua turma se distanciar novamente. Trinity deve ter perdido a paciência em alertá-la ou nem percebeu a falta da menina.

— É legal, né? — ouviu alguém dizer.

Ao virar-se, constatou uma moça ao lado, muito mais alta que ela mesma. Parecia mais velha também. Tinha pele negra, cabelo curto e encaracolado com as laterais da cabeça raspadas. Ademais, o que realmente captou a atenção de Vitória, foram os olhos da mulher. Havia um brilho genuíno, o que estranhou, pois não se tratava de alguém que parecia conhecer.

— É sim. Eu... te conheço? — questionou de maneira direta.

— Acho que não. Então: sou a Natasha. — respondeu a moça, estendendo uma mão para Vitória. Um tanto desconfiada, a (possivelmente) mais nova cumprimentou a recém-conhecida. — Tenho uma amiga que quer te conhecer também.

— Espera. Você me conhece ou não? — indagou Vitória, de novo, confusa.

— Digamos que sabemos quem você é. — Natasha respondeu com um sorriso gentil, mas não tirou a dúvida da menor.

Em seguida, a mais velha desviou o olhar e Vitória a acompanhou nisso. Atrás de si, outra mulher deu o parecer e, para Vitória, era como olhar para um espelho. Um espelho futurístico.

— Essa é a Angel. E, sabe, queríamos conversar com você...

Mas Vitória quase não ouviu o que Natasha dizia. Estava vidrada na figura a sua frente.

Era como uma sósia. Mais alta, de cabelos mais compridos e menos magricela, no entanto. Mas a cor do cabelo, castanhos bem escuros, era a mesma. Os traços do rosto eram os mesmos. O maxilar quadriculado. O nariz reto, as sobrancelhas quase pretas, os olhos castanhos claros. E, definitivamente, o olhar era o mesmo.

Vitória não entendeu bulhufas.

XXX

— A diretora ligou, Vitória. Por que não voltou junto da turma?

— Eu me perdi da turma, então voltei sozinha. — murmurou Vitória, pendurando a mochila na parede do quarto.

— Você é cheia de desculpas, menina. Se eu souber o que anda aprontando, vou contar pro teu pai. — alertou sua mãe, Jane, fechando a porta do quarto com força após. Vitória bufou e tentou não se estressar, mas só tentou.

Definitivamente, dos moradores daquela casa, a única que se salvava era Valery, sua irmã mais nova. Seus pais competiam para ver quem era o mais insuportável da família Stivers. Mal sabiam que o título sempre será da própria Vitória. Ela fazia questão de roubar o cinturão todos os dias.

Falando em Valery, a baixinha apareceu procurando alguma coisa. Nem cumprimentou a irmã. Apenas abriu a porta e começou a fuçar pelos cantos. Embaixo de sua mesa de estudos, atrás do criado-mudo ao lado da cama, depois debaixo da cama, dentro do armário. Vitória revirou os olhos, observando sua invasão.

— Val, esse quarto ainda é meu, sabe? Te aviso quando for embora.

— Hãn!? Como assim, você vai embora? — questionou Valery, finalmente captando a presença da irmã mais velha. Vitória sorriu.

— Não, não vou. O que tá procurando?

— Você não vai embora mesmo, né? Vick, não dá pra jogar futebol com o pai! Ele joga muito mal!

— E você joga bem desde quando, anã? — questionou Vitória, dando risada. — Já falei que não vou. Agora, vai dizer o que diabos quer aqui?

— Agora eu esqueci, mas depois volto pra procurar. — Valery disse simplesmente e saiu do quarto. A mais velha só franziu o cenho e meneou a cabeça. É, reformulando: ninguém se salvava naquela casa.

Ignorando as cenas anteriores, começou a se despir, mas não se conteve em olhar ao espelho e analisar-se com intensidade. E pensar que havia pensado em coisas tão absurdas quando se tratava de algo, aparentemente, muito simples.

Pelas informações repassadas de maneira assídua pelas recém-conhecidas, a “sósia” é, nada mais e nada menos, filha de seu tio, Jaxton, irmão mais velho de sua mãe. Na hora, ficou perplexa com a revelação, pois seu tio era como um pai para si — mesmo rotineiramente longe por ser um oficial das Forças Armadas, mas, quando presente, fazia questão de compensar todo o tempo que passara afastado. Praticavam tiro ao alvo juntos, passeavam pelos centros comerciais da cidade, conversavam até dizer chega — e, não, ninguém dizia chega.

