Era dia de Teste de Aptidão.

Lynn olha ao lado, encarando Marlene que está introspectiva. Uriah, seu outro amigo já fez seu Teste, e a qualquer momento seu nome seria chamado. Ela estava confiante, mas tinha seus receios.

E seus receios não tinham relação alguma com sua futura escolha. Já sabia desde que nascera que era da Audácia de corpo e alma. Mas tinha medo com as escolhas de seus amigos.

Ela não queria mostrar, mas se Uriah – e principalmente Marlene – escolhessem mudar de Facção, sentiria-se devastada.

Seu nome fora chamado. Um homem aplicou o soro nela. Suas escolhas na Simulação foram as mais impulsivas possíveis.

“Audácia”.

Ela já sabia.

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Era dia da Escolha, e Lynn estava pronto. A aflição de cada passo que ela escondia em sua eterna expressão fria, sua roupa preta da Audácia que por ela nunca trocaria. Era sua hora, nada poderia dar errado.

Marlene parecia uma pilha de nervos, e Lynn quis confortá-la. Deveria tê-lo feito, pensou depois, mas um estranho frio na barriga passou por si naquele momento e desistiu. Era um sentimento novo, e ela fazia o que sempre fizera em relação aos sentimentos: ignorava.

Uriah estava sentado ao lado de Marlene, e por mais que segurassem as mãos um do outro discretamente, Lynn notou. Eram amigos tentando se confortar, convenceu-se. E sentiu seu império congelado de sentimentos quase desmoronar naquele momento.

Uriah foi o primeiro. Ele subiu até o palco onde ficavam os cinco recipientes que representavam as facções, pegou o punhal na mesa e cortou sua mão, deixando o sangue acumular. Não hesitou em escolher sua Facção Audácia.

Era vez de Marlene. Lynn ficou aflita. Não que Marlene fosse medrosa, ela era bem corajosa, aliás, mas Lynn sabia que ela tinha outras qualidades que também se destacavam. Ela é inteligente, pensou, E bondosa.

E Lynn era franca.

Marlene cortou sua mão com hesitação, e vacilou na frente dos recipientes, mas durou poucos milésimos. Sua escolha era firme.

Era Audácia.

E a partir daí, foi fácil para Lynn. Teria seus amigos junto contigo, agora era só escolher sua única opção, sua casa, sua Audácia para viver até o fim de sua vida.

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Lynn era a filha do meio, e sentia o peso disso. O irmão mais velho ganha a atenção por ser o primeiro e o mais novo por ser, bem, o mais novo. Já o do meio? Lynn não tinha privilégios na casa.

Mas agora era sua vez. A vida era sua. Junto com todos os iniciados, Lynn se preparava para a primeira etapa da iniciação: física. Junto com o instrutor ela lutava, se esforçava, treinava até seus ossos queimarem. E ela já notava que seus amigos estavam distantes dela, cada dia mais juntos, nunca a incluindo nas brincadeiras. Isso era um incentivo para treinar mais, um modo de descontar a raiva.

Ela batia com força em um saco de pancadas. Sua roupa estava grudada no corpo com o suor.

191, 192, 193...

- Ei, gata. – disse um cara atrás dela, vendo-a treinar.

Mas um soco, ignora.

194, 195, 196...

- Nunca vi uma garota tão forte assim, uau. – o caro disse de modo obsceno, os braços cruzados, observando Lynn dar os golpes.

Respira, Lynn, ignora.

197, 198, 199...

- Belos peitos, hein.

200. já chega.

Lynn passou a mãos enluvada na testa, secando o suor. Aproximou-se do cara encarando-o, e quando chegou perto demais, cuspiu no sorriso afetado dele.

- Cala a boca, imbecil.

E jogou as luvas no chão antes de sair da sala.

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Estava cansada das pessoas que subestimavam ela, principalmente aquelas que a subestimavam pelo fato de ser garota. Não conseguia suportar, odiava que as pessoas considerassem qualquer coisa que ela fizesse superior por ser “garota”. Queria ser vista no mesmo nível de qualquer garoto, qualquer rapaz da Audácia. E isso iria mudar.

Lynn levantou-se e foi até o banheiro. Todos dormiam, era madrugada. Arrancou sua roupa ficando só de calcinha e sutiã, e encarou seu reflexo no grande espelho. Era considerada bonita, e era claro que se ela fosse mais delicada e vaidosa, seria linda. Olhando seu reflexo, pôde ver notar que tinha curvas que invejariam qualquer uma. Seus olhos amendoados, sua boca em formato de coração, seu nariz arrebitado, de um tamanho perfeitamente proporcional ao seu rosto simétrico. Tinha seios de tamanhos ideais, barriga lisa, coxas torneadas. O que mais precisaria? Por que não se sentia bem com seu corpo?

