Eu arfava com medo, de olhos fechados tentando calar a voz na minha mente que dizia: “Seu nome verdadeiro é αχάτη”. Havia começado a uma semana, depois de meu aniversário de 18 anos. Eu me recusava a pensar que havia ficado louca de uma hora para outra. Isso era possível? Eu estava transpirando bastante durante essas crises, e isso me fazia trancar-me no banheiro de onde quer que eu estivesse. Levantei-me do chão onde havia me sentado, sem me importar com a sujeira ou com quem pudesse entrar no banheiro e me encontrar daquele jeito. A faculdade geralmente era silenciosa durante as aulas e isso me tranquilizou um pouco. Eu tinha saído da sala quando a voz na minha cabeça começou a gritar tão alto que eu já não conseguia mais ouvir a professora. O que era aquilo? Era algum tipo de doença? Tentei não pensar muito. Coloquei-me em frente as pias e levantei os olhos para ver meu reflexo no espelho. Meus cabelos ruivos vivos escapavam da trança embutida que eu havia feito mais cedo, meus olhos verdes ficavam mais em evidência por conta disso, deixando-me com uma aparência meio selvagem. Joguei água no rosto, o que me deixou instantaneamente melhor e me preparei para voltar a aula.

Durante todo o resto da aula minha amiga Ana me lançava olhares preocupados, ela mal esperou a sala esvaziar depois do fim da aula para verbalizar aquela preocupação.
— Você está bem, Olívia? — Ana tinha uma cabeleira farta castanha e olhos da mesma cor, sua feição era sempre doce e seu temperamento fácil. Era a melhor amiga que eu podia ter, então eu não entendia porquê motivo eu não conseguia contar a verdade a ela.
— Estou melhor – garanti a ela. O que não era mentira.
— Você precisa ir ao médico! Essas dores de cabeça não parecem normais.... Isso pode acabar te prejudicando.

Ela simplesmente colocou em palavras o meu medo da última semana. A faculdade não havia parado depois que completei 18 anos, mas eu sim. Depois que a voz começou, eu não conseguia fazer quase mais nada com concentração. Eu não conseguia mais ler, ou assistir alguma coisa, quem dirá fazer anotações sobre o que os professores falavam. Ana estava super me ajudando, ela sempre digitalizava seu caderno e me mandava, mas infelizmente suas anotações eram confusas e juntando o fato de que eu não conseguia prestar atenção na aula eram como grego para mim. Ela estava certa, eu realmente precisava ir ao médico, mas não era ao neurologista como ela pensava, eu achava mais que era ao psiquiatra mesmo.

— Eu sei, Ana. Vou marcar amanhã mesmo, – disse para tranquiliza-la. – Mas preciso mesmo ir, ou vou chegar em casa muito tarde.

Ficar sozinha não estava sendo muito divertido ultimamente, era como se quando tudo ficava em silêncio eu era capaz de sentir uma presença em minha mente. Por isso estava indo para casa de ônibus aquela semana, no meio do caos do transporte público era difícil dar importância para aquela sensação. Sirenes e conversas altas demais nunca me tranquilizaram tanto. Eu só estava fugindo do problema, mas como eu deveria agir? Para qualquer um que eu dissesse o que estava acontecendo acharia que estivesse ficando louca, até porque era isso que eu achava.

Cheguei em casa e meus pais estavam sentados na sala assistindo a um programa de humor que passava tarde da noite.
—Oi, pai. Oi, mãe – cumprimentei.
—Oi, Liv – minha mãe respondeu – chegou tarde hoje.
—É, Ana não pôde me dar carona – a mentira saiu da minha boca com tanta facilidade que me surpreendi, a verdade é que Ana e eu passávamos longos períodos caladas em um carro silencioso, já que ela não ouvia muita música e eu estava fugindo do silêncio.
—Se quiser podemos te buscar amanhã, caso ela não possa te dar carona novamente – meu pai ofereceu.

Olhei para aqueles dois na minha frente. Os melhores pais que eu conhecia e quase contei tudo a eles, mas que bem aquilo poderia trazer? Minha mãe era uma mulher idosa, assim como meu pai, os dois na casa dos 60 anos, haviam tido sua primeira filha muito tarde. Os cabelos loiros da minha mãe já estavam quase completamente grisalhos e seus olhos castanhos já estavam rodeados de rugas. Meu pai estava quase completamente careca e os óculos estavam caindo de seus olhos azuis leitosos, afinal ninguém sabia da onde eu havia herdado minha ruivisse e meus olhos verdes. E tudo o que eu menos queria era preocupar aqueles dois.

— Vou ver com ela amanhã, pai. Obrigada – sorri. – Agora vou dormir – Caminhei em direção ao meu quarto. – Boa noite, até amanhã. Amo vocês.

— Boa noite.
— Durma bem.

A voz da TV ficou abafada depois que fechei a porta, troquei-me e caí na cama implorando por uma noite sem sonhos, que eram o que também vinham me acompanhando na última semana.