Unfeeling
18 XVII. Lost time
Notas iniciais
Dentro do escritório confortável e organizado, Yume esperava ansiosa pela entrada da filha. Tinha voltado rápido da Lua de mel, pois havia algumas pendências da empresa para resolver. Ela e Fugako iriam unir as empresas Hyuuga e Uchiha, já que agora eram casados e dessa maneira seria mais fácil administrar os negócios. Logo quando chegou recebeu a notícia de que a filha queria conversar com ela, e a surpresa fora inevitável.
Achou que Hinata jamais tomaria a iniciativa para terem alguma conversa. Ela já tinha deixado bem claro que não se importava com ela, que sua presença era insuportável, entre várias outras coisas que deixavam a senhora Hyuuga desolada. No entanto, algo havia acontecido para que a jovem Hyuuga mudasse de ideia.
Além da surpresa que teve, não pode deixar de se sentir feliz pela oportunidade. Quem sabe poderia finalmente resolver todo o conflito que vinha acontecendo entre elas durante todos esses anos. Nada a deixaria mais feliz do que ficar bem com sua filha.
Escutou batidas na porta, interrompendo seus pensamentos, e logo pediu para que entrassem. Quando viu Hinata entrar e fechar a porta, o nervosismo a abateu. Torcia verdadeiramente para que não tivessem discussões desnecessárias. Pigarreou, indicando a cadeira a sua frente para que a filha sentasse, e logo se sentou de frente para ela.
Os olhos da Hyuuga mais jovem estavam sérios como sempre. Porém havia algo de diferente. Yume percebeu que diferente de todas as outras vezes em que as duas ficavam juntas no mesmo ambiente, os olhos de Hinata não demonstravam ódio ou repulsa por ela nesse momento. E apesar de não ser observada com olhos carinhosos ou amorosos como gostaria, Yume se sentiu excepcionalmente bem por ver pelo menos algumas mudanças em Hinata.
– Então Hinata, soube que queria falar comigo.
A morena se endireitou na cadeira, olhando firme nos olhos da mãe.
– Sim, tenho algumas coisas para falar.
Yume esperou pacientemente, mas não podia evitar que suas mãos se remexessem em seu colo, denunciando seu nervosismo.
– Primeiro, quero lhe pedir desculpa.
A nova senhora Uchiha arregalou os olhos diante ao que tinha escutado. Era verdade que em sua imaginação, sempre idealizou o dia em que Hinata pediria desculpas. E chegou a pensar que era pra isso que queria conversar com ela. Mas pelo tanto que conhecia da personalidade que a filha adquiriu quando o pai morreu, sabia que a ideia dela pedindo algo assim era impossível de acontecer. Por isso não conseguia achar sua voz para questionar o porque do pedido.
Hinata apenas observou as reações dela, esperando a mesma se acalmar para que pudesse continuar. Quando viu que a mãe já respirava mais calmamente e a olhava dando permissão para falar, ela pigarreou e prosseguiu.
– Quando otou-san morreu, nada mais fez sentido para mim – Hinata não demonstrava nada, mas Yume sabia a dor que ela devia sentir quando falava do pai – Eu ficava muito sozinha depois disso, e em meio ao meu sofrimento por perder aquele que foi meu melhor amigo, eu senti raiva por você me deixar sozinha, tendo que lidar com tudo isso sem ter alguém em quem me apoiar.
Com a cabeça baixa e a respiração tensa, Yume se punia de todas as formas possíveis em sua mente. De fato havia deixado Hinata sozinha depois que Hiashi morrera. Não conseguia ficar na casa que passaram tantos momentos juntos, e ainda ter que ver a filha mudando drasticamente de comportamento ao longo do tempo. Era doloroso demais conviver com tudo aquilo. Por isso fugia. Se enfurnava na empresa, arranjando qualquer trabalho para que não pudesse voltar para casa. Programava viagens de trabalho, conseguindo ficar vários dias fora.
Durante os poucos dias que ficava em casa ou passava rapidamente para pegar algum documento e roupas, conseguia ver sua filha cada vez mais irreconhecível. Sempre discutiam quando se encontravam, e Yume sempre passava o resto do dia se martirizando por ter permitido que as coisas chegassem a esse ponto.
E mesmo que tentasse explicar para a filha que a perda de Hiashi também era dolorosa para ela, nada mudaria o fato de que o estado que a filha se encontrava era totalmente culpa dela. Fora ela que a abandonou quando mais precisava de alguém para confortá-la. E conforme os anos foram passando, ela se perguntava o quanto havia sido egoísta com Hinata.
