Notas iniciais
" Gostoso mesmo é quando tudo acontece por acaso. Sem data, sem horário, apenas coincidências, ou então destino." - Jô Soares

Quarta, dia 30 de setembro de 2015:

Levantei e fui tocar café. Depois fui procurei o chaveiro. Procurei, procurei e procurei o chaveiro, mas não o achava. Estava quase desistindo de procurar quando o achei numa caixa que ficava em cima de meu guarda roupa.

Eu havia escondido ele lá por causa de minha mãe, não queria que ela descobrisse nada sobre aquele dia. Não queria levar uma bronca por ter saído sozinha com Daniel. Queria preservar aquela memória intocável. Escondi tão bem que até esqueci onde coloquei.

Peguei o chaveiro e coloquei em minha chave, porque agora se minha mãe me perguntasse eu não teria medo de levar uma bronca. Meu quarto estava revirado. Então fui arrumar a bagunça que tinha feito, e no pique aproveite e limpei a casa toda. Quando terminei vi que ainda já eram duas horas da tarde, mas dava tempo de almoçar e de ir trabalho que tinha que entregar hoje na escola.

Depois de comer, fui me arrumar. Coloquei meu vestido vaze rosa estampado com pequenas flores. Era simples, porém bonito. E prendi meus cabelos em um rabo de cavalo bem alto. Depois coloquei brincos da mesma cor do vestido. Parei no espelho e gostei do que vi. Eu não estava elegante ou na moda, mas estava arrumada do jeito que gostava, eu estava confortável.
Então segui em direção à escola. No caminho pensei que talvez encontrasse com Jason lá. O que seria que ele pensaria quando me ver? Não fazia ideia.

Fui caminhando devagar até a diretoria. Por coincidência ao chegar lá vi Jason conversando com uma moça na diretoria. Ele estava focado na mulher, mas então ele se virou e me viu. Puder notar a surpresa em seu olhar.

— Nath! Oi, o que faz aqui? — ele perguntou com um ar de curiosidade.

— Olá Jason, vim entregar um trabalho — respondia a ele — Onde está o professor Kellerman de Filosofia? — perguntei a moça da diretoria.

— Está dando aula no 2° G!- respondeu ela. Aliás, ela era muito simpática.

— Obrigada- eu disse me virando automaticamente para Jason — É na sua sala, certo?

— Sim, posso te levar até lá — ele respondeu confiante — Por aqui.

A diretoria ficava no primeiro andar no fim do corredor à esquerda. E a sala dele ficava no segundo andar. Percorremos o começo do corredor em silêncio. Eu estava pensando naquela coincidência. Havia tantas salas para meu professor estar e ele estava justo na sala de Jason? Isso era até engraçado.

— Você está bem Nath? — ele perguntou quebrando o silêncio.

— Estou e você? Eu perdi a hora hoje...

— Estou bem. Ah entendi, eu também perco a hora às vezes. Normal.

Pensei em falar do clube de teatro ou de Hanna, mas aquele não era o momento. Não queria me precipitar.

— Sim. Está gostando da primavera? — ele disse olhando para a cerejeira pela janela.

— Claro, eu amo a primavera! É minha estação preferida do ano!

— Que interessante! Eu gosto do Inverno. Mas o que você mais gosta da primavera Nath? — ele indagou.

— Acho que tudo. Mas ver as árvores tão verdes, com suas flores, como as rosas, lírios, damas da noite são coisas que me acalmam, me deixam muito feliz — respondi com um sorriso sincero.

— É muito lindo mesmo. Qual sua flor preferida?

— Hortênsias roxas, sem dúvida! Já viu
uma? — perguntei.

— Não. Quem sabe um dia — ele disse parando e indicando para eu fazer o mesmo — Não sei se você percebeu, mas já passamos da minha sala!

Nós rimos. A conversa começou a fluir então nem percebemos que passamos da sala. Chegamos até a sala e batemos na porta. O professor abre a porta e fica surpreso quando me vê.

— Olha quem deu as caras, senhorita Nathalie! O que faz aqui? — ele indaga.

— Vim entregar seu trabalho — digo sem mais delongas.

— Ah compreendo, entrem vocês dois — ele disse abrindo a porta — E você venha até minha mesa Nathalie.

Entramos e Jason se sentou no terceiro lugar na fileira do meio da sala, a fileira dos populares. Tinha me esquecido que Jason era popular.

— Deixe seu trabalho aqui e espere enquanto eu registro no diário da sua sala — diz o professor.

Percebi que todos acharam meio estranho nós termos entrados juntos e por isso agora me observam enquanto eu estou parada ao lado da mesa do professor.

— " quem é essa aí?" — pergunta umas garotas populares a Hanna Berry.

—"Não faço ideia, é só mais uma invisível"- Hanna responde.

Ao ouvir isso percebi que ela tinha certa razão. Mas isso me deixou com raiva e eu tinha que sair dali.

— Terminei — diz o professor.

Eu agradeço e começa a andar em direção à saída da sala, mas antes que eu saia...

— Nós vemos amanhã no ponto de encontro Nath! — diz Jason acenando. Eu retribuo o gesto timidamente e concordo com a cabeça.

No caminho até casa vou brincando com meu chaveiro para me distrair. Mas ao chegar em casa não consigo fugir do pensamento de que Hanna está certa. Eu passei os últimos anos sendo invisível e não me arrependo disso. Mas o desprezo expresso na voz dela me deixou chateada.

Porém o que realmente me deixou intrigada é a diferença entra Jason e Hanna. Ambos são populares. Mas ambas tratam as pessoas de uma formam tão diferente! Como opostos. Jason era popular, mas era educado comigo, já Hanna nunca falou comigo, mas deixou bem claro que provavelmente nunca falaria. Ela me rebaixou antes mesmo de me conhecer. Como um garoto educado como Jason namorou a arrogante da Hanna? Não faço ideia. Não faz sentido. Mas tudo bem. Agora vou focar em outras coisas.

Fui ler um livro na sala. Eu gosto muito de ler. Eu me desligo deste mundo quando leio e passo a viver o mundo do livro. Essa sensação é tão boa. Somos capazes de ir a lugares que nunca fomos ou iremos por meio da leitura. Gosto de ler romances, suspenses e aventuras. Enquanto lia nem vi o tempo passar. Minha mãe chegou e eu nem havia preparado o jantar.

— O que você fez hoje Nathalie? Por que não fez o jantar? — disse minha mãe com um tom agressivo.

— Desculpe mãe, estava lendo e nem vi o tempo passar — disse tentando acalmar a raiva de minha mãe.

— Que desculpa esfarrapada! Você não fez porque não quis, porque age como se fosse uma aleijada e deixa pra mim que chego cansada do serviço ter que fazer comida! — disse ela cuspindo essas palavras com desprezo. Assim como Hanna havia feito.

Fiquei sem reação. Preferi sair de perto de minha mãe ou ia chorar. Saí da sala e fui correndo pro meu quarto. Era muito pra eu aguentar num único dia. Minha mãe provavelmente estava estressada com seu serviço e acabou descontado em mim, mas isso não deixa mais fácil de esquecer aquelas palavras. Não é a primeira vez, nem a segunda. E parece que eu ter tido o trabalho de limpar a casa toda não muda nada.

Então decido que é melhor passar a noite em meu quarto do que tentar manter um resto de paz com minha mãe naquele momento. Volto a ler meu livro pra me desligar do mundo. Depois de ler por um tempo me acalmo e me deito porque não quero perder a hora para a escola de novo.