Understatement
6 Lavi
Notas iniciais
Capitulo 6
Lavi
Droga. Porque o Komui havia me mandado procurar pelo Kanda-kun? Eu ainda estava em observação e mesmo assim ele me mandara buscá-lo para uma nova missão. Eu já estava procurando-o por horas por toda Ordem e nada. Nenhum sinal dele. Não agüentava mais subir e descer tantas escadas, abrir e fechar tantas portas, perguntar para tantas pessoas.
Passei pelo corredor que dava direto ao refeitório, observando sem muita emoção as paredes de concreto desgastadas pelo passar dos anos. Será que o clero nunca pensou em fazer reformas em suas bases? Meu Deus. Em pouco tempo a Ordem Negra estaria resumida aos pós se não agilizassem um processo de reforma.
Avancei pelo corredor até me deparar com o amplo refeitório decorado com mesas e mais mesas extensas. Observei ao redor, enquanto estava parada, procurando por uma figura morena e irritadiça, mas a única coisa que consegui avistar foi uma figura bastante parecida, porém calma e pequena. Com passos rápidos, me enfeei pelo corredor criado por dezenas de finders e assistentes do departamento de ciências até chegar onde ela estava. Balancei a cabeça tentando me recompor com o barulho ensurdecedor que aquelas tantas vozes criavam.
Aya estava de costas, comendo um prato de massa que eu não conhecia, mas parecia bastante apetitoso. Pisquei e respirei fundo, tornando a voltar a minha ‘missão’. Sem perder mais tempo, toquei-lhe o ombro, chamando-lhe a atenção. Ayami se virou para mim com um olhar surpreso e ao mesmo tempo feliz, que logo se desfez ao rever a minha expressão assassina. Apertei de leve o seu ombro a medida que deixava as palavras saírem da minha boca.
“Aya! Onde está o Kanda-kun?”, perguntei levemente irritada.
“Não faço a mínima idéia, Hikka!”, ela sorriu sem graça.
“Argh!”, suspirei desfazendo minha cara de irritada e logo sentei-me ao seu lado. “Me desculpe, Aya! Mas quando eu o encontrar vou acabar com a raça daquele miserável!”, gritei irritada.
“Mas... O que houve, Hikka? O Yuu fez algo para você?!”, a expressão dela mudou, transformando-se de calma para chateada.
“Não. Não.”, respondi abanando a mão. “É só o Komui. Ele pediu para mim para que eu achasse o Kanda-kun, pois vocês vão para uma mis-”
“Hikaru-chan!!”, a voz feminina da Lucy me chamou a atenção, me fazendo virar a cabeça.
Não tive tempo de ter qualquer reação, pois a pequena figura albina, de olhos azuis pulou em cima de mim me derrubando no chão. Ok. Estava percebendo que muitas pessoas não sabiam da minha condição naquela hora. Lucy pulou em meus braços, me agarrando com força enquanto eu jurava que estava vendo estrelinhas rodopiando ao redor de minha cabeça. Demorei para me recompor e levantar o rosto para vê-la sorrindo animada, me observando com uma animação estravagante.
“Olá, Lucy-chan~”, ri suave, um pouco tonta.
“Lucy! A Hikaru ainda está se recuperando da ultima missão que tivemos. Tenha calma, mocinha.”, Ayami a puxou de cima de mim a colocando em pé ao seu lado, enquanto me estendia a mão logo em seguida, para me ajudar a levantar.
“Obrigada Aya-chan!”, agradeci, me recompondo.
“Mas o que aconteceu?”, o olhar preocupado da Lucy me fez sentir uma pena tão grande que criou um sentimento de culpa em mim.
“Eu me feri na luta, mas já estou muito melhor!”, sorri, me agachando um pouco e acariciando-lhe os cabelos.
“Ah! Me desculpa, Hika-chan!”
“Deixe disso. Não precisa se preocupar.”, sorri suave, lhe acariciando os cabelos.
