Underground Job

2 Job2: Amor e ódio no Submundo (Damien Al-Razi)


Job2 – Amor e Ódio no Submundo

Dizem que só duas coisas mexem com a cabeça de um verdadeiro homem, a ponto de esquentar seu sangue e provocar a sua ira: a sua honra e a sua amada.

...

Sangue ferver...

Sua mente voando...

...

O que mexeu comigo foi a segunda.

- Damien Al-Razi –

2.1

“...”

| Guria e speed |

Eu tinha uma guria, mas não lembro bem como a conheci.

Era na época em que eu estava em SeaSide, quando eu vendia speed, special K e ecstasy em uma boate perto da Saency Freeway, no norte da cidade. Saency Freeway era o meu ponto durante aquele mês. Não se podia ficar muito tempo no mesmo local. Começa a chamar atenção. Os militias vêm e podem te prender, exceto se você for muito burro para não carregar grana de suborno...

Eu sempre provava a mercadoria antes de vendê-la.

A venda era boa. Dava pra comprar umas coisas como computadores, palmtops e munição extra. Ganhava trezentos paus numa festinha besta, dessas menos movimentadas. Foi em uma dessas festinhas, organizadas pelos playboyzinhos de merda que moravam em mansões e alugavam quadras inteiras de boates, que eu a vi pela primeira vez.

Pelo que eu senti, ela só estava ali porque suas amigas, suas novas amigas, a levaram. Talvez enfiaram na cabeça dela que seria legal ficar por ali durante uma noite, que conheceria novas pessoas e até conseguisse um namorado. Parece que a cabeça dela – de novo a cabeça – tinha vomitado essa idéia pra fora e não se sentia muito bem. Era como se ela estivesse ali, mas a mente estivesse distante como o olhar daqueles olhos castanhos, densos e envolventes, alucinógenos, que me mantinham confortavelmente entorpecido.

Eu decidi não me apresentar. Apenas perguntei se ela estava interessada no que eu tinha. Três amigas delas avançaram no speed. Ela recusou tudo. Ela e os olhos alucinógenos.

...

Ela era a própria droga que eu vendia.

...

Passaram-se duas semanas e eu a vi novamente. Ela e os olhos alucinógenos. Eu já andava com Adel. Adel era o sujeito do submundo, matador. Ele que me fez descobrir o dom.

Não sei como. Eu consigo saltar, andar pelas paredes, correr... tudo isto com mais facilidade, como se ignorasse a gravidade. Talvez eu estivesse provando mercadoria nessas horas.

Voltando...

Eu a vi novamente. Foi quando eu e o Adel começamos os jobs. Corríamos pelos telhados do subúrbio de SeaSide, até que eu parei, em cima de um telhado, olhando o que a janela aberta de uma casa à frente mostrava.

Era ela. Ela tocava divinamente bem. Um violoncelo. E ela, com a cabeça levemente inclinada para a esquerda, olhando para um ponto não existente, apenas sentindo a música.

...

Adel me chamou a atenção e eu tive que acompanhá-lo. Era um job fácil: afugentar uns sujeitos que faziam baderna na frente de uma loja da Instanto. Só aparecemos por lá, disparamos uns tiros pro alto e os delinqüentes correram. No dia seguinte éramos membros da Instanto, da divisão mais baixa de jobs.

Era o submundo.

Dias depois de ter visto Olhos Entorpecentes tocando violoncelo, eu a vi novamente. Estava em um fliperama, jogando The King of Fighters 2000. O jogo era velho, mas divertido. Dessa vez tive coragem de me aproximar. Comprei duas fichas e me aproximei:

— The King... Você parece jogar bem.

— Sério? – ela perguntou, fingindo desinteresse.

Olhos Entorpecentes... entorpecidos...

— Hoje é meu aniversário. – falei. E isso era verdade. – Que tal me dar um duelo de presente?

— Entra aí...

Conversávamos enquanto nos enfrentamos. Descobri seu nome: Natalie Maurer. Descobri que tocava violoncelo desde os dez anos, que gostava de escrever, de ler Kant e Rimbaud, de comer sonhos, de sair pela chuva...

Ela parecia sozinha demais. Os olhos denunciavam. Ela queria alguém.

Ofereci speed.

Ela aceitou.

E me beijou.

Aquela noite ao lado dela passou como um vórtice azul: quente e abafado. Delírio. Deleite confortavelmente entorpecente.

Desde aquele encontro, nós andávamos abraçados, entorpecidos pelo efeito da droga, balbuciando frases e assistindo cada coisa do nosso campo de visão pulsar em uma freqüência diferente das outras. Natalie sempre usava um moletom roxo-escuro por cima de suas blusinhas pretas ou cinzas. Eu sempre de coturno. Era o inverno do amor.

