Under The Hell's Gaze
11 Friendly Fire
Notas iniciais
O cavalgar incessante ecoava por dentro da floresta e o barulho do vento por dentro das folhas era a único som que se manifestava no local. Akashi tentava se concentrar em não desviar um milímetro da rota usual, embora soubesse que o seu sentido de orientação era impecável e não cometeria algum erro até chegar ao seu destino. Mas era um pouco complicado, não deixar os pensamentos dispersarem-se. Imagens gritavam contra os seus olhos de cada vez que os fechava.
Ele não cometia erros. Percalços talvez, pequenos imprevistos que manobrava e colocava sobre o seu controlo, mas nunca erros. Fora ele quem deixou escapar Kuroko; acompanhado daquele ruivo e dos seus companheiros, que não pareciam tanto uma ameaça. O facto de ele estar agora à solta podia criar-lhe grandes problemas e tinha total noção disso, mas não se preocupava. Um pouco mais de diversão no seu dia-a-dia iria ser bem apreciado.
No entanto, esse não era o seu maior incómodo. Eram as memórias irritantes que o assombravam constantemente, era — e dizia isto com a maior humilhação — a culpa. A culpa que ainda queimava dentro de si por não ter salvo Nijimura. Mesmo após todos estes anos, ainda via o seu corpo machado de vermelho, decorado com as feridas das armas do inimigo.
E então curava-se, mergulhava-se nos métodos mais vergonhosos numa tentativa de limpar a sua alma. Era a única solução que via. Tinha deixado Rakuzan fazia oito horas e aproximava-se do seu destino anual. Do seu inferno.
Começou a avistar ao longe a pequena aldeia levemente habitada, onde visitou pouquíssimas vezes. Tinha certeza que a população nem sabia o tirano que ele era e, sinceramente, recusava-se a vestir essa máscara em frente deles. Desviou Yukimaru para a direita. O lugar para onde ia não era aquele.
Encontrou a casa de madeira, que parecia, por fora, cada vez mais degradada ao longo dos anos. Alguns homens praticavam combates e outros limitavam-se a observar as pessoas que passavam ou ficavam a afiar as suas armas. Quando viram o ruivo aproximar-se, um deles levantou-se e gritou pelo nome que mais odiava. Que trazia um gosto amargo na sua boca.
Rapidamente, o dono dele apareceu, com o seu sorriso de marca implantado no rosto.
— O que tu queres, Haizaki? — desceu do cavalo, nem importando-se em prendê-lo. Tinha confiança no mesmo, por mais ridículo que parecesse a olhos alheios, e sabia que este não o desobedeceria.
— Ah, estás envergonhado, Seijuuro? — ele aproximou-se, uma familiaridade incomodante. — Foste tu quem veio até cá.
— Tenho ar de quem é tímido? — o rosto de Akashi contorceu-se em desgosto. — O que tu tens para dar de tão importante?
— Oh, eu tenho muito que te interesse. — a distância dos dois era agora de apenas um metro, e o maior inclinou-se para a frente. — Mas toda essa hostilidade é desnecessária apenas pelo que aconteceu ao Nijimura.
O reflexo de Akashi foi instantâneo. Os seus olhos queimaram de raiva e, de imediato, retirou uma faca pendurada no cinto que usava, balançando-a contra o rosto de Shougo. O corte não foi aprofundando apenas pois este agarrou no pulso do ruivo.
— Não te atrevas a falar isso de novo. — o tom de voz de Seijuuro estava gelado, uma crueldade intensificada. — Ou então eu mato-te.
— Tsk, não fui eu quem o deixou morrer. — arrancou a faca das mãos do menor, mandando-a aleatoriamente, e agarrou nos ombros deste. Soltou uma risada nasal. — Eu não sou o inimigo, Seijuuro. — o toque que ofereceu ao rosto de Akashi repugnou-o. — Não fui eu quem te roubou tudo. Foi aquele lindo reino que destruíste. Qual era o nome? Ah, sim. Seirin.
"Foi a Seirin que te roubou tudo."
— Larga-me. — empurrou-o.
— Por favor. — soltou um riso, um olhar de pena no rosto de Haizaki. — Tu ainda estás em luto por ele, não estás? Devias esquecê-lo de vez, não há nada que o vai fazer voltar.