“HIKARU!”, a voz do encarregado Reever me fez acordar.
Eu não havia achado o Kanda-kun, então provavelmente iria receber uma boa bronca se não corresse atrás dele logo. O encarregado estava me procurando para tirar satisfações sobre minha demora, mas o que eu podia fazer se o Kanda-kun tinha simplesmente se enterrado em algum buraco para que não o achasse? Olhei desesperadamente para as duas que observavam Reever se aproximar cada vez mais rápido.
“Err. Então... Vou indo! Tenho de achar o Kanda-kun!”, gritei agoniada.
“Té mais Hika-chan!”, Lucy sorriu suave.
“Vai lá, a gente enrola ele aqui.”, vi Ayami piscar para mim e logo sorrir em seguida.
Agradeci internamente por aquilo. Elas estavam salvando meu dia, pelo menos por um momento. Olhei desesperada para todos os lados, procurando uma saída e assim que achei um pequeno corredor, disparei em sua direção adentrando-o. Continuei a correr por ele, sem nem olhar para trás, até parar na frente do portão de entrada da Ordem. Permaneci quieta ali por alguns segundos, apenas observando o Guardião da Ordem adormecido enquanto recuperava o fôlego.
“Klaud, você vai me pagar.”, pensei enquanto puxava o ar.
Percebi que precisava voltar a treinar o mais rápido possível, principalmente com a idéia de que o Conde começaria a correr atrás de todas as Innocences a procura do Coração com mais garra agora. Desviei meu olhar para baixo ao lembrar-me do meu acordo. Eu deveria estar procurando pelo Coração desde o momento que entrara na Ordem Negra. Eu tinha de sondar perfeitamente cada exorcista e cada Innocence adquirida à procura daquela em especial. A Innocence que controlava todos as outras. Ainda não sabia o porquê eles queriam tanto ela, mas precisava procurá-la o mais rápido possível. Já fazia tanto tempo e nem recebera nenhuma pista que me ajudasse a achar o Deak.
Encostei-me a parede, sentindo sua superfície fria e levemente desgastada. Escorreguei até o chão, pouco me importando se minhas vestes negras estavam se sujando com a poeira. Agarrei meu próprio corpo, enquanto enterrava minha cabeça em meus braços, apoiando a testa em meus joelhos.
Esqueci do meu objetivo por hora, passando a relembrar mais uma vez o dia que aceitara o acordo com a Road e o Conde. Mas como eu poderia seguir adiante com aquilo a partir dos últimos acontecimentos? Como poderia trair todos aqueles que me acolheram em troca de informações duvidosas? Eu não podia e no fundo sabia disso. Eu sabia que não poderia e não queria cooperar com o Conde do Milênio, mas como poderia encontrar o Deak sem a ajuda deles? Na realidade, eu não lembrava muito bem da sua fisionomia ou de sua voz, mas eu lembrava daquele sentimento caloroso e reconfortante que me preenchia quando eu estava ao seu lado.
“Meu Deus. O que eu estou fazendo?”, perguntei em voz alta achando que estava só.
“Era justamente o que eu ia perguntar!”, escutei uma voz mais grave, cheia de diversão me perguntar ao lado.
Levantei a cabeça e olhei para o meu lado esquerdo me surpreendendo com a pessoa que estava agachada ao meu lado. Era um rapaz de aparentemente dezenove anos, com lindos cabelos ruivos caídos e repicados um pouco abaixo da orelha. Em seu olho direito, um tapa-olho preto repousava, enquanto o seu esquerdo era de um verde vivido, idêntico aos meus. Seus traços eram bastante bonitos, e formavam um belo conjunto ao meu ver. Achei-o diferente e misterioso à primeira vista.
Pisquei algumas vezes tentando associar ainda a pergunta à pessoa. Fiquei o olhando por um tempo observando suas características tão masculinas e cheias de charme. Achei estranho por um momento, mas parecia que eu o conhecia de algum lugar.