Jaxton era um figurásso. Tanto que, por sua influência, a jovem Stivers também quer servir ao exército. Porém, nem enlouquecida para contar aos pais. Eles querem que ela seja professora. Nada a ver.

Todavia, Vitória não acreditaria nessa história, afinal, Jaxton nunca mencionou nada desse cunho, mas negar as semelhanças da garota consigo mesma seria um sacrilégio. Sinceramente, se perguntava da possibilidade de ser uma irmã mais velha do que uma simples prima em vez.

Por fim, Angel admitiu que Jaxton não sabe sobre a sua existência. Quer contar, mas também sabe que o felizardo pode vir a se afastar de Dallas por meses por conta do serviço. Então, por hora, quer se habituar a cidade, pois acabara de mudar junto de sua amiga, a moça que se apresentou primeiro, Natasha. Inclusive, pediu a Vitória que não mencionasse nada para sua família até que se resolvesse com o pai. Bom, ela não se intrometeria mesmo. Mas...

Com Vitória sempre haverá um “mas”. Ela era a desconfiança em pessoa.

Se não queria que a família de Jaxton — sua própria família que incluí Vitória, aliás — soubesse, por que contou para ela?

E por que tão de repente?

XXX

Cá estava ela em mais um dia no infernal Ensino Médio. Muitos sabiam de sua peripécia, ou seja, que não havia voltado junto de sua turma no passeio do dia anterior. E é claro, boatos se espalham e já se ouvia os sussurros. Às vezes, fingia esquizofrenia e ignorava. Mas dá para ignorar quando seu armário, aparentemente, não abre por causa de uma — despercebida — super cola?

Vitória não ouvia só sussurros agora, mas também risadas. Para colher sua atenção, uma mão pousa em seu ombro esquerdo e um caderno aparece em frente aos olhos. Ao conferir de quem se tratava, viu sua mais nova “amiga”. Ela havia mencionado que passaria a estudar ali, lembrou-se. E, felizmente, com isso, os sussurros se dissiparam. Quer dizer, ao menos, não falavam mais de Vitória.

— Eu vi quem foi.

— Não diga. Se disser, vou quebrar a cara dessa pessoa e não posso ser expulsa pela terceira vez. — Vitória vociferou, bufou e acabou por pegar o caderno oferecido por Natasha sem nem agradecer.

— Você é bem estressada. — murmurou Natasha. Tinha um sorriso de deboche. Muito irritante para a irritável Stivers.

— Uau. Que surpresa. Descobriu por onde? Orkut? — ironizou. Natasha riu alto, fazendo a menor fitá-la como uma incógnita.

— Sinceramente? Não queira saber.

Vitória franziu o cenho ao ouvir isso, mas ignorou — como tudo em sua vida —, continuando a caminhar com a mais alta ao lado.

— Agora tá jogando no outro time, hein, Stivers? — disse Mico, um retardado do terceiro ano, barrando a passagem de Vitória para subir as escadas ao segundo andar do prédio.

Ela ia retrucar, já era hora de o imbecil dar as caras, era compromisso em sua minúscula agenda mental — já que coisas maiores não estariam acessíveis a um local tão pequeno —, mas uma silhueta para em sua frente e tapa a visão. Pela jaqueta — a mesma de ontem —, soube identificar quem era.

— Ei. Se afaste. — demandou Angel.

Ao redor, todos pararam para visualizar o embate. Briga escolar era como o jogo final da Copa. Você assiste até quando não quer, e olha que o seu país foi eliminado na fase de grupos.

— Uau. Gêmeas? — caçoou Mico, claramente impressionado com a afinidade entre as duas. — Mas você, com certeza, é muito mais linda.

— Vou contar até três, senão provarei o quão semelhante podemos ser. Você escolhe. — A voz de Angel soava tão firme que a própria Vitória sentiu medo por Mico.

— Angel. — Natasha chamou. Parecia querer evitar que a parceria entrasse em problemas.

— Beleza, gata. Pode passar. — Mico deu espaço na maior cara de pau possível.

Vitória subiu na frente e nem checou se a dupla viria atrás, mas sabia que sim. Não entendia por que toda a proteção, entretanto, mesmo assim, sentia-se grata.

O sinal tocou finalmente. Antes de adentrar a sala, olhou para trás e as viu um pouco afastadas junto ao que restava de alunos no corredor. Natasha sorriu sem mostrar os dentes e acenou antes de adentrar uma das salas do terceiro ano. Já Angel, demorou o olhar em Vitória antes de seguir a amiga.

Novamente, Vitória não entendeu bulhufas.