— Eu disse, larga-me.
— Eu posso fazer-te esquecê-lo, Seijuuro. — a sua mão cobriu o olho dourado do ruivo, que o encarou confuso e surpreso. De certa forma, sentia-se desprotegido. — Tu queres esquecer tudo o que o teu olho te mostra, não é?
— Tu és nojento. — engoliu em seco. Não podia ceder, nunca mais. — Eu não me envolvo com gente inferior.
A mão que estava no seu olho empurrou-o, fazendo com que se desequilibrasse um pouco e os seus pulsos foram apertados com força e puxados, trazendo o seu corpo também e aproximando os dois.
— Tu ainda estás em meu território, não te esqueças disso. — as palavras foram cuspidas como veneno. — Se quisesse, podia te matar aqui, nunca ninguém te iria encontrar, imperador. — Akashi apenas sorriu. — Não vais arriscar ter destruído o lindo memorial que construíste com Nijimura, não é? Afinal, ele não vai voltar dos mortos para o refazer contigo.
O memorial. O único local que ainda o conectava ao capitão. O único local onde se orgulhava de ir e prezava a memória de todos aqueles que não estavam cá mais. Onde prezava a memória dele.
Tais palavras retiraram o sorriso do seu rosto e um olhar ameaçador foi implantado no ruivo. Mas para além da ameaça, havia medo. Medo e tristeza.
— Não resistas, Seijuuro. Não precisas mais de resistir. Eu posso te ajudar a superá-lo. — lentamente, a forma como Akashi tentava o empurrar ia enfraquecendo e a aproximação entre os dois aumentando. Haizaki sorriu maliciosamente. — Não resultou sempre nos anos anteriores? — e então beijou-o.
E de novo, cometeu o mesmo erro.
–X-
Os portões de Shutoku haviam sido arrombados e, lentamente, a cidade começava a ser afogada nas tropas do exército da Touou, que avançavam rapidamente. Estavam divididos em três esquadrões que iam em diferentes direções: um no centro, outro a leste e outro a oeste, e tratavam de dominar todas as zonas da cidade, para não serem atacados de imprevisto. Os guardas, não informados e sem preparação para o ataque surpresa, estavam com problemas em conter os avanços.
— Imayoshi! Em que merda é que se meteu o Aomine? Ele desapareceu de repente. — um homem dos seus cabelos loiros curtos e de estatura alta, cavalgava lado a lado com outro, um pouco menor, de cabelos negros e óculos que escondiam os seus olhos, de brilho maligno e concentrado.
— Não precisas de te preocupar, Wakamatsu. Com ele não. — Imayoshi centrou o olhar na cidade, observando os movimentos do exército.
— Isso não funciona assim! Fazemos todos parte do mesmo exército e somos generais, temos de nos responsabilizar e respeitar isso! — o loiro exalava irritação mas o menor pareceu ignorá-lo por momentos.
— Desviem-se por ali. Vocês, por aquele lado. — dava as ordens rapidamente, indicando onde deviam ir, sem atrasar o movimento do seu cavalo. — Aomine pode ser arrogante, solitário, ou seja, um verdadeiro incómodo. Tenho ainda certeza que ele nos levará um dia à miséria. Mas enquanto continuar a vencer todos os conflitos em que se envolve, ele é fiável.
Wakamatsu pode apenas engolir o seu orgulho, e cerrar os dentes. Prodígios. Não, monstros. Monstros como ele não deveriam existir.
— Concentra-te em levar as tropas para leste, Wakamatsu. Certifica-te que não somos impedidos de chegar ao castelo e evita matar civis, por hora. Mas se fores cercado ou "pressionado", não te contenhas. — um sorriso largo implantou-se no seu rosto e o loiro, ainda contrariado, fez o que fora ordenado. Amigos, colegas, companheiros ou não, Imayoshi era ainda seu superior.
Shoichi encarou ao se aproximarem do alvo. Teria de se desviar para a direita e tentar entrar desapercebido.
"Aguenta-os bem aí, Aomine."
