Unforgiven

2 "Foi um prazer revê-la"


Notas iniciais
Os eventos deste capítulo se passam logo após os do primeiro.

Saindo um tanto que apressada da sala, vejo Marcos de braços cruzados encostado na parede em frente à minha sala. Que visão, meus amigos.

— Devo ficar com medo ou você recepciona muito bem todas as novatas?

Falo indo em sua direção e me afastando o máximo possível da porta em que eu caí mais cedo.

— Não, só as pequenas de cachos roxos.

AAAAAAH! Ele com certeza já deve ter uma pós graduação em como agradar alguém.

— Que bom!

Falo sorrindo tentando disfarçar a alegria que estou sentindo por dentro.

— Então, você quer almoçar comigo e com meu pessoal? Alguns deles tem matérias com você.

Ele fala aquilo me olhando diretamente, esperando minha resposta.

— Claro, bem melhor que almoçar sozinha. Ou no banheiro.

Falo dando de ombros.

— O quê?

Ele me olha confuso.

— Nada.

Affs, nunca viu Meninas Malvadas. É né, Mikaely. Ninguém é perfeito.

— Como você sabia que eu saía agora?

Pergunto curiosa enquanto ele vai me direcionando pelos infinitos corredores com o braço no meu ombro.

— Vi seu horário, princesa. Talvez tenha decorado o de hoje. Ou todos.

Ele fala dando uma piscadela.

— E tenho uns amigos que fazem essa matéria com você. Talvez você ten...

— E aí, cara? Porque você não ficou até o fim da aula?

Pergunta um cara alto de dreads e olhos muito verdes.

— Tive que sair antes para esperar essa princesa.

Ele fala virando para mim na última palavra. AI, MEU ÚTERO!

— Ahh. E que princesa, hein? Prazer, Rafael.

Será que tem alguém feio nessa escola ou eu vim pra suprir essa cota?

— Prazer, Mikaely. Gostei do seu cabelo.

Falo apertando a mão que ele estendeu e dando um rápido abraço.

— Também gostei do teu.

Ele fala rindo enquanto voltamos a caminhar em direção ao refeitório.

— É muito bom ter uma novata nessa época do semestre.

Rafael fala quebrando o silêncio.

— Como assim nessa época do semestre?

Pergunto com cara de quem não tá entendendo nada (lê-se: cara de Mikaely).

— Rafael também é de exatas e tem umas matérias junto com você.

Marcos responde enquanto me puxa para o seu lado com a mão na minha cintura.

— Pois é. Matérias essas que estão um saco. Daí, como a gente não pegou o ritmo ainda, talvez uma certa novata possa nos motivar.

Rafael fala rindo e piscando para mim.

— Epa! Vi primeiro, pode sair.

Marcos fala me puxando para si e me colocando longe de Rafael.

— Calma. Eu não ia fazer nada. Só disse que ela pode nos motivar ajudando a gente com nossos trabalhos, lições, etc.

Rafael fala com as mãos levantadas indicando que suas intenções são as melhores, mas pisca pra mim assim que Marcos não está mais olhando para ele.

EU AMO ESSA ESCOLA!!!

Chegando no que finalmente supus ser o refeitório, entramos os três na fila da comida e eu me impressiono na hora que percebo a variedade de comida ali.

— Caralho. Nem tava com fome, mas vendo isso, é até pecado não comer.

Falo abismada e triste olhando minha bandeja passar e não ter espaço para tudo que eu queria. Os meninos riem com minha reação.

— É né parceira, alguma coisa tinha que compensar a mensalidade desse hospício.

Rafael fala e eu solto um riso na mesma hora.

— O último.

A moça da sobremesa entrega o último pudim para Rafael, que fica rindo igual uma criança.

— Toma, seus otários. O último. Vão ter que pegar pavê agora.

Marcos e eu rimos da reação dele. Mas, sem ele perceber eu pego o pudim e coloco meu pavê no lugar. Perdeu, playboy. Marcos vê e começa a rir.

— Então, em qual grupinho vocês estão encaixados?

Pergunto analisando as mesas repletas de hormônios ambulantes. Incrível como tudo muda, mas tudo permanece igual.

— Em todos e nenhum ao mesmo tempo.

Marcos fala apontando uma mesa já lotada no fim do refeitório. Chegando nela, reparo que há ainda quatro cadeiras vagas. Ótimo! Hora de fazer amiguinhos.