XXX

No intervalo, Vitória fugiu da perseguição de alunos que não tinham o que fazer da vida para conseguir estudar para a prova de Física, pois enrolou a semana inteira e não lembrou em nenhum momento da bendita.

Estava sentada embaixo da arquibancada do campo de futebol. Raramente estudantes apareciam por lá, a não ser para efetuar atos libidinosos. Porém, quando a viam, iam embora resmungando, e ela não estava nem aí.

De maneira espontânea, sentia que uma de seus guarda costas apareceria a qualquer momento. Então, ouviu passos próximos e desviou o olhar do caderno para cima. Sim, Vitória está com uma sensação estranha desde o início da aula. Está até prevendo o futuro.

Era uma de seus guarda costas, e sósia. Angel se sentou na grama, parecendo até confortável. Os cabelos ficaram sobre os ombros e a franja cobriu o olho direito. Estava calor, então, também retirou a jaqueta, deixando à mostra uma simples regata preta. Vitória se abalou com a aparente boa forma da garota, então não resistiu em perguntar:

— Você luta alguma coisa? Boxing ou sei lá?

— Eu gosto de Hapkido.

— Eu também gosto! — Vitória falou com um ânimo estranho até para si mesma, mas se recompôs. — Jax diz que Taekwondo é melhor.

— Talvez ele esteja errado. — argumentou Angel.

— E está. — concordou Vitória, tentando retomar a leitura de suas anotações. — Cadê a sua amiga?

— Ocupada em despachar alguns galãs. — comentou Angel e se aconchegou melhor no gramado, inclinando-se para trás e se sustentando com as palmas das mãos. — Ela é muito simpática. As pessoas tendem a entender errado.

— Sinceramente, até eu entenderia. — murmurou Vitória, lembrando-se do sorriso de Natasha mais cedo. Podia ser de deboche, mas não era feio. Meio travesso, aliás.

— Até você?

— Foi ironia, OK? — quis ressaltar na defensiva. Angel apenas sorriu. Vitória se sentiu olhar para o espelho outra vez.

— Eu não disse nada. Mas é interessante estar aberta a possibilidades.

— Que possibilidades? — A mais nova sentiu um rubor nas bochechas.

— Já ouviu falar do multiverso?

— É sério? — Vitória praticamente resmungou.

— É uma teoria. Válida ou não, as ciências foram provadas baseando-se em teorias.

— OK, prossiga, doutora. — Vitória deu de ombros e fechou o caderno de anotações. Dane-se a Física.

— Não é interessante pensar que estamos em um pote infinito de universos? — comentou Angel. Em seguida, se aproximou e sinalizou como se quisesse pegar o caderno da mais nova. A menor deu de ombros outra vez, então ela o pegou. — Mas sinto que, às vezes, esses “versos” podem ser mais fáceis de serem descobertos do que imaginamos. Talvez não precise estar lá fora. Podem se basear em nossas escolhas, por exemplo. Então, pode não ser preciso um novo universo para que as coisas sejam diferentes.

— Aonde quer chegar com tudo isso?

— Não sei. Só queria dizer, de uma forma mais reflexiva, que não é ruim não ser confiante da pessoa que é hoje e que estar aberta às possibilidades te fará suportar o baque das mudanças.

— Eu não entendi nada, mas você fala como se me conhecesse, sabia? — pontuou Vitória.

— Eu não quis ofender e isso não é válido só pra você. — Ela deu de ombros.

— Não ofendeu, só... — Vitória abanou com as mãos, tentando expressar algo. — é estranho. Mas tá tudo bem.

— Superposição de pulsos e superposição de ondas periódicas não são a mesma coisa, Vitória. — afirmou Angel, de repente.

— O quê?

— Seu caderno. Aqui está errado. — Mostrou as anotações para a mais nova e indicou uma parte com o dedo. Vitória arregalou os olhos ao constatar o erro que dizia.

— OK, eu sei disso. Foi sem querer. — Vitória pegou o caderno de volta, totalmente envergonhada (detestava estar errada), mas colocou um “X” ao lado do parágrafo para corrigir mais tarde.

— Eu não disse nada demais. — murmurou Angel. Parecia estar gostando daquela situação.

— Você diz não ter dito nada quando já disse. Diz não ter o que comentar e comenta logo depois. As pessoas não curtem gente muito indecisa, sabe? — Vitória disse e levantou-se, batendo as mãos nas vestes para tirar o pouco de grama que poderia ter grudado no tecido.

Você não gosta de pessoas indecisas. — ressalvou Angel.

