O oposto. Era tudo o que aquele lugar era do reino de meus pais. Senti-me sufocada primeiramente. Era escuro como se estivesse ainda mais fundo no oceano. Não tinha muita cor. Apenas preto, verde musgo e vermelho. Muito vermelho. Todas as plantas aquáticas eram da cor de sangue. As construções eram escuras, completamente opostas do branco que me recebeu na cidadela real. Apesar disso, a estrutura parecia ser a mesma, a mesma praça no centro, as mesmas ruas que levavam ao centro… era um espelho invertido. Pude ver o castelo nada convidativo se erguendo no alto. As torres negras eram intimidadoras.

— Eu sei, parece mais a entrada do castelo do Conde Drácula – Alex disse olhando ao redor com uma ruga que eu sabia que era de preocupação.

— Nem quero ver como é o estilo da minha tia – comentei. – Vamos para onde?

— Não precisamos ir, vieram nos buscar – Alex maneou a cabeça e eu vi ao longe dois tritões enormes vindo em nossa direção.

Envolvi minha mão no braço de Alex foi um ato quase automático. Quase.

“Acompanhe-nos”— disse um dos guardas, sua voz parecia uma navalha.

Seguimos em silêncio. Meu olhar recaiu sobre os dois tridentes afiados dos guardas. Meu estômago se contraiu de nervoso.

Logo entramos em uma pequena vila. Não havia ninguém ali, as casas pareciam inabitadas. No final da vila, após a praça, começava uma colina. Íngreme e no final dela havia um palácio gótico, todo negro.

Quando chegamos ao topo dois guardas guardavam a porta principal. Trajavam negro da cabeça a… cauda.

Olhei para trás, vendo a imensidão negra abaixo de nós. Parecia que a vida não habitava aquela terra.

“Não tem mais volta”— Alex se manifestou em minha mente.

Não virei completamente a cabeça para olhá-lo.

“Não quero que tenha.”

Era um corredor enorme com um alto teto que era ornamentado com figuras mitológicas em preto. Havia também diversos lustres de cristal posicionados entre os vãos do teto oval. Alex segurou minha mão e seguimos juntos em silêncio.

Os guardas pararam em uma grande porta negra. Observei enquanto seus músculos se tencionavam ao empurrar a pesada porta. Era a sala do trono enorme como a do castelo dos meus pais, mas tão inversa quanto. Percebi pelo enorme assento que era posicionado no centro, era de madeira pois havia entalhes de rosas vermelhas em seus braços e envolta de seu encosto. Sentada estava uma mulher com uma incrível cauda que era mesclada entre vermelho e preto. Ela sorriu ao me ver e eu senti um temor como nunca sentira na vida. Seus olhos passaram de mim para Alex, mas não durou muito e ela fixou seus olhos azuis gelo em mim novamente. Sua boca vermelha púrpura se abriu em um sorriso.

— Olá, Agathe – sua voz parecia emanar frieza. – Estava esperando por você.
Ela não havia envelhecido nada, era a mesma mulher que eu havia visto ao tocar em Sellat. Sua pele era clara com um tom de coral, seus lábios vermelhos e seu cabelo negro. Sabia que ela escondia os olhos coloridos atrás daqueles olhos azuis gelados, talvez um ato de rebeldia, mas algumas outras coisas haviam mudado também. Suas escamas continuavam com os tons vermelhos, mas onde na minha visão era arroxeado, agora era tomado pelo negro.
— Scarlate – cumprimentei-a. Estranhamente meu corpo reagia como se quisesse se curvar a ela, mas resisti. Olhei para Alex e vi que ele fazia o mesmo.
Ouvi as portas sendo fechadas atrás de nós e controlei meu semblante para não demonstrar o desespero que começava a se insinuar dentro de mim.
Quando viu que eu não faria a mínima força para nadar até ela, prontamente nadou até mim, parando a menos de um metro.
— De perto você é ainda mais parecida com sua mãe – sua voz não demonstrava a habitual frieza ao falar da irmã. Perguntei-me o porquê.
— E vocês não podiam ser mais diferentes.
Ela riu, sua risada fazendo com que eu me arrepiasse e tão rápido quanto começou, parou. Sua atenção estava em Alex e temi por ele.

— Então você é o garoto que se tornou o protetor dela, Alys – ela rodiou ele como se estivesse caçando-o.

— Se você diz que sou, então sou – a voz de Alex estava carregada com um pouco de petulância.

Ela sorriu pra ele.

