Uneven Odds
14 Capítulo 13 - Eu e Você
Notas iniciais
Bella POV
Com certo esforço, afastou sua máscara de oxigênio. Tentei impedi-lo, mas não adiantou, ele insistiu que precisava disso. Segurou a minha mão, apertando levemente, ou o máximo que podia. Senti meu queixo começar a tremer.
– Eu vou sentir sua falta — sua voz soou fraca. Mordi os lábios, não queria chorar. Não na frente dele.
– Eu também — sussurrei baixo, colocando a mão sobre a boca na tentativa falha de segurar um soluço. Ele sorriu. Aquele sorriso único e especial que ele só tinha para mim, sua menina, como costumava dizer.
Por um momento eu esperei que tudo ficasse bem. Que ele ficasse bem.
Só que eu sabia que não seria assim. Nada o salvaria. Não existiam contos de fadas. Essa era a vida real. Nua e crua.
– Eu amo você, Isabella. Você... — fechou os olhos por um breve instante e tomou uma respiração profunda.
– Não diga mais nada. Por favor. Você precisa descansar e precisa da máscara — pedi aflita. Ele negou e, sem soltar minha mão, apontou seu indicador em minha direção.
– Você... e sua mãe... fizeram minha vida valer a pena — sua declaração só fez a dor aumentar ainda mais. — Nunca... nunca se esqueça disso — completou com a voz entrecortada e mostrando todo seu cansaço. Assenti, sentindo minha garganta queimar enquanto tentava segurar o choro.
Peguei a máscara e coloquei de volta em seu rosto. Dessa vez ele não me impediu. Acariciei o lado esquerdo da sua bochecha. Um dos poucos lugares que não estava enfaixado com gazes.
Meu pai inspirou o ar com força e ficamos nos olhando, querendo, de alguma forma, guardar esse momento. Pois, por pior que fosse, seria a última lembrança que teríamos um do outro e eu sabia que sentiria falta disso para sempre. Falta de qualquer segundo ao seu lado.
Com o lenço que segurava, enxuguei uma lágrima solitária que escorreu pelo canto do seu olho. Era tão raro vê-lo chorar. Engoli em seco e levantei da cadeira. Não podia ver isso. Não podia vê-lo partir. Deixei um beijo delicado em sua bochecha e cochichei em seu ouvido:
– Vou chamar sua garota — ele acenou e voltou a sorrir. Mesmo que seus olhos estivessem opacos, ainda podia ver aquele brilho apaixonado que sempre aparecia quando o assunto era minha mãe. E isso só deixava tudo ainda mais triste.
O que seria de minha mãe sem seu eterno namorado? O que seria de mim sem meu herói?
Era horrível saber que a história deles acabaria assim. Que teríamos que seguir sem ele.
Fiz um carinho em sua mão e a soltei, virando de costas e caminhando em direção da porta.
Sem olhar para trás. Sem ser capaz de dizer adeus.
Solucei. A saudade, que havia sido soterrada por tantos problemas, foi trazida a tona. Não sabia ao certo o porquê dessas lembranças surgirem justamente nesse momento. Só sabia que eu queria que meu pai estivesse aqui agora. Precisava tanto de seus conselhos.
Abracei minha mãe ainda mais forte, chorando compulsivamente. Ela até que tentava, mas não estava ajudando. Para ela, a situação era simples. Agora que eu havia contado que Alex era Edward, minha mãe achava que estava tudo resolvido. Entretanto não era assim. Havia muito mais coisas envolvidas e ela não entendia isso.
Não negava o quanto Alec/Edward mexia comigo, mas também não tinha como mascarar nossa situação. Estava claro, para mim, que nosso casamento passava por alguma crise. Eu pude ver isso apenas pelo modo como Edward me olhou quando me acusou de traí-lo. Queria poder desmentir, só que isso era impossível. Eu mesma não fazia ideia do que fiz ou deixei de fazer. Assim como Michael podia ter mentido ou não quando contou sobre nosso relacionamento. Podia ter acontecido quando era casada ou nem ao menos ter ocorrido.
