Underwater | Segredos Revelados
9 Capítulo 8

Depois do encontro com meus pais eles me levaram à sala do trono. Alex, felizmente, me acompanhou. Ainda não me sentia plenamente segura.
Eu não cansava de observá-los. Meus pais. Eles ainda eram novos, aparentavam ser apenas uns 10 anos mais velhos que eu, o que me levou à pergunta: Somos imortais? Minha mãe era muito parecida comigo, até nossos tons de pele pareciam iguais, mas percebi que suas escamas tinham um tom rosado sobre o azul que era lindo e seus cabelos batiam em sua cintura. Já meu pai, sua pele era esverdeada e suas escamas eram completamente azuis com um tom prateado sobre elas. Seu cabelo era castanho e longo, batia na altura dos ombros e estava preso em um rabo de cavalo baixo. Percebi que cabelos longos era tendência por ali. Os olhos de meu pai eram coloridos, como se tivessem prendido um arco-íris ali, assim como o da minha mãe, então pude ter uma ideia como eram os meus também. Perguntas queimavam minha língua, mas eu não sabia como fazê-las sem parecer uma total ignorante, o que eu era, mas resolvi que as faria quando estivesse me sentindo mais confortável.
O caminho para a sala do trono era confuso, mas sua beleza compensava. Quadros e estátuas decoravam os corredores. Portas e arcos em pedras esculpidas enchiam meus olhos. Plantas aquáticas que eu nunca havia visto também eram comuns ali. Perguntei-me quantas belezas marinhas existiam que ainda não haviam sido descobertas pelo homem. A porta da sala do trono era diferente das outras, completamente dourada, mais brilhante que ouro e dois guardas estavam em frente dela.
"Altezas" — eles disseram ao se curvar.
Eles abriram a porta e eu quase abri a boca pasma. A sala era enorme, cabia em média 300 pessoas sem apertos. Dois tronos grandes e dourados se erguiam em cima de uma escada com 5 degraus, algo feito apenas para que se destacassem dos outros assentos ao redor, os contei e eram 12. No centro do salão havia um mosaico no chão, com o desenho de uma árvore branca e enorme. Qual era o significado daquilo? As pilastras sustentavam o teto alto como de uma catedral e no centro havia uma cúpula de cristal.
"Isso é lindo!"
Minha mãe riu e meu pai acariciou meu ombro.
"Isso que você ainda não conheceu todo palácio, nossa espécie é extremamente talentosa e preza muito pela beleza" — disse meu pai.
Um tritão saiu uma das aberturas laterais da sala, que eu não havia notado. Ele era forte e grande, com a estrutura semelhante com meu pai. Sua pele era esverdeada e suas escamas eram de azul esverdeado. Seus cabelos eram castanhos e grandes e quando chegou perto de nós pude ver seus olhos verdes, como a cor de uma alga.
"Agathe, esse é nosso conselheiro Sellat, uma das maiores cabeças de nossa causa e meu irmão" – a apresentação foi feita pelo meu pai.
O tritão se curvou respeitosamente e sorriu para mim.
"Sobrinha, você tornou-se tão bela quanto as sereias dessa família, mas não esperava menos, desde que nasceu é um ponto brilhante no caos em que vivemos" — seu tom era doloroso, mas aconchegante como se me contasse suas dores sem dizê-las.
"Obrigada, tio" — apesar de não lembrar daquele lugar e daquelas pessoas era como se eu estivesse passado apenas alguns meses fora.
Ele estendeu a mão para que eu a tocasse e assim que meus dedos roçaram em sua palma eu fui tomada por uma dor tão forte que escureceu minha visão e me fez gritar. Conforme a dor desapareceu fui levada a outro lugar.
Era um quarto e eu não precisei ver muito mais para saber que era no palácio. A cama tinha o desenho de uma grande concha. As paredes tinham um tom perolado, levantei a mão para tocar na parede e não consegui. Alguém estava entrando no quarto e virei-me para ver quem era. O tritão tinha uma aparência mais jovem, mas com certeza era meu tio. Seu semblante era de dor, então eu vi, entre os lençóis da cama uma mulher encolhida e em seus braços um neném aparentemente morto. Meu tio se prostrou de joelhos no chão com os braços como a mulher e chorou copiosamente.
