Underground

2 Capítulo 2 - Acordados


Notas iniciais
aaaaAAAA??

Era madrugada. O ar era frio e rarefeito, como sempre. Apesar do som estrondoso da Máquina de Oxigênio, todos os draconianos ainda dormiam, com exceção de uma garota.

A garota de longos e crespos cabelos brancos ligara uma pequena luz em sua escrivaninha e escrevia como se não houvesse amanhã. Ao seu lado, diversos compartimentos de vidro de aproximadamente dois centímetros continham amostras de folhas e caules de plantas em péssimo estado.

Dando um longo suspiro, ela juntou todas as folhas escritas e, com um toque da estranha ferramenta na sua mão, colou-as pela ponta superior esquerda. Poderia dormir agora, mas não tinha sono algum graças à grande quantidade de café com leite que havia tomado para se manter acordada. Então, teve uma ideia.

Viu que seus pais e seu irmão ainda dormiam e decidiu escrever uma carta a fim de avisá-los onde iria. Imaginou que não se importariam de ela estar indo até lá tão cedo.

Depois de guardar seu trabalho em um local seguro, arrumou sua mochila, colocando-a nas costas e pegou sua espada.

Ao sair de casa, a garota percebeu o quão solitário era sair de madrugada na vila. Não havia algum sinal de movimentação em lugar algum, até mesmo o ar era totalmente parado. Isso até a fazia ficar um pouco desconfortável sobre continuar – no fundo, ela queria apenas virar, entrar para dentro e tentar dormir, porém ela se aguentou e voltou a andar, ainda com certo receio.

A falta de vento fazia com que o ar ficasse extremamente frio, ainda mais quando estava de noite. Ela se sentia satisfeita por ter trago uma blusa de frio extra, caso precisasse.

A iluminação no caminho não era muito boa, mas já era o suficiente para que a draconiana já visse a placa identificando que havia chegado ao seu destino – o Local de Treinamento. Ela não tinha o costume de ir lá apenas para treinar, como era o caso de agora. O Local de Treinamento era, estranhamente, um dos melhores lugares para ficar olhando o tempo, sem fazer nada, especialmente na parte externa, que era agraciada com uma ótima vista dos campos onde a raça criava e tentava fazer com que seus animais clonados sobrevivessem. Por isso ela havia trago um livro para caso não fosse possível treinar. Se aproximando da entrada, ela já conseguia ouvir barulhos agudos de lâminas que a mostravam que ela não era a única doida que decidira treinar em plena madrugada.

Lá dentro, havia um pouco mais de iluminação do que até as ruas, porém não chegava a ser o suficiente para clarear totalmente o lugar. Ao entrar pelo portal¹, ela não reconheceu de primeira quem destruía um dos bonecos de treinamento graças à falta de iluminação, mas depois de reconhecer a arma que ele utilizava, já sabia sem sombra de dúvidas quem era. Ele retalhava o pobre boneco com uma arma que ele gostava de chamar de “Tekko-kagi²”. Eram basicamente lâminas em forma de longas garras acopladas a um metal que se prendia às suas mãos. Dylan é o único besta que gostaria de fazer cosplay de Wolverine e que tinha chance de estar acordado a tal hora da madrugada.

O garoto parou assim que percebeu a movimentação na entrada. Ele parecia um pouco cansado a esse ponto de treino, porque não demorou para largar as Tekko-kagis no chão e ir até a direção da garota.

— Alya?! O que te traz aqui a essa hora? – Ele perguntou, suas olheiras estavam escuras a ponto de parecer que haviam pintado seu rosto com carvão. – Achei que você tinha um trabalho para terminar, não?

— Eu já terminei. Achei que seria bom treinar um pouco... – Alya comentou, encravando a espada no chão. – Você precisa é de dormir. Isso não é nem um pouco saudável.

— Não me interessa se é saudável ou não. Você sabe que eu preciso fazer isso. Se eu não for bom em pelo menos luta física, como raios poderei ser útil para qualquer outra coisa? – O garoto de curtos cabelos ruivos sentou-se na areia do campo, descansando a cabeça nos joelhos.

Dylan conseguia ficar rude e angustiado a ponto de ficar um pé no saco quando estava cansado. Normalmente, ele não agiria assim. Porém, não é como se ele estivesse fazendo apenas drama, ele realmente teria motivos para se sentir como um inútil: nascera com apenas uma asa e um chifre. Um draconiano macho com chifres pequenos é considerado como fraco e Dylan não tinha nem a velocidade de voo para ser bem visto. Fora apenas tachado como um defeito genético e pronto. Alya já estava acostumada com isso e sabia muito bem como animá-lo.

— Eu estava pensando em treinar meu poder um pouco também, além da espada. – A garota falou, coçando um pouco sua nuca, tentando falar de forma que não parecesse que ela queria apenas fazer isso para animá-lo.

Aquilo funcionava como café para acordar Dylan da sua angústia. Ele quase que imediatamente se levantou e correu para buscar seu caderno que estava dentro da sua mochila surrada, localizada em um dos cantos do campo.

Sentando-se novamente no chão arenoso, seu olhar não era mais cansado (apesar das olheiras demonstrarem o contrário), ele parecia mais animado com a situação. Segurava a caneta e observava a garota com atenção, suas orelhas draconianas estavam levemente levantadas e seus olhos brilhavam.