Como lidar com tudo isso? Como saber qual era a verdade? E se eu tivesse mesmo traído, o que aconteceria? Eu perderia minha família? Perderia Edward?
A verdade era que eu nem queria pensar nessa hipótese. Eu os queria na minha vida. Todos eles. Era irônico como estava com medo de perder algo que eu nunca quis. Inclusive Edward. Alguém com quem passei poucas horas, mas que havia mexido comigo como nenhuma outra pessoa.
Era amor? Paixão? Desejo? Amizade? Eu não fazia ideia. Só sabia que eu gostava de estar ao seu lado, de conversar com ele. E ainda assim eu não sabia o que fazer. Não sabia como seria sua reação agora que havia confessado um possível caso que, aparentemente, ele não tinha conhecimento.
Será que toda aquela admiração que tinha em sua voz quando falava da esposa sumiria?
Em pensar que, por um momento, eu senti certa inveja dela, sem ao menos saber que era eu.
– O que foi? — minha mãe perguntou ao me ver sorrindo. Sentei no sofá, abraçando meus joelhos e enxugando meu rosto de qualquer jeito com a manga da camisa.
– Estava lembrando de todas às vezes que Alec, quer dizer, Edward, falou da esposa — expliquei, minha mãe acabou sorrindo.
– O que ele dizia? — quis saber interessada.
– Ele me contou do apelido que deu para ela quando passaram a lua de mel na Alemanha e que ela era a sua vida — olhei, insegura, para minha mãe, buscando alguma confirmação do que eu havia dito.
– Süsse? — questionou e assenti, aliviada. Era verdade. — Você não precisa falar da esposa dele na terceira pessoa, Isabella. Ela é você.
– Eu ainda não me sinto sua esposa — confessei, ela acariciou minha mão.
– É compreensível, depois de tudo o que aconteceu — tentou me confortar.
– Acha que ele fez tudo isso só para ver se eu iria traí-lo? — deixei a pergunta que estava me incomodando desde que saí do restaurante vir a tona. Reneé negou.
– Não, Edward nunca faria isso. Sei que a atitude dele não foi a mais correta, mas eu tenho certeza que foi com a melhor das intenções. Ele sente muito a sua falta — concordei me sentindo um pouco culpada.
Nunca havia de fato pensado nele e em como estava sofrendo. Primeiro, só pensei em mim e depois nos nossos filhos. Edward, para mim, ainda era aquela figura que eu admirava a distância e que nunca pensei se estaria sofrendo ou não com toda essa situação. Só depois que vi como estava abatido hoje, que pude perceber como havia sofrido. E eu sabia que a culpa era única e exclusivamente minha.
– Sabe, meu bem, você deveria olhar seu iPad. Agora não há mais o que temer. Você já o conhece, não tem porque continuar fugindo do passado — aconselhou.
– É, talvez amanhã dê uma olhada — disse evasiva, levantando do sofá. Ela me seguiu.
– Não quer comer nada? Já está tarde — apontou preocupada. Neguei.
– Não, mãe. Obrigada. Tudo o que eu quero é tomar um banho e dormir — ela acenou, acariciando meu rosto.
– Faz bem, precisa descansar — dei um beijo nela e segui até as escadas, subindo até meu quarto.
**
Tomei um banho demorado e deitei na cama. Tudo o que eu queria era conseguir dormir e esquecer o dia de hoje, mas não foi o que aconteceu.
Fiquei virando na cama durante, o que pareceram, horas. Depois de um bom tempo, finalmente desisti e acendi o abajur. Olhei meu criado mudo com receio. Mexi meus pés, nervosa. Passei a mão no cabelo, ajeitei o travesseiro, contornei as flores no lençol, observei o teto e voltei a encarar o criado mudo.
– Droga! — praguejei e sentei na cama. Abri a gaveta do bendito e peguei meu iPad.