Sou uma péssima mãe, Yume pensava enquanto encarava as próprias mãos, sem coragem para olhar a filha.
Ficaram em silêncio durante um tempo, Yume se sentindo totalmente culpada e destruída, enquanto Hinata a encarava com olhos inexpressivos.
– Acho que sou eu quem lhe deve desculpas afinal – falou ainda olhando para as mãos, sem coragem alguma de encarar a filha.
– Nós duas sabemos que erramos. Você por ter largado sua vida para fugir da dor, e eu, por ter a ofendido tantas vezes. Acho que isso nos deixa quites.
Yume sorriu sem humor, finalmente criando coragem para olhar nos olhos de Hinata.
– Quando se tornou tão madura?
– Quando fui forçada a crescer – Hinata rebateu, vendo os olhos da mãe se encherem de dor.
– Nunca poderei compensar todo o sofrimento que a fiz passar.
Hinata se levantou, balançando a cabeça negativamente e olhando nos olhos da Hyuuga.
– Não quero nada compensado. Minha ideia é um recomeço.
Yume também se levantou, com um sorriso se abrindo involuntariamente em seus lábios.
– Me parece ótimo. Se me permite, irei começar agora.
E então caminhou rapidamente até a filha, a abraçando assim que ficou a sua frente. As lágrimas caiam sem que pudesse evitar, encharcando a blusa da mais jovem. Quando a senhora Hyuuga finalmente sentiu os braços de Hinata a rodeando, seu coração pulsou plenamente feliz.
Finalmente tinha sua filha de volta.
~
A semana passou tão rápido que Naruto se sentia meio zonzo. Parecia que o tempo não estava a seu favor. Ele corria cada vez mais rápido, como se zombasse do seu fracasso.
As coisas com Hinata continuavam na mesma. Ou quase isso. O que mudara era que agora, sempre que a Hyuuga tinha a oportunidade, o provocava até que os dois acabassem se agarrando.
Os momentos não eram ruins. A sensação de ter Hinata, mesmo que seja por um curto tempo, era maravilhosa. Os beijos dela eram viciantes, e a cada dia ele se via mais apaixonado.
Porém, é claro, havia a parte ruim.
E era logo quando esses pequenos momentos acabavam. Era frustrante e desolador ver que a Hyuuga agia como se nada tivesse acontecido, e não correspondia ao sentimento que pulsava no peito do loiro. Ela simplesmente sorria provocante quando encerravam o beijo, e andava para longe dele. E a cada dia que passava, o coração de Naruto sangrava com isso.
Seus sonhos nunca o deixavam dormir, fazendo com que acordasse todo suado e chorando. No sonho, ele repetia a cena da morena se afastando dele, de modo que ele só pudesse ver suas costas. E ele tentava de todas as formas se aproximar, mas nunca conseguia. Parecia que estava em câmera lenta, mas era somente ele, pois Hinata andava cada vez mais rápido, ficando cada vez mais longe.
O loiro sabia que esses sonhos representavam o quanto ela estava longe das suas mãos, mesmo estando perto dele. E também em como o tempo estava acabando, pois logo daria adeus a todos esses momentos maravilhosos.
Era difícil acordar todas as manhas, e fingir que estava bem.
Ele sabia que todos os seus amigos e familiares tinham consciência do que ele estava passando, mas ainda sim fingiam não saber de nada. E Naruto simplesmente detestava todos aqueles olhares de pena que eram lançados para ele, quando achavam que o mesmo não estava prestando atenção.
Não via como escapar dessa situação, estava realmente em um beco sem saída.
A resposta da faculdade já havia chegado, e é claro que ele estava aprovado. Tinha mais um mês antes de ir. Trinta dias para fazer com que Hinata pelo menos se importasse com sua partida.
Impossível, pensou com um sorriso triste nos lábios.
Chegou em frente ao portão da casa do amigo, logo o avistando no jardim. Sasuke fazia algumas embaixadinhas com uma bola, totalmente desligado de tudo. As vezes o loiro tinha vontade se ser um pouco mais como o amigo. Sasuke não se focava em preocupações ou coisas que o deprimiam. Ele era despreocupado com tudo. Suspirou, se aproximando do moreno.
– O que houve de tão urgente para me fazer vir até aqui?
O moreno apenas olhou para ele por um momento, e logo voltou a se concentrar nas embaixadinhas.
– Hinata.
– O que tem ela? Aconteceu alguma coisa?!
Sasuke riu da cara apavorada do loiro, balançando a cabeça negativamente para o mesmo.
– Só estava querendo saber quando você irá tomar uma atitude.
