Undisclosed Desires
3 III - O Acordo de Scorpius
Notas iniciais
–Você só pode estar brincando, James ! — uma das cinquenta primas do Potter riu, socando-lhe o braço. O restante da família urrou coisas como "vai lá", ou "isso ai, Lu", enquanto eu me contentava em observá-los, de longe.
Era impressionante o quão pouco eu sabia sobre a família Potter-Weasley. E isso era, no mínimo, muito desvantajoso. Ainda mais quando se está tramando algo contra um dos membros.
Mais especificamente, o membro principal. Mesmo a distância, era notável. James Sirius Potter mandava em cada primo e prima com uma facilidade que chegava a ser patética. Talvez, a única exceção, não estivesse ali presente.
Para a minha sorte.
Conversar com o Potter mais novo era desconcertante. Ele tinha argumentos, opiniões e perguntas sobre tudo. Mesmo que não soubesse nada sobre mim — e eu tinha certeza de que não sabia — continuaria prevendo cada jogada com facilidade. Como se sentisse quando estava sendo manipulado.
E isso me deixava puto.
–Onde você colocou meus brincos, James ?! — insistiu a outra prima, puxando a orelha do moreno. James resmungou qualquer coisa, dando-lhe um tapa na bunda — nada discreto — que a fez corar violentamente.
Essa eu conhecia muito bem. Mesmo estando em segundo lugar na minha lista pessoal de desafetos, não era menos merecedora de desprezo. Dominique Weasley. Um exemplo exato do porque eu odiava tanto a raça feminina. Fútil, vaidosa ao extremo, sensível e prepotente. Mas não uma prepotência que beirasse o sadismo, e sim algo próximo do insuportável. Se achava a mais bela e gostosa de Hogwarts, e tentava convencer todos — e principalmente o próprio primo — disso.
No fim das contas, só lhe rendia tapas promíscuos e boatos de que fosse uma piranha loira e burra qualquer. E eu mesmo fiz questão de espalhar uns quarenta deles. Iam desde a Sala Precisa, até a Sessão Reservada. Envolvendo mais de um garoto, e até garotas.
–Scorpius ? — ergui os olhos para Will Storm, notando que seus cachos castanhos estavam mais desarrumados que o habitual. Devia ter vindo correndo, o que era uma raridade, se tratando do imbecil mais corpo mole da Sonserina. Me estendia um jornal, esboçando um sorriso debochado — Você já viu as notícias ?
–Hm ? — tomei "O Profeta Diário" da mão dele, folheando com desinteresse as primeiras páginas. "Ministro da Magia está de licença devido ao estado de saúde", "Gringontes passa por crise financeira difícil", "Trouxas desconfiam de incidente em Londres com -
–Não, não, cara. A matéria do verso.
Virei o jornal, observando a enorme manchete:
–Alunos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts permanecem desaparecidos — leu Will, em voz alta — Dá pra acreditar nisso ?! Não acharam eles até hoje! Esses babacas grifinórios não sabem mesmo enfrentar a realidade! Mas fugir com catorze anos ... temos que admitir que são corajosos. Eu já teria voltado com o rabo entre as pernas !
–Ah, você acha que fugiram — observei, quase num tom irônico. Minha sobrancelha ergueu-se, numa expressão descrente.
–É claro, todo mundo acha ! — garantiu ele, sentando-se ao meu lado no banco de pedra. Seus olhos passearam pelos alunos presentes no pátio, e ele suspirou, pensativo — Correm alguns boatos de que tinham planejado a fuga o ano todo, no tempo livre. Incrível que não tenham os encontrado ainda.
–Quem disse isso ? — perguntei, distraído, enquanto observava Albus Severus atravessar o pátio com velocidade, carregando um envelope consigo. A face travada numa expressão desgostosa, indicando que algo havia acontecido de desagradável.