— Ora se não é o nosso Casablanca conquistando o coração de mais uma novata.

Um cara forte com camisa de basquete diz alto, o que faz com que todos na mesa olhem para Marcos. E para mim. O que faz com que eu já odeie esse cara.

— Cala a boca, Victor.

Marcos fala num tom sério enquanto me puxa para sentar do seu lado. Rafael senta no lugar vazio à minha frente.

— Prazer, meu nome é Isabel. Mas, pode me chamar só de Bel.

Fala uma voz fina que vem da menina de rabo de cavalo e óculos pretos sentada ao lado de Rafael.

— Prazer, Mikaely.

Falo sorrindo e apertando a mão que ela me estendeu. Ela parece muito uma futura jornalista e alguém que talvez (TALVEZ) possa ser minha amiga.

— A Bel é o cérebro do nosso grupo. Com você agora, acho que nosso grupo acaba de atingir um novo QI.

Rafael fala e todos na mesa riem.

— A gente podia tá num nível bem mais avançado, mas o Rafa não sai.

Um cara no final da mesa diz e arranca mais risos.

— Ha ha, acho que a graça acabou de sair correndo depois dessa.

Rafael fala em tom de deboche, revirando os olhos.

— Meu nome é Alef, aliás. Prazer.

Ele fala me olhando e acenando do final da mesa. E todos começam a fazer o mesmo. Natalie, Gustavo, Caíque, Thomas, Victor. Muitos nomes e rostos. E muitas personalidades também. Só aí que entendi o comentário de Marcos. No grupo deles haviam pessoas de todos os esteriótipos e "tribos sociais". Essa versatilidade já estava me fazendo amar cada um deles.

— Ei, Mika. Tu estás em matemática aplicada, né?

Pergunta Alef, o cara grande no final da mesa, interrompendo minha análise mental sobre eles.

— Sim, por quê?

Pergunto comendo meu pudim (o de Rafael, na verdade).

— Você não conheceu Nigel por lá? Ele já devia estar aqui.

Ele fala procurando com os olhos o amigo pelo refeitório.

— Na verdade, não. Não deu tempo de conhecer ou falar com ninguém.

— Não duvido. O professor Anderson é muito rígido.

Bel fala enquanto limpa seus óculos.

— Ei, cadê meu pudim?

Rafael pergunta se dando conta de que estava com um pavê. Marcos e eu começamos a rir na hora, porém disfarçadamente.

— Olha ele aí. Falando no diabo.

Alef sorri abertamente quando finalmente avista o amigo.

— Você tem que conhecer ele. Tenho certeza que vão ser amigos. Vocês dois se parecem muito.

Alef fala me analisando e concluindo sua verificação.

— Realmente, até os cachos.

Natalie e Thomas concordam.

— Ei, seu puto. Vem pra cá.

Alef grita para o outro lado do refeitório, onde Nigel deve estar.

— Esse merda almoçou com quem dessa vez? Todo popular.

Caíque fala com sua voz rouca, fazendo Natalie rir.

— Alguém daqui tem que ser.

Ela rebate.

Finalmente, quando Nigel chega a mesa e eu reconheço quem é, fico assustada. NÃO ACREDITO QUE O MENINO ESTRANHO QUE ME AJUDOU, DEPOIS FUGIU E DEPOIS FICOU ME ENCARANDO IGUAL UM LOUCO FAZ PARTE DESSA RODINHA.

— E aí, seus putos. Quer que eu faça outro trabalho pra ti, Alef?

Ele fala rindo e conforme se aproxima da mesa vai cumprimentando e abraçando todos.

— E quando foi que eu te pedi trabalho, seu filho da mãe? Sempre fiz todas as minhas coisas sozinho.

Alef fala em tom de defesa, o que faz todos rirem e soltaram um grande e sonoro "ata".

— E aí, parceiro. Almoçou com quem hoje?

Marcos pergunta quando Nigel vai cumprimentá-lo com um abraço e bagunçando seu cabelo.

— Com ninguém. Não estava com muita fome depois dessa aula de matemática.

Ele fala normalmente como se nada, N A D A, tivesse acontecido naquela aula.

— Ahhhh, é mesmo, vocês estão na mesma turma. Mika, esse é Nigel. Nigel, essa é Mika.

Alef fala indo para o lado de Nigel e nos apresentando nada forçadamente.

— Oi, prazer.