Os olhos azuis se tornaram confusos por um momento, mas assim que os do moreno se fixaram nos seus, Naruto pode ver do que o amigo estava falando. Seu coração se comprimindo novamente ao pensar nisso.
– Só falta um mês Naruto. Já deveria ter feito algo sobre isso.
– Porque deveria?! Não é como se eu pudesse mudar algo! – praticamente gritou, demonstrando toda sua angustia contida.
O Uchiha o observou atentamente, se sentindo igualmente angustiado pela situação do loiro.
– Você não é do tipo que desiste de algo. Porque está desistindo?
Naruto virou de costas, sorrindo tristemente enquanto sentia as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
– Até mesmo eu sei reconhecer uma causa perdida.
E tudo o que o moreno pode fazer foi ver seu amigo se afastando.
~
Hinata observava a chuva da janela de seu quarto, meio perdida em pensamentos. Durante toda a semana, ela se sentiu um pouco incomodada. Não sabia definir o que a fazia se sentir assim.
As coisas com a mãe já estavam resolvidas. E mesmo que as duas não pudessem se intitular as melhores amigas do mundo, poderiam dizer que estavam se aceitando melhor. Sempre que tinham oportunidade, saiam para conversar ou simplesmente apreciar a companhia uma da outra.
É claro que Yume era a quem mais falava. Apesar da morena ter aceitado se reconciliar com a mãe, sua personalidade continuava a mesma. Somente o modo de falar com ela que havia mudado, agora não era mais tão agressiva.
Fora isso, nada parecia ter mudado muito. O único divertimento que tinha era os momentos com o Uzumaki. Sorriu em meio ao pensamento.
Adorava as sensações que causava nele. Pegá-lo desprevenido e provocá-lo ao extremo era excepcionalmente bom. Nunca perdia a oportunidade de enlouquecê-lo.
Os momentos só eram poucos devido ao término das aulas. Quase não se viam como antes, mas sempre quando o via, não perdia tempo. Sabia que em pouco tempo daria adeus a esses momentos, já que ambos fariam faculdade. Não fazia ideia de pra onde o loiro iria. Nem ela mesma tinha decidido o que fazer. Mas decidindo ou não, perderia a diversão que tanto gostava.
Franziu as sobrancelhas, ao pensar se o veria de novo. Provavelmente sim, já que pelo o que sabia, a mãe morava na cidade. De certo iriam se esbarrar algum dia, e ela se perguntava se ele ainda teria as mesma reações de agora. Se ele coraria quando olhasse para ela, ou se iria gaguejar ao conversarem. Será que seria capaz de sentir algo por ela, mesmo depois de um longo período de tempo?, se perguntava.
Não sabia explicar, mas imaginar Naruto não sendo o mesmo de agora, lhe causava uma sensação estranha na boca do estômago. Era incômoda, como se estivesse tudo rodando lá dentro. Fazia seus pelos se arrepiarem, mas não do modo como se arrepiavam quando estavam tendo seus momentos, e sim de um modo ruim, como se sentisse frio.
Talvez sentisse essas sensações porque se fosse desse jeito, se Naruto não fosse o mesmo que agora quando se reencontrassem, ela não poderia mais se envolver com ele. Na mente da jovem Hinata, isso de certa maneira seria melhor para ele, já que ela nunca poderia retribuir os sentimentos dele. Nunca poderia né?, se questionou em pensamentos.
Então, porque continuava a sentir esse incômodo, se admitia para si mesma que o melhor seria que ele esquecesse o que sente por ela? Deveria ela ficar feliz se ele nem ao menos a reconhecesse?, apertou os olhos em dúvida.
Tinha certo apreço por ele, pois ele tinha a feito enxergar como estava presa ao passado. Naruto não a mudou, ele a fez repensar nas suas atitudes, para que pudesse recomeçar. Nada havia mudado afinal, ela somente seguia por outra direção, agora que estava livre da amargura.
No entanto, ela era diferente quando estava na presença de Naruto. Não era a mesma Hinata que era com todos, mantendo uma distância segura. O Uzumaki parecia que a puxava, como se a distância que ela fazia tanta questão de impor em relação as pessoas, não existisse. Era estranho para ela. E mais estranho ainda, era o fato que tinha se acostumado com essa situação. Se acostumado com o modo único que o loiro a tratava.
Por um momento se questionou, enquanto encarava os pingos furiosos da chuva baterem em sua janela, se seria capaz de sentir falta dele. Era uma coisa absurda de se pensar, já que a única pessoa que poderia realmente sentir falta, era o seu pai. Não poderia sentir falta de outra pessoa. Poderia?, indagou a si mesma.
O que Uzumaki Naruto representava para si?
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