Ótima situação pra induzi-lo a falar sobre a família, e me dizer mais sobre cada um. Principalmente sobre o irmão-rival pessoal dele. E isso me daria muito trabalho. Ultimamente, vinha pensando em diversas maneiras de comprar a fidelidade do narcoléptico babaca sem que ele percebesse, e acabei prevendo que isso me custaria muito tempo, e esforço. Esforço que eu não estava nem um pouco habituado a fazer.
–James Sirius era amigo próximo deles, lembra ? Ele estava se gabando outro dia, dizendo que ele seria o próximo a fugir — explicou, e não impedi o riso debochado de se pronunciar — O quê ? — ele olhou-me, um tanto sem graça.
–Concordo plenamente com ele.
Me levantei, jogando a mochila num dos ombros, enquanto dava as costas a Will, ignorando seus protestos. Albus havia seguido na direção do lago, então era para lá que eu iria.
Como um bom aproveitador.
Andei durante alguns minutos, meditando sobre os acontecimentos recentes, e cheguei a conclusão de que deveria resolver duas coisas de imediato. A primeira, era acabar de vez com a graça de Luke Zabini. Essa falsa amizade que estávamos criando me dava nos nervos, e, além de tudo, ele estava cada vez mais apegado ao time.
E o time a ele. Era o tipo de ameaça difícil de desbancar. No entanto, sonserinos são tão céticos, quando previsíveis. Você pode acertá-los com facilidade na ferida certa. O orgulho.
A segunda coisa, era quanto a minha vingança. Não havia nada de concreto em minha mente, porque se quer havia tido tempo de observar a rotina de cada um daquela família. E isso era irritante. Eu tinha de admitir, que precisava, cada vez mais, da maldita ajuda de alguém de dentro.
Mas não tão de dentro assim. Como Albus Severus Potter.
O problema seria passar pelos adoráveis cães de guarda, que formavam praticamente um legado juntos durante os cinco anos de Hogwarts que tivemos o desprazer de passar "juntos". O Scamander, a Longbottom, e o Potter, eram quase inseparáveis. Juntos, formavam o Trio dos Invisíveis. Um mais excluído e deslocado que o outro.
Lorcan Scamander, conhecido por "puxar uma" escondido, e afirmar que vê estrelas e outras criaturas ilógicas. Alice Longbottom, a tapada. Não era algo pessoal, era só herança de família. O pai dela era tapado, e como ela não tinha personalidade alguma, era taxada como tão tapada quanto ele. E Albus Severus.
A ovelha negra da família, mais especificamente. O primeiro ano fora repleto de boatos a seu respeito. De que a família estivesse pensando em deserdá-lo, e que fosse uma vergonha ambulante. Mas durante as aulas, usava seus óculos de armação grande e assumia a pose mais nerd do mundo, conseguindo ser — por dois anos seguidos — o melhor aluno do nosso ano. Ganhou um pouco mais de respeito devido aos pontos que adquirira para a Sonserina, com sua inteligência.
Além disso, ele não falava com quase ninguém além dos dois amigos. Era um daqueles que vivia do "poucos amigos, mas bons, é só o que preciso". E eu até consideraria esse ditado inteligente, se não me fosse tão desvantajoso. Não se manipula a raça humana com dois idiotas de encosto.
Como sempre, eu seria obrigado a me livrar dos dois de forma rápida, e lógica. Corriam boatos de que fossem apaixonados um pelo outro. Não uma paixão qualquer adolescente, mas sim algo irreversível com toda a infância e adolescência de duração. Se conseguisse juntar os dois — o que seria incrivelmente fácil — abriria caminho pra viverem seu tempo ainda juntos a sós.
A sós, significa sem a presença de Albus.
Um sorriso de canto brotou em meus lábios, e tateei os bolsos atrás da bússola. Não estava conseguindo achar o garoto de forma alguma, então, teria de recorrer a ela.
O ponteiro apontava para sul, onde haviam algumas árvores, um tronco velho dominado pelo líquen, e a margem do lago. No caso, apontava para uma das árvores em especial, cujos galhos eram extensos e grossos, repletos de folhas de um verde vivo. Suspirei cansado, enquanto acelerava na direção da mesma, os olhos rodeando o local atrás de algum sinal de vida.
