Underground Job
1 Job 1: Novatos (Angelo Villepreux)
Job I — Novatos Aqui estou eu: sangue manchando a camisa branca de linho que tanto gostava de usar por debaixo do meu terno escuro, um buraco de bala no meu abdome, apenas uma bala na minha pistola esquerda, a da direita sem munição...Eu odeio quando minhas pernas começam a falhar e daí vem aquela tremedeira em minhas mãos, o que me impede de mirar qualquer coisa com as minhas duas belezinhas. Isso é prejudicial para mim... não só para minha saúde quanto também para a minha sobrevivência neste trabalho que nunca foi opção minha, mas é beeem divertido.Provavelmente eu vou morrer aqui mesmo, ao lado destes sacos de lixo e servir de alimento para os ratinhos imundos que moram neste beco escuro. Eu não sou tão orgulhoso a ponto de ficar me entupindo de pensamentos bonitinhos de auto-estima, como “Eu não irei perecer aqui!” ou “Não vou servir como comida de rato!”. Dane-se. Isso é coisa praqueles que não encaram o mundo como ele é. Eu estou começando a sentir que meu túmulo será aqui – ao menos o provisório até os caras do IML atracarem com o caminhão-defunto e me enrolarem em um belo e tenro saco plástico negro.
Já que vou bater as botas daqui a pouco, irei narrar o que me levou a virar comida de rato e, logo depois de algumas horas, dejetos para os vermes comerem, coisa que todos vão ser em um futuro próximo.Porém, a grande pergunta de um milhão não é como eu fiquei neste estado, simplesmente é: - Como esse cara foi parar aí?- Angelo Villepreux -1.1“Coisa de novato – sempre existe um desses pra fuder com a sua vida quando se trabalha em grupo”| Como nascem mercenários | (...)Eu me recordo do tempo em que eu era um simples matadorzinho de aluguel, andando por aí seguindo o faro de dinheiro e de sangue. Foi há uns oito anos. Naquela época eu achava que tinha sorte na mira da minha arma. Não era sorte. Era um dom. Depois fui descobrir que no submundo da cidade existem homens e mulheres que possuem dons bem estranhos – coisa sobrenatural mesmo. Não tem como se manter calmo ao ver uma garota saltar um prédio de sete andares, acertar três tiros nos pontos vitais de três pilantras e não ter nenhum osso quebrado com o impacto da queda. Esse tipo de coisa vivia acontecendo naquela cidade. Não teve hora de chegada e ninguém sabia a origem. Mais tarde fiquei sabendo da existência dos Grupos de Trabalho Sujo – Underground Job, na gíria globalizada dos empresários. Resumindo: grupos que faziam a festa durante a noite, por mando de gente rica, somente para manter a influência de algum conglomerado industrial qualquer em uma certa área da metrópole. A idéia me era estranha de início. “Uns grupos de gente estranha, cada qual com uma habilidade mais estranha ainda, matando uns aos outros para ganhar grandes quantidades de dinheiro”. Pra falar a verdade, o que me pareceu estranho foi só a idéia das habilidades especiais. “Matar para ganhar dinheiro”, o quê que há de estranho nisso? Era o meu rotineiro!Alistei-me em um dos grupos por causa de uma amizade que tinha feito com um velho dono de um bar famoso na noite, freqüentado por quem procurava o trabalho sujo. Era o grude da ralé, um lugar sujo pra burro, feito para gente mais suja ainda. Chamava-se “O Lodo”. Freqüentei o bar durante uns dois meses, tempo que usei pra ganhar alguma experiência, até que o dono, que eu nunca soube o nome – o velho era um polonês naturalizado, um com esses nomes horríveis repletos de z, ch, ss, w... -, me contou dessas histórias. Eu tinha escutado duas histórias sobre vampiros, mas nunca tinha dado muita confiança pra essa ladainha. Depois me vieram umas histórias fantásticas, sobre esses grupos de trabalho sujo que atuavam na noite e sobre os feitos de cada um. Em uma noite, o velho me falou que conhecia um dos donos de grupos, um líder, e que ele tinha perdido um de seus subordinados