–X-
Os passos apressados de Midorima, que descia o corredor, superavam o barulho das perguntas que toda a Seirin lhe fazia e o stresse parecia consumi-lo. Entendiam, a invasão repentina era perturbadora para alguém que tinha cargo de general, e tê-los nas suas costas era apenas outro peso
desnecessário. No entanto, precisavam de respostas ao que fazer.
O esverdeado sussurrava palavras enigmáticas apenas com Takao e juntos abriram a porta a uma sala recheada de material de combate, do qual foram indicados para se aproveitarem.
— Precisamos da vossa ajuda para ajudarem todos a combater as tropas e ainda mais a colocarem a população em segurança. Normalmente, ao avistarmos ataques, tentamos mandar os aldeões aproximarem-se do castelo para ser mais fácil protegermos todos mas não tivemos tempo para essa tática. — Shintarou pegou numa espada, que embainhou e prendeu à cintura, e um arco e flecha, que prendeu às costas. Virou-se então para Kuroko e Kagami. — Vocês os dois, sigam-me. Temos de procurar o Aomine.
— Eu também vou contigo, Shin-chan. — Takao, que acabava de se equipar, interveio.
— Não, é melhor não vires, Takao. Tu és demasiado valioso. — por segundos, o coração de Kazunari acelerou e ele desejou que tivesse sido o único a interpretar de outra a forma a frase. — Ainda não sabemos o que a Touou realmente pretende com esta invasão. É mais seguro para o castelo ficares por aqui, Takao.
— Mas ainda assim, Shin-chan...
Um grunhido vindo de fora, como um berro de estremecer, aproximava-se cada vez mais do local, e lentamente podia se reconhecer no timbre grosso a palavra "MIDORIMA". Os olhos de Kuroko arregalaram-se — reconhecia bem demais a quem pertencia aquela voz, embora as mudanças nela fossem óbvias. Tetsuya, sem qualquer aviso, começa a correr em direção à entrada do castelo e Kagami segue-o, tentando o impedir de o ir enfrentar tão imprudentemente.
— Por favor, fica. — Midorima agarrou na mão de Kazunari, oferecendo-lhe um olhar profundo, antes de acompanhar o azulado exaltado e o ruivo, até à entrada.
— Takao-kun. — Izuki, que acabava de se equipar, dirigiu-lhe a palavra. O seu olhar era austero, equivalente ao de todos da equipa. — Onde começamos?
— Sigam-me. — Kazunari soltou um sorriso breve antes de sair da sala.
–X-
— Midorima! Quem mais eu tenho de matar para tu apareceres?! Os guardas não te chegaram?! Certo, vou ver quem quer começar. — o moreno virou as costas ao portão do castelo, que mesmo após vários embates, continuava serrado pelos guardas de dentro. Em sua volta, vários corpos ensanguentados espalhavam um odor de morte e medo, e os civis, que tentavam procurar acolhimento, retraíam-se aterrorizados.
Fora apenas o estrondo da porta a ser aberta e o grito dos seguranças a tentarem impedir as pessoas de trespassarem que fez Aomine parar e sorrir. Virou o corpo para encará-los e ver uma seta apontada na sua direção.
— Aomine! O que é tudo isto? — Midorima segurava o arco, sem mostrar hesitações em largar a flecha.
— Talvez eu te explique se pegares numa espada e lutares como um homem. — o braço dele, que já estava relaxado contra o lado do seu corpo, é erguido, apontando a espada na direção do esverdeado. Aproximava-se lentamente. — Quero te matar da forma tradicional.
— Para com isto de vez! Estás a iniciar uma guerra ridícula e desnecessária! Qual é o grande propósito de-
— Aomine-kun! — a voz gritante de Kuroko fez com que Midorima se voltasse irritado, preparado para gritar a Kagami que o segurasse mais um pouco até saber se era seguro. Mas foi o arregalar de olhos confuso e raivoso de Daiki que lhes chamou a atenção.
— Midorima...essa voz...é o Tetsu, não é? Tu tiveste o Tetsu durante este tempo todo? — a sua calma não camuflava a aura tenebrosa em sua volta, e os passos eram agora cautelosos.
— Aomine, deixa-me explicar isto tudo. Primeiro, para esta invasão e-
— Cala-te!! Responde-me!!
