Unforgivable
6 Deixe o leão dentro de você te guiar
Notas iniciais
Rebekah segura os vários papeis com as duas mãos. Está pesado demais. Ela despeja tudo em cima da mesa.
– Eu pensei que disse que não queria uma chacina.
– A senhora mandou matar os vândalos, Majestade.
Ela segura um soluço.
– Olhe para esses papeis! — ela grita. — Olhe para todos esses nomes? Me diga: quantos vocês mandaram matar?
Os Conselheiros a encaram com certa curiosidade. Rebekah sabia que se aquilo fosse uma espécie de teste, ela estaria logo reprovada, mas não conseguia olhar para nenhum nome sem pensar nas famílias que eles provavelmente haviam deixado.
– Vinte.
Ela dá risada.
– Vinte pessoas? Nunca na vida!
– Vinte — o Primeiro Conselheiro repete. — Vinte mil vândalos mortos nas últimas quatro semanas.
Rebekah passa os dedos pelos cabelos. O que ela poderia fazer diante disso? Eles a odiariam, a desprezariam. Nem seu pai foi responsável por tantos assassinatos em anos, poderia ela mandar matar tantas pessoas em apenas um mês?
– Eles me odeiam.
– Eles a temem — Alek, seu marido, caminha da ponta da mesa até a outra extremidade, até ela. No seu vestido bordô de mangas compridas e com seus olhos inchados e com olheiras, Rebekah se sentia uma morta-viva. — É diferente.
Ele toca o seu rosto com o polegar.
– Você está fazendo o que é necessário. Se não tomasse essa decisão, minha rainha, eles nunca a respeitariam.
– Eu não queria conquistar o respeito deles assim, Alek.
Ela sente as lágrimas se acumularem ao redor dos seus olhos e o seu marido a abraça.
– Não chore na frente deles. Tudo o que esses velhos querem é vê-la fraquejar e provar que Katerina é melhor — ele sussurra em seu ouvido. — Mostre que eles estão errados.
– Mas eles não estão — ela murmura. — Eu sou um desastre.
Ele segura o seu rosto entre suas mãos e seca as lágrimas antes que elas desçam.
– Eu confio no seu potencial — ele a beija na testa. — Faça o que é necessário para reinar.
+++
Josh passa os dedos pelo colar com pingente de âncora. Ele usava o colar desde que Melanie havia o deixado. As vezes, ele sentia o colar formigar em seu peito e se perguntava se a morena ainda pensava nele e como ela estaria naquele momento.
Ele foi até o Cérebro para intimar Valentina naquela manhã.
– Melanie está com aquele cara há meses! — ele grita com ela. — Nós temos que fazer alguma coisa por ela.
– Melanie se entregou, Josh. Ela sabe o que está fazendo?
– Como você pode não se importar de a sua filha estar com um sociopata?!
– Porque ela escolheu isso! — Valentina explode. — Você acha mesmo que eu não me importo? Vincent está com Melanie, Derek e com o meu marido. Ele está com a minha... — ela trava.
– Com a sua o quê?
Ela balança a cabeça, atordoada.
– Como você pode dizer que eu não me importo? Mas o que eu posso fazer? A mansão Fieldmann é uma fortaleza e mandar alguns dos meus soldados só resultará em mortes e perdas para nós — ela olha para ele. — Nós não podemos nos dar ao luxo de perder ninguém.
Josh olha para os pés e suspira. Fica alguns segundos em silêncio, depois olha para os monitores do Cérebro. Todos funcionando, vidas correndo, coisas acontecendo e ele preso ali... o tempo parece passar diferente no subterrâneo. Parece parado.
– Eu sinto falta dele — ele sussurra depois de algum tempo. — Eu me tornei completamente dependente dela desde o PMI. Não consigo suportar a ideia de que ela está com aquele cara, fazendo-se sabe lá o quê...
– Não pense — Valentina toca o rosto de Josh. — Ela voltará para nós. Melanie é a mulher mais forte que eu conheço.
Josh olha para ela. Eles ficam se encarando por algum tempo até que Valentina exibe um sorriso. É muito raro ela sorrir e isso assusta um pouco Josh. Seus lábios repuxados em um grande sorriso, com os dentes brancos a mostra... foi tão repentino.
Não era nada diferente, ele sabia. Valentina o tratou tão bem quanto poucas pessoas haviam tratado na vida. Ele não era um legítimo e quando o mundo ficou sabendo, o julgaram. Não que ele tenha sido bem quisto antes. Acontece que ela o trocou como a um...