quando estavam trabalhando em um assassinato importante – o cara era inexperiente demais pro serviço e acabou ligando os fios errados da bomba... coisa de novato – sempre existe um desses pra fuder com a sua vida quando se trabalha em grupo. O velho falava muito do meu dom de mirar certinho nas coisas e de ser enxuto e silencioso quanto às mortes. Daí foi só um impulso para entrar de vez na sociedade clandestina. O líder que o velho do Lodo tinha me falado era, na verdade, um dos grandes caras da Volatium, empresário, com dinheiro no bolso e tudo mais. Lembro-me quando fui de encontro ao sujeito. Ele não dava a mínima pra mim até que eu falei do velho dono do bar. Um sorriso imenso se abriu, e uma porta para mim também.Comecei nos pequenos trabalhos. Pequenos assaltos para apurar dinheiro e liderança de um pequeno grupo de jovens inconseqüentes. Obviamente eu não queria continuar naquele estado para o resto da minha vida curta. Meus superiores reconheceram o meu dom com as armas e me subiram a patente. Meu poder de liderança crescia cada vez mais. Eu continuava a desenvolver meu dom com a visão e criava sentidos aguçados. Depois de um tempo tive um surto para movimentos ágeis. Já liderava algumas missões de importância e que requeriam sangue frio e nervos fortes. Em uma dessas, meu pequeno grupo foi chamado para dar cobertura a um outro grupo, de escalão melhor que o meu. Só então reconheci a minha simplicidade nojenta.
Fiquei abismado, como naquelas vezes em que nós paramos o que estamos fazendo e ficamos paralisados. Eram três no grupo que estávamos dando cobertura. O primeiro homem fatiou uns sete guardas de segurança pesada com apenas uns três golpes – ao menos foi o que o meu olho captou. O segundo do grupo conseguia cuspir fogo tranqüilamente, e o fez para se safar de um bando da segurança. E o último membro do grupo era uma mulher, que distorceu parte do piso de granito do estacionamento onde estávamos, engolindo de uma vez os três guardas que apareceram de surpresa na nossa fuga. Aquilo era incrível pra mim. Eu que tinha só uma bosta de mira excelente. Daí então, bem, é lógico que eu fui procurar os verdadeiros membros daquela coisa chamada Underground. Ruas noturnas praticamente desertas, carros rondando em alta velocidade, mulheres lindas e estranhas, homens frios fumando cigarros, escuridão, histórias sobre coisas fantásticas... Não era nada bonito, cinzento, opaco, frio e te deixava tenso porque você sabia que o anjo da morte rondava sobre a sua cabeça o tempo inteiro. Matar ou morrer, eis a questão. 1.2“Deus brinca com o universo usando dados viciados: a história sempre se repete nos seus atos e em seus erros”| Noites Cinzentas | Com um ano de serviços pelo palco sujo, consegui formar meu grupo. Éramos quatro delinqüentes. Fazíamos pequenos jobs para a Volatium, em uma tentativa estúpida de ganhar dinheiro para novos armamentos. Recursos. Conseguimos. Passamos um ano trabalhando para a Volatium. Bom pagamento, bons carros, boas mulheres. Fazíamos festas, desperdiçávamos nossos corpos. Era coisa de novato, quando se está com tudo, com o trem seguindo nos trilhos. Os empresários ricos do megacomplexo industrial aumentavam os domínios para difundir suas ideologias de comércio e seus monopólios. E nós? Nós simplesmente matávamos quem fosse necessário, sabotávamos empresas inteiras, intimidávamos a concorrência. Era uma era de ouro. Mais dois anos de underground jobs. O Lodo estava recebendo mais gente do que suportava. Pensando bem, desde a época dos pequenos bicos que eu não pisava lá dentro. Não era mais necessário enfiar os pés no lodo: eu e o bando éramos quem enfiava a cabeça dos camaradas na privada. Mais assassinatos. Mais dinheiro. O meu grupo já contava com vinte membros, nem todos com dons raros, mas valia a lealdade de cada um. Os foram sorteados com dons eram encaminhados