Adel me ligava três vezes por semana. Jobs. Subi na carreira dos Undergrounds Jobs pela Instanto facilmente. Dois meses com Natalie. Ela não sabia de nada sobre o submundo. Sempre dizia que pegaria um pacote de speed novo durante a madrugada, ou que um cliente amigo queria a droga. Mentia. Transávamos sob o efeito do speed e de ecstasy e, dado um tempo, eu saía para a noite, mergulhando no denso cobertor de asfalto que descia sobre a cidade junto da carruagem de Morpheus.

O grupo era composto por... Esquece. Deixa o grupo pra depois.

Eu já disse que tinha uma guria?

Tinha.

...

Os jobs estavam mais loucos a cada semana. Confrontávamos contra gangues, contra outros grupos, assaltávamos... Tudo pela Instanto e seu sagrado dinheiro. Juntei todos os pagamentos. Era uma pequena fortuna. No nosso primeiro ano de namoro, eu disse a Natalie que poderíamos fugir da metrópole, que eu não precisaria mais vender drogas e que teríamos uma casinha legal em um local bem calmo. Ela sorriu. Feliz. Os olhos entorpecentes estavam felizes. Não afundaríamos naquela merda de submundo. Talvez eu compraria speed vez ou outra, mas não precisaria de speed pra continuar vivendo. A Instanto já havia dito que eu podia sair dos jobs quando bem entendesse. Adel estava na liderança do grupo – eu confio nele.

Só que...

... eu não contava que um louco aparecesse na minha frente.

2.2

“...e um sorriso sádico – de dentes alvos – costurado na face.”

| Retrato Doentio do Doentio Rajh Death |

Talvez os bebês nasçam chorando porque premeditam que o mundo é injusto e vil. O mundo realmente é desse jeito. Mas, uma coisa muito estranha é saber que Rajh Death nasceu como um bebê sorrindo sádico. Fiquei sabendo desta história em um bar do distrito de WhiteLore. Rajh nasceu em um dia de chuva em setembro. Sua mãe era uma prostituta da zona mais ralé da metrópole e seu pai era um assassino de aluguel, que havia trabalhado anos para os gangsters. Dizem que a mãe da Rajh deu a luz em um beco, em uma sarjeta, como uma cadela, debaixo de chuva. O sangue do parto escorreu ladeira abaixo, misturado com a água da chuva e lixo das ruas. Um policial passava por perto. Ajudou no parto. Quando ele levantou a criança, esperava choro. O que se ouviu foi apenas o barulho da chuva caindo e o fim dos gemidos da mãe. O bebê, albino e de íris quase brancas, estava sorrindo, sádico, estava no mundo.

Um demônio havia nascido.

A mãe o batizou com o sobrenome de Death por algum motivo desconhecido e o colocou na porta de um orfanato. Rejeitou a doença do filho. Na escola pública de WhiteLore, todos caçoavam de Rajh criança. Ele tinha o cabelo loiro-esbranquiçado, sua pele era muito branca e seus olhos eram quase que completamente brancos. Era esquisito. Todas as crianças cuspiam em Rajh ou atazanavam a sua vida. E a criança exorcizava suas mágoas em desenhos.

Gente morta.

Muito vermelho.

Monstros alados de formas grotescas e olhos, muitos olhos desenhados ao acaso.

...

As professoras estranharam e os diretores do orfanato tentavam entender Rajh, que, aos onze, matou três companheiros de quarto, o guarda do orfanato e uma diretora. Tudo em quinze minutos, armado com uma faca de cozinha.

Fugiu. Sumiu de WhiteLore.

Anos depois o submundo falava de um sujeito que sempre andava com maquiagem escura no rosto, delineando os contornos dos olhos, vestindo um terno branco de listras verticais pretas. Tinha o cabelo espetado, loiro-esbranquiçado e os olhos eram quase brancos... e um sorriso sádico – de dentes alvos – costurado na face.

Qual era o dom de Rajh Death? Ver coisas que ninguém via. Dizia ver demônios e os espíritos dos mortos. Dizia conversar com eles, que recebia missões deles.

Uma coisa que ainda não citei sobre Rajh Death. Ele adorava coisas bonitas, mas sua lista principal eram olhos. Ele adorava olhos. Certa vez, dizem, Rajh estava com uma garota muito bonita na suíte palaciana de um hotel da Sebratore INC...

— Eu gostei dos seus olhos... – ele havia dito.

— Não fala essas coisas...

— Eu gostei tanto deles...

Ele estava com uma faca escondida embaixo do travesseiro.