Apertei o botão principal e a tela de bloqueio apareceu. Pelo visto minha mãe andava carregando ele. Deslizei a barra para desbloquear e entrei na tela principal. Eu conhecia o básico ali e sempre evitei o aplicativo de fotos. Inspirei fundo e cliquei. Havia inúmeros álbuns, todos devidamente nomeados. Soltei o ar aos poucos conforme passeava por eles. Um deles, no entanto, chamou minha atenção. Na capa tinha Edward, Anthony e eu, e estava nomeado como: Meus amores. Fiquei por vários segundos admirando aquela única foto. Nós três, sorrindo, ou melhor, rindo, felizes. Criei coragem e cliquei nele.
Na tela surgiram muitas fotos. Em todas estávamos sorrindo, brincando. Fosse em uma piscina, parque, carro ou até mesmo na cama. A mesma que estava deitada agora. Sorri com certa nostalgia. Passei foto por foto, rindo junto com as imagens, ou simplesmente me emocionando.
As últimas imagens pareciam bem recentes e mostravam a evolução da minha barriga de grávida. Toquei meu ventre plano. Ainda era estranho saber que havia engravidado e dado a luz. Voltei a prestar atenção as fotos, não querendo pensar muito no assunto. Em uma delas, Edward e Anthony beijavam minha barriga enquanto eu ria.
Éramos uma família feliz.
Senti minha cabeça formigar e o corpo arrepiar.
Joguei o iPad do meu lado, como se ele pegasse fogo, e levei as mãos ao rosto. Voltando a chorar compulsivamente. Pela primeira vez, desde o acidente, eu realmente quis me lembrar da minha vida, deles, de mim. Solucei e, girando na cama, enterrei o rosto no travesseiro, gritando o mais alto que pude. Colocando para fora toda a agonia e aflição que sentia por não ser capaz de controlar mais nada na minha vida.
Eu queria isso de volta.
Queria ser feliz.
Edward POV
Enchi o quinto. Hum... Não... o quarto copo de Whisky. Espera. Não, não. Era o sexto. Ri sozinho da minha mente incoerente. O liquido âmbar incendiava minha garganta enquanto o sorvia com prazer. O ardor era bem vindo. Fitei o copo, mexendo ele, vendo o gelo estalar. Era engraçado. Fiz uma careta e coloquei o copo sobre a mesa de madeira do escritório de meu pai. Uma luminária clareava parcialmente a mesa.
Estava há horas trabalhando e precisava de um descanso. Na verdade, precisava de um descanso de tudo. Especialmente dela e de tudo o que representava. Daria tudo para poder esquecê-la como ela fez comigo. Quem sabe assim doeria menos.
A porta abriu e a luz foi ligada. Fechei os olhos por causa da luminosidade.
– Apaga essa bosta — praguejei, protegendo meu rosto com a mão.
– Posso saber que linguajar é esse? — ouvi minha mãe repreender.
– Mãe, por favor — grunhi. Pude escutar ela bufando, mas fez o que pedi, desligou a luz.
– Vai passar a noite aqui se embebedando? Anthony foi dormir perguntando de você... — levantei a mão.
– Ok, sem sermão. Estava trabalhando e quis relaxar um pouco — expliquei com calma.
– Relaxar? — se aproximou de mim e pegou a garrafa quase vazia. — Isso não é relaxar, Edward! É fugir dos seus problemas do modo errado! — encostei na cadeira e encarei o teto. — Olha para mim, Edward — pediu, mas não me movi. — Olha para mim, droga! — gritou, batendo a mão contra a escrivaninha. Pulei com o susto e a encarei incrédulo.
– Escuta aqui, porque só vou falar uma vez. Isso — mostrou a garrafa. — não vai arrumar sua vida, e muito menos vai ajudar a esquecer o que está acontecendo. Pare de fugir...
– Eu vou parar — cortei-a antes que continuasse. — Não se preocupe, semana que vem tudo vai se ajeitar — disse taciturno, tomando mais um gole de bebida e recebendo um olhar gelado dela.
– Como? Posso saber? — desafiou.
– Eu vou pedir o divórcio — minha decisão não pareceu surpreendê-la.
– E você acha que isso vai resolver a situação? — perguntou com ironia.
