Under the water
13 Evelyn's back
Notas iniciais
POV Tobias
O caos do escritório deixou de presente uma incrível dor de cabeça. As imagens dos papeis assinados passam voando por minha cabeça, e também a cena em que tive que despedir uma das empregadas. Eu juro, por tudo nesse mundo, que se fosse possível, eu nunca demitiria alguém. Mas é impossível. Saio do carro, deixando a porta do mesmo bater atrás de mim. Quando entro e caminho pelo saguão, mal me importo com o cumprimento do porteiro e até mesmo do síndico que por ali passava. Tudo agora me irrita. Aproveito o momento para deixar o elevador de lado e subir as tão queridas escadas. O exercício me faz bem, sinto-me mais vivo a cada degrau. Mais leve a cada subida.
Quando finalmente coloco os pés em meu andar, caminho lenta e despreocupadamente pelos corredores brancos com pisos de mármore.
Gritos e xingamentos são ouvidos à distância, e quando penso em algum vizinho se matando, me dou conta de que vem do meu apartamento.
Que porra está acontecendo?
Abro a porta em um só movimento, o suficiente para me assustar. Evelyn havia chegado de viagem esta tarde, e eu me esqueci completamente de sua implicância com Tris.
Ela deveria implicar comigo por ter a traído.
– Evelyn. Evelyn! – Fecho a porta branca de madeira rapidamente e jogo a maleta no sofá mais próximo. A morena quase cai por cima de Tris, que está completamente sem reação. Seguro os dois braços de minha mãe em suas costas. Seu cabelo se rebate contra meu rosto. Quando Evelyn sabe que tem chance, e quer, ela não mede esforços para discutir com alguém, ainda mais com Beatrice.
– O que essa desgraçada faz aqui? Ela não merece nem um bom-dia seu, Tobias! – Minha mãe faz força nos braços, e tenta se soltar de mim a qualquer custo. Seguro-a forte, tomando cuidado para não machuca-la. Percebo Rosa encolhida em um canto da cozinha, ela certamente tentou apartar a briga, mas conheço o medo de Evelyn.
– Não se preocupe, Srta. Johnson, estou saindo da casa de seu amado filho exatamente agora. – Tris diz, e, apesar do tom calmo, consigo ver a raiva em seu olhar. Mal percebi as malas azuis que ela pegou de meu armário. Seus olhos verdes se encontram de relance com o meu, fazendo-me quase corar. O que não acontece pelo tom não tão branco de minha pele.
– Pode sair, desgraçada! Não tem mais nada o que fazer em minha casa! – Evelyn ainda se rebate e tenta se soltar. Eu realmente não sei o porquê da insistência.
Casa dela?
Não consigo segurar o riso. Evelyn foi uma ótima mãe pra mim, mas chamar meu mérito de “dela” é totalmente inadmissível. A solto.
– Viu, loira oxigenada? Ele está do meu lado! – Evelyn grita novamente. Minha cabeça lateja, não só pelos gritos, mas também pelo stress que o trabalho me proporcionou hoje.
– Não estou do lado de ninguém, porra!
Eu não me lembro de decidir aumentar o tom de voz.
– Nenhuma das duas vai sair desse apartamento! – Lolli late forte pra mim. – Das três. – Corrijo. Respiro fundo antes de dizer algo. – Se não parar de implicar com Tris pode se retirar daqui. – Massageio minhas têmporas levemente com o dedo indicador e polegar da mão direita. – E Tris, vamos dormir no mesmo quarto.
Evelyn pragueja alguns palavrões que não consigo decifrar, não acreditando do que acabo de dizer.
– Não vou dormir no mesmo quarto que você! – A loira indigna.
A mão, que antes massageava minhas têmporas, agora desliza por minha barba rala e bem feita.
– Não vou dormir no quarto em que essa imunda dormiu.
A morena cruza os braços e me olha.
– Não irei obrigar nenhuma das duas. A porta está ali, e a chave na minha mão. Se quiser se empresto as malas pra mudança.
