Under His Eyelids
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era como se luz se derramasse sobre ele. Cálida, branda, porém suficiente para aos poucos derreter sua forma de gelo.
Os grandes e radiantes olhos, o sorriso travesso, a voz que brincava com convicções construídas ao longo de anos de aprendizado e treinamento, que acabava com sua paciência, chamando o seu nome como se o conhecesse desde sempre. Por culpa daquela insistência, involuntariamente passou a prestar cada vez mais atenção aos detalhes - o aroma suave e úmido, levemente adocicado, que o seguia aonde quer que fosse; o tom de voz alegre e risonho, pronto para gracejar e zombar a qualquer momento, com qualquer um; a postura sempre livre e relaxada, muitas vezes ao ponto do desleixo; a forma como fugia do combate consigo, desviando de seus golpes semelhante a uma folha recém caída que dançava com o vento, seus movimentos rápidos e por vezes até graciosos, as mechas de cabelo negro flutuando e acariciando a pele clara de seu rosto enquanto girava e corria; a forma como não perdia sequer uma oportunidade de o importunar, provocar, mexer consigo como uma criança que nunca desistia de o chamar para brincar.
Quanto mais detinha sua atenção sobre ele, secretamente o observando, mais via que, muito além dos maus hábitos, da desobediência e da grossa face, havia também ali o brilho gentil da bondade e empatia.
Pôde ver com seus próprios olhos como ele se pôs à frente do perigo, voluntariamente tornando-se um alvo e tomando a culpa para si por pessoas que estavam aptas a se defender. Como, de maneira imprudente, se deixou ser ferido para proteger alguém que o evitava, pensando apenas no futuro da outra pessoa.
Pôde até sentir na própria pele, tendo seus ferimentos tratados às custas da desconsideração dele com suas próprias injúrias, mesmo que constantemente o tratasse com desprezo e aversão, como se o odiasse verdadeiramente.
E no entanto, ainda assim um sorriso se pintava em seus lábios enquanto chamava seu nome. Vez após vez pedindo sua atenção.
Indo contra si, tirando-o do conforto, minando seu autocontrole com esse jogo de mostrar o seu pior e em seguida seu melhor - foi assim que o fez cada vez mais líquido. Uma pequena gota após a outra.
Sua face continuaria sempre como que esculpida em gelo, mas seu interior já não era mais nada além de um enorme lago. Frequentemente com águas turvas e agitadas pelo desejo, ameaçando transbordar muito além dos limites. Por vezes, teve de usar de toda sua força a fim de acalmá-las, mantê-las cristalinas, para que assim a branda luz que ele emitia pudesse chegar ainda mais fundo em seu interior líquido; para que secretamente, silenciosamente, pudesse admirar tal alma tão caótica quanto bela.
Se soubesse...
Mas estava feito. E se pudesse, jamais abriria os olhos novamente. Se apenas pudesse, nunca mais se deixaria acordar. Veria de novo, e de novo, essas imagens se repetirem sob suas pálpebras. O que neste mundo brilharia como aquele sorriso? O que neste mundo o faria se sentir tão fora de si? Tão... vivo?
Ele trouxe sensações, emoções. Trouxe som e cor ao seu mundo completamente branco.
Mas ele se foi. E levou tudo consigo.
Fale com o autor