– Isabella não quer ficar casada, não vou obrigá-la mais a ficar ao meu lado — respondi resignado, mas por dentro estava um verdadeiro lixo. Totalmente despedaçado. Algo em sua expressão mudou e seu tom se tornou mais suave.
– Vai desistir assim? Não a ama mais? — sacudi a cabeça. Meu coração batia acelerado. Apoiei os cotovelos na mesa e segurei minha cabeça.
– Eu cansei de correr atrás dela, mãe — sussurrei derrotado. — Não dá mais. Eu a entendi da primeira vez, sei porque precisou ir embora, mas agora não. Ela lembrou de outro homem e não de mim. Sabe como isso está doendo? Eu sinto falta dela cada maldito minuto do meu dia. Cada vez que eu penso em ligar para casa e me lembro que não posso. Cada vez que eu quero conversar com ela e não dá. Eu a amo, mas tem coisas que não posso ignorar.
As palavras saíram em uma torrente. Eu estava queimando por dentro e não era por causa da bebida. Era de raiva, ciúmes, dor, amor. Tudo. Ergui o rosto e a encarei, minha mãe me olhava com compaixão. Suspirei e continuei.
– Sabe, hoje eu disse para Jasper que não podia perdoar uma traição, só que não era verdade. O que eu não consigo aceitar é que ela tenha se lembrado dele e não de mim — confessei devastado.
– Edward... — começou a dizer, mas não deixei que continuasse. Não precisava mais de sermões e nem de conselhos. Estava cansado de dizerem o que eu deveria ou não fazer.
– Eu preciso ficar sozinho. Por favor, mãe — pedi, colocando a mão no rosto. Não ouvi uma resposta, só seus passos e a porta abrindo e fechando.
Instantaneamente, meus olhos seguiram para minha aliança. Tirei-a e olhei seu interior. Sorri com amargor ao ler a inscrição. Edward e Isabella. Para sempre.
Abri mais uma garrafa de Whisky e enchi meu copo, sem parar de encarar nosso anel de casamento sobre a mesa. Sem conseguir lutar com as lembranças que isso trazia.
– Eu te amo — ela sussurrou, sorri satisfeito. Nunca me cansaria de ouvir isso.
– Eu também te amo — declarei, beijando-a. Quando me afastei, Isabella me encarou séria, passeando os dedos pelo meu rosto. Parecia preocupada. — Que foi? — perguntei, segurando sua mão e beijando a ponta de seus dedos, o que trouxe um breve sorriso aos seus lábios.
– Tenho tanto medo de perder você, Edward — murmurou e percebi que estava quase chorando. — Eu nunca me senti assim... — respirou fundo e me encarou. — Tão vulnerável — confessou, assustada. Sabia muito bem a razão de seus temores. Afaguei seu rosto.
– Pode ficar tranquila. Eu sempre estarei aqui com você.
– Como pode ter tanta certeza? — desafiou insegura, tentando em vão segurar a vontade de chorar. Algo raro, já que Isabella quase nunca expunha assim suas emoções.
– Porque eu não posso viver sem você, Isabella — afirmei com segurança. — Eu preciso de você cada dia mais — confessei, conformei enxugava seu rosto com o polegar. — Sinto muito, Süsse, mas isso aqui, é para sempre — ela finalmente sorriu, emocionada.
– Promete? — não aguentei e ri, ela estreitou os olhos e fez uma cara de brava.
– Achei que o inseguro nessa relação era eu — brinquei, sua expressão suavizou e ela voltou a sorrir.
– Você não faz ideia — sussurrou, abaixando o olhar, tímida. Segurei seu queixo e ergui seu rosto, para que me encarasse.
– Eu prometo. Eu e você. Para sempre.
Senti um toque no meu cabelo. Com dificuldade, abri meus olhos e levantei a cabeça, tudo ao meu redor parecia girar. Vi uma sombra ao meu lado se movendo. Estreitei meus olhos, tentando enxergar. A figura se abaixou e afagou meu rosto. Eu conhecia aquele toque, aquele aroma...
– Isabella?
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