para o Grupo Principal do meu bando, Villepreux, homenagem dos garotos ao meu sobrenome. A metrópole crescia de maneira espantosa, erguendo torres de concreto e aço em cada espaço vazio, jogando seus subúrbios para bem longe, algo tomado por fermento a base de dinheiro. Eu me habituava com aquele cenário. As coisas pareciam ficar mais medíocres e o tédio batia na nossa testa. Não havia mais assassinatos, nem ataques, nem roubos... Os patrões conseguiram o monopólio, faziam a cidade crescer verticalmente. O gado das ruas comprava, cego ao consumismo, nem sequer reparando nas investidas noturnas de sujeitos perigosos que nunca eram pegos pela polícia. Não havia mais nenhum homem a ser subornado e nenhuma concorrência a ser desqualificada. Era fácil, e até ensinava para o Ville: carne era carne, carne morta era lucro. Era algo que me consumia pouco a pouco... Os oito anos se passaram. Vivemos mergulhados no tédio. O Ville se dispersou, já que não havia mais jobs a serem feitos. Eu sempre solto o riso nessa hora da história... Deus brinca com o universo usando dados viciados: a história sempre se repete nos seus atos e em seus erros. A idéia dos underground jobs se espalharam pelas outras metrópoles. Coincidentemente, o trabalho sujo feito para favorecer a maior empresa de cada metrópole fez a mesma merda acontecer igual ao que tinha acontecido na nossa área: monopólio de noventa por cento em toda a região. “Bah... Temos a cidade toda absorvida pelos nossos negócios... Que chatice!”, pensavam os empresários ao fumar charutos cubanos, isso enquanto passavam a mão em alguma prostituta cara que fazia uma festinha particular em seus LOCAIS DE TRABALHO. “Bah! Não possuímos mais nada para testarmos as nossas armas?”, pensavam os produtores do underground. “Finalmente eu sairei desse buraco! To livre pra gastar o dinheiro que ganhei, formar uma família e ensinar História ao Júnior no jardim da minha casa no campo, rodeada por uma cerca branca.”, pensavam os membros mais humanos do underground. “Eu quero aperfeiçoar minhas técnicas e me vingar...”, diziam os sujeitos menos humanos do underground. Pois bem, não havia chatice, havia mais testas para se atirar balaços .48, existia um modo como aperfeiçoar suas técnicas e melhorar o seu dom. Entretanto, é estupidamente lógico que não havia uma casa de campo rodeada por uma cerca branca. Aconteceram as “expansões de mercado” – uma desculpa esfarrapada para não restringir o monopólio dos megacomplexos apenas na sua metrópolezinha de merda. E então a concorrência voltou. Oito anos depois... Quem diria que voltaria ao noir antigo... Eram mais grupos de underground job, mais dementes nas ruas e, algo mágico, mais homens e mulheres com dons surpreendentes. É aí que eu entro. 1.3“Novato de merda...”| Uma bala na Pistola Esquerda | A Villepreux estava com doze membros. Os garotos fiéis, as damas da noite e mais de uma tonelada de aço e silício. Equipamento. Continuávamos para a Volatium, que competia feito uma louca – aliás, NÓS competíamos por eles – contra as novas empresas, conglomerados e megacomplexos industriais que chegavam na cidade a cada semana. Eram outdoors de publicidade, mensagens nos telões luminosos do centro da cidade, websites, propagandas, eventos... Tudo para instalar os novos nomes e as novas marcas na mente sofrida do gado das ruas. O job daquela noite era limpar um comboio de caminhões da Instanto que cruzaria o Sexto Distrito pela madrugada. Com certeza estariam levando carga perigosa, para tal manobra. Era nosso dever simples: neutralizar o perímetro, jogar os corpos em algum lugar qualquer, pegar os caminhões e levá-los para uma garagem segura. Seria tudo muito rápido. Escolhemos o cruzamento de duas ruas pouco movimentadas para o serviço. Tínhamos experiência na coisa. Não havia nada a se fazer. Esse foi o nosso erro. Eu errei. Eu confesso que