“Hein?”, foi a única coisa que consegui falar. Acho que ainda estava admirada com sua beleza.
“Acho que a mordida do Kuro-chan ainda tá atordoando você.”, ele riu divertido.
“Hunf. Não é nada disso.”, falei de má vontade, irritada por me sentir envergonhada.
“Oe, o que foi?”, ele me olhava atentamente.
“Não é nada!”, respondi extremamente irritada.
Porque aquela palpitação fora de hora estava causando uma confusão danada em meu coração? Droga. As minhas palmas das mãos estavam frias e começando a ficarem molhadas pelo suor. Eu estava me sentindo uma criança ansiosa por alguma coisa que esperava demais. As limpei rapidamente em minhas vestes e puxei o ar com força tentando me acalmar. Levantei-me sem lhe dar qualquer satisfação e dei-lhe as costas.
“Hey! Espera! Acho que você está me devendo algo.”, o escutei falar.
“O quê?”, me virei sem entender.
“Hmm, acho que um ‘obrigada’, não?”, ele respondeu levemente irritado.
“Ora, pelo quê? Nunca te vi na minha vida, seu estranho.”, ok. Confesso.
Que maneira mais idiota e mal-educada de se tratar um cara que acabara de conhecer.
“Você é muito mal-educada, sabia?”, o vi cruzar os braços. “Credo... Nem te salvo mais,”
Salvar? Me salvar? Do que ele estava falando? De repente, a conversa com o Allen-kun soou em minhas memórias. Eu havia sido salva por dois exorcistas. Crowley e Lavi. Então ele era um dos dois? Certo. Eu estava sendo estúpida com ele enquanto o mesmo estava tentando ter uma conversa simples comigo, sendo que também era meu ‘salvador’.
“Eu hein... Acho que o Allen errou quando disse que você parecia legal.”
Nossa. Como ele era idiota. Fervendo de raiva andei até ele pronta para respondê-lo e já estava com a resposta na língua, entretanto antes que eu abrisse a boca, vi a imagem ao meu redor rodar, me fazendo parar e cambalear para o lado.
“Hey! O que foi?”, escutei sua voz um pouco distante. Ele estava preocupado?
“Não... Não sei!”, sussurrei.
Eu realmente não sabia. As vezes, logo depois de sair da enfermaria, estava tendo algumas tonturas leves, ocasionadas pela perda de sangue e pela lentidão de reprodução do mesmo em meu organismo. Provavelmente eu estava anêmica. Fechei os olhos respirando um pouco de ar, puxando-o com força para tentar me acalmar.
“Hey, calma!”, o escutei falar e logo seguida me surpreendi.
O ruivo me tocou as costas com uma delicadeza gentil e cuidadosa, e em seguida me puxou para o seu lado com calma, fazendo com que eu encostasse meu pescoço em seu peito e minha cabeça em seu ombro. Corei automaticamente ao sentir a superfície macia de seu uniforme e o calor que seu corpo emanava em direção ao meu. Pensei em me afastar, mas aquela sensação de proteção e aconchego fizeram com que eu reconsiderasse minha idéia. Poderia ser o cansaço ou apenas a falta de vontade, mas era fato de que estar daquela forma com ele era bom. Permitir-me fechar os olhos lentamente, aproveitando em silêncio aquela reação.
Senti seus braços me envolverem a cintura, enquanto escorregava lentamente pela parede sentando-se ao chão. Abri os olhos observando a parede de pedra a minha frente enquanto apreciava aquela mesma sensação de quando gostava de sentir quando pequena. Proteção. Preocupação de alguém que se importava comigo. Ri internamente achando que estava fazendo uma bela confusão por conta do meu cansaço. Como era possível estar sendo amparada por alguém que acabara de ser grossa?
Senti sua mão tocar meus cabelos curtos, os acariciando suavemente, como se intencionalmente desejasse dizer que estava tudo bem e que não era para eu me preocupar. Acabei me sentindo mal por ter sido tão estúpida com ele, além de estranhar a sensação de que o conhecia há algum tempo.