— Esse negócio de você falar as coisas como se me conhecesse já tá irritando. Sério, já falou com Jaxton ou não?

— Uma vez, por telefone. Mas ele não sabia que eu era eu. — Angel se levantou também.

— E o que ele disse? — Vitória ficou realmente curiosa para saber o que seu tio poderia ter dito de si aos outros.

— O suficiente. — Angel respondeu enquanto vestia a jaqueta. Depois, dando um pequeno aceno, caminhou em direção ao prédio. Vitória não sabia se revirava os olhos pela resposta ou porque Angel tinha o corpo que desejava em si — em bom sentido — mais do que ser oficial das Forças Armadas.

XXX

Fim da aula, início das práticas esportivas. Para Vitória, era correr. Outrossim, só praticava seu amado Hapkido aos fins de semana pelas manhãs, mas na casa de seu tio, escondida dos pais. Dizia ir para biblioteca em vez. Jaxton sempre deixou uma chave reserva e uma arma — por mais irresponsável que parecesse —, a fim de que a sobrinha pudesse usufruir de um espaço e se protegesse, já que estaria sozinha neste meio tempo na maior parte das vezes. Em ambas percepções, do tio e de Vitória, praticar em uma escola de artes marciais seria arriscado. As ruas têm ouvidos e as calçadas tem vozes. Aliás, só tem para o que é irrelevante, não é mesmo?

Logo, para mostrar aos pais que se exercita sem contar a verdade verdadeira, se dedica a correr pelo campus após as aulas. E sempre fora muito rápida, aliás. Era um ótimo dom quando precisava fugir de uma encrenca — e análise essa frase na forma mais literal possível.

Depois de várias voltas, foi às duchas e tomou um prolongadíssimo banho. Não queria voltar para casa tão cedo e lidar com as reclamações da mãe, os questionamentos estúpidos do pai ou vê-los mimar Valery enquanto usavam a imagem da irmã mais velha como um péssimo exemplo de ser humano para aliená-la. Tudo bem, não era santa, porém, não traz justificativa às atitudes dos cujos ditos.

Ao secar-se e se preparar para ir ao armário pegar suas roupas, rezando para que não houvesse outra surpresa com super cola, ouviu vozes reconhecíveis e parou no meio do caminho.

— Eu disse para não falar com ela sem que eu estivesse por perto. — Natasha disse. Seu tom era de repreensão. Vitória franziu o cenho, enrolou a toalha com mais firmeza no corpo e deu passos mansos, se aproximando da saída das duchas e entrada do vestiário. — Era só uma regra, Stivers.

— Desculpe. Eu não ia. Mas é tudo muito nostálgico. — ouviu Angel dizer. A mais nova sentia o coração bater mais rápido. Agachou-se próxima a porta, esgueirando para olhar e continuar ouvindo a conversa.

— Você não é assim. Não deveríamos nem ter falado com ela, pra começo de conversa. — afirmou Natasha e deu as costas para Angel, mas só para sentar-se em um dos bancos em frente aos armários de metal barato. Entretanto, Vitória quase teve um infarto com a possibilidade de ser vista. — Eu só quero ir embora.

— Desculpe se te forcei a isso. — murmurou Angel. O jeito que falavam uma com a outra, agora, era diferente. Vitória se sentia um pouco estranha com aquele clima.

Angel tirou a blusa de moletom cinza que vestia e pousou no banco, soltando o cabelo após. Natasha fitava o chão e não parecia estar aberta para conversas. Ambas vestiam o uniforme de Educação Física do Colégio Lutheran.

A sósia então se ajoelhou em frente a Natasha, puxando suas mãos para si e pousando em seu rosto.

— Desculpe, Nath.

— Eu quero quebrar uma regra também.

— Não tínhamos mais regras além daquela. — argumentou Angel, sem entender.

— Não estou falando de regras nossas. — murmurou Natasha. Elas mantinham os olhares pendurados uma a outra. Uma coisa estava acontecendo e Vitória não conseguia (ou não queria) assimilar que acontecia, mas a prova veio no instante seguinte.

Natasha se inclinou e selou os lábios de Angel. De onde estava, Vitória ainda vislumbrava tudo em mínimos detalhes. Ouviu até o choque seguinte das bocas, mais urgente, respirações altas e a falta de oxigênio momentânea. Pelo jeito, só elas (incluindo Vitória) estavam presentes no local para tamanha ousadia.

Angel foi se levantando, e Natasha fincando as mãos em sua perna coberta pela calça, a puxando para, enfim, sentá-la em seu colo. As mãos subiram e fincaram nos braços um tanto atléticos da sósia que, de igual maneira vigorosa, explorava os ombros e costas da mais alta.