— ...que vou arrancá-los para mim.

E o fez, com dois golpes de início, guardando os olhos em guardanapos e enfiando-os no bolso do terno, e com trinta e seis golpes espalhados pelo corpo – foi o que a perícia do Instituto Médico Legal contou.

Rajh era o doentio-mor do submundo: odiava todos, não tinha princípios e nem escrúpulos. Se adequava aos megablocos industriais e fazia todos os jobs direito, sendo o líder dos seus grupos, infiltrando-se para apenas se divertir e causar sofrimento. O filho do mundo, um demônio.

E ele se meteu no meu caminho.

Ele levou Natalie de uma forma que me recuso a contar.

Ele sofrerá dez mil vezes o sofrimento que causou em Natalie, nem que eu precise matá-lo nas próximas dez mil vidas que eu tiver.

2.3

“Expandir território? Eu só quero a cabeça de Rajh... De preferência, em mil pedaços largados em uma sarjeta idêntica ao lugar onde ele foi parido.”

| Um Grupo Nada Discreto |

Rajh assassinou Natalie em uma noite de quinta-feira. Pelo que deixou parecer, ele estava estudando meus passos duas semanas antes de assinar sua sentença de morte. Sabia que eu gostava de me dopar nas quintas, quando viro um pacote de adubo segurando um par de Desert Eagles, deitado na cama do meu quarto.

Depois de Natalie, parei de usar speed. Larguei meus remedinhos... As drogas já não faziam efeito algum.

Passaram-se dois anos desde a minha saída de SeaSide para a instalação completa onde estou agora. Ordens da Instanto. Segui-as. Podia parecer pouco tempo, mas no submundo era uma eternidade. Isso só me fez aumentar o ódio por Rajh e o tempo me impulsionou a treinar meu dom. Eu segui o rastro deixado por Rajh Death em SeaSide. Deu para seguir a Sebratore.

Ele só estava brincando, eu sabia.

— Você está criando uma obsessão compulsiva por isso, Damien... – dizia Adel naquela noite, quando voltávamos do job em que nos livramos do senhor Villepreux.

— Adel... Eu não estou fazendo esses jobs por nada. A Instanto pode ser boazinha comigo, mas Rajh fez uma merda das grandes.

— A Instanto só quer que você ajude a expandir o território de influência...

— Expandir território? Eu só quero a cabeça de Rajh... De preferência, em mil pedaços largados em uma sarjeta idêntica onde ele foi parido.

Adel manobrava a van que nos levava...

— Se isso te serve como apoio... Sorte a sua.

— Ae, chefe! Já tá cedinho lá fora! Cê num quer parar em algum canto pra comer?

...Eu havia esquecido de apresentar meu grupo de jobs...

A van era pintada de preto, com vidros de película verde-esmeralda na frente. Algo bem esquisito. Adel dirigia. Eu estava no seu lado, conversando. Atrás de mim, o da voz esganiçada que estava com a mão no meu ombro direito, me chamando de chefe, era o Cathal. Aquele sorriso de hiena dele só o tornava mais delinqüente. E, escondida nas trevas do fundo da van, cuidando do equipamento e verificando as nossas munições, Veronika, que só usava submachines e tinha uma tara por armas brancas.

— Vamos encostar perto do rio, Cathal. Sem comida por agora. É melhor esperar mais tarde para reabastecer o estômago.

— Damien, depois precisamos comunicar o sucesso do job para a Instanto.

— Você pode fazer isso por mim, Veronika?

— Mando um mail pra eles do palm...

— Ok... Adel, você pode encostar ali... Parece seguro.

— Eu fico de guarda!!

— Tudo bem, Cathal...

— Ainda tô sem sono, chefe...

Adel estacionou. Eu virei para o bando.

-Vocês foram excelentes hoje. Descansem duas horas. Depois disto, vamos comer alguma coisa em um restaurante qualquer...

Seria mais um dia de cão, como todos os outros.

Duas horas mais tarde e...

Uma típica manhã no centro da cidade: pessoas andando pelas ruas, carros bloqueando as avenidas, os caminhões de carga na frente dos grandes mercados... Era o bom e velho cotidiano renascendo depois de uma noite cinzenta. De início estava tudo tranqüilo. A calma reinava ao som do meu garfo batendo no prato onde eu comia uma daquelas lasanhas maravilhosas do Pasto Itália.

Era de se estranhar ao ver um jovem enfiado em roupas negras de frio se empanturrar de massas à uma hora daquelas, quando todos os fregueses do local bebiam café com creme enquanto liam mentiras nos jornais. Entretanto, eu não me importava com os olhares. Eu estava com muita fome.

