Undertaker [Hiato]
8 Pequenos passos
Notas iniciais
Queria agradecer a todas as leitoras novas que me deram muito apoio! Sério, estou começando a acreditar que realmente escrevo bem... ok, só me ignorem.
Um agradecimento especial a Flávia e a Luísa, por serem tão bacanas comigo e a Inner Forces, por perder seu tempo lendo mais uma fic minha!
Boa leitura gente!
-Filha, sei que preferiria que todos ficássemos em casa, mas estes dias de licença pra cuidar de você, bom...
-Vocês dois precisam ir, eu sei.
-Na verdade, sua mãe via continuar aqui; eu vou trabalhar e deixar John no aeroporto no caminho, tudo bem?
-Claro, sem problemas. – seria muito ela pedir que o pai e a mãe ficassem ali, além de o irmão acumular faltas em Harvard depois de ela ter alta.
-Se quiser, posso ficar aqui mais uma, duas horas. – disse Jared, mas ela o conhecia bem demais para saber quando ele queria ser gentil e protetor, arranjando mais um peso sob seus ombros.
-Mais do que já cuidou de mim até agora? Não, está tudo bem; mais tarde eu te ligo e podemos combinar de ir ao hospital juntos ok? Eu fico um tempo com você e Vlad antes de ir pra terapia. – ela se sentia cansada ao extremo, mesmo tendo despertado de um cochilo minutos atrás e ainda ser de manhã.
-Excelente ideia – disse ele – então... acho que vou deixar você continuar aquela soneca em paz. – ela sorriu e o envolveu com os braços.
-Obrigada. Por tudo. – murmurou ela.
-Que isso Ray, não me encabule com essa plateia toda. – a família riu e ele plantou um beijo na cabeça da garota, antes de se desvencilhar do abraço e ir.
Por um segundo, ela desejou ter pedido que ele ficasse mais.
-Bom, é isso pequena. – falou John, esticando os braços e a fitando com um semblante doce e ao mesmo tempo com um quê de entristecido.
-Não tenho palavras pra dizer como me senti quando vi que estava aqui. – suspirou ela e se atirou em seus braços com força.
-Da próxima vez que quiser adrenalina, espere eu ter meu próprio consultório antes. – zombou ele.
-Lembrarei disso. – riu ela.
-Parem com isso vocês dois. – cortou Julia, mesmo que encarasse os filhos com um sorriso – John querido, boa viagem.
-Ligo quando chegar lá. – garantiu ele.
Ele soltou a irmã e acolheu a mãe; depois de se despedirem de Seamus, ambos foram embora e a mulher disse que precisava ir ao banheiro – Raven sabia que ela iria chorar de saudades do primogênito em silêncio, então a respeitou e deu-lhe esse tempo.
Mesmo porque ela mesma precisava de seu próprio tempo sozinha pra digerir muitas coisas.
Sentindo-se derrotada pelo mundo, ela pegou a mala onde suas coisas estavam e se arrastou escada acima rumo ao seu quarto. Ali, no “conforto” de seu lar estava bem pior do que no hospital: seu peito se comprimia e seus olhos marejavam só de olhar pra cada degrau, parede ou móvel e lembrar das idiotices que seus amigos e ela fizeram. Gabe sempre estava entre eles.
-Não posso continuar assim. – disse ela pra si mesma, sentando quase no fim da escada e escondendo a cabeça entre os joelhos – Você deve isto ao Jay sua idiota, não é sua culpa. NÃO-É-SUA-CULPA.
Mas não adiantava, ela sentia o peso da morte dele como se suas mãos estivessem banhadas com o sangue do amigo. Ou antigo amigo, pra ela já não importava mais.
Tentando distrair seus pensamentos, ela começou a focar nas ranhuras da madeira nos degraus onde sentava: as finas linhas tortuosas e com padrões simples fascinaram a menina de uma maneira triste. As pessoas nunca dão valor a coisas singelas que estão ali o tempo todo, apenas esperando serem notadas.
Erguendo a cabeça, Raven decidiu que não se culparia pelo que aconteceu; foi uma fatalidade, e o mesmo poderia acontecer se ele engasgasse ou caísse da escada – mas nunca mais, em toda a sua vida, faria pouco caso de alguém.
De uma forma cruel ela aprendia a dar valor ao carinho que lhe dispensavam, ela pedindo por ele ou não.
-Sabe Raven, você está amadurecendo. – a vozinha sem dono comentou.
-Agora que sai do hospital, vai tentar me matar de novo?
