Underdogs' March
1 Capítulo 1 -
São Paulo, capital. Era verão, mas as chuvas, que já se arrastavam há uma semana, faziam com que já estivesse escuro e de fresco pra frio ainda cedo da noite. Cento e noventa centímetros de humano seguiam a rua tranquila, com seus passos largos, uma bolsa carteiro surrada e uma gaiola pesando desconfortavelmente na mão.
Chegou em um prédio pequeno, de três andares, um para cada apartamento. Não precisou tocar o interfone, pois tinha as chaves. Subiu as escadas do corredor externo e, com um pouco de manobra e jeitinho, conseguiu abrir a porta do apartamento com cara de caixa de sapato. A noite escura e sinistra ficou para fora. Dentro: luz, música, calor humano e cheiro de comida boa. Era sexta-feira, dia de encher a pança de sopa e lamber os dedos ao final do pudim de pão. De jogar conversa fora, contar anedotas e relembrar de coisas boas, até quase se esquecer das leis cada vez mais duras, do bolso cada vez mais apertado, dos amigos presos, dos desaparecidos, da angústia do futuro incerto. Dia de jantar em família, enquanto ainda não era proibido.
Dona Camila era sua mãe. Uma senhora rechonchuda, alta, de cabelos curtos loiros, a essa altura tingidos, e com marcas de expressão harmoniosas, conferindo-lhe um semblante ainda jovem pros seus quase 60 anos. Cortava um pão caseiro fresquinho na mesa da sala de jantar/estar, tentando acompanhar a música antiga que enchia o ambiente. Nessa noite, a música não servia para abafar conversas proibidas, apenas para animar os espíritos, com seu rítmo nostálgico de tempos mais simples.
As histórias de Seu Victor, seu pai, às vezes venciam a música, quando o senhor pançudo de olhos azuis e cabelos branquinhos se empolgava. Ele e seu Ito, japonês miúdo, amigo da família, conversavam sobre tempos passados, sentados à mesa. Seu Ito era mais de ouvir, mas sempre parecia interessado.
No sofá, duas mulheres jovem jogavam um jogo meio antigo, de um console quase extinto. A mais velha era sua cunhada, Mariana. Ela tinha a pele morena clara, cabelos longos, ondulados, e uma determinação em chegar primeiro descomunal. Ana, sua namorada, bem que tentava não sair muito da pista, mas não era lá muito boa. Ela tinha um cabelo preto, liso, com uma franja na cara que fazia Daniel se perguntar se aquele cabelo todo não atrapalhava.
Na cozinha estava o último dos adultos, seu irmão. Um pouco mais velho, mais alto e forte, mais loiro e charmoso, Marcel era chef. De um restaurante caro. Mas na sexta era obrigado a fazer macarrão parafuso para um certo alguém que não gostava de sopa. Esse alguém era Gaspar, o mais novo. Era um bochechudo de olhos redondos que torrava sua energia de menino de 5 anos assistindo ao jogo pulando, torcendo e falando sem parar. Bem diferente de Hilda, sua irmã de 10 anos, de quem mal se ouvia um pio. Ela olhava pela janela da rua e brincava com um smartphone antigo. Era muita coisa antiga para uma casa (antiga) tão pequena, mas não é difícil de entender, levando em conta o contexto do país na época. A tecnologia nova “oficial”, além de cara, era cada vez mais controlada pelo governo.
— Olha quem chegou! – disse Dona Camila, assim que Daniel meteu o pé para dentro. Cumprimetou com seu sorriso simpático e continuou cortando o pão.
─ Dani! Quem você trouxe aqui? ─ disse seu pai, com um meio-abraço, ao mesmo tempo que tirava a gaiola de sua mão.
─ Tio Dani! ─ disse Gaspar, correndo em sua direção e abraçando sua perna.
─ É o Wally… Ei, rapaz, tudo bem? – respondeu Daniel, afagando as ondinhas do cabelo castanho.
─ Não coloca na mesa! Leva lá pra área – disse Dona Camila. ─ E o estágio, filho?
— Vai bem.
─ Não ia colocar na mesa… – resmungou Victor, saindo com a gaiola pela porta da cozinha. ─ Wally~ – chamou, recebendo um assobio abafado como resposta.
─ Deixa eu ver também, vô ─ disse o pequeno, indo atrás.
Daniel aproximou-se do sofá.
─ Oi Dan! Só um minuto… – disse Ana, mas em menos de um minuto já tinha perdido a corrida para Mariana, que comemorou com um “yes!” e deu um “Oi, Daniel!” ligeiro.