– Sabe, o filho que eu perdi provavelmente teria a sua idade.
...filho.
Era exatamente isso. Um filho. Josh sentia como se Valentina o ajudasse e de alguma forma, o protegesse. Eles trabalharam juntos nos protestos para chamar atenção da capital, se juntaram para organizar os ataques e ela o encarregou de comandar o grupo Apátridas que partiu para Frömming. Ela confiou nele desde o começo. Ela acreditou nele.
Josh segura a mão de Valentina.
– Você não precisa dispor dos seus soldados — ele diz. — Eu trarei Melanie sozinho.
Ela se afasta, assustada.
– Josh, você sabe que... meu Deus, Vincent irá matá-lo.
– Sinceramente, há uma linha tênue entre estar sem ela e morto.
Ele caminha até a port automática de ferro reforçado.
– Eu a trarei de volta para você, Valentina — ele diz. — Trarei Melanie e toda a sua família.
+++
Katerina caminha de um lado para o outro no Cérebro. Ela não sabe o que dizer. O que ela estava pensando, afinal? Que Rebekah seria piedosa, que ela ajudaria o povo como ela costumava ajudar? Que ela visitaria ONGs e outras entidades, que faria trabalhos de caridade e que atenderia o povo durante as tardes na sala do trono? Que ela sequer se preocuparia em manter a paz ou pessoas vivas? Mas isso... isso era um absurdo.
– Eles estavam dentro do seu direito — ela consegue sussurrar. — Eles estavam apenas protestando por melhorias...
– Eles picharam as paredes do palácio — Valentina conta. — Meus informantes me disseram que o Exército Real vou mandado para as ruas a caça de depredadores de patrimônio público.
– E você acha que isso é certo? — ela se irrita. — Acha que é certo vinte mil pessoas morrerem em um mês? E por quê? Por que Rebekah não sabe lidar com críticas? Porque ela achou que reinar fosse um mar de rosas?
– Não, eu não acho certo, Katerina, mas nós não podemos fazer nada para interferir, pelo menos não agora. Temos que concentrar nossas forças.
– Estamos há meses no subterrâneo! — ela se estressa. — Eu e Francis estamos treinando, vocês tem o meu exército e ainda temos os outros Apátridas. O que está faltando?
Valentina desvia o olhar e a ruiva suspira. Ela não suporta mais aquilo.
– As pessoas querem lutar — Francis fala. — Eles esperam por isso. O que nós estamos esperando?
Ela não responde. Katerina se joga na cadeira, exausta. Não dormia há dias só de pensar que Rebekah estava executando inocentes. Além disso, Francis vivia se agarrando nos corredores com Heather, que Katerina descobriu ser irmã mais nova de Andrew e Josh. De qualquer forma, isso a incomodava. A ruiva já desconfiava que ele andava com alguém, só não sabia quem era até flagrá-los aquele dia no corredor.
– Melanie — Valentina sussurra. — Nós estamos a esperando.
+++
Ivna não acredita no que a informam.
– Vinte mil? Ela enlouqueceu?!
– Ela é sua filha — Joffrey murmura com a sua voz insinuante.
– E sua também. Se você tivesse dado mais atenção para a sua herdeira e não para uma bastarda, você teria controlado a sociopata que tem dentro dela — uma mãe enfurecida se pronuncia -, o que por acaso é algo que ela puxou de você.
Joffrey se levanta do trono de veludo vermelho. Ser Imperador da Rússia é algo maravilhoso, mas o frio é angustiante. Apesar de em Frömming nevar algumas vezes, era algo gradual e uma neve bem fininha. Na Rússia as ruas eram atoladas de neve e muitas vezes as cidades tinham que decretar estado de emergência e até ficar em suas casas, porque a neve as impede de sair.
O povo é mais rico na Rússia, é fato. O salário mínimo é alto, as condições de vida são boas e o trono tem um acordo com a máfia para que nenhum interfira nos negócios do outro. Apesar de toda essa vida boa, Joffrey sentia falta de casa.
– Eu falarei com ela — ele diz. — Irei para Frömming.
– De jeito nenhum! — Ivna se levanta mais rápido ainda. — Rebekah precisa de uma mãe, não de alguém que tentará influenciar a cabeça dela.
– Como se com você fosse diferente.
A mulher lhe dá um estalado tapa na cara. Por sorte não há ninguém por ali, se não Joffrey teria tomado uma atitude drástica.
