Uneven Odds
6 Capítulo 5 - Anthony
Notas iniciais
Bella POV
Observava do meu quarto o jardim todo coberto de neve. Era uma bela paisagem. Branca. Pura. Respirei fundo e tomei um gole do chocolate quente. A lareira a gás dava um ar de cabana ao ambiente, perfeitamente decorado. A casa inteira era assim. Via em cada canto, cada objeto, um pouco de mim. Não podia negar que era um lar de verdade. Estava satisfeita por ter aceitado vir para cá, ao invés de viajar com minha mãe para Nova Iorque. Sabia, no entanto, que ela não poderia ficar para sempre. Uma hora teria que ir embora. Afinal, ela tinha uma vida lá e querendo ou não, precisava aceitar que aqui era meu lugar.
Confesso que toda essa situação ainda não era fácil para assimilar, mas depois da conversa que tivemos no hospital e as consultas com o psicólogo, eu percebi que estava me comportando pior que uma criança, daquelas mais chatas e birrentas. E aquela não era eu. Ok, não na maioria das vezes. Sabia o quão complicada podia ser, mas eu havia ultrapassado todos os limites. Estava sofrendo? Sim. Só que não era a única. E toda vez que pensava nisso, ele vinha a minha mente.
O homem que passei a odiar sem ao menos conhecer, se mostrou o mais perfeito cavalheiro enquanto eu não passava do dragão que cospe fogo.
Mesmo de longe, suas atitudes me surpreendiam. Ele, em momento algum impôs sua presença. Deixou a casa pronta para mim e se mudou para casa dos pais. Queria me dar espaço e tempo. Eu ainda não entendia se me sentia agradecida ou incomodada com isso. Era um misto de emoções que eu era incapaz de compreender. Não sabia se essa distância era boa ou ruim. Ou talvez eu estivesse pensando demais. Ter esse tempo só para mim era importante, mas me via ficando cada vez mais paranoica com suposições sem sentido. Só que seria pior se permitisse visitas. Alice, por certo, tentaria me convencer que eu deveria aceitar tudo ao meu redor sem ao menos pensar, enquanto Jacob, falaria mal do meu marido e da vida que eu tinha. A única certeza que tinha nesse momento, era que minha mãe estava certa, eu precisava pensar por mim. Tirar minhas próprias conclusões. Tomar minhas próprias decisões.
– Filha? — olhei para cima e vi minha mãe com o semblante carregado. Coloquei minha xícara sobre a mesinha de canto.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupada. Ela sentou na cadeira à minha frente, passando as mãos pela coxa. Gesto que sempre fazia quando estava nervosa. — Mãe, o que foi? — começava a ficar aflita.
– Eu preciso que você me ouça.
– Sobre o quê? — ela olhava para todos os lados menos para mim. — Mãe? — chamei mais uma vez. Ela finalmente me encarou.
– Tem algo importante que você precisa saber sobre a sua vida. Eu não contei antes porque você não estava preparada e...
– Mãe, o que é?
– Você estava grávida quando sofreu o acidente — disparou de uma só vez.
Tudo à minha volta desapareceu. Grávida? Instintivamente coloquei a mão sobre meu ventre plano.
– Isso... isso não faz sentido. Como? Eu... eu... O que aconteceu? Ele morreu? Eu perdi o bebê?
– Não, ele sobreviveu. Está no hospital, se recuperando. Matthew é um garoto muito valente — respondeu orgulhosa.
– Eu tenho um filho? — minha voz saiu entrecortada. Estava pasma com aquilo. Eu era mãe. Oh, céus.
– Na verdade, você tem dois — encarei-a completamente sem fala.
– O... o quê?
– Quando vocês se casaram, Edward já tinha um filho, Anthony.
– Ele me traiu? — perguntei ofendida.
– Não, meu amor. Foi antes de vocês sequer começarem a namorar — garantiu. Ainda assim, não pude evitar certo incômodo com aquilo.
– Eu aceitei isso? O filho dele com outra?
– Aceitou e apoiou Edward durante todo tempo, inclusive quando decidiram pedir a guarda integral.
– E a mãe da criança? — indaguei sem pensar.
– Não ligava para o filho, quem ficava com ele era a babá. Estava claro que tudo o queria era prender o Edward e quando não conseguiu, simplesmente fingiu que a criança não existia — que vadia!
Sem perceber me vi perguntando:
– Como era minha relação com ele? — minha mãe sorriu.