— Eu não terminei de comer.

Eu estava em uma mesa redonda, comum nesse tipo de restaurante, com o meu grupo nada nada discreto. À minha esquerda, Adel bebia uns goles de uma lata de refrigerante, com postura de centurião e com suas mãos dentro do sobretudo marrom que sempre vestia. Na minha frente, bebendo um café com creme estava o Cathal, com aqueles cabelos negros e longos, e aquele belo sorriso de hiena: era mesmo um delinqüente. E ao meu lado direito estava Veronika, folheando um dos jornais que o molequinho da calçada estava vendendo naquele instante.

— Eu não terminei de comer.

Foi então que entrou no recinto um grupo de sujeitos cobertos da cabeça aos pés de roupas escuras e capuzes. Brandiam suas armas e falavam palavras sujas demais, o que estampava o seu pouco caráter a realizar uma ação dessas. Eu estava nas últimas garfadas da minha lasanha quando o líder do grupo berrou:

— Estamos saqueando este local! Se todos ficarem calmos e colaborarem com tudo, a perícia legal não irá perder tempo catando os pedaços das cabeças que explodiram.

Aquele berro foi tão alto que chegou aos ouvidos de cada um que estava na minha mesa. Não estávamos em nenhuma missão naquele momento. Estávamos um tanto abatidos pelo job da noite, mas uma breve diversão é plausível. Sem contar o fato de que aquela idéia dele de cabeças explodindo não soou divertida para os ouvidos do meu grupo nada nada discreto.

Com certeza eram novatos.

Por algum motivo infeliz, lembrei do Villepreux explodindo a própria cabeça.

- Eu não terminei de comer...

Veja bem: a metrópole estava dividida em zonas de influência de grupos. Nós trabalhávamos para o grande grupo que havia chegado no sul da cidade, liderado pelas empresas Instanto. Era esta empresa que nos financiava em tudo: dormida, comida, armas, mantimentos, equipamentos, veículos, tudo mesmo, desde SeaSide até Nevermore.

Nos tornamos um dos grupos experientes, mercenários pagos para manter a concorrência longe e afastar ameaças à zona de influência dos nossos patrocinadores. Nós arriscávamos as nossas vidas por isso em troca de quantias de dinheiro repletas de zeros à direita e prestígio no submundo da noite, onde todas as coisas mais interessantes e divertidas aconteciam pra valer.

No entanto, era a Instanto, e mais uma dúzia de empresas, que invadia o que foi antes o apogeu da Volatium. Os grupos patrocinados por estas grandes empresas faziam o espetáculo nas noites, e até mesmo no dia, para mostrar sua supremacia perante os outros. A questão era que nós éramos os melhores neste trabalho sujo. Tempo faz as pessoas mais felizes... Sim...

- Se levanta aí, ô imbecil que está comendo! – um dos sujeitos disse para mim. Acabara de entrar em uma graaande encrenca.

- Eu não terminei de comer. – respondi, levando o garfo à boca.

- E eu perguntei? Se levante agora ou eu te meto brasa.

Acho que naquele momento ele se arrependeu de ter sido rude.

O sujeitinho provou do punho do Cathal, que já tinha terminado o seu café, voando longe e batendo na parede vermelha nos fundo do restaurante. Bastou isso para que todos da minha mesa levantassem: Veronika disparou uma rajada de tiros com a sua submachine, Cathal puxou as duas Glock-18 do casaco e mandou bala contra os novatos nojentos e, por fim, o Adel montou o rifle que guardava na maleta ficou me fazendo cobertura.

Eu comi o último pedaço da minha lasanha e, enquanto meus companheiros davam o trato no grupo de amadores, saquei as minhas duas belezinhas – um par de Desert Eagles lindas -, o que deu pra intimidar os fregueses, que já não entendiam nada. Daí, eu comecei a caminhar pelo restaurante, saudando:

- Um grande bom dia para todas as pessoas que freqüentam este local virtuosíssimo. – exibi um sorriso cortês para as pessoas que estavam se protegendo em baixo das mesas. – É uma honra tê-los como espectadores desta aula de sobrevivência dada ao grupo ordinário que entrou neste estabelecimento há poucos instantes... – uma breve pausa para desviar das balas do novato que guardava a porta e mandá-lo para o quinto dos infernos com dois tiros no peito. – Ao contrário dos energúmenos que invadiram este local, nem eu e nem meus companheiros estamos atrás do seu dinheiro. É preciso que vocês aceitem três condições para que todos neste estabelecimento continuem vivos: a primeira, que ninguém saiba de nossa existência; a segunda, que digam para os policiais que o grupo que chegou foi o causador desta confusão; e a terceira... Por favor, coloquem mais molho na lasanha, porque o gosto do tomate passou muito longe. – os protegidos embaixo das mesas menearam positivamente com suas cabeças, mostrando os rostinhos de pavor. Ah... pessoas mal informadas... só sabem concordar e nunca contestar, o que deixa esvaziar um pouco de diversão destes momentos tão sublimes... — Tenham todos um ótimo dia e recordem estas condições para continuar vivendo.

