Unholiest
3 Nada comum
Notas iniciais
O silêncio tomou conta da mesa. Quinn encarava Rachel, incrédula. Sabia que não era verdade, pelo menos não podia ser. Magia? Isso não existe. Se bem que o que havia visto mais cedo definitivamente não era deste mundo.
“Como você sabe?” Perguntou Quinn, lançando um olhar intenso para Rachel.
“Sei do quê?”
“Como você sabe tudo isso? Quer dizer, se eu devo saber por que tecnicamente agora faço parte disso, como você sabe tanta coisa?” Rachel engoliu em seco e encarou a loira, pensando no que responder. Devia ser sincera? Mentir? Pensou até na possibilidade de quebrar a xícara de café na cabeça de Quinn para que desmaiasse e esquecesse tudo o que aconteceu. Mas não. Elas deveriam confiar uma na outra dali para frente.
“Sim, eu sou parte disso.” Respondeu Rachel. Quinn continuou a encará-la, um pouco mais nervosa do que antes.
“Mike também, pelo jeito.”
“Muita gente que nós conhecemos faz parte disso, Quinn. Muita gente mesmo.”
“Do Glee Club?” Rachel assentiu. “Eu sempre soube que vocês eram um bando de esquisitos, mas nunca que iam por a minha vida em risco por causa disso!”
“Não é questão de ser estranho...”
“Esquisito.”
“Dá no mesmo! Mas não tem nada haver com isso, nós só temos alguns dons especiais, coisas do tipo.”
“Dons? Que tipo de dons? Você tem isso?”
“Tenho.” Quinn riu em um tom de deboche.
“Ah é? E o que você faz, duende? Trabalha com a fada do dente? Não, já sei. Você ajuda o Papai Noel a fazer mais crianças felizes a cada ano.”
“Eu vejo o futuro.” Quinn riu mais alto ainda.
“Vê o futuro? Você é louca.”
“Não sei o porquê de você estar rindo de mim, Quinn, considerando o que você viu mais cedo.” A loira engoliu em seco com a lembrança e manteve uma expressão séria. “Você acha que aquilo foi o quê? Um truque com hologramas? E como você acha que eu sabia que você estaria no corredor? Não foi um pressentimento, foi uma visão.”
“Se você vê o futuro mesmo, porque não me impediu de ir à sala onde o Mike estava?” Rachel hesitou por um momento, pensando em uma resposta. Esse era um momento em que ela teria que mentir.
“Às vezes, o meu dom falha. A única coisa que eu vi foi você sentada no corredor, chorando. Eu sinto muito, eu queria ter te impedido.” Quinn a encarou, e, depois de pensar um pouco, respondeu.
“Tudo bem. Eu que peço desculpas, eu fui uma idiota com você, sendo que você está apenas tentando me ajudar. Eu sinto muito Rachel, você sabe que às vezes eu ajo como uma vadia automaticamente.” Rachel olhou para baixo e assentiu. Sabia como era não poder se controlar.
“Então, acho que eu vou precisar contar para os outros o que você sabe... Antes que eles descubram sozinhos.”
“Onde você vai fazer isso? Pelo amor de Deus, não me diga que é mais uma sala sinistra, porque eu nem vou entrar.”
“Sala sinistra? Ah, não. Na verdade, Quinn, você já esteve várias vezes no nosso ponto de encontro.” Quinn olhou confusa para a morena, que erguia a sobrancelha tentando convencê-la a se lembrar. Ela manteve o olhar firme no rosto de Rachel, tentando puxar de suas memórias mais profundas onde seria o tal ponto de encontro. Foi aí que o lugar mais óbvio veio à sua cabeça e Quinn arregalou os olhos.
“A sala do coral.” E Rachel assentiu.
Rachel e Quinn já haviam voltado para a escola e era hora da reunião do Glee Club. Ao entrar na sala, Quinn viu todos reunidos, menos Sam e Tina, fato que chamou sua atenção.
“Quinn?” Exclamou Santana, que estava sentada ao lado de Brittany, de mãos dadas. Neste momento, Sr. Schuester se virou e recebeu Quinn com um tapinha nas costas.