Só havia o som de pássaros, e de algumas risadas mais a leste, distante o bastante para serem ignoradas. Vinham de um grupo de alunos da Corvinal, que mostravam uns aos outros algum tipo de doce. No mesmo instante, senti minha boca salivar. Açúcar era um vício pessoal, e irrevogável. Sempre que viajava no trem de Hogwarts — tanto na ida, quanto na volta — os doces me acompanhavam em grandes quantidades. E só eles, na verdade. Poucos alunos se atreviam a sentarem no mesmo recinto que eu, por longos períodos de tempo. Nem mesmo o felizardo Luke e seu fiel puxa-saco Will tinham tal audácia.
Cheguei a poucos passos do tronco da árvore, fitando-a com irritação. Resolvi dar a volta na mesma, quando finalmente o encontrei.
Estava deitado, e até consideraria que estivesse morto — ou morrendo — se não soubesse de sua doença. O nariz a poucos centímetros de um certeiro e agonizante fim. Os cabelos escuros, testa, olhos, tudo dentro d'água. As pernas inquietas, sacudindo-se num ritmo lento, porém doente.
Andei em sua direção com velocidade, erguendo seu corpo após segurá-lo por debaixo dos braços. Logo que toquei-o, pude sentir as ondas de tremedeiras que açoitavam seu desmaio, e quase — repito, quase — me senti mal por sua situação.
Se tivesse caído três centímetros acima, teria inalado água suficiente para afogá-lo sem que nem ao menos percebesse. No dia seguinte, o famoso Harry Potter receberia uma carta, ou visita pessoal de Minerva McGonagall, desculpando-se e dizendo que seu filho havia sido encontrado morto na beira do lago.
Seria até mesmo engraçado, se não fosse pelo fato de quase ter realmente ocorrido.
Arrastei-o para próximo da árvore, puxando-o pelos braços até recostar suas costas no tronco. Suspirei cansado,enquanto retirava meu casaco, agachando-me em frente ao rosto de Albus. As gotas de água gelada caiam por sobre seu rosto, e joguei meu casaco novo por cima de sua cabeça, usando-o para secar a água.
–Tsc ... — rolei os olhos, enquanto enxugava seu rosto — Não se acostume em ter a minha ajuda, babaca.Tudo pra mim tem um preço. E é bem caro.
Ignorei o fato de estar falando com uma imbecil inconsciente, e fitei agora o restante de seu estado, constatando que seu dedo indicador e o polegar permaneciam tensos, colados um no outro. Estava segurando algo antes de apagar.
O envelope.
Olhei em volta com atenção, encontrando um conjunto de folhas espalhado próximo do tronco envolto em musgo e líquens. Tratei de catá-las rápido, com receio de que se perdessem ao vento, ou , nas próprias águas.
Apenas uma das folhas era a carta, e as outras duas eram apenas uma noticia de jornal, com novidades sobre o Quadribol e seu Campeonato Mundial, e uma foto de família recente, aparentemente dos pais de Albus, abraçados numa praia qualquer. A legenda era "aproveitando longe de James".
Quanto a carta, viera de Londres, de acordo com o envelope, e fora escrita por Ginny Weasley. A provável mãe de Albus. E, obviamente, era endereçada a ele. Não tardei a lê-la, em busca de algo que me fosse útil.
"Querido Al,
Não fique preocupado pela antecedência das notícias, por favor, sei que estou enviando-as semanas mais cedo que o combinado das férias mas, dessa vez, juro que tenho um motivo bom o bastante.
Seu irmão me contou numa das respostas o que aconteceu recentemente. Ora, meu amor, seu pai ficou muito decepcionado com seu comportamento. Por que não nos contou que não havia passado no teste ? Sabemos que considera isso importante, devido a nossa linha do tempo em Hogwarts, mas não entenda mal. Não é nenhuma pressão. Se esse não é o seu forte, não deve investir nele, certo ? Quadribol é só um esporte, e você está acima dele para nós dois.
