Notas iniciais
" A diferença do amor e do ódio, é que pelo ódio a gente mata, e pelo amor a gente morre." - Renato Russo.

Segunda, dia 28 de setembro de 2015:

Era mais um dia comum para mim. Hoje, eu voltaria de férias, começando o segundo ano do ensino médio e estava voltando novamente para minha rotina. Acordei e me arrumei para o primeiro dia. Um par de brincos vermelhos, maquiagem básica, cabelos presos em um rabo de cavalo bem alto, sapatilhas pretas e o uniforme. Infelizmente, minha escola tinha uniforme! O uniforme não era feio, era composto por uma blusa azul com um laço vermelho no lado direito na altura dos seios, uma calça azul com o símbolo da escola na coxa direita e uma saia azul com detalhes brancos e vermelhos. Mas odeio ser obrigada a usá-lo. Como estamos na primavera, coloquei a saia ao invés da calça. Verifiquei se todo o material que usaria estava em minha mochila. Dentro dela estava tudo que era necessário para aquele primeiro dia. Depois de tudo isso, fui tomar café e em seguida saí de casa rumo à escola.

Aqui em São Paulo, agora as aulas começavam na primavera. Minha mãe havia ido trabalhar e eu fui à escola, afinal era essa minha obrigação primária: Estudar.

O sol estava quente, mas a sensação dele em minha pele me acalmava. A brisa era tão agradável, me sentia livre. Hoje começava mais um ano letivo. Como seria esse ano? Eu não fazia ideia. Era engraçado tentar imaginar o que aconteceria nesse ano, mas era também tão imprevisível.

Em pouco tempo cheguei à escola, pois ela ficava perto de casa. Ao entrar na sala, vi que conhecia todos meus colegas de escola, afinal eram os mesmos dos anos anteriores. Sentei-me e fiquei quieta o tempo todo. Eu não falava com meus colegas, no máximo um oi. Era muito difícil para mim fazer amigos. Na hora do intervalo decidi fazer algo diferente. Já que não falava com ninguém na sala ou no intervalo, decidi ir comer longe de todos.

Dirigi-me ao lado de fora da escola onde havia um jardim, um parquinho e umas árvores muito lindas. Sentei-me encostada em uma árvore. Era primavera e eu amava essa estação do ano. A primavera havia começado já havia uns dias. Ver as flores desabrochar, árvores como uma cerejeira cheia de flores, sentir o sol quente em minha pele, no fim da tarde olhar um pôr do sol amarelo alaranjado no céu, eram coisas que realmente me faziam se sentir viva. E comer observando aquele jardim era agradável. Estava comendo tranquilamente e olhando a paisagem, pensando na minha vida, sobre meu relacionamento com minha mãe, se um dia veria meu pai, mas fui tirada de meus pensamentos. De repente surgiu um garoto que vem em minha direção. Ele deve ter a mesma idade que eu. Ele é alto e tem a pele branca como a neve. O sol reflete em seus cabelos morenos e em seus olhos verdes, o deixando simplesmente lindo. Ele se aproxima cada vez mais com um sorriso realmente encantador.

— Posso me juntar a você? — Diz ele com uma voz serena.

— Sim! — digo eu demonstrando empolgação, até demais. Por isso fico envergonhada e sinto minhas bochechas corarem.

Ele ri e se senta ao meu lado. Minutos de silêncio se seguem. Eu termino de comer e me levanto.

— Tenho que ir, adeus — eu digo e começo a andar até que sinto alguém me parando.

— Antes poderia me dizer seu nome? — ele diz e eu percebo que seu olhar fixo em mim diz que ele parece nervoso, ansioso, constrangido, tudo ao mesmo tempo.

— Me chamo Nathalie Montgomery. E você?

— Jason Walker. Foi um prazer Nathalie — ele diz e me solta.

Ao caminhar em direção a Escola sinto que essa não será a última vez que verei Jason e que muita coisa ocorrerá entre a gente. Parece bobagem, mas eu simplesmente sinto isso. Meus pressentimentos geralmente se cumprem, e parece que algo acontecerá entre mim e Jason. Mas o que aconteceria? Paixão? Namoro? Amizade?

Voltei para a sala, mas não parava de pensar nele. O professor estava explicando, mas eu simplesmente só conseguia pensar no quanto ele era bonito e o quanto queria descobrir o que aconteceria. Quanto mais pensava, mais perguntas surgiam. Porque ele foi lá fora e falou comigo? Quem ele era? O que ele queria comigo? Eu ainda iria descobrir.

— Nathalie, conseguimos entender então que x vale? — perguntou o professor.

— 6? — eu disse tentando disfarçar.

— Errado. Parece que você não estava prestando muita atenção. Posso saber o por quê?

— Estou me sentindo um pouco mau professor Alan, desculpe — eu disse tentando disfarçar o real motivo.

— Ok, dessa vez eu deixo passar.

"Ufa, essa foi por pouco, consegui disfarçar!" Foi isso que pensei. Eu não era muito boa em mentir. Mas dessa vez deu certo. Resolvi então me focar na aula, para que esse tipo de situação não se repetisse. Pensaria nas dúvidas sobre Jason depois.

++++++

Depois da escola fui direto para casa. Cheguei em casa e o relógio marcava 17:15. Eu entrava na escola às 8 horas e saía as 17 horas. Levava cerca de 15 minutos para ir e voltar da escola. Ia limpar a casa inteira, cozinhar e então jantar com minha mãe. Ela trabalhava como advogada numa empresa muito renomada. Eu tinha orgulho de minha mãe.