Um bufo forte sai por entre os lábios de Evelyn, como uma criança fazendo birra, enquanto sobe a escada rapidamente em seguida. Pergunto-me quando me esqueci da data de sua volta. Mal tenho coragem de olhar pra cara de Beatrice, que apenas pega a mala azul e sobe as escadas com dificuldade, sendo seguida pela cadela. O interfone toca. Uma, duas, três vezes. Quando vou o atender, sou recebido em gritos de indignação do síndico.
“Sr. Eaton, posso saber o que diabos aconteceu em seu apartamento? Recebemos diversas reclamações de vizinhos relatando uma discussão feminina. Espero, pelo que ouço, que isso já tenha se acabado.”
Mal começou, senhor Síndico.
Após driblar as reclamações do homem, tomo duas aspirinas na cozinha e subo para um banho longo e quente.
Estamos no meio de outono, perto do natal, com um quase frio. A janela da sala de estar está entreaberta, e o vento joga a cortina longe. Posso observar tudo do alto da escada, onde me apoio no corrimão gelado. Sinto mãos geladas massagearem meu tronco nu, e logo imagino Tris. Por tempos tentei me livrar de suas memórias, seguir minha vida e a esquecer, mas isso nunca foi possível. Suas unhas arranham suavemente meu abdome, fazendo-me arrepiar. Coloco minha mão direita por cima da dela e sinto seu rosto contra o meio de minhas costas.
– Por que não me avisou dela? Nunca imaginei que ficaria tão brava por termos terminado.
– Esqueci da data. Perdão.
Tris se mantém em silêncio por alguns minutos, e tudo que podemos ouvir é o som de nossa respiração. Não quero saber, e, muito menos imaginar, onde Evelyn se meteu uma hora dessas, mas peço por tudo de mais sagrado nesse mundo que ela não atrapalhe nosso momento.
– Vai aceitar minha proposta? – Pergunto e viro-me pra ela. Tris usa um pijama de algodão com estampas infantis rosadas. Ela parece uma criança vestida assim, ainda mais com sua estatura média e corpo não definido.
Eu gosto dela assim.
Eu realmente gosto dela assim.
Ela me abraça, encostando o lado direito de seu rosto entre minha clavícula.
– Digamos que eu não aguento mais dormir naquele quarto gigante sem ninguém.
– Não dormiu sozinha ontem. – Digo, insinuando a noite anterior que tivemos.
– E não o farei mais.
Afirmo com a cabeça. Minha mão segue para o topo de sua cabeça e desliza pelos cabelos loiros ainda úmidos devido ao banho. Beijo então sua testa, encostando a minha na dela segundos depois. Tris emite um cheiro doce de sua pele, o que é extremamente feminino e agradável. Acho que são os adjetivos que mais se encaixam nela.
– Melhorou da dor?
– Como sabia da dor?
– Não seja idiota, Eaton. Te conheço o suficiente pra ler suas expressões, aliás, eu fiz psicologia, lembra?
– Perdoe, Srta. Psicóloga Prior, não cometo mais o mesmo erro.
Sorrio a tempo de ver seus olhos grandes e verdes se fecharem e ela emitir algo parecido com um riso. Tris me enlouquece, me fascina. Seu sorriso tem sido um dos únicos motivos para o meu nesses últimos dois meses e eu poderia gravar todos os momentos de nós dois, pra depois assisti-los sem parar.
A loira me puxa pela mão em direção ao quarto. Meus pés descalços caminham até a cama. Ela fecha a porta, trancando-a em seguida.
– Não quero o desprazer de sua mãe incomodar nossa noite.
– Algo especial pra hoje?
– Uma coisa que fazemos muito bem os dois juntos... – Beatrice apaga as luzes, deixando apenas a TV 32’ do quarto como iluminação. – Dormir.