Depois do velho diálogo de quando acontecem estes imprevistos, os sujeitos do bando assaltante estavam caídos no chão, alguns sem vida e outros balbuciando algo como “uh ugh salvação...”.

Vi a marca que um deles carregava como tatuagem na nuca: o rosto de um monstro disforme, símbolo de uma facção do submundo envolvida com o lado leste da cidade. Passei por cima do corpo deste, pisoteando-lhe as costelas por alguns instantes. Logo eu já estava na porta do restaurante, guardando minhas duas belezinhas dentro do meu terno negro e entrando na van. Desta vez, o Cathal dirigiu.

- Que surto foi esse? – Veronika perguntou a todos, prendendo os cabelos negros com uma liga azul.

- De onde você acha que eles são, Damien? – o Adel me perguntou enquanto desmontava o rifle e o guardava na maleta.

- Provavelmente eles estão ligados com o Megabloco da Sebratore, no lado leste. –respondi. – Acho que o submundo do lado leste está precisando de dinheiro. Estes saques e assaltos a estabelecimentos de porte médio dão um lucro bom. Os homens da Sebratore estão mandando estes grupos de novatos para fazer o serviço.

- Bom Damien! – Cathal grunhiu atrás do volante. – E o que vamos fazer agora, chefe?

Os pedestres viram o nosso furgão ziguezaguear pela avenida, porém eles eram ingênuos demais para saber que existia um imenso mundo cinzento bem debaixo de seus narizes.

Sorte a deles.

- Vamos dar o recado para Instanto e pedir algo em troca disto.

- Dinheiro em troca?

- Não, meu amigo Adel. Vamos pedir um trabalho daqueles!

De fato, eu sabia que a Sebratore guardava um dos seus melhores homens para os momentos adequados.

Rajh Death era a arma.

2.4

“A solidão é um fardo... A solidão é um fardo...”

| Alvejante em Saryaedo Villa |

Três dias depois, recebemos um chamado da Instanto.

Qual o Job?

Voltemos trinta horas...

Havia um homem chamado Eric Bellardan, um desses sujeitinhos que não largam o cigarro por nada.

Também havia uma mulher chamada Leonna Selaggio, uma dessas sujeitinhas que sobem na escadaria da vida através de suas pernas... abertas... para homens ricos.

Somente os ricos, ou que pagassem bem (o sujeito poderia ter deixado de pagar o gás e o telefone pra conseguir pagar uma hora dos serviços de Leona... e só uma hora!).

Eric cuidava da segurança nos sistemas digitais da Freedom, megacomplexo concorrente da Volatium. O seu trabalho era fazer a inspeção em cada porta do complexo cyberground que a Freedom possuía e montar armadilhas contra possíveis sabotagens, seja lá de onde vêm – nada impedia que os próprios membros da Freedom recebessem dinheiro para sabotar os próprios computadores.

Porém, para alguém se dedicar completamente ao trabalho, existem certos sacrifícios. O senhor Bellardan adquiriu sua ascensão ao topo da cadeia alimentar do seu trabalho em segurança digital através de horas e horas na frente de monitores de plasma e circuitos integrados. Pouco a pouco, nas entranhas de Bellardan, cavava-se um buraco vazio, uma fenda, que seria preenchida somente por um calor ardente que todos nós conhecemos bem, pelo toque humano, pelo sentir, pelo tato. Aquilo tornou Eric vazio, solitário demais, compulsivo em seus maços e maços de cigarros.

Tirando isso, e aqueles cigarros todos – odeio a fumaça.. -, Eric era um bom rapaz.

E Leonna também era uma boa pessoa... ou pessoa boa, dependendo do que seus olhos estão observando no corpo dela.

Certo dia, Eric foi convidado para uma festa na cobertura de um prédio de janelas espelhadas, na Avenida Portuária. Era um local de gente rica. Gente rica mesmo. O homem que o convidou, Alberto Ümmer, era um empresário recém-chegado na cidade. Estava interessado em se adequar aos megacomplexos e desejava os serviços de Bellardan na segurança de databases imensos e servidores recheados de milhões de terabytes de informação.