“Quinn, quanto tempo que não aparece aqui! Sente-se. Pessoal, a lição de hoje é...”
“Não adianta disfarçar, ela já sabe.” Disse Rachel, interrompendo Sr. Schuester.
“Sabe o que, Rachel? Não sei do que você está falando.” Respondeu ele, sem graça.
“Ela viu o estado do Mike depois do que a Tina fez com ele.” Silêncio. A sala do coral, que costumava ser tão barulhenta, estava totalmente quieta. Santana apertou a mão de Brittany com força e depois lançou um olhar nervoso para a namorada. Brittany retribuiu o olhar, pois também sabia que aquilo não estava certo. Mais uma estaria no grupo. Mais uma vida em risco.
“Espera... a Tina fez aquilo com ele?” Perguntou Quinn.
“É uma longa história.” Disse Kurt, olhando para o chão com visível impaciência. Aquilo não parecia uma situação confortável para ninguém.
“Eu quero saber.” Respondeu Quinn. Todos se entreolharam, cochichando em duplas. Rachel se virou para Quinn e pôs a mão em seu ombro.
“Não liga pra isso, você vai saber. Eles estão com medo de te contar de uma vez porque pode ser meio... inacreditável.” Quinn assentiu e respirou fundo, quando seus amigos se voltaram novamente para ela e Kurt se levantou de seu assento.
“É uma história meio difícil de acreditar, mas é totalmente verdadeira e já que você quer saber... Eu começo, senta aí Quinn.” A loira sentou-se em uma cadeira vazia da primeira fileira.
“Pois bem, Ohio parece um lugar como qualquer outro. Mas a grande verdade é que aqui é o maior centro mágico do mundo. Como assim? Eu explico. A concentração de poder daqui é aproximadamente três vezes maior que a do resto do mundo. Claro que isso varia de um lugar pro outro, mas aqui é onde há mais poder. E aqui vai uma verdade: Os seres mágicos que possuem condições boas se mudam para cá para que possam aprimorar mais ainda seus dons e serem mais poderosos, podendo lidar facilmente com tarefas do dia-a-dia que seriam difíceis para um humano, porém, vivendo como um. Então, sim, Quinn, é capaz de que a sua família tenha dons especiais e esse tenha sido o motivo de você ser daqui.”
“É aí que você se engana, Kurt. Eu sou humana, não tenho esses poderes dos quais vocês tanto falam. Minha família é normal, aliás, não é possível que todos os moradores de Ohio sejam... sei lá como vocês chamam...”
“Criaturas mágicas.”
“É, isso. Oh, Deus, o que eu estou dizendo. Isso nem existe.”
“Errada mais uma vez, Fabray.” Interrompeu Santana. “As criaturas mágicas estão presentes nesse planeta desde o começo dos tempos, mas não só em Ohio, como Kurt disse. Só que aqui há uma concentração maior de poder. E se nós não existíssemos, simplesmente não estaríamos aqui.”
“E vocês não morrem?”
“Claro que morremos, nisso somos iguais aos humanos. Só somos um pouco mais dotados e corremos menos risco de vida.” Explicou ela.
“Quanto a você não ter dons, Quinn, como eu estava dizendo antes da Santana me interromper...” Começou Kurt, lançando um olhar fulminante para Santana. “Algumas pessoas só descobrem seus dons mais tarde.”
“E você já pensou na possibilidade de eu ser humana?”
“Muito difícil. Mas isso é uma coisa que só veremos com o tempo. Brittany? Poderia dar uma amostra para Quinn? Brittany foi uma das pessoas que não nasceu com o seu dom, o desenvolveu mais tarde, tanto que o dom da Brittany combina com a personalidade dela.” Brittany
assentiu e deu um beijo na bochecha de Santana ao se levantar. Tomou o lugar de Kurt na frente e começou a fazer gestos com as mãos, pra baixo, pra cima, giratórios, entre outros. Puxou os braços para trás, cerrando os punhos, como se estivesse puxando algo. Em seguida, abriu as mãos com rapidez e glitter saiu delas, sujando todos os membros do Glee Club.