Harry mandou dizer que tem muito orgulho de você e isso já basta. Amamos você como você é, meu amor. Sem ter de nos provar nada.
Sei que deve estar frustrado porque já é o quarto ano em que tenta realizar os teste, mas não dê ouvidos a ninguém, certo ? Nem mesmo ao seu irmão. Se ele estiver fazendo as brincadeirinhas de mal gosto habituais, não me esconda, Albus Severus ! James merece uma boa lição vez ou outra.
Enfim, pensamos que isso deva ter influenciado nessas suas primeiras notas que, cá entre nós, foram um choque térmico, praticamente. Não entendemos absolutamente nada ! De verdade, suas notas estavam impecáveis nos outros anos, e de repente despencaram dessa forma.
Soubemos no mesmo instante que havia algo de muito errado.
Sinto muito pelos acontecimentos, meu filho, mas deve virar essa página e se concentrar nos seus pontos fortes. Os estudos, por exemplo, são prioridade, então, estimule a si mesmo com ele, que tal ? Mais uma vez, nós o amamos muito, e queremos o melhor para você. Até a próxima carta, e cuide-se, meu bebê.
Com amor,
Mamãe "
Incrível a capacidade dos pais de não entenderem absolutamente nada sobre os próprios filhos. Sabia disso por experiência própria. Não era atoa que detestava os meus profundamente. Se bem que, nem de ódio Draco era digno. Tinha por ele algo entre a pena e o desprezo total.
Ergui os olhos para a figura de Albus, observando-o com atenção. Suas pálpebras tremiam, ameaçando abrir, e decidi que devia deixá-lo em paz durante algumas horas. Coloquei a carta em suas mãos de volta, alongando os braços e respirando fundo.
Isso levaria meus planos a uma direção interessante.
Se eu conseguisse eliminar dois obstáculos de uma vez só, meus problemas seriam reduzidos rapidamente. Albus Severus queria entrar no time. Provavelmente por culpa de Luke, nunca conseguira.
Ambos tínhamos o mesmo impasse no Time.
Por pouco tempo.
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Haviam se passado exatamente quatro dias desde o inicio milagroso do namoro entre Alice e Lorcan. Fora algo inesperado, surpreendente, e ... já disse inesperado ?
Como num passe de mágica, uma relação que a cada passo, retornava dois, simplesmente acontecera. Perguntei a Lorcan umas três vezes o que tinha acontecido de tão diferente, mas ele não respondeu. Estava ocupado demais beijando ou elogiando Alice.
E os dias se seguiram dessa forma, até se tornarem uma semana. Uma semana longa, chata, e solitária. Se eu já estava irritado com a carta recente de Ginny, agora, a irritação havia se tornado humor negro perpétuo.
"Lorlice", como algumas meninas sem sal fizeram questão de criar, eram o casal mais grudento da história de Hogwarts. Mesmo nas aulas em que não estavam juntos, não falavam comigo. Provavelmente ocupados demais pensando um no outro. E quando, com muita luta e suor, eu conseguia fazer ao menos Lorcan dialogar, ele dizia coisas desconexas, e apaixonadas.
Tudo muito suspeito, do inicio ao fim. Eu os conhecia bem o bastante pra saber que havia algo de errado. Lorcan e Alice, Lorlice, fosse o que fosse, não eram assim. Não eram grudentos, e mesmo apaixonados, jamais seriam.
Amortentia, a poção do amor, sem duvidas. Alguém os estava enfeitiçando.
Mas quem faria isso ? Obviamente, não eles mesmos.
Sem ter nem ao menos uma dica pra iniciar uma investigação baseada em algo, tratei de deixar pra lá, e me concentrar nos estudos. O que não funcionou de forma alguma. Além dos desmaios, e cochilos — pra variar — havia um novo problema gravíssimo.