Entretanto, a coisa não era bem assim. O Senhor Ümmer estava subordinado a um grupo bem maior: a Volatium. Ele sabia muito bem que mesmo uma citação contendo a Volatium espantaria Eric. Ninguém quer morrer... Ninguém quer abrir mão do seu mundinho materialista...

Entre umas e outras, já na cobertura de Ümmer, Eric foi apresentado a uma bela mulher de vestido roxo. Ela se chamava Leonna. Os dois conversaram, riram e beberam o bastante...

E uma hora depois Leonna estava montada em cima de Eric.

...

Tsc... Tsc... Sofrível, senhor Bellardan, sofrível...

A solidão é um fardo... A solidão é um fardo...Um fardo tão pesado que Eric acabou dormindo depois de fazer Leonna soltar várias vezes os seus orgasmos fingidos.

E ele achando que estava indo muito bem...

Haha...haha... ha-há... há... Idiota.

Aquele foi o tempo que ela teve de ligar para o sujeito que a contratou para este serviço. O sujeito ligou imediatamente para o senhor Ümmer, que na mesma hora contatou um grupo de jobs da Volatium. Demorou quinze minutos até que chegassem na frente do condomínio onde Eric morava, Saryaedo Villa, em um bairro de classe média-alta da metrópole.

Os homens que estavam fazendo aquele job foram sujos...

Eram quatro. Entraram pelo hall, com as armas em mochilas, subindo pelas escadas. Eric morava no décimo segundo andar. Os filhos da mãe tiveram fôlego suficiente pra subir tudo em menos de seis minutos, carregando armas leves como pistolas e submachines. Eles entraram, sem nada falar, calados, com seus rostos cobertos por máscaras de gás, semelhantes às da Primeira Guerra Mundial. Isso é coisa de quem não quer ser identificado, mas, pelo que aconteceu, estava mais pra fetiche. Dois pegaram Eric, que acordou quando estava na varanda e só teve tempo de gritar quando viu o que ia acontecer. Com um bisturi e uma faca militar, eles arrancaram o olho direito e cortaram os dedos das mãos de Eric. TODOS os dedos. Como se não bastasse, cortaram-lhe a língua. Jogaram as lâminas em um canto qualquer, guardaram o que havia sido “recolhido” em sacos plásticos e levantaram Eric, que se debatia. Sabe quando você acorda de repente e não percebe o que está acontecendo? Eu acredito que ele só percebeu que havia acordado bem na hora em que os dois homens jogaram o coitado da janela.

Acordar e não ter onde pisar, nem se apoiar; acordar e estar caindo, acordar sem língua para gritar, nem dedos nas mãos...

Aqueles caras tinham sangue frio de sobra...

Aquilo chamou a atenção do guarda lá de baixo, mas os homens que estavam no alto eram experientes no que faziam. Vasculharam as estantes, as paredes e roubaram a Cpu de um belo modelo que Eric tinha. Encontraram um porta-discos com dvd’s. Era o backup do sistema vital de segurança da Freedom: senhas, databases, esqueletos de montagem, contra-vírus... Eles guardaram tudo em mochilas e foram caminhando para a saída. Um deles ficou para trás e deixou um embrulho de dois palmos de altura no centro do quarto de Eric. Leonna esperava na porta para agradecer aos homens, mas eles estavam ordenados a “seguir as ordens”...

Depois de saírem do apartamento, quebraram a janela do andar e desceram através de cordas, até caírem no jardim, saltarem as grades e entrarem em uma van estacionada na esquina. Pelo fato do condomínio ser de grandes proporções, toda a atenção estava desviada para o corpo jogado no chão da avenida na frente do condomínio, o que deu liberdade para os homens da Volatium descerem do prédio pelo lado oposto ao que estava o corpo de Eric e saírem pela avenida dos fundos.

Aqueles sujeitos eram profissionais. A Volatium dissera que queria “tudo limpo com bastante alvejante”.

Não deu pra outra: quando Leonna foi saudar os homens na porta, um deles estourou aquela cabeça vazia com um tiro seco na testa; o corpo de Eric estava desfigurado, caído no meio da rua. Como em um “grand finale”, algo explodiu metros e metros acima das cabeças dos curiosos que se aglutinavam em torno do cadáver de Eric: uma potente bomba havia explodido todo o apartamento.

Era o alvejante dos homens da Volatium agindo em Saryaedo Villa.

2.5

“...mate ou morra...”

| Encontro |

E como eu fiquei sabendo de toda esta história?

Bem... não é muito difícil fazer alguém falar tudo o que sabe quando se tem uma Desert Eagle carregada e uma cabeça para mirar...

...

— Não me estoura, cara! Por favor, não me estoura!

