Underwater Love

2 Quando a sorte vem pra ir embora


Notas iniciais
Agradeço, do fundo do meu coração, a quem deixou review no prólogo. Aproveitem este capítulo que fiz em uma manhã de insônia (sim, estou há quase um dia sem dormir) e só.
E, também, queria mandar um queijo pra Emy, que mesmo shippando Perachel, vai acompanhar a fanfic. ♥
PS: Eu fiz algumas mudanças na idade dos personagens, mas são suaves.

Nem mesmo o impacto que o pedaço de madeira causou quando entrou rudemente em contato com a minha cabeça havia feito com que meu cérebro processasse algo.

Me lembro de estar deitado, preso por uma lata de lixo derrubada sobre as minhas costas, devido ao ocorrido: algo muito pesado havia me atirado ao chão. E a propósito, o cara que colocou aquelas pedrinhas no chão do colégio Knowledge merecia um prêmio de segurança garantida, pois era duro de doer.

Eu ainda tentava compreender as escritas no papelzinho, tentava achar um significado para elas, encaixá-las em algo na minha vida. Mas era completamente sem noção.

Por hora, me limitei a fechar os olhos e esvaziar a mente. Afinal, não eram muitas as pessoas que perderiam a chance de fazer uma piadinha comigo no colégio, e eu nunca estive em nenhum acampamento...

Ainda assim não fazia sentido.

(...)

- Mais para a esquerda, ou vamos acabar por destruir o resto do telhado.

Abri os olhos, dando fortes piscadas, e os esfreguei, ainda não completamente sóbrio. Era evidente que eu havia cochilado, mas era também evidente que não havia feito isso por mais de cinco minutos. Eu permanecia na mesma posição em que estava desde a queda, tudo parecia estar do mesmo jeito, como se não tivesse se passado um segundo que fosse. Mas ao notar que o barulho do refeitório havia se convertido em distantes conversas vindas da torre das salas de aula, percebi que havia perdido boa parte da aula de Literatura.

E, logo em seguida, percebi o quão feliz estava por isso.

Apoiei-me no chão utilizando os braços, e com um pouco de esforço consegui me mover para fora do sufoco que a lata de lixo me causava. Meu Deus, aquilo devia pesar mais que o meu padrasto. Levantei-me com alguma dificuldade; já havia recuperado metade de minha força, mas ainda não estava completamente bom. Quando me levantei, minha cabeça girou tão rápido que não tive escolha a não ser me segurar nos canos soltos da parede, e senti meu corpo todo gritar de dor. Fechei os olhos, ainda nessa posição, esperando que a tortura passasse.

E então eu ouvi passos. Algumas vozes também. Logo que abri os olhos, percebi algumas sombras no corredor dos jardins. Meus instintos e minha mãe me diriam que eu não deveria meter o nariz onde não há cheiro de rosas, mas eu nunca dei a mínima para regras e desta vez não faria diferente. Eu criava meus próprios padrões, que apesar de contrariarem todos os padrões de comportamento de pessoas de autoridade e que tinham um pingo de juízo que fosse na cabeça, continuavam sendo meus padrões e eu não gostava de cair fora deles.

Assim que me aproximei do corredor, me encostei na parede para tentar ouvir o que se passava ali. Em certo ponto da conversa, meus ouvidos pareceram 80% mais atentos, pois eu havia percebido que Grover estava entre o assunto.

- Por que, Grover? Por que demorou tanto? Você tinha apenas uma tarefa aqui, e nem isto conseguiu fazer.

Me aproximei mais do canto entre os corredores, e coloquei discretamente os olhos no local da conversa. Grover estava parado em frente a uma garota alta, de cabelos lisos e castanhos. Grover trazia no rosto uma expressão horrorizada, e eu não o julgava: aquela garota tinha uma verdadeira postura de mulher atleta, e era difícil não imaginá-la arrancando suas entranhas.