Tédio, e o mais puro desinteresse. Quase como se meu cérebro gritasse por algum tipo de entretenimento.
Fechei a capa do livro com força, lançando-o no chão do dormitório, enquanto recostava as costas na cabeceira da cama, ainda de óculos. Fitei o teto, entediado, enquanto ouvia o som de madeira arrastando em madeira. Meus olhos voltaram-se a gaveta do criado-mudo ao lado da cama, que havia subitamente se aberto. Um objeto esférico e vermelho rolou dos fundos da mesma, e abri um sorriso de canto. Era minha antiga bolinha vermelha.
No intuito de passar o tempo, retirei-a de lá, assistindo a gaveta fechar-se novamente, e depois a atirei contra a porta com força.
A bolinha colidiu e retornou, quicando apenas duas vezes antes de retornar em alta velocidade na direção de meu rosto. Agarrei-a a poucos centímetros do meu nariz, lançando-a de novo, e com mais força. Descontando a raiva que me roía aos poucos.
Raiva de Lorcan. Raiva de Alice. Raiva de James. Raiva de ser tão egoísta quanto qualquer outro Sonserino. No final das contas, o chapéu seletor havia me desvendado com precisão. Ambicioso, orgulhoso e egocêntrico. Não aceitava perder, de forma alguma. E eu vivia perdendo. Principalmente amizades, e testes de Quadribol. Familiares idiotas também, na verdade. Mesmo que há anos não tivessem a devida importância na minha vida.
Atirei a esfera com mais força, trincando os dentes.
–Que se foda !
E então, a porta subitamente abriu-se. Pude testemunhar, sentado, de camarote, a bolinha parar a centímetros do olho direito azul de ninguém menos que Scorpius Malfoy.
Engoli em seco.
Scorpius piscou algumas vezes, enquanto permanecia segurando o objeto em sua mão, bem próximo de sua pupila , meio desnorteado. Seus olhos desviaram-se do vermelho, e focalizaram-se em mim. Diretamente.
Senti um frio percorrer minha espinha.
–Me ouviu chegando ? — perguntou ele, num tom discretamente irônico. Neguei com a cabeça, levantando-me e caminhando de forma desajeitada em sua direção.
–Não — disse , erguendo a mão para pegar a bolinha de volta. Estava a , no máximo, uns três passos dele — Me desculpe.
Ele analisou o objeto com a mão, demonstrando interesse.
–Ainda brinca com brinquedos ? — perguntou-me, a expressão transbordando deboche. Rolei os olhos, já impaciente. Péssima hora para esse tipo de brincadeira de mal gosto.
–Se já terminou, pode me devolver ? — insisti, e estendi a mão no intuito de pegar de volta. Ele desviou do movimento a tempo, segurando com firmeza a esfera próxima dos olhos. Olhou as palavras gravadas, e franziu o cenho.
–"Coca-Cola" ?
Observei o nome por alguns instantes.
–O que é isso ? — perguntou o menino, fazendo uma careta para o objeto — Um brinquedo ?
–Não, não — o menor riu, sacudindo a cabeça em negativa, como se dissesse "você não tem jeito mesmo " — É um chaveiro, Albus. Sabe, aqueles trocinhos de segurar.
–Segurar o quê ? — perguntou o jovem bruxo, já irritado com aquelas inúmeras incógnitas.
–Ora, chaves, é claro ! — o menino riu, dando um tapa na própria testa, incrédulo — Você é bruxo, mas é muito burro, Al ! Você pode pendurar as chaves da sua casa aí, se é quem vocês usam chaves comuns. Mas , bem, se quiser usar como brinquedo, é uma bolinha e tanto.
–É um presente, então ? — deduziu o Potter. O outro assentiu.
–Sabe, de primo pra primo — explicou, um tanto sem graça — Você se viciou na Coca-Cola que o meu pai comprou ... e sempre que vem aqui só bebe isso, até no café ! — os dois riram — Achei que seria um presente legal.