-Acho que... vou ver onde isso vai dar. – ela sentiu um sopro na nuca, mas quando se virou não tinha ninguém lá; se permitiu um sorriso amarelo.
“Afinal de contas, é possível conviver com uma alucinação quando ela decide que por ora, não vai mais tentar te matar?’ pensou ela com sarcasmo.
Sua linha de pensamentos lúgubres não pôde ter continuidade, pois o telefone da sala começou a tocar e logo sua mãe saiu do banheiro disfarçando as lágrimas – a menina pôs-se de pé antes que Julia notasse que seu estado estava só um tantinho melhor.
-Alô? Oi Rain. – disse ela, e a menina reconheceu o sobrenome de um colega de trabalho – O quê??! Não tem mais ninguém da equipe aí? — pelo seu tom de voz, as notícias não eram boas — Sim.... e o que ela disse? – seja qual for a resposta, Julia Castle passou a mão na testa, claramente insatisfeita – Eu sei, mas a alta de Raven foi hoje. – respondeu ela cansada – Não, ela está bem, só não queria deixa-la sozinha. – houve uma pausa longa na qual Dr. Rain deve ter dado uma alternativa pra ela ficar em casa, pois seu semblante era de dúvida – Eu não sei, já pedimos dois favores a ele essa semana... eu vou conversar com ela e já te ligo ok? Certo, até daqui a pouco. – ela colocou o fone no gancho e suspirou.
Mas então reparou em sua filha, que a fitava do alto da escada ainda com a mala na mão e tomou um susto; mais um sinal clássico de culpa. Raven sabia o que vinha a seguir.
-Estava aí há bastante tempo querida? – ela tentou sorrir, mas não foi bem sucedida.
-Mais ou menos mãe. – respondeu a garota, tentando tranquiliza-la; também não foi eficaz.
-Desde que chegamos, a julgar pela mala. – ponderou a outra.
“Droga!” pensou Raven, e tratou de emendar uma desculpa:
-Não, eu estava no computador, mas quando resolvi colocar umas músicas novas no iPod, dei com a falta dele e lembrei que tinha deixado a mala na sala. – justificou e sua mãe acreditou, pois sua postura relaxou e ela abriu um sorriso, dessa vez verdadeiro.
-E como se sente? Dor? Cansaço? Fome?
-Relaxa... só fome.
-Então eu...
-Mãe – cortou a menina – o que aconteceu no seu trabalho? – a mulher suspirou e subiu a escada até ela.
-Lembra aquela paciente que te falei? A bem jovem?
-A que espera gêmeos e é viciada? – como obstetra renomada, Dra. Castle raramente pegava casos com adolescentes, então era fácil lembrar.
-O quadro dela começou a ter complicações... de novo. – explicou, seu cansaço agora evidente na voz e nos olhos, bem mais inchados vistos de perto.
-E eles precisam de você lá, certo? – disse, tentando demonstrar que compreendia.
-Ah querida, se precisam ou não é outra história; acabou de sair do hospital, não posso te deixar sozinha agora.
-Passei por uma cirurgia e não me lembro? – brincou a menina, fazendo um leve sorriso brotar em seus lábios.
-Seus machucados podem parecer simples... por fora.
-Agora é sério: eu não fiquei com traumas.
-Raven. – o tom compreensivo da mulher a fez sentir um baque; ela falava de Gabe.
-Eu sei o que você quer dizer, mas nem mesma eu sei o que responder em relação a isso.
-Isso o quê, Raven Audrey?
-O que quer dizer?
-Como posso te deixar aqui sozinha quando você nem mesmo consegue assumir suas dores e problemas? O que você chama de isso?
-GABE! GABRIEL LUCAS FARSTEN! Ele, ele.... – a garota foi impedida de continuar pelo abraço forte e reconfortante que sua mãe lhe deu.
-Está tudo bem querida. Está tudo bem.
-Não, não está. – soluçou a menor.
-Mas vai ficar. – garantiu ela.
E assim as duas permaneceram por incontáveis minutos naquele abraço, no momento mais amigo e eficaz que mil palavras de consolo. Há anos, ela estava acostumada com as brincadeiras de Vlad que levantavam seu astral, as ironias de Rebecca que a faziam ver o lado bom das coisas, as ideias idiotas de Susan que a faziam rir em meio às lágrimas, as comidas altamente calóricas de Samantha que acalentavam seu ser e o ombro amigo de Jared que aguentava horas de ligação melodramática no meio da madrugada.
Mas agora ela se lembrava de sua família, sempre tão atarefada e com mil escalas; seus pais – e futuramente seu irmão — dedicavam-se de corpo e alma a cuidar dos outros e salvar vidas, mas mesmo assim sempre estariam lá quando precisasse.