Limpei a casa ouvindo música pop e logo fui fazer a comida. Cozinhei coisas simples: Arroz, feijão, filé de frango frito e uma salada de tomate e alface. Quando tinha terminado tudo minha mãe chegou, eram cerca de oito horas da noite. Esse era o horário que ela sempre chegava em casa.

— Boa noite mãe, preparei o jantar! — disse eu com todo orgulho.

— Boa noite Nath, não fez mas que sua obrigação — respondeu ela com um olhar frio.

Senti-me um pouco triste, mas preferi fingir que nada havia acontecido. Nós duas nos sentamos-nos à mesa de jantar, em silêncio. Esse silêncio prosseguiu até que eu resolvi quebrar o clima tenso:

— Como foi seu dia?

— Ótimo! Venci mais um caso. E o seu? — disse ela, mas eu percebi que ela pouco se importava sobre como tinha sido meu dia. Parecia que ela perguntou apenas por educação.

— Diferente — respondi corando — Conheci um garoto.

— Um garoto? Como assim? O que ele queria? — disse ela franzindo o cenho.

— Sim! Aliás, um garoto muito bonito. Ele só almoçou ao meu lado, nada demais mãe.

— Ah sim. Tome cuidado Nathalie. Os homens e garotos são muito traiçoeiros. Eles se aproveitam do que sentimos por ele. Eles traem, mentem, omitem, e nos usam como se fossem objetos. Seu pai era assim. Tome cuidado com esse garoto — ela alertou, demonstrando preocupação.

— Ok.

Terminamos de comer e fui lavar a louça. Eu e minha mãe não éramos próximas, mas percebi que naquele momento ela tinha me dado um conselho de mãe, que naquele momento ela estava preocupada. Fiquei feliz porque essa era mais uma das poucas vezes que ela mostrava interesse ou preocupação comigo.

Enquanto lavava a louça refleti no que ela disse. Eu entendia seu medo de que eu me magoasse, mas ainda assim não acreditava que todos os homens e garotos eram assim. Eu não achava que Jason era assim. Eu acreditava que ele seria pelo menos um bom amigo. Eu ainda achava que existiam homens honestos, românticos e que um dia eu iria achar meu verdadeiro amor.

Acredito que ela começou a pensar assim depois do meu pai, do tanto que ele deve ter a feito sofrer. Ele havia ido embora antes mesmo que eu nascesse, e nunca mais volto. Tinha dó dela por isso, deve ter sido muito difícil ser abandonada por alguém que ela amava tanto. Eu nem tocava no assunto, não perguntava nada sobre meu pai. Às vezes sentia curiosidade de saber como ele era ou se ela fazia ideia do porque ele havia ido embora. Mas não queria magoá-la, por isso deixava minhas dúvidas de lado e não tocava no assunto.

Logo depois fui me deitar e comecei a pensar em meu relacionamento com minha mãe. Ela me mantinha afastada, mas eu acreditava que no fundo ela me amava. Eu achava que ela simplesmente tinha medo de se aproximar e de que eu a deixasse como meu pai fez, ou que ela simplesmente não gostava de mim. Essa dúvida me corroia por dentro, mas eu preferia acreditar que era medo de se magoar. Não sei o que faria se minha mãe não gostasse de mim. Já era difícil lidar com o fato que meu pai me abandonou, e imaginar que minha mãe não gostava de mim era muito pior. Isso me fazia sentir um vazio muito grande em mim às vezes: Já não tinha um pai, e a mãe que eu tinha me afastava.

Ela me criou, mas não me dava carinho, ou atenção real. Ela era indiferente a maior parte do tempo. Por isso eu fazia de tudo para agradá-la, por isso eu me esforçava muito nos estudos. Achava que se eu fosse a melhor da turma, ela se orgulharia de mim e me trataria com carinho, amor, que ela permitiria que eu me aproximasse dela. Mas de tanto me esforçar eu ficava exausta, no dia das provas estava sempre cansada e não ia muito bem. Era um total fracasso em conseguir chamar a atenção de minha mãe sendo uma boa aluna. Mas eu não ia desistir. Precisava preencher esse vazio em relação a minha mãe, e faria o que fosse necessário para isso.

Nós duas éramos muito parecidas fisicamente. Ambas tinham a pele branca, cabelos cacheados e loiros na altura do ombro. Também tínhamos a mesma altura. Tínhamos apenas duas diferenças: ela usava óculos e tinha os olhos castanhos, eu tinha os olhos azuis e umas sardas na bochecha. Minha mãe disse que essas características são heranças genéticas do meu pai. Aliás, isso foi a única coisa que ela me falou sobre isso.

Mas, apesar de sermos muito parecidas fisicamente, éramos muito diferentes. Enquanto minha mãe era focada e sempre sabia e conseguia o que queria, eu não tinha focos ou objetivos. Ela era elegante, inteligente, educada, às vezes fria, mas também muito preocupada. Eu era muito carinhosa (chegava até a ser boba), não me preocupava muito com coisas como andar elegante e não era inteligente. Agia muito por impulso e apesar do esforço não conseguia sempre ter boas notas na escola. Queria ser como minha mãe. Mas era tão difícil. Já era tarde e decidi parar de pensar nisso. Em poucos minutos peguei no sono.

Notas finais
Essa é minha primeira história e espero que sejam sinceros ao dar sua opinião. Aceito elogios, dicas ou criticas, mas por favor comente!