–Valeu mesmo, Liam. É muito maneiro, esse ... bagulho de chaves.
–É o nome de uma bebida — murmurei, fitando a bolinha com atenção. Sentia falta de Liam. Mesmo que trocássemos cartas vez ou outra, só nos víamos uma vez ao ano. No aniversário de morte de uma mulher que meu primo denominava "Vovó Petúnia". Meu pai, Harry, insistiu que eu jamais chamasse-a de tal forma. Ela não era minha avó. Não era nada minha.
No entanto, sempre achei que devia ter sido uma pessoa importante na história dele. O olhar triste que ele fazia, quando seus olhos encaravam a lápide metalizada. Nada comparado ao de tio Duda, o pai de Liam. Era visível o quanto a mulher lhe fazia falta.
–No que está pensando ? — perguntou Scorpius, tirando-me dos devaneios. Sacudi a cabeça, passando a mão nos meus próprios fios de cabelo espetados.
–Nada demais — garanti a ele, enquanto pegava o objeto de volta — Foi mal, de novo.
–Na verdade, Potter ... — o loiro analisou-me de cima a baixo, com um ar de superioridade — Temos que conversar.
–Sobre ... ?
–Estou interessado em fazer um acordo.
Franzi o cenho, desconfiado. A fama de Scorpius Malfoy não era uma das melhores de Hogwarts. Na verdade, tinha potencial pra ser uma das piores. Não havia um aluno que não o temesse, vez ou outra. Tudo nele era intimidador. Mesmo que não tivéssemos se quer um único centímetro de diferença, era como se ele sempre me olhasse de cima.
Inalcançável.
–Que tipo de acordo ? — consegui perguntar, após alguns segundos de silêncio. Ele sorriu de lado.
–Já deve ter ouvido falar sobre Luke Zabini, certo ? — iniciou, enquanto andava pelo quarto, até se escorar na porta do banheiro, os braços cruzados, e as sobrancelhas franzidas em minha direção — O cara que também dorme nesse quarto ... -
–Eu sei quem é o Zabini — cortei-o, impaciente com o jogo — Vá direto ao ponto.
–Já vou chegar nele, Albus Severus — ergueu as mãos em rendição — Soube por fontes que tentou o teste quatro vezes desde que entrou para Hogwarts.
–Sério ? — ri, sadicamente — Não posso acreditar. Quem foi que te disse ? A Escola inteira ?
–Não se ache tão importante, Potter — rebateu, num tom frio — A Escola inteira não tem tempo de reparar a sua sútil existência pelos corredores. Nem eu tinha, até poucos dias.
–É isso que mais me intriga, Malfoy — contei a ele, enquanto sentava-me na cama, cansado. Sem quebrar o contato visual em momento algum — Seu repentino interesse.
–Já estou chegando lá ... — murmurou, vindo em minha direção, naquele seu estiloso caminhar intimidante. Como tudo em si. Senti meu corpo travar mais uma vez, como se implorasse para que eu saísse dali.
Como sempre, o corpo e a mente estavam num conflito interno. Em algum lugar do meu subconsciente, algo me dizia para ficar ali. Encarando-o. Afirmando que eu não tinha medo dele. E eu realmente não tinha. Era apenas ... hesitação.
Senti outro local em meio aos meus neurônios dar um estalo. Sem que ele tivesse chance de continuar a explicação, deduzi incerto :
–Quer se livrar do Zabini. Sempre quis a vaga de capitão do Time. É por isso que anda com ele ... durante o almoço, e finais de semana.
O loiro engoliu em seco, observando-me com um aparente interesse. Quase reconheci um lampejo de surpresa em seus olhos azuis indecifráveis.
–Me livrar é um termo forte — comentou, sentando-se na cama ao lado da minha. As pernas esticadas, uma por cima da outra. Os ombros tensos — Eu diria retirá-lo da jogada.
Estou começando a pensar que ele goste mesmo de jogos. Jogos reais, e premeditados.
–E o que isso tem a ver comigo ?