— Ah, Arodasi, nosso filho... – Ele murmurava em voz alta, algo que eu não achava possível na água.
Dei a volta na cama para ver melhor a mulher. Ela era claramente uma sereia. Sua pele era de um tom coral e suas escamas transpareciam em alguns lugares vermelhas e roxeadas. Seu cabelo era do mais puro negro. Não pude ver seus olhos que choravam e estavam fechados, mas eu sabia quem ela era então podia imaginá-los coloridos. Quando, meu tio em seu desespero quase mudo puxou o lençol pude ver melhor a mulher e... suas pernas. Ela tinha pernas! A mulher se levantou e olhou para o tritão, deixando a criança morta na cama.
— Ela o matou, Sellat. Ela matou nosso pequeno tritão, nosso menino. Eu fui pedir sua ajuda e ela O MATOU! – Seu grito foi tão forte que eu me assustei.
— Arodasi, – meu tio olhou em seus olhos – ninguém o matou, foi a doença. A doença que sabíamos que ia matá-lo. Devíamos tê-lo entregue aos humanos. Antes vivo e longe de nós que morto e sem futuro! – Pelo tom dele, eu sabia que essa discussão havia acontecido inúmeras vezes.
— EU JAMAIS O ENTREGARIA A HUMANOS!
— Eu sei – a voz de meu tio transmitia tristeza e derrota enquanto a de minha tia fúria, dor e algo mais frio que isso que eu não sabia nomear.
— Eu a matei e quando descobrirem vão me matar. Uma ação tão poderosa não pode ser feita sem consequências... — Sua voz estava baixa como se estivesse falando para si.
— Você está fora de si, meu amor. Você não consegue enxergar além da dor agora, mas vamos nos curar.
No momento que as palavras saíram da boca de meu tio, Scarlate o olhou com ódio.
— Espero que sua bondade o mate – foram suas últimas palavras para ele quando ela saiu pela porta com suas pernas se transformando em cauda.
Depois dessa cena passei por outras lembranças de meu tio. A passagem pelo quadro de Poseidon e a descoberta da grande árvores branca morta e seus restos, cinzas molhadas. A tristeza de todo o reino. A sentença de morte para Scarlate. A divisão do reino e luta incessável dos longos anos seguintes então as lembranças pararam de vir e eu pude me sentir sozinha em minha própria mente. Fui voltando ao presente e antes mesmo de abrir os olhos pude sentir eles em volta de mim preocupados e seus pensamentos.
O primeiro rosto que procurei quando abri os olhos foi o de meu tio, ele me olhava preocupado e eu quase não tive coragem de falar.
— Eu vi tudo – falei, sem lembrar de transmitir por pensamento e sem me preocupar com o que ele poderia achar que significava "tudo".
— Por Poseidon, – Alex falou. – Ela tem o dom do tempo!
Meus pais se olharam assustados.
— Isso seria... – minha mãe sussurrou incrédula.
— Incrível – meu pai completou. – Ninguém nasce com esse dom a mais de 200 anos.
Engoli em seco, sentindo-me envergonhada, confusa e um pouco violada.
— Queria descansar um pouco – olhei para minha mãe que me observava.
— Claro – ela pegou em minha mão me guiando.
Olhei para Alex que sustentou meu olhar, mas não se moveu. Meu pai disse algo em seu ouvido e eles se afastaram. Inúmeras ideias se passaram na minha cabeça sobre o teor da conversa.
Ela seguiu por uma porta, eu a acompanhei. Aquele palácio parecia um labirinto. Seria fácil eu me perder por seus corredores.
Olhei para baixo, para minha cauda e aquilo me pareceu irreal demais. Comecei a me sentir estranha.
— Vai estranhar por alguns dias,– disse percebendo que eu olhava para minha cauda. – mas depois nem vai sentir diferença, na verdade vai querer ficar com sua cauda pra sempre.
Aquela informação fez meu estômago se comprimir de nervoso. Nunca mais usar pernas? Nunca mais estar na terra? Nunca mais ver... meus pais?