Apenas se dar conta disso já a fazia se sentir melhor.
-Tem certas coisas que... vou precisar de tempo pra digerir. Tempo sozinha mãe.
-Só promete que se quiser falar alguma coisa, qualquer coisa, me liga tudo bem? Me liga antes de mais nada. – Julia segurou firmemente as mãos da filha – Promete?
-Claro, eu te ligo pra pedir permissão antes de cortar os pulsos. – respondeu sorrindo; ambas se encararam e suspiraram juntas para logo em seguida rirem.
-Com isso eu posso trabalhar tranquila, não é?
-Ora, ora mãe, quem está usando sarcasmos agora? – como resposta ela levou um apertão nas bochechas.
-Vou ver o que ela tem querida, mas juro que volto o mais cedo possível.
-Ok mãe. – elas se abraçaram a e menina tornou as subir as escadas em direção ao seu quarto.
Ela sentia leve como a muito não estava; mesmo quando se deu conta de que a estranha menina de azul a esperava sentada defronte a porta de seu quarto, não deu a mínima importância. Afinal de contas ela não pretendia fazer mal... iria ficar só vendo como as coisas mudam.
-Não parece perturbada em me ver. – ela a olhou de canto como se a avaliasse.
-Vou ficar se foices brotarem dos seus braços. – apesar de não se assustar mais, ainda preferiria que ela simplesmente parece de aparecer.
-Já disse que não farei mais nada... outras coisas vão te perturbar nos próximos dias. E muito.
-Você... você está blefando. – disse ela, tentando fingir que não levava a pequena a sério.
-Não estou e você sabe disso. – rebateu a outra de modo objetivo – De qualquer forma, está na hora de ir... mas eu volto.
-Pra onde você vai quando não está aqui?
-Raven... acha mesmo que vou responder?
-Não custa tentar. – o outra deu de ombros e sumiu diante de seus olhos.
Ela ficou uns instantes encarando sua porta sem saber ao certo como devia reagir – conseguiu manter um diálogo com a estranha criança sem ser atacada, ameaçada ou algo do gênero, mas não sabia se devia se sentir contente com tal coisa. Era estranho, mas achava que conseguiria se acostumar com a palhacinha se ela se mantivesse dessa forma.
Decidida a não ocupar sua mente com questões complexas ou dolorosas, a garota adentrou o quarto pronta para sentir seus ralados protestarem em um longo banho. Mas não deu nem um passo e já ficou estática com a visão: vários vasos de flores, bichos de pelúcia novos e cartões se espalhavam por sua cama e cômoda, mas na cadeira da escrivaninha uma enorme coruja a encarava imóvel.
Ela devia ser maior que sua mochila do colégio, era corpulenta e malhada com vários tons de cinza; em sua cabeça várias peninhas se empinavam, deixando-a com um ar arisco e ameaçador. Raven mal conseguia enxergar seu bico e suas patas, apenas as garrinhas compridas que fincavam a madeira pintada de branco.
Seus olhos eram gigantes e ocupavam a maior parte da... “face”; como duas pedras de âmbar gigantes, ele se mantinha fixos na menina. Com medo até mesmo de respirar, ela pôs-se a vagar por devaneios, comparando os orbes do animal com Sauron, o vilão da triologia Senhor dos Anéis. Mas a campainha soando na andar de baixo a fez voltar pra realidade.
Com todo o cuidado do mundo, ela colocou sua mala do lado de dentro do cômodo e fechou a porta sem fazer barulho; desceu as escadas e parou de frente ao hall. Não havia ninguém.
-A querida! – disse sua mãe, vindo da sala — Seu amigo veio trazer a matéria que você perdeu, ele disse que não se importa de ficar aqui até eu voltar!
-Oi? – perguntou ela, completamente confusa.
-Bom, de qualquer forma, estou indo ok? – observou Julia arrumando a bolsa no ombro e pegando as chaves do carro sem entender nada– A propósito – cochichou ela – podia ter me contado antes que andava com alguém desse naipe viu? Não o deixa escapar! – e assim ela se foi.
Com praticamente certeza de saber quem a esperava, ela caminhou até a sala com a sensação de que seu estômago estava dando mortais duplos; e lá, sentado no sofá totalmente descontraído, estava ele com suas costumeiras roupas pretas e seus indecifráveis olhos azuis.
Notas finais
Enfim, não custa perguntar... tá bacana? Alguma dúvida mortal em relação a história? Ameaças?
Beijos!! (*--*)//
Fale com o autor