– Eu a amo. Já você teve ela comigo por obrigação. Não pense que eu esqueço o seu desapontamento ao saber que era uma menina. Eu nunca vou esquecer a sua expressão de decepção naquele dia...
– Rebekah é minha filha e está destruindo o país que eu e outros Archiberz lutaram para erguer. Eu reinei durante anos e sei como comandar uma nação, Ivna. Já você não consegue nem controlar a si mesma.
Joffrey sente que enfrentar Ivna não é a melhor saída, mas ele sentia falta da sua terra, ele precisava voltar para Frömming, se atualizar... saber de Harriet e Katerina. E Michael. Bom, e ajeitar a bagunça que Rebekah fez.
– Não podemos deixar a Rússia sozinha. Você fica, eu vou e depois você vai e eu fico.
É a melhor saída. Ele sabe que Ivna vai de qualquer jeito. Ela estava controlando a raiva, ele sabia disso e apreciava. Ela estava se esforçando para conseguir o que queria.
– Fechado.
Ela suspira, aliviada.
– Ótimo — ela vai até a porta. — Agora se você me der licença, eu tenho uma filha para salvar.
+++
Katerina está jogada em cima de alguns colchonetes cinzas na sala de treinamento dos Apátridas. Ela bateu tanto em uma madeira que conseguiu quebrá-la, apesar de ter quebrado sua mão também. Bom, ela estava sangrando, pelo menos, e o médico disse que ela precisava enfaixar, mas, felizmente, ele não estava engessado, então ela achava que tudo ficaria bem em breve.
Ela suspira ao pensar nisso. E as vinte mil pessoas que morreram? Ela se sentia tão culpada... se não tivesse sentido medo, se não tivesse fugido, se tivesse reclamado o trono ao saber que ela sim é a herdeira legítima nada disso estaria acontecendo. Ela poderia ter evitado uma guerra, meu Deus.
Não. Ela havia matado Jacques. Fleur vai querer vingança. E ainda tem Vincent, que arquitetou aquele ataque com a loira, o ataque que acabou matando Erik. O povo de Ahnmach quer justiça pelo rei perdido e os Hallaya querem vingança. O povo clamava por um novo herdeiro e desde que Fleur assumiu, ela fez com que todos desejassem a sua cabeça em um espigão. Eles a detestam por ter matado o pai do rei, a detestam por Heron estar em coma, mesmo que não tenha sido culpa dela. A detestam completamente. De qualquer jeito, a guerra não poderia ser evitada.
Ela voltou para a sala de treinamento. Quando saiu do quarto, Francis estava aos beijos com Heather. Ela não era obrigada a ver aquilo, ela se negava. E também precisava achar um lugar para chorar. Então se lembrou de quando Valentina disse que havia um ponto da sala de treinamento que as câmeras não alcançavam: embaixo delas.
A ruiva se encolheu contra a parede, apertou seus joelhos contra o peito e chorou. Chorou enquanto lembrava de tudo o que havia perdido, de tudo o que havia deixado passar e de tudo que perderia. Ela perdeu Fabrizio uma vez, Erik e agora perdeu Francis, também. Perdeu seu filho, sua irmã verdadeira e a filha de quem ela acreditava ser seu pai. Sua mãe está no Palácio Hüfner em outro continente e ela está ali, embaixo da terra.
As lágrimas tocam seus lábios e ela sente um gosto salgado ruim, mas elas continuam a escorrer pela sua bochecha, pelo seu pescoço até saírem dela. Katerina sentia que precisava libertá-las. Libertar as correntes que a aprisionavam. Ela precisava pensar tanto nas coisas, forçar a si mesma a superar porque quando ela pensasse nelas novamente, não sentiria dor.
Ela se lembra das palavras de Valentina depois que confessou que esperava por Melanie.
– Você sabe por que nós fomos atrás de você, Katerina? — Valentina a perguntou. — Porque nós a queríamos ao nosso lado. Nós acreditávamos que com os motivos certos, você poderia ser o símbolo da revolução.
Algum tempo atrás ela não era nada além de uma garota fria, que secretamente sonhava com um amor verdadeiro, com o príncipe encantado montado no cavalo branco, no príncipe com a coroa e o palácio. Apesar disso, ela sempre dizia a si mesma que deveria ter filhos, herdeiros. Ela sempre se forçou a pensar racionalmente, e quando Valentina disse aquilo, usa risada lhe escapou.
– Seus rebeldes me acham mimada.