–Se eu me tornar Capitão da Sonserina, e Luke ... for "retirado" da jogada, vai sobrar a vaga de goleiro do Time. Você não fez teste pra essa posição.
Engoli em seco, fitando um ponto qualquer atrás de Scorpius. Eu não gostava desse assunto. Talvez porque nunca tivesse conseguido falar abertamente de todos os meus segredos com alguém. Mas, no caso, meus segredos, por mais incrível que fosse, não eram tão secretos assim. Ao menos para Scorpius.
Ele era idiota ou o quê ? Ser narcoléptico já era uma merda. Pior ainda seria ser um narcoléptico goleiro. Qualquer momento de distração, me faria dormir em pleno voo. Seria questão de tempo até -
–Escuta, eu não sou imbecil. Mas a sua doença é algo que pode ser controlado, com os remédios certos ... há vitaminas, cochilos anteriores a momentos importantes. Tudo isso pode ajudar. Ok, não vai curar você, mas nunca se tratou de cura. Você quer a posição do Time, e eu posso te dar isso. É só isso que deve levar em conta.
–Que tal levarmos em conta a parte em que isso é vantajoso pra você ? — incentivei, cruzando os braços rente ao peito. Não desviei os olhos dos seus em momento algum, mantendo o tom desafiador — Porque é obvio que consegue tirar o Zabini sozinho do Time, e não vai me ajudar só porque tá afim.
–É, não vou mesmo. É coisa de otário — concordou ele, olhando-me de esgueira — Mas, infelizmente, preciso sim da sua ajuda.
–Foi o que eu imaginei — resmunguei, rolando os olhos enquanto bagunçava meu cabelo, mais uma vez. Estava começando a ficar nervoso. Algo dentro de mim estava caindo direitinho na armadilha. Eu queria tirar Luke do Time. Eu queria aceitar o acordo. E eu faria o que ele pedisse, como um bom idiota egoísta — E aonde eu entro ?
–Seu irmão vai dar uma festa em Hogsmeade — contou-me, erguendo uma sobrancelha — Suponho que já tenha ouvido falar disso. Nenhum sonserino foi convidado.
–Mas você quer que Luke vá — deduzi, refletindo — Ele é burro o bastante pra pensar que seu objetivo é fazê-lo ser ainda mais popular.
–Exatamente. Vou denunciar a porra da festa quando ele estiver bem bêbado...
–E James vai botar a culpa nele — completei, engolindo em seco. Maldito plano bem executado. Scorpius parecia conhecer as atitudes de James tão bem quanto eu, que era o próprio irmão.
Se bem que James era um livro aberto. Observá-lo durante cinco minutos dizia tudo sobre ele.
–É, seu irmão é previsível. Até ai, tudo sob controle. Meu único problema, é fazer com que Luke entre na festa. Não consigo descobrir onde fica, porque, ao que parece, nem mesmo os convidados sabem onde é. Algum truque barato daquele viado do Potter.
Ele sorriu debochado ao ver que eu havia feito uma careta.
–De qualquer forma, mesmo que todos os sonserinos tentassem descobrir, não conseguiriam. Exceto um, em especial. Você é irmão dele. E primo de todos aqueles ... enfim, é quase impossível que não te deixem ir.
–Eles não vão nem me convidar.
–Mas se você disser que quer ir, não vão ter como negar.
Passei a mão pelos meus próprios jeans, sentindo minha perna tremer freneticamente. Estava num dilema interno irritante. Eu já havia aceitado. O problema seria ter a coragem para colocar o rabo entre as pernas e dizer a James algo desse tipo. Seria como ... pedir colo, ou algo desse nível patético.
Quase como uma criança lesada.
–Te dou uma resposta amanhã — murmurei, levantando-me. Scorpius resmungou qualquer coisa, e deitou-se na cama, desleixado.
–Você já me deu, Potter — escutei-o sussurrar, enquanto eu fechava a porta do quarto.
E ele tinha razão.
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