Não consigo segurar o breve riso. Eu realmente não estaria empolgado pra fazer algo mais, além disso, por hoje. A loira deita-se ao meu lado, e, cuidadosamente, acomoda a cabeça em meu abdome.
– Acho que consegui ajudar alguém hoje. – Ela diz. O indicador de sua mão direita faz círculos em volta de meu umbigo. – Claire se cortava. Tentou suicídio algumas vezes, segundo as fichas das outras psicólogas. Sua mãe morreu há dois anos e o pai é drogado, ela passava noites nas ruas de Chicago. Consegue imaginar o sofrimento dela?
Em meu tempo de ginásio, conheci uma garota linda. Inteligente, bonita, simpática, e depressiva. Eu nunca a vira na escola com uma camiseta de mangas curtas, até mesmo no verão mais quente que já se ouviu falar em Chicago. Nós éramos íntimos, fazíamos trabalhos na casa um do outro e sempre conversávamos no almoço.
Ela morreu.
Suicidou-se no banheiro da escola. Só depois de algum tempo fiquei sabendo a causa exata de sua depressão e morte: seu pai a estuprava quase todos os dias. Ele fora preso tempos depois, e a notícia saiu até nos jornais mais famosos locais.
– Consigo. – Digo. – Ela tem sorte.
– Como alguém assim pode ter sorte, Tobias? – Tris diz. Apoia seus braços no colchão e olha pra mim, indignada com o que ouviu.
– Nem todas tem uma psicolouca como você, que se importa com os outros mais do que consigo mesma.
A loira sorri pra mim, e, mesmo sem conseguir a enxergar direito, consegui achar o caminho para sua boca.
[...]
03:16 AM.
O celular de Tris toca desesperadamente. Acordo assustado com tal barulho, e atendo, já que ela ainda não acordou por completo.
– Tris?! – Reconheço a voz de Christina, ofegante. – Tris, tô na Avenida Michigan, em direção ao hospital. Zeke pediu pra correr pra lá, aconteceu algo com Lynn.
Algo com Lynn?
– Christina? – Digo. – Sou eu, Tobias. O que aconteceu com Lynn? – Sento-me na cama em um movimento, o qual assusta Tris, que após ouvir o nome “Lynn” parece definitivamente acordada.
– Só... Só vá ao hospital.
O telefone fica mudo. Nada de bom poderia ter acontecido a essa hora da madrugada.
– O que aconteceu com Lynn? – Tris me pergunta, sentando-se ao meu lado na cama.
– Christina não me disse. Pegue uma roupa, vamos pro hospital agora.
Beatrice, sem hesitar, pula da cama em direção à cômoda de madeira. Por sorte lembrei-me de trazer minhas roupas pra cá, eu realmente não queria acordar Evelyn agora. Visto a calça jeans e um moletom qualquer, o primeiro que achei. Tris não se incomoda em passar maquiagem. Ela nem precisa, de todos, é a mais linda ao acordar.
Descemos de elevador por ser mais rápido. Qualquer atraso pode ser ruim. A ponta do pé de Tris batuca o chão do elevador rapidamente, e os indicadores se movem nos braços cruzados. Seu olhar é preocupado, pra baixo, não tão diferente do meu.
Aproveitei as ruas vazias de Chicago há essa hora e corri. Atravessei sinais vermelhos e tenho certeza que descumpri algumas leis de trânsito, mas não me importo em pagar as multas.
Assim que chegamos ao estacionamento do hospital, a loira mal espera o carro parar completamente e abre a porta, saindo em seguida. Saio correndo atrás dela, sem esquecer-me de acionar o alarme. Christina e Beatrice se encontram em um abraço apertado, misturando as lágrimas. Will me cumprimenta discretamente com uma mão, mantendo outra no bolso da calça de moletom. Subimos os quatro juntos. A essa hora, minha fobia é o que menos importa. Quando a porta se abre, saímos em disparada pra recepção daquele andar, mas Zeke nos chama antes.
Algo errado aconteceu.
Algo muito errado aconteceu com Lynn.
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