“Hikaru.”, sussurrei.
“O quê?”, ele perguntou parecendo despertar de algo.
“Meu nome é Hikaru.”, respondi sem graça.
“Hm...”
“...”
“...”
“...”
“Lavi.”, o escutei falar.
“O quê?”, me virei para ele, o fitando.
“Meu nome é Lavi.”, ele sorriu para mim, achando graça em alguma coisa que eu não entendi.
“Hey, o que é tão engraçado?”, o olhei curiosa, embora estivesse começando a me irritar. Nunca gostei de que alguém risse as minhas custas.
“Nada demais, esquentadinha! Só achei engraçado que respondemos do mesmo jeito.”, ele abriu ainda mais o seu sorriso, me mostrando o quanto mais conseguia ser bonito.
“Nyuu...”, sussurrei, virando o rosto. Tinha certeza de que estava sem graça.
“Olha, sabia que você é uma graça mesmo estando envergonhada ou irritada?”, ele comentou com um tom inocente.
“Hmpf!”, bati de leve em seu ombro, admitindo uma expressão emburrada.
“Tô dizendo que fica uma graça!”, e logo em seguida ele riu alto e divertido.
Calei-me tentando ignorar a maldita alegria que começara a surgir em meu peito. Virei o rosto para o lado, rindo de leve por ter sentido uma quentura nova em meu peito, que me provocara cócegas.
“Hikaru!”, escutei a voz do Johnny soar no fundo do corredor, me fazendo me virar para ele.
“Hm?”, arqueei meu corpo para frente o olhando curiosa.
“Hi...Ka...ru!”, ele ofegava, mas engoliu o ar ao reparar em alguma coisa entre mim e o Lavi. “Err... Estou atrapalhando algo?”, o vi ficar vermelho e não entendi o porque.
Olhei para mim e para o ruivo atrás e então reparei o porque da vergonha de Johnny. Eu estava sentada no colo de Lavi, enquanto ele me abraçava pela cintura. Corei instantaneamente pulando de seu colo e respirando rápido pelo susto. Meu coração batucava em meu peito, como se estivesse tocando uma música rápida e sem pausa. Meu Deus. Eu nunca tinha ficado perto de um menino daquele jeito, quanto mais sentado no colo de um. Argh, se a Klaud soubesse eu seria repreendida por tanto tempo que sairia surda de tanta reclamação.
“Nã-Não é nada do que estava pensando!”, respondi rápido.
“Relaxa, Johnny. Não está acontecendo nada.”, ele falou simples, sorrindo para ele.
Diabos. Como ele conseguia se sentir tão calmo naquela situação? Será que já estava acostumado a ter tantas mulheres em seu colo que já não se importava mais? Argh! E eu acabara de ser mais uma. Inferno!
“Err.. Bem. O... O Kanda-kun está te chamando, Hikaru.”
“Ué? Para que?”, perguntei sem entender. Aquilo não era normal.
“Ele... Ele quer desafiar você...”, o escutei responder,mas demorei para processar.
“Me... Desafiar?”, tive de repetir para que a informação entrasse em minha cabeça.
Por que o Kanda-kun desejava lutar comigo? Ele nunca fazia essas coisas. Pisquei sem entender, mas dei de ombros andando em sua direção. Parei bruscamente ao sentir algo me puxando para trás e me deparei com um olhar esverdeado, inundado por uma preocupação estranha.
“O que foi?”
“Você vai lutar contra o Yuu, mesmo estando assim?”
“Sim.”
“Não faça isso.”
“Relaxe. Vai ficar tudo bem.”, sorri suave para ele, me soltando.
Soltei-me de sua mão e comecei a andar em direção a Johnny o passando. O que quer que fosse, eu não fugiria, mesmo que ocasionasse uma perda feia para ele. Mas aquilo me intrigara. O que ele queria comigo?
Continua.
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