Estar na presença de Scarlate era extremamente desconcertante, ela fazia com que sentíssemos temor, mas nos incitava a desafiá-la. Era como se ela nos desse poder para ser mais que ela, mas nesse caso nos destruiria e se fôssemos mais fracos que ela, nos esmagaria como baratas. Ela nos colocava no mesmo páreo. Eu simplesmente não sabia como reagir.

— Não se inibam, eu prometo não morder – ela exibiu um sorriso predatório. – Vocês chegaram quase na hora do jantar.
Olhei para Alex, eu não sabia o que poderia ser servido embaixo da água, seria minha primeira refeição ali e eu realmente não queria que fosse carne humana. Ele balançou a cabeça em negativa parecendo entender. Minha tia ignorou nossa conversa sem palavras.
— Enquanto não fica pronto, vou levá-los para conhecer o palácio. Começando pelo aposento que vão usar durante sua estadia aqui.
Assim que ela se afastou um pouco começando a nos guiar Alex se aproximou de mim, sua mão tocando minhas costas de maneira protetora. Vi olhar de Scarlate para o gesto e quase me retraí. Quando os guardas abriram a porta novamente e se curvaram para Scarlate comecei a olhar melhor o palácio.
Ela parou subitamente e olhou para Alex.
— Se você tentar ou se quer ousar pensar em usar o que ver aqui para estratégias de guerra, eu mesma arrancarei seus olhos e darei aos meus tubarões de estimação. Entendido? – A voz dela emitia poder, eu podia senti-lo ao meu redor. Alex assentiu sem se intimidar.
— Não estou aqui para reconhecimento de área, Scarlate. Estou aqui para proteger Agathe – quase pude sentir um desafio em suas palavras.
Ela nem se abalou.
— Que fofo você achar que poderia fazer alguma coisa se eu quisesse mesmo machucá-la, Alys.
O tom que ela usou para falar o nome dele fez eu me mover.
— Eu te garanto que eu poderia – afirmei, colocando-me à frente de Alex. – Não me teste, tia.
Pude ver pelo canto do olho os guardas se aprumando, os tridentes em mãos, prontos para um confronto. A mão dela se moveu, sinalizando para que eles parassem. Seus olhos brilharam ao me olhar.
— Agathe, não se esqueça que está em minha casa.
— Não esqueça que sou sua convidada. Deveria me tratar melhor para que eu volte – saiu com mais ironia que eu gostaria. Pude sentir Alex ficar tenso atrás de mim. Eu estava forçando muito esse elástico que era seu temperamento?
Ela apenas me deu as costas e continuou nadando, como se nada tivesse acontecido. Uma dor súbita atravessou meu corpo fazendo eu me curvar de dor.
“Não esqueça quem eu sou, sobrinha” — sua voz invadiu minha mente juntamente com a sensação de que meus ossos estavam sendo triturados.
— PARE! — Gritei deixando que minha voz se propagasse por todo grande cômodo. Tudo pareceu se mover e pude ver todos tapando os ouvidos.

Aproximei-me dela, olhando em seus olhos, deixando a raiva queimar todo o meu corpo juntamente com a dor que ela havia me infligido.
— Não me ameace e saia da minha cabeça ou vou entrar em suas lembranças e triturá-las, como acabou de fazer comigo – era em grande parte um blefe, eu não sabia como usar meu dom ou se eu podia fazer o que eu havia dito.
Ela me encarava agora com uma raiva velada. Queria passar para ela que não seria fácil me dominar, tinha que mostrar para os dois lados que eu não era fraca ou seria facilmente manipulada.

— Continuando… – ela olhou para os guardas, afirmando que estava tudo bem. Eles me olharam ressabiados, aliás, eu tinha ameaçado sua rainha. – Vou fingir que isso não aconteceu.
Eu ri sem humor.
— Não conte que vou esquecer disso, Scarlate.
Seus olhos continuavam longes dos meus.
— Parece que nós duas temos algo em comum, sobrinha. Somos boas de memória.