“BRITTANY!” Gritou Quinn, com raiva. Como iria se limpar agora?
“Shhhh, espera.” Disse Artie, que estava sentado do seu lado. Quinn observou que ninguém estava brigando com Brittany, estavam apenas olhando todo aquele glitter, como se esperassem alguma coisa acontecer. E foi aí que aconteceu.
Todo o glitter acumulado na roupa de Quinn começava a se mexer e a se juntar, formando pequenas forminhas que se juntavam umas com as outras. Os olhos da loira se arregalaram com o que estava vendo, eles estavam se transformando em... em... fadinhas?
“Impossível.” Quinn murmurou para si mesma. Mas era possível, tanto que estava acontecendo. Em menos de um minuto, havia uma daquelas criaturinhas no ombro de Quinn, tomando a forma de um pequeno humano, só que com asas e orelhas pontudas.
“O que você deseja?” A fadinha ruiva de vestido azul perguntou para Quinn em seu ouvido. Quinn gritou assustada, quase deixando a fada cair. Quando olhou para trás, todos os membros do Glee Club tinham uma dessas no ombro, de vestidos e cabelos diferentes.
“Bem, isso é extremamente gay.” Quinn pensou.
“Elas vão fazer o que vocês quiserem e também vão falar com quem vocês quiserem. Santana, pede pra sua fada dizer alguma coisa pra fada da Mercedes.” Disse Brittany. Santana cochichou alguma coisa para a fadinha, com um sorriso malicioso no rosto. A pequena criatura apertou os olhos, pressionou cada lado da cabeça com um indicador e depois
sorriu, relaxada. Já a fada de Mercedes deu um pulo, arregalou os olhos e depois relaxou como a outra, em seguida cochichando para Mercedes. Ela ouviu atentamente, primeiro com um sorriso no rosto, depois com uma expressão raivosa.
“Vaca cantante?” Gritou, indo em direção à Santana, mas sendo segurada pelos amigos. Mercedes gritava como uma louca e Santana ria, e por um instante tudo pareceu bem para Quinn. Estava tudo bem, eles ainda eram o mesmos, só que tinham dons especiais. E daí? Afinal, eram seus amigos e... Espera.
“E a Tina? E o Sam?” Pensou ela, confusa.
“Pessoal!” Gritou Quinn. Todos pararam com a algazarra e olharam para a loira.
“O que foi, Quinn?” Perguntou Artie.
“Por que o Sam não está aqui?”
“Bem, até onde nós sabemos, ele não tem dom nenhum, então não podemos colocar a vida dele em risco.” Respondeu Rachel.
“Mas podem colocar a minha?” Perguntou Quinn, com um tom de indignação.
“Não era para você saber, Quinn. Mas nós não pudemos evitar, já que tudo aquilo aconteceu mais cedo. É melhor que você se previna agora que sabe dessa história de magia e que ela está presente entre nós, porque nada vai ser fácil como antes.” Como se alguma coisa na vida já tivesse sido fácil para Quinn Fabray, mas tudo bem.
“E quanto a Tina?” O silêncio tomou conta da sala novamente.
“O que você viu agora foi uma magia inofensiva, Fabray.” Disse Santana, a voz vacilando por causa dos gritos que acabara de dar com Mercedes. “O caminho que a Tina escolheu...” Mas não conseguiu terminar a frase, porque um nó se formou em sua garganta e a latina olhou para baixo, enjoada. Brittany a abraçou por trás, o que fez um leve sorriso se formar em seus lábios, mas a tensão do assunto continuou pairando no ar.
“É obscuro, desalmado, doentio.” Completou Kurt. “Tina escolheu as trevas, Quinn. O pior é que não podemos fazer nada sobre isso, e Tina não é uma de nós. Fique longe dela.”
“Foi ela quem machucou Mike?” Perguntou Quinn, boquiaberta. Kurt assentiu.
“Você vai dizer que estamos loucos.”
“Depois dessa conversa, acho que nada me surpreende mais.” Respondeu ela, com um meio sorriso. Kurt mordeu o lábio, respirou fundo e respondeu:
“Então tá. Acho que você precisa saber que Tina é uma feiticeira.”
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