Odiava ser observada pelos garotos com desejo, se sentia um objeto. Queria ser admirada pela personalidade, pelos atos, e parecia que só alcançaria isso de um jeito.

Se desfazendo do que tinha.

Havia uma tesoura e uma máquina de barbear na pia. Sua mão vacilou ao pegar na peça fria e prateada que era a tesoura, e a levou até as madeixas longas. Foi cortando um pouco, mas foi perdendo a dó, cada mexa mais longa que a outra, e estava com quase nenhum fio na cabeça.

Poderia estar louca, desconcertada, mas era pulso firme. Notando as falhas no corte que fizera na madrugada, pensou na saída perfeita.

E então raspou. Raspou tudo, não deixando nenhum vestígio do que fora seu eu antes daquele dia.

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Ao acordar, estranhou como sua cabeça estava mais leve sem a cabeleira. Ao andar nos corredores do Complexo da Audácia, poucos a reconheciam. Ao entrar no treinamento, alguns olharam surpresos para ela. Eram da Audácia, não devia ser nada demais ter esse estilo. Mas o que surpreendia era Lynn, pois ela não passava mais a imagem de apenas uma garota forte.

Ela passava imagem de poder. Puro poder e independência.

Na hora da refeição, Uriah disse a ela:

- Por que não nos contou dessa mudança antes?

- Que mudança? – ela questionou de volta.

- De atitude, de visual, tudo.

- Não mudei nada, apenas libertei.

Uriah ficou calado.

- Eu prefiro assim. – então Marlene disse por final, enquanto mastigava seu bolo de chocolate. – É mais você.

E essas palavras ficaram cravadas na memória de Lynn.

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Lynn não demora para sentir a mudança de comportamento das pessoas em relação a ela. A tratavam sem subestima-la, sem acha-la tola ou boba em nenhum momento. Pegavam pesado com ela, mas ela aguentava firme. Sua ânsia era ser a melhor dos iniciados, mostrar ser tão capaz quanto qualquer garoto.

E ela treinava para isso, mais e mais, dias e mais dias.

Sem deixar desmoronar.

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Chega a segunda etapa, Mental. Serão confrontados com seus mais profundos medos, irão encarar a escuridão da verdade. E Lynn preferiria lutar com cinco homens ao mesmo tempo com apenas uma faca do que enfrentar seus medos.

Porque ela sabia o que estaria para vir, e não queria ser descoberta, que descobrissem que por trás de sua fortaleza reforçada existiam falhas no sistema, sentimentos profundos que ela não ousava explorar, mas uma bobeada, e seria descoberta.

Está na simulação, e quer chorar com os cadáveres de quem ama. Sua irmã, seu irmãozinho, Uriah, Marlene. É desesperador, ela quer fazê-los voltar. Depois se vê sendo ridicularizada em público, então se vê presa em uma identidade que não condiz consigo. A cada cena na simulação, um terror. Quer que isso acabe, está perdendo a cabeça.

Calma, respira.

Quando acaba, seu coração está batendo loucamente. E descobrira que seu maior medo era sentir medo.

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Uriah e Marlene estavam se beijando no jantar. Lynn estava sentindo um sentimento novo. Seu coração se afundava lentamente, não conseguia se mover. Era raiva, frustração, tristeza, mágoa, tudo ao mesmo tempo. Ela não queria aceitar, mas era inveja. Inveja e ciúmes do amor.

E não entendia porque isso vinha inteiramente de Marlene.

O beijo parecia durar a eternidade, e Marlene se levantou da mesa estupidamente.

Uriah murmurou:

- Onde vai, Lynn?

- Procurar amigos menos nojentos.

Uriah deu um sorrisinho e voltar a beijar Marlene.

- É bom, Lynn, deveria experimentar às vezes.

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Eles se beijavam com violência. Lynn sabia pouco daquele cara – o que se lembrava é que ele tinha 17 anos, e era transferido. Ele era forte e loiro, mostrava confiança e pulso firme enquanto segurava a nuca da garota ao beijá-la. Estava agindo por impulso, mas não ligava. Queria só se distrair. Não sentia química, vontade ao fazer aquilo, mas beijar era indiscutivelmente uma atividade legal. O cara não a tratava com delicadeza, e ela retribuía do mesmo jeito. Quando ele foi embora, e ela pôde se deitar novamente no dormitório, e quando fechou os olhos viu-se fazendo o mesmo com Marlene. Repudiou o pensamento no mesmo momento, horrorizada. Era errado pensar isso da amiga? Ela tinha quase certeza de que sim.