— Aomine-kun! Para com tudo isto! — antes que Kuroko se lançasse, Kagami segurou o seu braço. Não que duvidasse nas habilidades do menor em combater contra um membro dos Guerreiros dos Milagres, ele próprio era um, mas tinha que evitar outro conflito antes de mais cidadãos serem postos em seguranças. (Tinha de proteger Kuroko).
— Tetsu! — Daiki aproximou-se mas Kagami colocou-se na frente do menor. Midorima continuava de arma erguida. — Sai da frente. Agora.
— Como se eu fosse aceitar ordens assim. — Taiga cerrou os punhos em volta da arma. Aomine, num movimento rápido, lança-se para a frente, erguendo a espada e embatendo fortemente na do ruivo, fazendo com que este retrocedesse um pouco.
— Kagami, para de o provocar! — Shintarou largou a flecha contra o azulado, que baixou-se e protegeu-se com a lâmina. Virou-se agora para o esverdeado, fazendo com que este desembainhasse a sua espada e dando-lhe pouco tempo para proteger-se do choque das armas. Daiki, agilmente, retrocedeu um pouco, para voltar a atacar.
— E tu és o maior filho da puta, hã, Midorima?! Mentiste-nos a todos! Escondeste o Tetsu depois de tudo! Explica-me, como o fizeste?! — o azulado desviou-se de um ataque que lhe vinha de trás e saltou para trás, encarando o opositor. Cerrou os olhos. — Ele manipulou-te mesmo. Vais mesmo lutar contra mim, Tetsu?
— Se alguém mudou, não fui eu, Aomine-kun. — Kuroko engoliu em seco, escurecendo o rosto, de certa forma, tentando esconder a dor nas suas palavras. O outro sorriu amargamente.
— Todos pensámos que tinhas morrido no fogo. E, no fim, foi só uma longa mentira torturante, não é verdade? Como conseguiste mentir assim depois de tudo?! Logo depois da Grande Catástrofe Vermelha?! Como?! — o seu rosto ficava cada vez mais frio a cada palavra pronunciada.
— Ninguém me escondeu! Eu sobrevivi por acaso...e fui capturado pelo Akashi-kun, depois de uns anos. — o arregalar de olhos do azulado foi arrepiante e mesmo Midorima parecia confuso e interessado naquela história. Nunca soube o que realmente aconteceu e tivera medo de tocar no assunto tão cedo.
— O Akashi...óbvio. — sem mais palavras, o azulado avançou e colidiu armas com o pequeno, que com um pouco de esforço segurou o impacto. Era difícil desviar-se dos golpes rápidos de Aomine, e foi Midorima que o empurrou, com a ajuda de Kagami, que o confrontou por uns segundos, antes de ser puxado para trás com a força das colisões. — Ele também...ele especialmente...
— Para com isto, Aomine. — Shintarou concertou os óculos que lhe escorregavam do nariz, colocando-se em posição de defesa, de novo. — Contra três, não tens hipóteses.
— Ha! Todos vocês! Todos dos Guerreiros dos Milagres, um por um, até o Akashi...eu vou derrotar todos, destruir os únicos que me conseguirem entreter, sem quaisquer dúvidas.— ele lançou um olhar rápido a outro lado do castelo, que os olhos cautelosos de Kuroko apanharam e não entenderam. Depois sorriu. — O único que me pode derrotar sou eu mesmo.
— Como se fossemos deixar, idiota! — o ruivo sorriu alargadamente e endireitou-se. — Quem achas que és para vires causar toda esta turbulência e sair ileso? Vamos ser nós que te vamos derrotar.
— Tsk, que palavras engraçadas. E tu és? — de novo, ele lançou um olhar ao castelo, antes de retornar ao ruivo.
— Kagami Taiga. Espero que te lembres do nome de quem te vai enterrar. — o ruivo avançou e atacou Aomine, que defendeu sem grande esforço. Previu ainda o ataque lateral de Kuroko e desviou-se, tentando acertar no pequeno, sabendo que o maior o protegeria, e espetando-lhe um pontapé no estômago.
— Boa sorte. Vai ser um prazer ver-vos destruídos. — o seu olhar pousou no azulado. — Até a ti, Tetsu.
Encarou o castelo.
"Só mais uns minutos. Aguenta-os só mais uns minutos, Aomine."
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