– Ele é louco por você — olhei-a desconfiada.
– Sério?
– Sim, meu amor — apoiei minha cabeça com as mãos.
– Isso é uma loucura, mãe. Eu nunca quis nada disso. Eu não entendo. Aceitei isso para agradar meu marido? Engravidei por causa dele? — Jacob teria razão? Será que estava tão apaixonada que aceitava tudo o que ele queria? A hipótese era ridícula, mas a única que fazia sentido.
– Não, Edward nunca a forçaria a nada que não quisesse. Foi algo inesperado. Você engravidou e tudo mudou — franzi meu cenho.
– Mas de acordo com o que você me disse, eu engravidei há poucos meses.
– Eu não me refiro a essa gravidez, Isabella — encarei-a em choque. — Antes de se casarem você engravidou.
– E o que aconteceu?
– Você sofreu um aborto espontâneo. Foi horrível. Estava grávida de três meses e eu nunca a vi tão feliz e iluminada. Depois que o perdeu, quase entrou em depressão. Os médicos descobriram uma falha no seu útero, as chances de engravidar novamente eram mínimas, mas contra todas as estatísticas, aconteceu.
– É muito para digerir... — confessei completamente perdida.
Se antes achava que aceitar um marido era difícil, o que poderia dizer agora, que tinha dois filhos?
– Eu sei, filha, e eu queria dar tempo para que pudesse pensar em tudo com calma, mas não posso — olhei para ela confusa.
– O que quer dizer com isso?
– É o Anthony. Ele está doente, Isabella.
– O que ele tem? — sem que pudesse conter, minha voz saiu com uma preocupação que eu não esperava.
– Está com muita febre. Já fizeram tudo o que podiam. Tudo indica que é psicológico.
– Psicológico? — repeti automaticamente.
– Ele sente muito a sua falta, toda a noite tem pesadelos, vive te chamando. Eu sei que nunca gostou de crianças e é muita coisa, mas agora temos que passar por cima de tudo isso e pensar que tem uma criança que precisa de você — respirei fundo, procurando ser racional.
Não podia fugir dessa situação para sempre. Querendo ou não aquela criança precisava de mim. O que eu faria se acontecesse algo com ele por minha causa? Poderia viver com essa culpa?
– Ok, eu vou vê-lo — ela sorriu aliviada.
– Não esperava outra atitude de você, meu bem — beijou meu rosto com carinho. — Vou ligar para avisar que estamos a caminho.
Assim que minha mãe saiu, voltei a encarar a paisagem do lado de fora. Minha cabeça começava a latejar e pulsar. Levantei com cuidado, ainda sentia muitas dores no corpo. Segui até o criado-mudo e peguei meu remédio.
Força, Isabella. Você consegue. Você consegue.
**
Encarava a janela enquanto o carro com o motorista que haviam enviado seguia até a casa dos pais de Edward. Minha respiração estava acelerada, assim como meu coração. Estava a um passo de ter uma crise de pânico.
Inspira. Expira. Inspira. Expira.
A mão de minha mãe segurou minha perna, que não parava de mexer.
– Calma, filha — olhei para ela tentando não transparecer todo o meu desespero.
– Ele vai estar lá? — foi a única coisa que pensei em perguntar. Ela sabia a quem me referia.
– Não, ele vai sair. Pode ficar tranquila — assenti e voltei minha atenção a janela. Não sabia o porquê, mas eu não gostava disso. Eu estava ficando louca, isso sim.
O carro estacionou em frente a uma linda casa. Branca com grandes janelas. Parecia de conto de fadas. Nós entramos e fomos recepcionados por uma gentil senhora.
– Boa tarde, Carmen — minha mãe a cumprimentou, entregando nossos casacos.
– Boa tarde. A senhora Cullen está esperando — disse e nos levou até a sala. Senhora Cullen? Oh, não! Minha sogra? Entramos e observei a mulher que nos esperava, os cabelos da cor de cobre e os olhos gentis, se destacavam em seu rosto afetuoso. Assim que nos viu, abriu um sorriso triste e veio em nossa direção.
– Olá, Bella. Como está? — cumprimentou carinhosa.
– Oi — respondi simplesmente, sem saber mais o que dizer. Estava me sentindo estranha ali. Era como se tivesse que me lembrar de algo, mas não conseguia.
– Que bom que você pode vir.
– Como Anthony está? — minha mãe perguntou.