— Vou de Yoshi agora.
O rapaz aproveitou para dar um selinho na Ana, antes que começassem outra partida.
─ Hilda? – ele chamou, tirando uma sobrinha confusa de seu mundinho.
─ Oi? Oi, tio Dani.
─ Tio Dani! – Gaspar voltou correndo da cozinha. – Eu vi o Wally!
─ Eu soube que você passou na prova do CMSP*. Parabéns! Olha o que eu trouxe… – Daniel tirou da bolsa um estojo de metal com um compasso de precisão e acessórios. – Pras suas aulas de geometria…
— Olha… legal – Hilda pegou o conjunto com interesse. – Brigada, tio.
─ Tio! Ô tio – Gaspar puxava a calça do tio, tentando chamar atenção. – E eu passei… pro jardim…
— Pro primeiro ano – Mariana ajudou, sem tirar o olho da tv.
─ Ah, foi, cara? Que legal! ─ respondeu Daniel, tirando um saco de confeitos coloridos de chocolate da bolsa. ─ Toma, divide com a sua irmã. Vocês dois merecem.
O menino segurou o saco com as duas mãos e os olhos vidrados. Deu uma sacudida para ouvir o barulho, puxou os lados da embalagem numa tentativa fútil de abrir. Virou-se procurando ajuda: grande erro. Mariana esticou o braço, pegando o saco com um movimento rápido, perdendo uns segundos no jogo, mas sem perder o controle.
─ Ma… – Gaspar pareceu confuso.
─ Agora não, já já você vai jantar.
─ Mas mãe… o jantar não fica pronto nunca!
Nesse meio tempo, chegou seu pai.
─ Tá pronto, pessoal.
***
A mesa era pequena para os nove, mas apertanto cabia todo mundo. A coversa estava animada, como de costume, mas alguém não estava muito no clima. Ana até acompanhava as histórias, ria e dava sinais de vida entre uma batata e um pedaço de pão, mas sua mente voltava toda hora para um coisa que aconteceu de manhã, quando ela e a sogra passaram na casa do Daniel pra pegar umas coisas antes de ir para a feira.
***
Dona Camila tinha um poder bem útil e meio assustador. Ela tinha visões de coisas que aconteceram no lugar em que ela se encontra, mas no passado. As visões eram claras como se ela tivesse as presenciando de verdade, e tudo indicava que eram bem precisas também, pelo que vários testes que fez com a ajuda da família mostraram. Ela não tinha total controle sobre o poder, mas às vezes conseguia induzir as visões, se se concentrasse bem em alguma pessoa ou alguma data. Às vezes não funcionava e às vezes vinha sem querer.
Pois naquela manhã, Ana deixou Dona Camila sozinha na sala por uns minutos. Na volta, a encontrou de expressão séria, os olhos castanhos ligeiramente arregalados. A sogra confessou que de maneira nenhuma queria bisbilhotar na vida do casal, mas sem querer tinha tido uma visão. Nela, Ana falava ao telefone, preocupada, pois Cecília, sua irmã havia desaparecido.
— … e eu tenho que perguntar se ela já foi encontrada e se está tudo bem, Ana, porque você parecia tão aflita!
Ana a olhou confusa.
— Mas… A Cecília? Até onde eu sei…
— Oh… Será que… Será que eu me enganei?
As duas trocaram uns olhares estranhos por mais uns segundos.
— Eu devo ter sonhado! Bem que achei estranho você não ter me contado nada… – disse Dona Camila, voltando à simpatia de sempre. – Que doida eu! Ando com o sono tão bagunçado! Está pronta? Vamos, senão só vão sobrar restos!
***
Discretamente, Ana deu mais uma espiada no celular. Nenhuma resposta. Último post de Cecília tinha sido na terça-feira. Estranho, ela costumava escrever em seu blog quase diariamente, mas Cecília era meio imprevisível, podia acontecer. Mas deixar de responder mensagens suas? Ela não queria se preocupar, mas era difícil. Tentava imaginar o que poderia ter acontecido, ou para quem ela poderia ligar… Amanhã passaria na casa dela. Certamente…
— Polícia – disse Seu Ito, e imediatamente a conversa parou. – Na esquina com a avenida.
Seu Ito era bom de ouvido, excepcionalmente bom. Sobrenaturalmente excepcional. Tinha esse poder de escutar longe, de identificar quem ou o quê. Não que ele ouvisse tudo o tempo todo, mas ele tinha uma espécie de filtro que selecionava no que ele prestaria atenção. E uma das coisas que sempre chamavam atenção era quando a polícia aparecia e as pessoas se calavam ou cochichavam. Polícia. Batata. Ele sempre sabia.