Vitória se sentia culpada por visualizar algo extremamente íntimo — e quente —, mas não conseguia desviar o olhar. Nunca havia visto duas mulheres daquela forma, então, a curiosidade acabou por acompanhar o raciocínio. Mas não era só isso.

O jeito fugaz que se olhavam antes de voltarem a se beijar era lindo. Vitória soube de imediato que se gostavam, sem dúvidas. Talvez mais do que gostar. Talvez não houvesse mais ninguém para confiar como confiavam uma na outra. Mas a jovem Stivers só podia deduzir isso. Quer dizer, no momento, observar também.

Angel passou a beijar o pescoço de Natasha. Vitória engoliu em seco. Sentiu algo pesado descer ao estômago e um formigamento entre as pernas. Natasha beijava os ombros da sósia enquanto isso, apertando-a contra si e raspando os dentes pelos lábios para — tentar — controlar o que sentia. De vez em quando, fechava os olhos, abria a boca como se quisesse dizer algo, mas só deixava um alto suspiro sair. Também descia as mãos pelas costas da parceira com força.

Angel voltou a beijá-la, mas, ao mesmo tempo, se mexia no colo da moça, que abria mais as pernas para achegá-la. Em dado momento, pararam de se beijar outra vez e a Stivers mais velha manteve as mãos pousadas no ombro da outra, iniciando completamente a famosa (não para Vitória) dança de colo. Natasha prensou as mãos pela cintura dela, seguindo os movimentos e pressionando seu corpo para baixo. Suas palmas não conseguiram permanecer apenas ali, então subiram aos seios e clavícula de maneira incisiva, até que se levantou de maneira bruta, mantendo a parceira no colo e a prensando em um dos armários, o que fez um baque enorme ecoar pelo local. Porém, não pareceu ligar. Os lábios de Angel se abriram e pareceram dizer “calma”. Entretanto, se foi isso mesmo, a mais alta não deu a mínima de novo, pois voltou a beijá-la logo.

Vitória finalmente saiu do(a) transe(a), desviando o olhar e o mantendo longe da luxúria. Engoliu em seco outra vez, estava até um pouco ofegante. As pernas pareciam dormentes. De uma hora para outra, sentiu uma vontade absurda de sumir dali. Sentia-se intrusa — mas, afinal, que culpa tinha? As duas começaram a se pegar em pleno vestiário da escola.

Como se ouvissem suas preces, vozes não conhecidas se espalharam, o que constatou outras pessoas presentes no vestiário. Pelas conversas amenas, Angel e Natasha deviam ter se desvencilhado antes da entrada das mesmas. Entretanto, a fim de evitar um possível cara a cara, Vitória se enfiou em uma das cabines das duchas e fechou a porta. Só sairia dali quando não houvesse sequer a voz de uma alma penada presente.

XXX

Estava confusa, surpresa, angustiada e estranha. Estava muitas coisas no momento, mas focou-se em parecer não sentir durante o jantar da família Stivers. Qualquer transparência poderia gerar dúvidas e perguntas desnecessárias que acabariam em conclusões desconexas com discursos discriminatórios e proibitivos. Contudo, na maior parte das vezes, seus pais faziam isso sem que manifestasse nada.

— Chegou tarde hoje. — comentou Jane, enfiando uma garfada de macarrão com queijo na boca. Há muitas coisas que Vitória poderia dizer sobre sua mãe, mas dizer que a maldita cozinhava mal seria perjúrio.

— Cheguei antes das seis. — respondeu Vitória, sem fitá-la, focando em seu belo prato também de macarrão, mas com queijo ralado por cima.

— Eu sei e não é uma acusação, Vitória. — rebateu Jane.

— Então o que é? Eu corro todos os dias depois da aula e você sabe.

— Por que tem que sempre dar respostas desse jeito, Vitória? — questionou o seu pai, Zach. Ele era como um estranho. Só o via no jantar e olhe lá. Às vezes, jogavam futebol juntos sim, mas só porque Valery a infernizada.

Vitória respirou fundo. Não gostava de conversar com eles. Não pareciam querer realmente conversar. Era tudo completamente diferente com Jaxton.

Sentiu uma forte saudade do tio.

— Desculpe. Eu corri mais que o normal e estou meio cansada.

— Não esqueça de descer seu cesto de roupas pra lavanderia antes de dormir. — alertou sua mãe. Ela revirou os olhos por dentro. Era isso. Alertas e mais alertas. Obrigações e mais obrigações. Mas assentiu em concordância.