Eu odeio esses caras que fazem jobs imundos...

— Eu prometo não estourar você. E o que aconteceu para a própria Volatium ficar puta com vocês?

— EU JÁ DISSE, QUE MER...

O cara estava no chão, sujo do próprio sangue. Era o único bostinha vivo daquele grupo de homens. Nós havíamos matado o resto.

— Epa, amigo... – apontei a outra Desert na testa dele. -.. Vamos deixar uma coisa bem clara aqui: você só levanta a voz quando eu mandar.

Jobs sujos são os meus...

— T-tudo bem, cara...

Levantei as sobrancelhas, sorrindo. É engraçado como tudo fica claro quando há uma arma na sua testa.

— Eu juro! Negamos o pagamento dos caras da Volatium. Nós pedimos o triplo depois de ver que a merda que estávamos guardando era valiosa...

Aquele grupo de job era audacioso. Pediram o triplo depois de saber o ouro que estavam em mãos. Obviamente, a Volatium se desesperou. Já estavam sendo bem pagos demais. Queriam o triplo? Ninguém paga mais do que o que combinou.

Depois dessa, a Volatium pediu que um grupo interno fosse buscar os backups onde o grupo se escondia. A informação vazou. E as boas notícias correm por gente errada.

A Instanto ficou sabendo da história. Nos mandaram para interceptar o grupo da Volatium e adquirir os backups, seja lá o que custasse. Com a parafernália inteira em mãos, os empresários da Instanto estariam dispostos a armar chantagem com os homens da Volatium, gerando privilégios para a empresa e a devolução de uma parte do backup.

Interceptar o grupo da Volatium foi fácil. Um monte de sujeitos confiantes nos aparatos eletrônicos. Não tinham dons. Matamos, brincando de predador na selva. Conseguimos os mapas para o lugar onde o grupo que fez o job de Eric se escondia. Era uma pequena mansão – falo “pequena” porque você não viu o tamanho das mansões que eram construídas naquela metrópole – afastada da cidade. Um lugar perfeito para um confronto.

Agora, depois de matar os membros do grupo e deixar apenas um vivo – o mais fraco, menos confiante e, obviamente, o mais fácil de manipular -, eu estava de pé, na frente dele, apontando duas armas para a sua cabeça, enquanto Veronika e Adel estavam ao meu lado. Cathal estava logo atrás de nós, vasculhando coisas nos corpos no chão.

Apertei o cabo da Desert Eagle. O idiota estava coberto de suor.

— Acho que isso não faz muito sentido pra mim, amigo... Não quero saber dos detalhes. Você já falou demais quanto ao job do Eric. Eu quero saber onde estão esses backups!

— Estão aqui! Nesta casa! Eu juro!

Olhei para Veronika.

— Vasculhe a mente dele...

— Pra já, Damien...

Ele estava com um baita hematoma no rosto.

— Eu já disse tudo o que sabia, Damien! Me deixa ir!

— Cala essa boca... Veronika, e aí?

Ela estava com os olhos virados, delirando, lendo a mente daquele bosta.

— Tudo ok, Damien. Ele está sendo sincero.

— Ah merda... – levantei uma das pistolas. – Você pode ver onde eles esconderam?

— Espera... Dá pra vasculhar mais alguma coisa na mente do infeliz...

— NÃO DEIXA ELA ENTRAR NA MINHA MENTE!!!

Atirei pro alto.

— Não lembra que estas armas estão carregadas!?! Qual foi o trato?

— Desculpa... D-desculpa, Damien...

— Tudo bem, amigo... Continue quietinho. Veronika está acessando o seu Windows nojento...

— Achei grana por aqui! – Cathal berrou. – Posso ficar.

— Leve o que você achar, Cathal. – Adel coordenava. — Já separou as munições?

— Coloquei tudo em cima do sofá.

Eu apenas imaginava os dois conversando e gesticulando. Meus olhos estavam mirando aquele imundo mercenário... Meus olhos e minhas duas pistolas.

Veronika sorriu.

— Haha... O grupo o obrigou a esconder o pacote.

— E ele escondeu onde? – perguntei.

— Está em...

Ela caminhou até a parede. Havia uma cabeça de cervo pendurada.

— Cathal, me empresta suas lâminas... – e ele jogou uma espada curta para Veronika. Ela cortou parte do pescoço empalhado do animal. Um pacote preto caiu nas suas mãos delicadas. Abriu. – Estão aqui. – um porta-discos.

— Belo trabalho, Veronika.

Mais uma vez, olhei nos olhos do infeliz.

— Não me mata, cara. Não me mata... Você prometeu!!

Depois da sujeira que eles haviam feito, eu deixaria aquele idiota vivo?