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A terceira etapa é Mental. A primeira e a segunda etapa colidem, e Lynn sente a adrenalina em si a cada momento em que procede sua simulação. É sua hora de mostrar seu valor, provar sua força.

Durante cada passagem do medo, as coisas se relacionam com seus sentimentos, sua família, e seus amigos. Ela vê seu fracasso, se vê caindo antes de começar. Os medos a atingem forte, e isso apenas faz com que sua fortaleza fique mais e mais dura, inquebrável.

Ela termina, sai da simulação.

Ela jura a si mesma que nunca mais entrará em sua passagem do medo.

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O orgulho de ter passado no teste da Audácia faz com que Lynn sinta-se melhor, mas a raiva de não ter ficado em primeiro é preocupante. Não se pode fazer agora. Ela recebe o soro experimental da Audácia como todos após a cerimônia.

Na noite ela apaga.

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Ela está na rua, uma arma em sua mão, gente morta ao seu redor. Esteve em uma simulação? Onde está sua família? Uriah? Marlene?

Ela entra em desespero, e se pergunta se não é uma passagem do medo.

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O sistema quebrou, muitos soldados da Audácia morreram, a Abnegação não existe mais. Encontrar sua família, Uriah e Marlene foi a chama que a manteve em pé depois de se sentir sozinha. Ela sempre se sentira indestrutível, suficiente por si só.

Mas não era nada sem essas pessoas que amava, e só naquele momento notou.

E jurou que nunca deixaria ninguém saber disso também.

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O namoro entre Uriah e Marlene estava sério. Lynn sobrava, e até se aproximara da chata da enxerida da Tris Prior. Era o que sobrara, já que virara resto dos amigos. Ir atrás de encrenca era o que preenchia seu tempo sem os amigos. Não queria morrer, mas isso quase sempre acontecia.

Então Marlene morreu.

Foi tão de repente, tão inesperado. Nunca passara em sua mente que Marlene iria morrer.

E ela chorou desesperadamente, se arrependendo de não ter se permitido contar a ela sobre o que sentia.

Isso iria se manter segredo para sempre também? Era o que parecia ser.

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O fantasma de Marlene a perseguia. Ela via Marlene em Uriah, na garota Tris Prior que a vira morrer, via em si mesma. Sonhava com a garota, e cada dia que passava, sua memória mais falhava com memórias de Marlene. Seu cheiro, sua estatura, sua risada. Tudo estava indo embora.

E ela ia junto também, lentamente parava de lutar.

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Um tiro no coração, e tudo acaba. Um tiro no coração, e estará em um lugar melhor. Lynn não parou de lutar repentinamente, mas gradativamente. O que sobraria de si depois que aquilo acabasse? Sua melhor parte tinha morrido junto com Marlene, o que sobrara era apenas sua parte física e mortífera. Estava confusa, o mundo não girava em seu favor. Era forte em todos os momentos, mostrou-se corajosa diante das dificuldades que passaram por si, enfrentou todos que a subestimaram.

E sentia-se satisfeita com aquilo. Já provara ser uma verdadeira membro da Audácia.

E como se seu desejo fosse ouvido, tomou um tiro.

Uriah a segurava, estava desesperado. Ela via nele o que Marlene tanto amava. Ela ia embora, ia indo gradativamente. Tris também estava lá, mas não ligava.

—Então cure-a!—Ele fez uma carranca.—Ela está ferida. – ouvia-se Uriah pedir para uma médica.

Lynn não conseguia tirar a mão do ferimento. A dor pulsava.

Uriah tira a mão de Lynn do ferimento, tentando ao máximo ajudar, preocupado.

—Cure-a!—dizia Uriah.—Você pode curá-la, então faça!

Como se desse tempo.

—Uri—disse então Lynn.—Cale-se. É muito tarde.

Uriah balançava a cabeça negativamente, desesperado por ajuda.

Ela não conseguiria manter seu segredo para sempre só para si. Sabia que estava indo, e usou os seus últimos momentos para contar.

—Não seja estúpido. Uri, ouça. Eu a amava também. Eu amava.

—Você amava quem?—ele perguntou, sua voz quebrando.

—Marlene—Lynn respondeu.

—Sim, todos nós amávamos Marlene.

—Não, não é isso que eu quero dizer— ela balançou a cabeça, e sua mão afrouxou na mão de Uriah, um último suspiro de adeus.

Notas finais
E então, curtiram? Madrugada, sem nada pra fazer, bora escrever um shot e fiquei bem satisfeita com o resultado. Comentem sem medo, galera o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!