Todavia, algo cutucava a sua mente e aproveitou para perguntar.

— O tio Jax não tem filhos, né?

— Oras, por que a pergunta? Sabe que não. — Jane respondeu, franzindo o cenho. — Seu tio nunca se interessou em ter família. O trabalho é só o que importa pra ele.

— Aliás, se tivesse, a criança seria criada só pela mãe. Ele não volta pra casa nem pra dormir. — comentou Zach. Vitória se controlou muito, mas muito, para não rir. Parecia irônico, mas pena que não.

Depois disso, sem questionar o motivo da pergunta da filha mais velha, eles prosseguiram falando mal de Jaxton e de outros parentes. Vitória não se importou, voltando a comer em silêncio.

E era assim. Nunca perguntavam como havia sido o seu dia.

Após o jantar, subiu ao quarto e se trancou, orando para que não houvesse outra interação para o resto da noite. Já houvera interação demais. Ela presenciou interações demais.

Agachou-se próxima a cama e puxou um pequeno baú debaixo. Abriu e pegou seu MP3, junto aos fones de ouvido. Estavam meio surrados e apenas com um lado funcionando. Teria que pedir um novo ao tio.

Tirou as pantufas dos pés e deitou-se na cama por cima do cobertor. Selecionou a faixa “I’m With You” de Avril Lavigne para tocar, uma de suas artistas preferidas. Até queria mudar o repertório, porém, outra vez, teria que pedir ajuda ao tio. Seus pais não tinham um computador em casa, pois diziam distrair demais.

Mudando de perspectiva, voltou a se sentir intrigada. Sobre o que conversavam Natasha e Angel antes daquilo? Sabia que era sobre ela, porém, não entendia o motivo.

Por que Angel disse ser nostálgico? Já viveu por aqui?

Querendo ou não, Vitória não engoliu mesmo o papo de “filha desconhecida”. Conhecia o tio como a palma da mão. Sabia praticamente tudo sobre ele. De sua banda favorita até as paixonites mais escrotas. Inclusive, na última vez em que o viu, disse estar apaixonado por uma enfermeira do acampamento. Até se feria de propósito para vê-la.

Jaxton era bobo, mas não diria descuidado. Tanto que boa parte das orientações que Vitória obteve foram repassadas por ele. Não o admirava só por ser um cara bacana, mas também por ser responsável.

A dúvida estava pendendo. A palavra nostalgia não saia da cabeça dela. Aquela garota já deve ter a visto antes. Agora, quando?

Então, teve uma ideia. Queria questioná-la, mas também queria se aproximar. Aquelas garotas, independentemente do que faziam ou sentiam entre si, o que também gerava inúmeros questionamentos para a menor, não pareciam más pessoas.

Era uma ótima chance para obter amigos na nova escola.

XXX

Foi uma péssima ideia.

Vitória não conseguia olhar nos olhos delas nem por miseráveis segundos. Sempre que tentava, lembrava-se do vestiário, do beijo e de todo o resto, morria de vergonha e fugia. Agora, não houve como, pois, a encontraram no refeitório e sentaram-se juntas para almoçar.

— Ei, Vick. — chamou Natasha. Angel fitou a parceira de soslaio, depois prosseguiu comendo a refeição. — Você tá bem? Parece pálida.

— Ah, não. Tô bem. — Vitória respondeu, sem graça. — Eu sou assim mesmo. Branca demais.

— Isso eu já percebi. — Natasha comentou, dando risada e sorrindo daquela maneira novamente. Agora, Vitória analisou por outro aspecto. Não era um sorriso de deboche, diria que um charme da moça. — Aliás, por que sempre está sozinha?

— Ela se transferiu há pouco tempo, Natasha. — respondeu Angel em vez. Seu tom de voz parecia ríspido. Vitória ficava invejada com a dicção da garota. — Como nós. Mas você sempre dá seu jeito.

— Eu não dou jeito de nada. Socializar é um dom. — justificou-se Natasha com uma cara de como quem não tem culpa. Vitória riu. A mais velha deu um sorriso largo com isso. — Aliás, tudo bem? A gente sabe que começou a interagir de um jeito meio estranho, mas é que realmente não conhecemos mais ninguém da cidade.

— Não, não, sério. Tá tudo bem. — respondeu Vitória, tentando focar na sua refeição. — Inclusive, queria fazer uma proposta a vocês.

— Que proposta? Eu gosto de propostas. — confessou Natasha, parecendo empolgada. Angel apenas fitou Vitória e aguardou a menina falar.

