Notas iniciais
Tenham uma boa leitura.

– O que faz tão cedo aqui, senhorita? – perguntou-me ele, sem tirar os olhos da árvore que aparava. Cruzei os braços, um pouco irritada. Ele sempre sabia quando eu estava por perto, o que fez com que esconde-esconde se tornasse uma brincadeira detestável para mim.

– Não é necessário usar o ‘senhorita’, Jellal – respondi rispidamente. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Quando Jellal trabalhava, ele geralmente não prestava atenção em mim, porém, justo naquele dia, seu hábito me incomodou profundamente. – Eu não estou acompanhada de ninguém.

Vi um sorriso malicioso se formar em seus lábios.

– O que você quer me falar, Erza? – perguntou um pouco mais alto.

Fiquei em silêncio. O que eu queria falar de verdade? Já estava tão acostumada a mentir para mim, que já não tinha ideia do que realmente sentia.

– Nada. Por quê? – Soube que ele não me olhava, mas não evitei piscar os olhos com um ar de inocente. Jellal subiu mais um degrau da escada móvel e passou uma das mãos na testa suada. Seus cabelos azuis estavam bagunçados e sujos. Não passava das dez e ele já estava daquele jeito. Perguntei-me a que horas ele tinha começado a cuidar do jardim.

– Quando você vem tão cedo é porque quer me falar alguma coisa importante. – Ele deu ênfase no importante, para ironizar.

– Eu não vou ao baile real – comuniquei.

Finalmente seus olhos castanhos se voltaram para me encarar. Seu rosto era uma clara mistura de sentimentos. Ele guardou a enorme tesoura no seu cinto de ferramentas e desceu apressadamente a escada. Fiz uma nota mental de dar uma bronca nele sobre não tomar cuidado o suficiente.

– Como assim você não vai? – Jellal estava surpreso. Eu tinha de continuar com a cabeça inclinada para cima, mesmo depois de ele descer a escada, pois Jellal era muito alto.

– Não indo – dei de ombros.

Jellal olhou para o lado e deu uma risada.

– Você acha mesmo que o patrão vai permitir algo assim? – O “patrão” que Jellal falava era Pierre Royére Oury Scarlet, mais conhecido por mim como meu pai.

– Não preciso responder algo assim. – Estirei a língua. Lembrei porque estava enrolando tanto para contar ao meu melhor amigo a minha decisão. Além de pessimista, Jellal era um rapaz muito “certinho”, que seguia rigidamente as regras e tudo o mais.

– Agora que você já sabe que não vai dar certo – Jellal se voltou para a escada, mas eu cheguei mais perto e puxei sua camisa suja. Ele não subiu.

– Eu sei o que você acha. – murmurei. – Mesmo assim, Jellal, eu não quero ir para esse baile.

Eu sabia por que todos insistiam para que eu fosse ao baile real, mesmo que eles não dissessem para mim. A família Scarlet, apesar de ser uma das mais nobres e ricas de meu país, sempre almejou um patamar acima. A coroa. E eu não queria ser quem a daria aos Scarlet.

Apesar da chance do príncipe se interessar por alguém como eu ser mínima, eu não queria correr nenhum risco. Era melhor evitar.

Jellal continuou de costas. Não soltei sua camisa. Comecei a me perguntar o porquê de falar para ele. Jellal, provavelmente, também sabia do plano de seu ‘patrão’, e ele estaria a favor do que era certo.

– Como você vai fazer para impedir isso, Erza? – Jellal tirou minha mão de sua camisa com delicadeza, e se voltou para me olhar. Eu estava chocada demais para responder. Imaginei que ele diria algo como “você tem que ir” ou “é sua obrigação”, mas ele não o fez.

– Eu não sei, mas vou dar um jeito. – respondi. – Talvez eu devesse fugir para a caverna perto do rio. Não sei.

Ficamos em silêncio enquanto eu tentava pensar em outra coisa.

– O que você acha de fugir de verdade? – perguntou repentinamente.

– O que disse? – Jellal me olhava determinado.

– Vamos fugir, você e eu? – Senti meu rosto ficar quente, e meu coração começou a bater rápido. O que estava acontecendo? Jellal também estava vermelho. – E eu não quis dizer desse jeito.

Senti como se houvesse sido rejeitada, apesar de não gostar de Jellal.

– Eu sei que não é. – retruquei zangada. – Mas como vamos fugir? Quando? O baile é amanhã. Para onde vamos?

Jellal começou a subir a escada e tirou a tesoura do cinto.

– Você realmente está me ignorando? – Eu estava queimando de raiva. Primeiro ele me propõe uma fuga, depois dá as costas e vai cuidar da árvore.

– Esqueça o que eu disse, Erza. Foi precipitado e ilógico. – Ouvi um leve tom de irritação em sua voz.

– Eu não vou esquecer. – gritei. – Vamos sair hoje, quando o sino badalar a meia noite. Esteja na caverna perto do rio. Vou levar minhas joias. Vamos sair daqui.

Fiz menção de ir embora quando ele me chamou.

– Isso é irracional. Suas joias não vão dar por muito tempo. – falou.

– Eu trabalho! – retruquei.

Jellal gargalhou.

– Vai passar fome. – replicou.

– Não me importo. – berrei. – E você também não liga, mesmo sabendo que vou passar fome.

– Eu não vou deixar isso acontecer. – disse.

– Ah, é? Vai tentar me impedir? – arqueei as sobrancelhas.

– Não. – respondeu, dando um sorriso. – Eu vou com você, senhorita.

Com medo de receber uma resposta contrária àquela, virei e corri de volta para a mansão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.