Eu não esperava uma resposta decente de Grover, mas o que ele fez não expressava emoção ou medo algum. Grover não disse nenhuma palavra em nenhuma língua que eu conheça. E, desde onde eu saiba, ele também não fala outro idioma além do tradicional inglês. Ele não fez uma coisa nem outra, Grover soltou um som semelhante a um... Balido.

Meu melhor amigo imitava um bode.

- Eu te juro, Clarisse, tentei levar Percy ao Acampamento. — Senti meu corpo todo tremer quando ele disse isso. — Mas as coisas realmente não estão dando certo por aqui, eu não queria simplesmente arrastá-lo a um lugar estranho como aquele e explicar toda a história por trás de sua família. E também eu...

Grover parou de falar, e presumo que tenha sido interrompido por mais algumas pessoas que caminhavam em direção a ele, murmurando coisas. Esgueirei-me para o lado mais uma vez, e agora todas as pessoas que estavam ali eram visíveis para mim.

- Até que enfim vocês dois chegaram. Conseguiram solucionar a droga do problema com a biga? — Perguntou a garota que estava conversando com Grover. Ela se dirigia agora a dois adolescentes — um menino de cabelos loiros e olhos azuis muito claros, que parecia ter seus dezessete ou dezoito anos. Um dos lados de seu rosto era cortado por uma cicatriz enorme, que começava em seu olho e terminava onde terminava seu rosto. Em seu lado estava uma garota bem mais nova, por volta de seus 12 anos. Ela tinha cabelos loiros cacheados e olhos cinzentos. Assim como a garota de cabelos castanhos, ambos vestiam jeans e camisetas laranjas, com desenhos e escritas que não consegui ver a distância.

- Infelizmente, Clarisse, a biga ainda está presa no telhado. Não sabemos se há um meio de tirá-la de lá... A menos que você ou Grover possam nos ajudar. — Disse a garota de cabelos cacheados, olhando para Grover como se implorasse para que Clarisse decidisse ajudá-los e assim poupar a "ajuda" de Grover.

- Ótimo. Não basta Grover ter furado com o planejamento e não ter levado o semideus ao Acampamento, esse aí tinha que ter implorado para dirigir a biga. E acabar estacionando com sucesso. No telhado. Você matou o nosso único meio de voltar ao Acampamento. — Clarisse disse as últimas palavras com os dentes cerrados. "Esse aí" era uma referência ao garoto de cabelos loiros, que a encarava com uma expressão que mesclava raiva e ofensa.

- Eu não matei a biga. Eu estacionei conforme as instruções de Thalia, foi ela quem me ajudou a construir a biga e foi ela quem fez metade do serviço, ela colocou um método de estacionamento que facilitaria tudo para nós e...

- Argh, claro. — Clarisse agora caminhava em minha direção, e os outros começaram a segui-la. — Qualquer coisa que a DisGrace fale pra você é genial. Como pude me esquecer disso?

O garoto loiro revirou os olhos, com aparente irritação.

- Não a chame de DisGrace. — Disse ele, irritado.

- Todos a chamam de DisGrace. Me perdoe por ter esquecido que você é obcecado em defender a sua namorada.

Por um momento eu tentei não rir. Seja lá quem fosse DisGrace, seu apelido significava "desgraça", em inglês.

- Ela não é a minha namorada. — Disse o menino de cabelos loiros, e eu percebi certa insatisfação nessas palavras. Como se ele quisesse poder dizer o contrário de "ela não é a minha namorada". — Olha, você só sabe reclamar do trabalho que as pessoas fazem como se fizesse algo em consideração para mudar o que acha que deve ser mudado e... — Os murmúrios da discussão ficavam cada vez mais alto enquanto eles caminhavam em direção ao corredor em que eu estava. Eu sinceramente não tinha a menor ideia do que fazer. A conversa fora curta, mas estava claro que a história por trás dela era longa — e eu estava envolvido nisso. Permaneci parado onde eu estava o tempo todo, a espera de algo acontecer.