errei. Como líder, eu deveria ter pensado em todas as probabilidades – todas mesmo. Afinal, quem irá fazer uma entrega pela madrugada, quando se sabe desses mercenários loucos e dementes soltos pelas ruas? E foi assim, vendo minha operação afundar como alguém com os pés em um bloco de cimento, que tudo começou. O McCoy levou um tiro na cabeça. Foi o primeiro a cair. Na outra esquina, três caíram com uma rajada de tiros. Submachines, eu pensei. Tentei contatar o meu suporte de atiradores nos telhados. Saudação. Grito. Estática. Alguém fazia o calculo das perdas em um quadro negro na minha mente. Sete já tinham ido conhecer Deus em suas estepes cinzentas feito o céu nublado. Saquei minhas duas pistolas, minhas duas lindas que sempre me deram apoio quando precisei. Um vulto passou por cima de um dos caminhões. Merda! Os caminhões já estão passando aqui! Disparo. Não sei quantos foram, mas não acertaram o desgraçado. Gritos de mulher na outra esquina. Marie e suas mãos flamejantes foram embora para sempre deste mundo. Meu rádio disparava de pedidos. Gritos. Estática. Senti que não havia mais a cobertura do Stalker e da Ellony. Estava perdendo o controle. Disparava contra os vultos. Foi então que o meu novo membro, Damien, pediu ajuda no rádio. — Ângelo! Preciso de cobertura aqui! A uma quadra. Viro o corpo para correr na direção contrária. Alguém me acerta bem no abdome. Merda. Merda! Uma coisa que se aprende nessas horas é que nunca se sente dor com o sangue quente. Você só sabe que o projétil atravessou depois de sentir sua roupa molhando vermelho. Mas correr com um buraco no abdome dói. Porcaria! Cadê o Damien!? Minhas mãos tremem. Aquela maldita tremedeira que me impossibilita de atirar em qualquer coisa viva na minha frente. Merda! Adentrei em um beco. Provavelmente eu vou morrer aqui mesmo, ao lado destes sacos de lixo e servir de alimento para os ratinhos imundos que moram neste beco escuro. Eu não sou tão orgulhoso a ponto de ficar me entupindo de pensamentos bonitinhos de auto-estima, como “Eu não irei perecer aqui!” ou “Não vou servir como comida de rato!”. Dane-se. Isso é coisa praqueles que não encaram o mundo como ele é. Eu estou começando a sentir que meu túmulo será aqui – ao menos o provisório até os caras do IML atracarem com o caminhão-defunto e me enrolarem em um belo e tenro saco plástico negro.
É, amigos... Parece que a minha história acaba por aqui. Só uma bala na arma esquerda. É melhor começar a refletir... Nunca vi algo tão surpreendente. Aquilo não era um comboio. Veio-me à cabeça a razão de tudo aquilo. Concorrência. Queriam tirar meu time de jogada. Meus jobs. Sentei no chão, ao lado dos sacos de lixo. Veio a luz na minha cabeça. A luz de um poste refletida no cano frio de uma desert eagle. Novato de merda... — Parece que tudo acaba aqui, Ângelo... — Damien, seu fodido! Eu sempre desconfiei de novatos... — Seus jobs pela Volatium acabaram, amigo. – ele segurava uma automática. Podia disparar aquela coisa a qualquer instante. – Alguma pergunta? O meu sangue saía rapidamente do buraco no abdome. — Você era de outro grupo? — Correto. Trabalho para a Instanto. — Então o comboio foi uma armação. — Exatamente, Ângelo. Nada pessoal, só negócios... Eu sorri. Mostrei meus dentes ao novato. Era uma forma de agradecer. — Não dispare esta merda na minha cabeça, novato. Deixe que eu mesmo faça isso. — Ainda resta uma bala, não? — Como sabe? — Você tentou disparar em mim naquela hora. Ele se afastou. Eu segurei minha pistola com as duas mãos e a abri a boca. Seria rápido. Não me importei com a traição de Damien, era apenas o trabalho dele. Sempre vem algo bom nessas coisas. Nesse caso, eu estaria livre de jobs e de parasitismo. Por uma última vez, olhei o céu de néon embaçado da metrópole. Liberdade... Sempre custa algo.---Fim do Job1
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