— Você luta, não é, Angel?

— Sim. Um pouco. Natasha também.

— Nem tanto. Sinceramente, me considero mais aqueles boneco de posto do que uma lutadora.

— É. Mas pense pelo lado bom. — murmurou Angel, fitando Natasha. — Bonecos de posto nem conseguem tentar lutar.

— Ah, com certeza. Animador, pode crer. — ironizou Natasha, revirando os olhos. Vitória riu mais uma vez. — Pode deixar que na próxima olimpíada, eu estarei lá. Um puta bonecão de posto mandando ver.

— Você é dramática demais. — comentou Angel, tomando um gole de suco. Vitória não sabia fazer outra coisa a não ser rir.

— O que seria da minha vida sem um drama? Olha, seja mais receptiva, como a Vitória, por exemplo.

— Vou pensar no seu caso. — murmurou a sósia, dando de ombros. — Olha, três garotas que lutam em um mesmo ciclo pode ser raro, a menos que você more na China ou Japão, sei lá. Então, fale a proposta, Stivers.

— Quase esqueci. — murmurou a mais nova, sentindo-se estranha ao ser chamada de Stivers. — Então, já que as duas lutam, queria saber se podíamos treinar juntas qualquer dia desses.

— Parece interessante. — Natasha murmurou, pensativa. — Onde você treina?

— Na casa do meu tio. E, não, ele está fora da cidade ainda. — A mais nova respondeu à pergunta muda de Angel. Ela assentiu em concordância. — Vocês podem ir comigo hoje a noite. Se ficar muito tarde, também podem dormir lá. Ele não liga.

— Eu topo. — Natasha respondeu de imediato. Mas a expressão de Angel não parecia afável.

— Tem certeza que... ele não pode chegar em breve? Seria, bem, incômodo lidar com essa situação. — A sósia tornou a questionar.

— Juro. Eu liguei pra ele ontem. Disse que voltaria na semana que vem. — apaziguou Vitória, começando a se sentir ansiosa.

— Entendi. — murmurou Angel, fitando-a nos olhos. — Alguma programação já definida, então?

XXX

Vitória informou o endereço para as mais velhas e combinou em encontrá-las às sete horas, pois teria que passar em casa antes e convencer a mãe de deixá-la passar a noite fora. Não foi uma tarefa fácil, mas dizer ser coisas de estudos amolecia a birrenta aos poucos. Nem viu o seu pai, que era a mesma coisa que nada, ao chegar ou sair de casa, o que facilitou. Valery chorou um pouco dizendo querer ir, mas Jane a controlou bem para deixar a irmã mais velha em paz. Uma noite livre da família era como ganhar na loteria para a jovem Stivers.

Pelo caminho de bicicleta, um pouco extenso e afastado da cidade, questionava-se sobre o que realmente faria. Queria se aproximar para fazer perguntas, mas também queria se aproximar só por querer. Não queria ser invasiva, mas elas mesmas foram no início, então dane-se esta parte, só faria o possível para não ser inconveniente ao derradeiro.

Ao aproximar-se da residência, viu duas silhuetas paradas com os braços apoiados sobre as divisórias que separavam a pista do terreno da casa. Atrás delas, um carango velho estava estacionado. Natasha acenou ao vê-la. Ela parou e desceu da bicicleta, tirando um molho de chaves do bolso detrás da calça jeans surrada. Usava botas pesadas, então fez bastante barulho ao pisar nos cascalhos perto da porteira.

— Desculpe, mas não sente medo em ficar em um lugar tão deserto? — comentou Natasha, incomodada.

— Já me acostumei. — Vitória riu. — Jax colocou câmeras ao redor, sinalizadores e tudo mais, então, aqui é seguro.

Ao responder, abriu a porteira e deu espaço para que as meninas adentrassem o terreno. O casarão era enorme, o que agradava a Vitória, então era impossível não se sentir bem vinda.

Passando pela varanda, abriu a tranca da porta e deixou as convidadas explorarem a sala de estar. O interior era aconchegante e rico de madeira polida, apesar dos móveis velhos (já alertara seu tio para que fizesse uma renovação, inclusive).

— Vocês estão com fome? Posso fazer alguma coisa, mas vai demorar um pouco.

— Não precisa, Vitória. — Angel respondeu analisando o recinto. — Ao menos não agora.

— Eu diria sim, mas Angel disse não, então é não. Me sinto oprimida. — balbuciou Natasha, sentando-se em uma poltrona.