Grover foi o primeiro a cruzar o canto que separava os corredores. A expressão em seu rosto se tornou um tanto aliviada quando ele me viu.

- Percy! — Ele disse, parando a alguns centímetros de mim. — Me perdoe por te deixar nessas condições, é que o Acampamento mandou alguns campistas para realizar a tarefa que eu não pude e... — Grover abaixou a cabeça. — Bem, há muito a ser explicado. Mas no momento nossa única preocupação é levá-lo para lá, podemos deixar as satisfações para mais tarde. — Eu pisquei demoradamente para Grover, com a intenção de fazê-lo entender que meu cérebro trabalhava como uma máquina enferrujada no momento. O que não deu muito certo, porque ele decidiu que precisava me apresentar o resto dos "campistas" e me tirar do colégio.

A única parte da qual eu não poderia reclamar era a de sair do colégio.

- Bem, Percy esta é Clarisse, — Grover indicou a garota de cabelos castanhos, que por sinal usava uma bandana vermelha na cabeça — estes são Annabeth e Luke. E aquilo ali — Grover apontou o telhado do colégio — é o nosso táxi.

Olhei para o telhado, da primeira vez não atenciosamente. Mas quando dirigi um segundo olhar ao telhado, percebi que as telhas estavam todas soltas, havia uma pilha de destroços e em cima disso tudo estava uma imensa caixa de duas rodas. Quase que uma carruagem, mas eu conhecia aquilo de ilustrações antigas — era uma biga. As bigas geralmente eram puxadas por cavalos quando utilizadas, e de fato, dois cavalos estavam presos à biga... Dois cavalos com asas.

Se a minha boca fosse suficientemente elástica, digamos que meu lábio inferior já estaria em contato com o chão a este ponto.

Tentei analisar os fatos cuidadosamente, repassar todo o ocorrido. Mas simplesmente não dava para entender nada, era mais do que a minha cabeça podia suportar. Por um momento, havia me esquecido que estava parado no corredor do colégio com meu melhor amigo que balia e três outros adolescentes, e quando minha alma voltou ao mundo real, percebi que Clarisse estava escalando a parede em direção ao telhado.

- Você quer ajuda para tirar isso daí? — Perguntou Luke, elevando o tom de voz, e olhando para cima.

Clarisse demorou a responder. Ela escalou a parede toda, segurou-se com uma das mãos no canto do telhado e olhou para baixo.

- Apesar de ser uma oferta tentadora, não, obrigada. Eu não sei se estou no nível de receber a ajuda de alguém para tirar uma biga de um telhado, se o mesmo alguém foi quem entalou a biga nessa pilha de destroços.

Clarisse parecia ser anos mais nova que Luke, mas ele limitou-se a olhar para ela com raiva, por uma razão muito óbvia: não valia a pena discutir com uma garota como aquela se você tinha amor pelos seus dentes.

Clarisse ficou em pé no telhado, e estudou atentamente a biga.

- Descobri o problema. — Gritou ela, de lá de cima. — A biga ficou entalada no buraco que causamos no telhado, e os cavalos não têm força suficiente para puxar algo deste peso. Ainda mais entalada entre as telhas...

Clarisse se abaixou atrás da enorme biga, e começou a fazer coisas que ninguém pode ver.

Ficamos em silêncio absoluto por alguns minutos.

- Grover, você pode me explicar o que diabos está acontecendo? — Perguntei, nevoso. E eu já estava realmente começando a ficar estressado.

- Percy, é muito complicado. Não há tempo para explicar nada agora. Espere chegarmos ao Acampamento e várias coisas ficarão claras, nem mesmo precisarei usar palavras. — Grover suspirou.

Mas o que diabos era este Acampamento? Quem eram aquelas pessoas, e por que estavam ali para me resgatar? E...