A rainha parou em frente a uma porta dupla dourada. Abriu-as com apenas uma mão.
— Eu decorava seu quarto todos os anos – contou-me. Entrou e se sentou na cama. Sua cauda reluzia.
Era lindo, não podia negar. O quarto era decorado em branco e dourado fosco. No teto, uma luminária que parecia abrigar diversos diamantes dava luz ao local. Desde a cabeceira até o tapete parecia terem saído de um sonho.
Minha mãe deu espaço para que eu me sentasse ao seu lado.
— É lindo – confessei, olhando em volta.
— Não tão lindo quanto você, minha sereia – ela sorriu para mim. Era estranho o modo como me olhava, como se eu fosse algo surpreendente. – Decorar esse quarto todos os anos nunca acabou com a dor que sentia pelo seu distanciamento, mas ajudava a diminuí-la. Pensar que você voltaria foi a única coisa que me manteve de pé todos esses anos.
Um silêncio pairou entre nós. Havia tantas coisas a serem ditas, mas parecia que não era a hora.
— Vou deixá-la descansar – ela se levantou graciosamente e saiu fechando as portas atrás de si.
Deitei-me, fechando os olhos com força. Havia algo em meu peito, em meu íntimo que ainda me incomodava. Respirei fundo. Lembrei do que Alex havia me dito, para me concentrar quando quisesse conversar particularmente com ele. E se eu pudesse me concentrar para voltar a ter minhas pernas? Fiz uma pequena meditação e pensei em minhas pernas com todo o empenho de minha mente. Quando abri os olhos novamente elas estavam de volta, apesar do tom azulado e de escamas aparentes em alguns lugares. Sorri ao vê-las. Ajeitei-me na cama, sentindo os lençóis tão macios que eram ironicamente como água escorrendo pelas minhas mãos. Apesar do turbilhão em minha mente, adormeci.
Acordei no chão. Era estranho pois eu podia sentir o frio em minhas pernas. Percebi que não estava mais em água, mas em terra firme, ou quase isso. Era um navio naufragado, ficava no fundo do mar, mas incrivelmente a água não entrava em seu interior. Olhei em volta, estava tudo aos pedaços, cadeiras enferrujadas estavam jogadas em um canto, as mesas amontoadas em outro. Eu não sabia porque estava ali, mas meu corpo todo parecia estar em alerta, como quando vi Somied, o lacaio de Scarlate que havia nos seguido até o penhasco.
"Sei que ainda não gosta de sua cauda."
A voz falou em minha mente, fazendo-me tomar um susto. Olhei para os lados, mas não vi ninguém.
"Quem é?" – Perguntei sem palavras, sentindo um frio que parecia emanar de mim mesma.
"Você sabe quem eu sou."
Logo o nome de minha tia veio em mente. Então finalmente conheceria ela.
"Quero vê-la" – ordenei sem perceber.
Um silêncio pairou no ar. Senti receio por falar daquela forma com ela.
"Autoritária como toda rainha deve ser. Gosto disso, Agathe."
Havia malícia em sua voz... maldade.
"O que quer?"
"Toda história tem diversos lados, quero que conheça o meu."
Respirei fundo, sentindo a curiosidade me atiçar.
"Então conte" – falei firmemente.
"Tudo o que eles te contaram ou irão contar é mentira."
Eu ri sem humor.
"Ria agora, minha pequena criança, mas chorará depois."
Senti-me irritada com aquelas palavras. Odiava a forma com que falava comigo, como se eu fosse uma criança.
"Me dê um motivo" – instiguei.
"É um fato que meu lado mata humanos. Eu mato, mas já se perguntou se seus queridos pais não fazem o mesmo, mas com uma justificativa tola?"
Franzi o cenho.
"O que está insinuando, Scarlate?"
"Seus pais também matam humanos. Justificando que querem o bem de sua raça, mas na verdade sentem prazer no que fazem."
"Está mentindo!" – Minha voz subiu um quarto.
"Sabe o porquê mato mundanos, Agathe? Você sabe o que eles fazem com nossa raça?"