— Vou lá – disse Daniel, levantando-se imediatamente. Não precisava nem explicar.
O mais novo dos Bischof dividia um apartamento com um colega na rua de cima. Daniel era um rapaz bom, honesto, estudioso… até que resolveu montar uma central de internet de campo no quarto. Era uma tecnologia nova que permitia que as pessoas se conectassem na internet sem precisar de cabos, antenas ou provedor. Bastava um pequeno decobox caseiro. Internet livre, que não pode ser rastreada, controlada, espionada? Completamente ilegal.
O rapaz saiu voando, não literalmente, mas correu o mais veloz e discreto que conseguiu. Era só desligar tudo antes que a patrulha chegassem perto que não seria pego. Já tinha feito isso antes, dava tempo, era só correr. Por sorte era alto e conseguia pular o muro pro vizinho de trás, uma oficina, que estaria fechada no momento, mas que também ninguém se importaria, se estivesse aberta – eles também usavam a internet de campo.
— Oopa – disse, seu Ito. – Voz do… do menino… Qual o nome?
— Que menino? – seu Victor perguntou por todos. Seu Ito levantou a mão para que esperassem.
— Do apartamento. Ele tá com a polícia.
Ana imediatamente largou a colher, fazendo ela tilintar no pires e respingar sopa na toalha da mesa. Douglas maldito! Dedo-duro desgracento!
— Eu vou lá – disse ela. Porém, Ana não quis dizer ir literalmente lá. Porque também a Ana possuía uma habilidade especial: ela podia, de alguma forma, mudar de perspectiva para fora do corpo.
Ela apoiou o cotovelo na mesa, para segurar a cabeça e ficar em uma posição razoavelmente estável, e desprendeu-se do corpo. Ela ainda mantinha controle e uma certa percepção do que acontecia, mas como iria para bem longe, queria se poupar ao máximo.
A sopa à sua frente agora era uma imagem desfocada no canto, e as vozes eram baixas e arrastadas. Por outro lado, via todos de cima, de maneira nítida e panorâmica. Só que tudo parecia em câmera lenta. Ela não tinha ainda um controle muito bom, mas foi seguindo, com a precisão de uma mosca, atrás do namorado. Atravessou a parede para fora, sobrevoou a oficina e logo avistou Daniel, que bateu o portão e entrou no prédio. Viu ele entrar no quarto, puxar o plug da tomada e respirar aliviado. Pulou para fora e viu a viatura chegando com um magricela infeliz de carona. Voltou-se para o Daniel, que também tinha visto o amigo apontar o ap. e entregar as chaves. Queria poder fazer alguma coisa, mas só pôde observar o rapaz rodar o apartamento, todo desnorteado, socar o equipamento no armário, considerar pular a janela do pátio, e finalmente, ser encurralado por um policial na área de serviço, pouco antes de arriscar-se sair pela cozinha. Mãos para cima, cara de súplica. Já era. O policial deu meia volta e… um cutucão!
Ana sentiu o cutucão que seu corpo levou, há mais de 100 metros de distância. Foi como tomar um puxão para fora do prédio do namorado. Tentou voltar a atenção, precária e distorcida, ao que acontecia no apartamento dos Bischof, ao mesmo tempo que tentava reencontrar Daniel e ver o que acontecia.
— Aaaunnnaaaaaa ?
A polícia também foi atrás de Daniel nos Bischof. Desde que Daniel saíra, sua bolsa, seu prato, seu lugar, tudo havia desaparecido por obra de Dona Camila. As crianças já sabiam mentir direitinho.
— Viu seu tio hoje?
— Tio Dani? Eu não – respondia Gaspar, olhando direto nos olhos do sargento, enquanto mastigava a carninha na maior calma.
Quando viu a situação, Ana tentou dizer um “não ‘tô passando bem” e saiu tão estranho que acreditaram mesmo. Ajudaram-na a deitar-se no sofá. Ela começou a realmente sentir-se fraca e tonta. O mundo de fora rodava, seu corpo sentia frio. Então ficou tudo escuro.
Notas finais
Se puder ajudar comentando, sem compromisso de continuar lendo, eu agradeço.
Ficou muito grande? Muita encheção de linguiça? Confuso em alguma parte? Deu pra suspender a descrença, ou sei lá como chama? Acham que um prólogo pra situar melhor o contexto cairia bem? Tá muito ruim? Leria mais? D:
Não precisa responder tudo isso, haha, comente o que quiser, se quiser. Até a próxima, quem sabe. o/~
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