- Como vão me tirar do colégio? Assim, do nada?! — Olhei horrorizado para Grover.

- Não se preocupe, Percy. Eles não sentirão a sua falta.

Encarei Grover, com os olhos e a boca abertos.

- Mas e a minha mãe?! — Perguntei um pouco alto demais. — Quero dizer, quem vai explicar para ela o meu sumiço?

- Sua mãe sabe de tudo, menino. Nós mandamos contatos para ela. Acha mesmo que ela não saberia de toda a história por trás disso? — A garota de cabelos cacheados me encarou como se eu fosse um idiota. Típico. — Ela entenderá o motivo.

- Que motivo? — Perguntei, novamente, de forma mais aguda do que deveria. — Olha, vocês não estão falando nada com nada, eu me recuso a...

Um baque interrompeu as minhas palavras, e fez com que todos olhassem para trás. Uma enorme biga conduzida por dois cavalos alados estava parada no chão, e havia uma garota dentro dela, gritando para que entrássemos logo.

Eu havia me irritado tanto com aquela situação que nem ao menos percebi quando Clarisse conseguiu descer com a biga.

Luke e Annabeth já haviam subido na biga, quando Grover me cutucou e me convidou a entrar com um sorriso amarelo no rosto.

- Sei que te devo explicações... — ele começou a murmurar

- Cale a boca, Grover. Eu ainda te mato. — Disse, irritado. Era uma coisa muito rara, eu me irritar com meu melhor amigo. Mas eu tinha inúmeras razões para sentir irritação, desespero e outras coisas ruins no momento.

Grover já estava na biga, esperando que eu subisse. Movi meu corpo mole e doído em direção a biga, com o pensamento de que nada podia piorar.

E eu estava redondamente enganado.

Eu já havia posto um pé na biga e apoiava a mão em uma das partes fechadas para então subir, mas algo muito estranho aconteceu. Não que coisas normais tivessem acontecido no resto do dia, mas aquilo foi realmente muito estranho.

Um dos cavalos teve um tipo de acesso ou, sei lá, simplesmente se assustou com alguma coisa. A segunda teoria era a mais concreta. Algo havia assustado um dos cavalos alados e ele começou a relinchar, fazer barulhos estranhos, bater as asas e então levantar vôo. Eu me seguirei firmemente na biga, tentando pegar a mão de Grover ou de qualquer um outro que estava tentando me puxar, mas Clarisse perdeu o controle da biga e atingimos de forma dolorosa a lateral do telhado da escola. Houve um momento em que, por alguma razão, eu não consegui mais me segurar na biga, e acompanhei a quedra dos destroços de telha até o chão. Os sons se tornavam distantes agora, como gritos-sussurros, eu não conseguia mais processar as coisas. Era como se eu estivesse perdendo a bateria aos poucos.

A minha visão de tudo ficou embaçada, depois preta, e então algo pesado e muito semelhante a madeira e telhas me atingiu na cabeça...

(...)

Abri os olhos de relance, e percebi que havia me sentado rudemente na cama. Várias pessoas me encaravam, formando um círculo ao redor da cama em que eu estava. Eram todos adolescentes, com uma média de 10 a 19 anos, e todos vestiam camisetas laranjas com os dizeres: Acampamento Meio-Sangue.

Ouvi o barulho de alguma porta se abrindo, e um homem surgiu entre a multidão.

- Perseu Jackson. — Ele me encarou, com os olhos brilhantes, mesclando sabedoria e astúcia. — Se não se importa, temos muitos assuntos pendentes.

Analisei o homem, ainda meio inconsciente. Quando olhei para a parte abaixo de sua cintura, percebi que ele era meio...

Cavalo.

Notas finais
Gostaram? Odiaram? Mereço reviews? Me perdoem por qualquer erro ou escrita fajuta, pois são oito horas da manhã e eu não descanso as pilhas desde quase 24 horas atrás.
Espero vocês nos reviews, :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.