– A febre aumentou — disse com pesar. — O médico disse que se chegar a 41 graus temos que levá-lo ao hospital, pois podem haver complicações.
– Com quantos graus ele está? — perguntei preocupada.
– A última vez que medimos deu 40 graus. Agora a enfermeira está lá com ele — explicou. A febre estava realmente muito alta.
– Posso vê-lo? — perguntei, sem jeito. Ela sorriu levemente.
– Claro, minha querida.
– Eu a acompanho, filha — subimos as escadas e seguimos por um amplo corredor até que paramos em frente a uma porta, minha mãe segurou minha mão. — Pronta? — respirei fundo e assenti.
Ela abriu a porta. O quarto estava escuro, só uma luminária acesa ao lado da cama, que tinha um pequeno volume encolhido. Sentada na cama estava a enfermeira, ela olhava o termômetro com a expressão séria.
– Como ele está? — minha mãe perguntou.
– Nada bem, a febre não abaixa. Agora mesmo está marcando 40.5°. Vou ligar para o médico, teremos que levar ele ao hospital — o quê? Não! Ele era pequeno demais para ir para o hospital.
– Ma-mãe — ouvi a criança na cama balbuciar. — Mamãe...fica...quero...mamãe.
– Ele está delirando. Vou avisar o médico — disse saindo do quarto. Eu e minha mãe ficamos lá, vendo o pequeno se virando na cama.
Meu coração apertou ao ver aquela cena, não suportei ficar parada e me aproximei, sentando onde antes a enfermeira estava. Ok, não era preciso ser um gênio para saber que eu não era muito fã de crianças, mas ele parecia diferente. Não sabia exatamente o porquê. Coloquei minha mão em sua testa e me assustei, ele estava queimando.
– Está quente demais — disse preocupada para minha mãe.
– Talvez seja melhor mesmo ele ir para o hospital, vou ver se conseguiram falar com o médico. Tudo bem você ficar aqui? — assenti sem conseguir tirar meus olhos dele. Acariciei seu rosto, estava vermelho por causa da febre, os cabelos cor de cobre molhados de suor. Naquele momento tudo o que queria era tirar toda a dor que estava sentindo. Ele abriu o olhos o mínimo possível.
– Mamãe? — questionou com a voz baixa e rouca.
– Oi, amor — respondi com carinho. — A mamãe está aqui, viu? — me vi dizendo, sem ao menos pensar. Ele ainda me olhava sem entender.
– Mamãe? — ergueu os braços para mim. Não resisti e deitei ao seu lado, ele veio para meu colo sem esperar. — Conta uma história pra mim? — pediu. Droga! Como eu fazia isso? Não conseguia pensar em nada.
– Que tal você contar uma história para mim? — retruquei.
– Pode ser a do pato?
– Claro, como é a história do pato? — ele sorriu e começou a falar sobre um pato e seus amigos da floresta. Enquanto isso eu acariciava seus cabelos. Ele fazia os barulhos dos animais e eu ria, imitando ele.
Era um momento tão único. Nunca teria me imaginado assim com uma criança, mas talvez fosse por ser Anthony. Coloquei a mão em sua testa e ele já não parecia tão quente agora. Pelo jeito estavam certos, ele estava assim por minha causa. Não podia acreditar que tinha feito ele sofrer tudo isso. Eu me sentia péssima. Ele bocejou e seus olhos começaram a fechar.
– Está na hora de descansar — avisei. Ele fez que sim com a cabeça, colocando a cabeça sobre meu peito.
– Você vai embora depois que eu dumi?
– Não, vou ficar aqui quanto tempo você quiser.
– Mesmo? — assenti. — Papai disse que você bateu a cabeça e num lembrava mais de ninguém. É vedadi? — ele parecia ser um garotinho tão esperto.
– É sim — fui sincera.
– Tá melhor?
– Estou melhorando.
– Ainda num lembra de mim?
– Ainda não, mas você pode me ajudar a lembrar, não é? — ele assentiu com entusiasmo.
– Não vai mais me deixar, mamãe? — perguntou com os lindos olhos verdes me encarando. Como podia negar qualquer coisa para ele?
– Não, meu bem, nunca mais — afirmei com segurança e beijei sua testa. Ele relaxou e se ajeitou no meu colo.
Não tinha como negar o quanto ele mexia comigo. Eu podia não me lembrar dele, mas de alguma forma eu sabia o quanto era importante para mim. E isso era mais forte do que qualquer outra coisa que já havia sentido.
Fale com o autor