– Nós reunimos o Conselho secretamente. Nós achamos que você tem os motivos ideias para ser o símbolo.
Então ela pensa em Melanie. Pensa nas coisas que havia descoberto dela, mas que nunca havia contado para ninguém: do seu irmão doente pego por Vincent, da sua filha pequena mantida em cativeiro, dos amigos perdidos, do padrasto raptado, da madrinha morta, de todos os familiares e conhecidos abandonados a própria sorte. Ela pensa em todas as pessoas infectadas pelo vírus de Vincent, pensa na audácia e coragem de Melanie e em tudo o que ela fez por Frömming. Sim, ela havia feito mais do que a própria Katerina.
– Me desculpe, mas eu não posso aceitar. Eu não mereço isso — ela diz. — Melanie é a revolução e agora eu entendo. Nós temos que esperá-la, eu sei disso. Eu vou esperar.
– Katerina...
– Assim que Josh voltar com ela, nós atacaremos. Eu prometo que irei governar os sobreviventes de melhor forma possível, mas eu não posso comandá-los.
– Mas nós precisamos de você — Valentina segura suas mãos de forma desesperada. — Eu não sei se Melanie está viva e se por acaso está, não sei se ela e Josh conseguirão voltar. Eu não sei se eles sobreviverão.
– Então nós usaremos a memória deles como símbolo — ela decide.
Não seria justo aceitar algo que não deveria ser dela. Ela nunca acreditou em destino ou coincidências, mas acreditava que Deus escrevia o futuro de cada pessoa individualmente e ela sabia que comandar uma revolução não era a sua. Ela nasceu para ser rainha, para reinar, não para viver em meio a guerra.
Mesmo assim, Valentina insistia. Ela não sabia mais como explicá-la que não podia, ela não tinha mais palavras... Katerina estava tão perdida, então decide recapitular tudo mais uma vez.
Pelo canto do olho, ela vê uma sombra se aproximar, mesmo assim, ela fecha os olhos rapidamente e respira fundo, contando até três. Ela não quer ver quem quer que seja. Ela não quer conversar.
Erik está morto. Eu matei o seu assassino sem remorso. Eu fugi, ela pensa, tentando manter a sanidade. Protestos enchem todos os países do continente Manske e uma guerra que antes era provável, agora é inevitável. Estou em um abrigo subterrâneo rodeada de rebeldes. Eles estão se preparando para a batalha que em breve irá incendiar o norte e contam comigo, mas não sou uma boa líder.
Um dia eu irei romper.
r
o
m
p
e
r
Katerina abre os olhos e vê Francis sentado ao seu lado. Ela não consegue conter as lágrimas. Ele se aproxima mais e a abraça. A ruiva não sabe o que dizer, só sentir. Seus braços calorosos em volta de si, seu silêncio, seu apoio... tudo vem para ela de forma tão gentil que até parece um sonho.
– Você acendeu o fósforo da revolução quando matou o pai do rei Heron — Francis diz. — Todos esperavam por essa oportunidade. Deixe o país ser incendiado.
Katerina não sabe o que falar. Ela ainda está meio trêmula pelo toque dele, atordoada pelas ideias e pelo pensamento fixo de que deve superar o seu passado.
– Eu não sei o que devo fazer agora.
Ela admitiu. Ela finalmente admitiu. A ruiva se sente tão mais leve de repente.
– É a sua chance de provar que é merecedora daquele trono.
Katerina concorda com a cabeça e Francis sorri de lado.
– Eu acredito em você, Kat.
Ela olha para ele. Aquele mar azul, seus cabelos, apesar loiros, continuam tão despenteados quanto quando ele era moreno.
As lembranças a percorrem como um turbilhão. Seu corpo treme e um calafrio lhe passa pela espinha. Ela toca o rosto dele.
– Eu não consigo mais guardar isso para mim — ela murmura. — Eu já te perdoei há tempos.
As duas safiras que ele tem no lugar dos olhos viram-se para ela.
– Kat...
– Você acredita que eu possa ser uma boa rainha?
– Eu sei que você é — ele diz, mas ela percebe que ele olha fixamente para os seus lábios, tendo os mesmos delírios que ela. — Deixe o leão dentro de você te guiar.
Ela sorri para ele. É exatamente isso que eu vou fazer, ela diz para si mesma.
– Eu amo você, Francis.
E antes que ele possa dizer qualquer coisa, Katerina encosta seus lábios nos lábios dele.
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