Todo seu custoso bom humor com nossa presença parecia ter se esvaído com nossa briga. Ela nos guiou pelo palácio, mas sem demonstrar muitas emoções. Seu palácio era tão confuso quanto os de meus pais, talvez fosse uma coisa de arquitetura complicada de sereias e caso resolvêssemos fugir não seria nada fácil. Ela parou diante de uma porta dupla preta como outras dezenas que havíamos visto durante o caminho até ali. Ela a empurrou e estendeu o braço convidativamente para que entrássemos no grande quarto. As paredes eram cinza e o lustre grande, havia uma grande cama de casal com lençóis vermelhos que pareciam seda, nenhuma janela, não que isso fosse necessário no mar, mas era bom não se sentir preso. Nunca pensei que sentiria tanta falta de cores vivas.
— Vocês podem ficar aqui – eu ia questionar sobre eu e Alex ficar no mesmo quarto, sobre a tal regra real, mas achei que seria melhor ficarmos juntos. — Eu ia apresentá-los o palácio, mas acho melhor deixar a tarefa para mais tarde.
Ela ia saindo quando virou para me olhar.
— Vamos conversar mais tarde – seu olhar se desviou para Alex – a sós.

Assenti mesmo sem concordar, tinha ido até lá para isso afinal. Depois disso a porta finalmente se fechou e eu olhei para Alex que não estava reagindo a muita coisa. Eu estava ali menos de uma hora, mas parecia muito mais tempo.
“Liv, – ouvi a voz de Alex em minha cabeça – ela está testando seus poderes, não haja abertamente com eles.”

Pensei sobre o que ele havia dito e podia ser verdade. Scarlate estava me provocando, talvez para ver até onde eu iria e eu, como uma tola, estava reagindo às suas provocações.
“Ok, você tem razão” — suspirei. – “Tudo isso vai ser um grande jogo, não é?”
“Acho que sim – ele se aproximou mais de mim – e temos que ganhar, ou não acho que vamos viver para contar a história. Eu tenho que te tirar viva daqui, Liv.”

Suas mãos seguravam meu rosto, fazendo com que eu olhasse dentro de seus olhos, vendo toda aquela sinceridade transbordando.
“Você veio comigo por que é seu dever?” – Antes de me jogar com o coração e cabeça no sentimento que eu estava sentindo naquele momento, na vontade de jogar meus braços ao redor dele e beijá-lo, eu precisava saber.
“Não. Eu vim porque me importo como você, não apenas como um súdito.”
O cinza de seus olhos quase sumiram deixando um azul profundo em que eu facilmente mergulharia. Nossas bocas estavam apenas a centímetros de distância, eu poderia beijá-lo naquele momento.
“Preciso saber de uma coisa, princesa” — sua voz era brincalhona em minha mente.
“Achei que eu era a cheia de dúvidas aqui, mas pode tirar a sua.”

“Me beijou naquele beco apenas para fugir dos guardas ou queria fazer?”
Ela sabia a resposta, só queria ouvir eu falando.
“Não faço nada que eu não quero, Alex. Só sei aproveitar oportunidades.”

Eu sorri refletindo o sorriso dele, suas mãos passaram de meu rosto para minhas costas e ele me beijou. Dessa vez o beijo foi diferente, apesar do lugar em que estávamos não sentíamos pressão, não estávamos correndo. Nossos lábios moviam-se preguiçosamente, saboreando um ao outro e durou menos do que eu gostaria. Ele se afastou primeiro e encostou sua testa na minha.
— Olívia… – meu nome saiu de sua boca na forma de um suspiro rouco, despertando em mim um sentimento que eu não sabia nomear ainda.

Abracei-o, encaixando minha cabeça em seu pescoço.
— Por que me chama assim? – Perguntei baixo.

Sabia que Alex poderia sussurrar qualquer um de meus dois nomes, mas eu não sabia porquê ele preferia aquele.
— Porque conheci você como Olívia antes de te ver como Agathe. Tenho lembranças suas de quando você nem sabia de minha existência ou mesmo do que você era e me prendo a elas, – ele puxou meu queixo para que meus olhos encontrassem os dele novamente — pois amei você antes que você me amasse.

Amor. Era esse o sentimento expandindo meu coração naquele momento? Eu sentia ele leve, mas enorme. Eu não ria dizer que o amava naquele momento, eu não podia fazer promessas sabendo o que essas promessas poderiam causar. Alex parecia saber exatamente o que eu pensava pois seus olhos não exigiam de mim aquelas palavras. Para ele saber o que eu estava sentindo era suficiente por enquanto. Então o beijei mais uma vez, deixando que ele pudesse sentir o que o que eu estava sentindo, era mais fácil passar sentimentos quando se estava unido daquele jeito e ficaríamos daquele jeito para sempre, esquecidos de onde estávamos, se... a porta não tivesse sido aberta.

Notas finais
"O coração dispara, tropeça, quase para..." E então, o que estão achando?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.