— Bom, deixo pra depois então. Aliás, de onde vocês vieram? Sempre moraram no Texas?

— Não, somos da Carolina do Norte. — Angel respondeu. Parecia um pouco rígida. — Viemos depois que... a mãe de Natasha faleceu.

— Faz um tempinho já. Tá tudo bem. — Natasha disse com um sorriso no rosto. Vitória ficou impressionada com a tranquilidade da mais alta.

— Meus pêsames, mesmo assim. — murmurou Vitória, sentindo um nervosismo brotar. — E sua mãe, Angel?

— Ela ainda está em Carolina. Deixou que eu visse pra falar com Jaxton.

— Então já esteve aqui? — Vitória tornou a perguntar.

— Estive em Houston, não em Dallas. — Angel respondeu franzindo o cenho.

— Por que esteve em Houston?

— Por que tantas perguntas, Vitória? — questionou Natasha e seu tom não era comum. A mais nova ficou sem jeito.

— Certo, eu... preciso admitir uma coisa.

— É por isso que nos chamou aqui? — indagou Angel. Sua feição era mais rígida que nunca.

— Mais ou menos. — Vitória admitiu e sentou-se no braço do sofá ao lado da poltrona onde jazia Natasha. — Ouvi a conversa de vocês.

— Que conversa? — indagou Natasha com um cenho perfeito franzido.

— No vestiário. — Vitória engoliu em seco.

— Aí, meu Deus. — clamou Natasha, tapando a mão com a boca.

— E o que tem isso? — perguntou Angel, sem se intimidar.

— Você já veio aqui antes, não veio? — indagou Vitória, finalmente.

— Sim.

— Stivers! — Natasha chamou, aflita.

— Ainda não entendi por que estamos aqui, Natasha. Então, sinceramente, vamos contar e ver no que dá.

— Mas contar o quê? — Vitória não entendeu.

Neste momento, ouviu-se a maçaneta da porta da varanda girar. Vitória arregalou os olhos e, com a maior rapidez que pôde, foi até a poltrona de Natasha e agachou, pegando o revólver embaixo da mesma. Apontou para a porta e aguardou quem quer que fosse abrir.

Natasha olhava pasma para a jovem Stivers, já Angel estava atenta a quem poderia adentrar no recinto. Finalmente, a tranca destravou.

Um homem alto surgiu. Tinha vestes verde musgo, calçava coturnos altos e uma boina na cabeça. Ao deparar-se com o revólver apontado para si, automaticamente levantou as mãos para cima, surpreso. Mas Vitória abaixou logo ao constatar sua identidade.

— Tio! — gritou e sua alegria era visível até aos cegos. Correu apressada e o abraçou. Ele ainda estava surpreso, mas apertou a sobrinha entre os braços, relevando uma feição tranquila.

— Não pensei que estaria aqui, Vick. Mas estou feliz em ver que anda precavida! — comentou, dando risada pela cena anterior.

Natasha observou calada, Angel também, mas esta estava atônica.

— E quem são as suas- — Jaxton parou de falar ao bater o olho em Angel. — Céus. Um clone.

— Jax. — sussurrou Angel, levantando-se em seguida. Ela se aproximou do oficial e o encarou por longos minutos. Ele fez o mesmo, porém, porque ainda jazia impressionado com quão parecida era de Vitória. — É realmente um prazer revê-lo.

— Rever? — Vitória repetiu, mas, depois de desvencilhar do tio, ela quem ficou atônica.

Angel estava chorando. Mas ofereceu uma mão para cumprimentar o tio. Ele apertou, realmente não entendendo o que acontecia. Entretanto, a sósia o puxou para um abraço logo após.

— Obrigada por tudo. O senhor é incrível.

— Stivers. — Natasha chamou outra vez no canto da sala. Vitória sentiu o coração acelerar.

Natasha parecia estar... desaparecendo.

— Meu Deus! O que é isso!? — gritou Vitória, correndo para próximo da amiga. Já não se via o quadril e pernas da moça. — O que tá acontecendo!!?

A mais alta sorriu e pousou uma mão no rosto da jovem Stivers. Ela não entendia nada, mas passou a chorar. Olhou para trás e viu que Angel não estava mais com seu tio. Ele fitava as próprias mãos, incrédulo.

— Ei. — Natasha se pronunciou e ela a fitou de volta. — Eu te amo muito, minha linda. Foi bom conhecer esse lado da sua vida. Estou mais apaixonada que nunca por você.

Dito isso, não havia mais Natasha.

E Vitória finalmente entendeu tudo.

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