Senti a irritação na voz dela. Também senti um nó em meu peito se apertar, o frio estava ficando maior. Quando me dei conta senti algo atrás de mim. Ela.
"Consiga a verdade dos seus pais e só assim poderá escolher um caminho, minha doce Agathe."
Senti seu hálito gélido em meu pescoço. Quando me virei avistei apenas escuridão.
Acordei com o coração pulsando entre as costelas. Apesar de estar atordoada, levantei-me segui com minhas pernas até o corredor. Havia um guarda em minha porta, aquilo só azedou meu humor.
— Preciso falar com o rei e a rainha – ordenei entre dentes.
Fui levada pelo grandalhão da minha porta para uma sala que tinha a entrada dentro da sala do trono. Meus pais estavam em frente a um mapa que cobria toda a extensão de uma parede.
— Olá, querida – minha mãe cumprimentou-me e olhou diretamente para minhas pernas.
— O que deseja, minha sereia? – Meu pai continha um semblante calmo.
— Saber da verdade – olhei de meu pai para minha mãe, sem me abalar ou acovardar. Nosso contato era extremamente recente, eu nem estava nem um dia inteiro ali, mas saber a verdade era o primeiro passo para estreitar laços e aprofundar a confiança. – Vocês matam humanos também?
O silêncio que se perdurou foi minha resposta. Lágrimas de raiva queriam vir. Senti-me traída e enganada, afinal não era tudo tão preto e branco quanto eu queria.
— Como sabe disto? – Meu pai perguntou, seu rosto agora estava sério.
— Não importa. Só preciso saber.
Minha mãe suspirou. Parecia cansada e pela primeira vez aparentou ter mais idade que exibia.
— Sim, é verdade. Sacrificamos humanos, mas por uma causa maior.
— Causa maior?! – Não pude conter a minha indignação. –Nada justifica a morte de pessoas!
— Nem se isso ocasionar a morte de sua raça, Agathe? – Meu pai me fuzilou com seu olhar, reprovando meu tom de voz. – Porque é isso o que vai acontecer se não revivermos a árvore da vida.
Eu não tinha resposta para aquilo.
— Depois que sua tia destruiu a árvore, ficamos sem recursos. Ela iniciou uma guerra e muitas vidas foram perdidas. Não tínhamos mais a árvore para nos curar com a mesma eficiência... não temos ainda. Nossa magia é mais escassa que antes... – Não pude deixar de pensar que um pouquinho menos de magia seria bom para as sereias. Ele parou por um momento, parecendo lembrar de algo, mas logo se recompôs novamente. – Por isso nós sacrificamos humanos, uma força para tentar...
— E a árvore voltou a vida? – Cortei, minha voz saiu mais ríspida do que gostaria.
— Não..., mas ela ainda está viva e com o sacrifício ela fica um pouco melhor.
Neguei com a cabeça. Aquilo era irreal demais para mim. Eles matavam humanos e diziam isso com uma naturalidade mórbida.
— Está vendo este enorme mapa, Agathe? – Meu pai deu espaço para que eu me aproximasse do enorme mapa. Era parecido com os mapas que vi na escola, havia diversos ponto vermelhos, alguns azuis e poucos roxos – os pontos vermelhos são locais que sua tia conseguiu nos tomar, os pontos azuis são nosso território e os roxos são de humanos.
Ele pareceu entender meu estranhamento e completou para meu choque.
— Alguns humanos sabem sobre nós e nos caçam. Os mais indefesos são pegos e mortos.
Fiquei em silêncio tentando assimilar aquilo. O mundo me pareceu tão cruel e desgovernado em poucos segundos.
— Não queríamos te contar tudo assim tão rápido – minha mãe tocou delicadamente meu ombro.
Aquelas palavras e aquele toque me enfureceram. Tudo parecia extremamente fora de controle.
— Vamos estabelecer aqui o círculo da confiança. Eu quero entender vocês, quero mesmo, mas para isso preciso saber da verdade. Sem manipulações ou joguinhos. Não devem ter medo de me contar coisas, cheguei no meio de uma guerra. Eu preciso saber do outro lado – disse olhando para os dois. – Preciso conhecer minha tia.
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