A pior parte é que esse tipo de gente deveria negar a vida. Morrer faz parte do trabalho. São os ossos do ofício...mate ou morra...

— Desculpe, amigo. Nada pessoal, só negócios.

Guardei uma Eagle e deixei a outra pistola apontada pra o sujeito. Ele fez uma cara de “uh”. Foi a última coisa que eu vi antes de desviar o olhar. Disparei.

— Acho que todos já se foram... – falei com o grupo. – Vamos sair daqui.

— Tem certeza, Damien Razi?

Sempre tive a sensação de um espectro me seguindo o tempo inteiro. Um frio estranho na nuca. Isso começou desde que jurei Rajh Death de morte. Era uma obsessão compulsiva, algo que pulsava todo o tempo, toda vez que eu lembrava de Natalie.

O frio estranho na nuca... Havia um cano de metal frio na minha nuca.

-Vire-se devagar...

Fiz o que haviam me pedido.

Na verdade, eu não queria ter feito aquilo.

— Que honra... – os olhos quase brancos me fitaram. De início, tive medo. Ele usava um terno branco, de listras finas escuras. Não tinha cílios ao redor dos olhos, que tinham íris quase brancas. O cabelo era curto, de uma cor loiro-esbranquiçado. Estava apontando uma escopeta para a minha nuca. Ele segurava a arma com uma mão só. Cathal, Veronika e Adel caíam no chão. Ele usou dardos para dopá-los e paralisar seus músculos.

— Rajh... Death...

Ele abriu um sorriso sádico.

— O moço de Natalie...

...

Meu medo estava se transformando em ódio.

...

— Grande parte do tempo eu te procurei, Damien Razi.

— Não pense que eu estava fugindo de você...

— Acho que devo pedir desculpas ao que fiz com Natalie... Eu precisava de alguém que me odiasse, Damien... Escolhi você para isso.

Instintivamente, tapei o cano da escopeta com a mão livre e apontei a Eagle para a cabeça de Rajh.

— Você não vai sair inteiro daqui.

— Eu não me importo... – ele jogou a cabeça para frente, rindo. Aquilo me deixou com mais ódio. – Eu sei que fui muito egoísta matando Natalie. Ela era diferente de todas as outras que já me diverti. Havia algo de diferente nos olhos dela.

Atirei. Ele saltou três metros para trás. O tiro não havia atingido o rosto.

— POR QUE VOCÊ A MATOU?!

— Precisava sair da mesmice, Damien! Eu precisava ter os olhos dela!

Aquilo não entrava na minha mente. Atirei rajadas contra aquele monstro. Ele desviou. Correu, empunhou a escopeta contra mim e atirou. Senti parte do meu ombro queimar. O sangue voava em câmera lenta, enquanto via o rosto de Rajh Death me olhando com curiosidade e o cartucho vazio voando da arma.

Perdi o equilíbrio.

Caí no chão.

Fechei os olhos.

Vi os sapatos de Rajh. Eram brancos e lustrosos. Uma mancha de sangue decorava o pé esquerdo. Levantei a cabeça e olhei-o no rosto.

— Você fez tudo certo, Dammy: me odiou, quis vingança o tempo inteiro. Era isso que eu queria. Somente ódio e diversão. – ele deixou a escopeta no chão.

O tiro que me acertou no ombro fez com que eu largasse a Eagle durante a queda. Não tinha mais como mexer meu braço. Quando pensei em usar a outra mão para pegar a Eagle no bolso do casaco, Rajh a acertou com uma faca. Impulsos me fizeram levar a outra mão para proteger a machucada, mas, com meu ombro fodido, aquilo só me fez gritar de dor.

Ele deu a volta ao meu redor e pisou no cabo da lâmina, fincando ainda mais o metal na minha mão. Não havia modo de segurar a dor. Berrei. Rajh sorriu.

— Depois de ver você agonizando, eu irei arrancar um de seus olhos, Damien. Você ainda poderá escolher qual será. – ele sacou uma pistola. – Claro... Já chamei ambulâncias e eles virão aqui só pra te pegar e cuidar dos seus ferimentos... Agora, quero me certificar que você não vai sair daí antes deles chegarem...

Rajh atirou nas minhas pernas.

— Eu não quero matar você, Dammy...

Ele se curvou na minha direção. Mostrou um bisturi.

— ...eu quero que você implore isso para mim...

Eu vi os olhos esbranquiçados se aproximando...

-... porque eu quero que você me odeie com toda a força que puder.

...Eram de um vazio pálido, agonizante, vestido de desespero e sem alguma fagulha de esperança...

---Fim do Job2

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.