Isso deixava Alya um pouco aliviada: o seu lado admirador de poderes não sumia nem quando estava morto de cansaço. Na verdade, havia um motivo para Dylan ser um fanboy³ tão grande de poderes: ele nascera sem nenhum.

Poderes normalmente se manifestam quando um draconiano alcança o auge da pré-adolescência; Alya, por exemplo, teve o seu poder de gelo se manifestando assim que alcançou os 12 anos. Poderes se manifestam pela primeira vez de uma forma bizarra e/ou violenta a maioria dos casos – o da garota a fez congelar, além do livro que lia (Era seu conto preferido), todos os objetos a uma distância de aproximadamente 5 metros. E isso chega até a ser leve, são tantas as notícias de casas que pegaram fogo porque uma criança de 10 anos de repente começou a soltar chamas das mãos e não sabia como controlar.

Olhando para o garoto com um leve sorriso no rosto, ela sentiu um pouco de pena. Sentou-se na sua frente com as pernas cruzadas e, apoiando seus cotovelos nos seus joelhos, criou alguns flocos de neve com a mão. Eles dançaram pelo ar frio até que, vagarosamente, caíram até o chão e derreteram depois de alguns segundos.

— Essa é uma das coisas novas que eu descobri que podia fazer... você sabe que eu ainda não consigo fazer muito com o meu poder. – Ela estava pronta para receber um olhar de “Só isso?” de Dylan, porém assim que levantou o rosto para ver sua reação, ele estava admirado, parecia que havia visto um dragão de verdade ou algo do tipo. Ele observou avidamente os flocos derreterem no chão com um sorriso bobo no rosto.

— IIIICK! Por que você nunca havia me mostrado isso?!! – Ele disse, virando-se para a draconiana novamente depois de alguns segundos em um silêncio um pouco medonho, deitando-se sobre os dois joelhos novamente. – Eu já te falei para me mostrar imediatamente qualquer coisa que descobrir sobre seu poder!

— Relaxa que da próxima eu não esqueço de te contar o mais rápido possível de tudo de novo com o meu poderzinho. Eu não havia lhe contado antes porque, bem... eu estava muito ocupada recentemente, sabe, coisas da escola. Aliás, eu quase consegui reviver uma das amostras que eu falei que tinha pegado pro trabalho! Acho que faltou um pouco de carbono na composição do composto ou algo assim, já que eu observei que não teve produção de energia suficiente para que a planta se recuperasse. Eu espero que meu professor de Botânica não se importe com isso e me dê os pontos de todo jeito. Até porque eu fiz o relatório e achei meu erro, né? O que você acha, Dylan? – Assim que terminou de falar, ela reparou que o garoto havia dormido em cima dos próprios joelhos.

Ela já havia notado que às vezes se empolgava e falava das coisas que gosta em excesso, contudo ela não achou ruim que o garoto dormira durante sua extensa explicação, porque reconhecia que ele precisava de uma soneca urgentemente.

Ela se levantou e observou que o ar ainda nem havia começado a se condensar como neblina, o que acontece quando amanhece na superfície e os raios de sol esquentam a terra. Isso significava que ainda demoraria a amanhecer. Alya deu um suspiro e pegou sua mochila, abriu-a e pegou sua blusa de frio extra, colocando-a em cima do garoto, dando um nó com as mangas perto de seu peito. Agora ele parecia ter uma capa azul escuro, chegava até a ser engraçado.

A garota se aproximou do boneco de treinamento e pegou as Tekko-kagis do chão, junto da mochila surrada do garoto ruivo. Quando ia guardar o caderno dele novamente na mochila, ela abriu-o na última página e escreveu: “Conte comigo para quando precisar novamente”, assinando seu nome no final. Colocando-os próximos do garoto (de uma maneira um pouco exageradamente organizada), ela pegou sua própria mochila e a espada e sentou-se de fora do local, encostada em uma das partes externas da construção com o seu livro de estudos. Parecia que o sono de Dylan era contagioso, porque depois de algumas páginas, ela mesma não conseguiu resistir e apagou ali mesmo, sem nem mesmo perceber.

Notas finais
¹ Portal - Esse portal não se refere a portais de magia, mas sim a portais arquitetônicos. "Em arquitetura, um portal(...) é a entrada principal (ou conjunto de entradas principais) de uma igreja, catedral ou grande edifício. Geralmente, se apresenta de forma ornamentada." - Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Portal_(arquitetura) ² Tekko-Kagi (手甲鉤) - Arma ninja. "A forma da Tekko-kagi era de quatro unhas de ferro como garras de urso presas a um anel de metal. Quando usado, o ninja segura o anel de metal e arranha seu inimigo com as extremidades. (...) Como a extremidade da Tekko-kagi é feita de ferro, sua agudeza pode ser considerada tão forte quanto a de um animal selvagem como um tigre ou urso." Fonte (traduzido): http://www.ninjaencyclopedia.com/weapon/tekko-kagi.html ³ Fanboy - "(de um indivíduo masculino) agir de maneira obsessiva ou superexcitada acima de algo que essa pessoa tem interesse."
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.