TÁ, LEGAL. DEFINITIVAMENTE ESSE GAROTO TEM PROBLEMAS. É SÉRIO QUE ELE VAI FINGIR QUE ELE NÃO CAUSOU UMA DAS CENAS MAIS ESTRANHAS DA MINHA VIDA?

Mas esse, meus amigos, é um jogo que se joga a dois. Se ele queria fingir, era isso que eu ia fazer também.

— Prazer, tudo bom?

Falo levantando os olhos lentamente para encarar ele e noto curiosidade em seu olhar. Touché!

— Tudo. O que achou da aula?

Ele pergunta sentando no assento vazio no canto superior da mesa.

— Interessante.

Falo encarando ele com a mesma intensidade.

— Aquele conteúdo é novo para mim mas, não me assusto facilmente.

Digo com uma voz relativamente calma enquanto ele me olha atentamente, com toda a sua atenção em mim.

— Que bom. Não queremos que você desista logo no seu primeiro dia por conta de situações assustadoras.

Aquilo era um pedido de desculpas???

— Não irei. Afinal, tem coisas muito mais interessantes para as quais posso focar minha atenção nessa escola.

Falo olhando com uma intensidade absurda para seus olhos escuros, para ter a certeza de que ele está lendo as entrelinhas. E quando termino a frase, seguro a mão de Marcos. Nigel percebe e faz um movimento repentino com a cabeça, como se entendesse o recado.

— Certo. A última coisa que queremos é que fique entendiada. Afinal, o que não falta aqui são distrações. Foi um prazer revê-la.

AGORA ELE TA ACHANDO QUE VOU FICAR COM GERAL E TÁ ME CHAMANDO IMPLICITAMENTE DE VADIA??? Eu já odeio esse garoto.

Ele se levanta ainda me encarando e volta a conversar normalmente com Alef e Caíque, que já estão no final da mesa. De longe, conversando socialmente sobre besteiras adolescentes, não parece o garoto que estava tendo uma conversa criptografada comigo segundos atrás. Será que ele é assim só comigo?

— Mika, hoje pela tarde temos os cinco horários com a professora Benson, de programação. Se prepara para jogar bastante LOL.

Rafael fala rindo e cutuca Bel.

— Não é verdade. Ela é um amor. Rafa e Nigel que implicam por ela falar devagar.

Bel fala defendendo a professora.

Aí, senhor. Mais uma matéria com esse garoto e eu me mato.

— Você disse cinco horários?

Pergunto na esperança dela se corrigir.

— Sim, cinco.

Ela fala rindo, como se aquilo fosse maravilhoso. E até seria, se não fosse o popular e amigável com os outros porém, estranho e enigmático comigo Nigel. Eu não estava mesmo entendendo qual era a daquele garoto. Já tive paqueras estranhos, mas se aquilo era algum novo jeito de dar em cima, eu já repudiava.

— Gente, vamos ao banheiro?

Natalie pergunta por trás de Bel e olha para nós duas.

— Vamos, já terminamos.

Bel fala amassando seu guardanapo.

O resto da tarde passou voando. Os cinco horários que achei que seriam estranhos e perturbadores devido à presença de Nigel, foram na verdade ótimos. Durante a aula, formamos trios. Fiquei com Bel e Rafa, onde nos conhecemos melhor e passamos a tarde falando besteiras entre um programa e outro. Nigel sentou no fundo, novamente, porém não ficou me encarando (não que eu estivesse olhando muito para ele. Só as vezes. E só para ter certeza de que ele não estava me olhando), em vez disso, sentou com mais dois rapazes que pareciam ser seus amigos e ficaram rindo e conversando durante toda a aula. Definitivamente, ele era popular e cheio de amigos. Porém, por alguma razão do universo, esse lado dele não se aplicava a mim. Se eu estava preocupada com isso? Morta de preocupada, mores. Infelizmente, teria de conviver com a peça, mas isso não significava que seríamos amigos. Ou colegas. Apenas conhecidos.

Quando o sinal bateu, não demorou muito para meu pai chegar. Me despedi do meu novo grupo de amigos (espero que eles me aceitem na panelinha), me demorando em Marcos e apenas acenando para Nigel, que fez o mesmo, e segui para o carro. Assim que cheguei em casa, não consegui falar com ninguém, subi correndo para o meu quarto. Estava muito ansiosa para o que seria a melhor parte do dia: contar tudo para Amanda e Yasmin.

Notas finais
Comentem o que acharam (;
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.