Undeniable
14 Capítulo 14
Quinn está enrolada nos cobertores, ainda presa ao calor da pequena cama de Rachel.
Ela espera a morena terminar de realizar suas atividades matinais no banheiro do dormitório, que é pra onde ela vai depois que Rachel voltar. A loira não consegue conter um sorriso que atravessa seu rosto e vai quase parar na sua orelha. E a cada momento que ela consegue se lembrar dos últimos dias, ela ri ainda mais. Esses momentos borbulham em sua mente.
Algum outro dia ela será tão feliz? Porque se sim, a vida está sendo muito generosa com ela.
Quinn ainda tem o cheiro de Rachel impresso na lembrança; e o modo como os lábios da pequena se moviam sobre os seus, sempre de uma maneira calma e deliciosa. Depois, ela lembra dos descontroles, da possessividade, do desejo implacável que ela sente por Rachel Berry há anos tomando forma. Seus corpos colados, seus seios sobre a camiseta fina do pijama se tocando. As pernas de Rachel há centímetros de distância de suas mãos. A boca da morena sugando seu pescoço, como se uma vampira ela fosse. A língua fazendo círculos pequenos e molhados; sua respiração ficando rasa e o sangue percorrendo seu rosto rápido. O cérebro quase em transe – com apenas pequenos e leves toques que Rachel lhe dava.
Além de assuntos para conversar com sua terapeuta, ela vai ter lembranças quentes para si em noites solitárias.
Suas bochechas esquentam apenas com o pensamento.
Ter Rachel. Ter Rachel dessa maneira. Chegar a outro nível em seu relacionamento. Amar Rachel de uma forma tão intensa, para que ela se sinta segura a cento e trinta quilômetros de distância.
Deus, isso parece um sonho que Quinn jamais achou que realizaria.
Ontem à noite, após se ajeitarem para dormir, ainda nervosas pelo recém amasso, Quinn pensou que nada disso poderia escapar das mãos dela. Ela não deixaria Rachel se sentir insegura de jeito algum. Essa era a relação de sua vida que daria certo, algo irrefutável, então já tinha passado da hora de agir.
Rachel estava apaixonada por ela, e em que milênio ela teria essa sorte. Era como ganhar na loteria e Quinn deixaria o inferno congelar antes de deixar a morena pensar que elas não dariam certo.
Mas Rachel queria ir devagar, e ela aceitava isso. Ela aceitaria se Rachel quisesse que ela percorresse o Central Park inteiro duas vezes por dia, de joelhos. Se sua recompensa fosse um beijo da diva, ela o faria com um lindo e orgulhoso sorriso no rosto.
Então era isso.
Ela não iria assustar Rachel; apenas deixar claro alguns pontos.
Suas intenções eram as melhores, como não poderiam deixar de ser. Rachel, antes de ser seu amor, era sua melhor amiga e uma garota incrível e maravilhosa. Única. Quinn reconhecia essa fato. Rachel Berry era uma em um milhão. Ninguém (mais) lhe faria mal, e se fizesse e a loira não pudesse impedir, ela teria Rachel em seus braços até a pequena se levantar e agir outra vez.
Quinn até se sentia melhor sobre sua própria personalidade e sexualidade.
Ela poderia colocar a máscara de Ice Quinn no momento que bem entender. Para todos, inclusive com Rachel, quando a loira via que ia se machucar em relação aos seus sentimentos românticos. A pose e o gelo iam se quebrando à medida que algo explodia, mas isso não era mais necessário. Quinn nunca mais seria essa Quinn diante de Rachel, porque isso machucaria ambas. E agora, Rachel estava apaixonada por ela.
Aliás, alguma vez ela já disse que Rachel estava apaixonada por ela? Porque ela sairia com um outdoor pendurado nos ombros para todo mundo ver, tamanha era sua felicidade ao lembrar dessas palavras.
Ela não seria a Quinn assustada e acanhada que chegou à Yale meses atrás. Ela beijaria garotas em um café, na frente de todos, sem ligar para ninguém, se essa garota fosse Rachel. Ela seguraria sua mão em público, abraçaria pelos ombros e traria seu pequeno corpo para mais perto. Qualquer demonstração de carinho; qualquer gesto terno, Quinn estava disposta a fazer. Vergonha era uma palavra que não existia em seu dicionário quando ela pensava em namorar Rachel, ao contrário de seu flerte com Olívia.
Talvez, ela até colocaria “em um relacionamento sério com Rachel Berry” no facebook se seu telefone não fosse explodir com a fúria de seu pai ligando de Ohio.
Mas isso eram coisas para se pensar mais tarde. Passos de bebê, rumo ao coração de Rachel.
“Oi, Q”, Rachel entra no dormitório, ainda secando os cabelos úmidos com sua toalha e já vestida com uma calça jeans e um casaco para elas saírem, “Bom dia de verdade”
“Bom dia Rach”, Quinn continua seu sorriso e admira Rachel em seus trajes. Ela hesita em se levantar e ir até a morena para lhe beijar a face, ou talvez os lábios.
Rachel lê a indecisão nos olhos da loira e vai até ela, aproximando seus rostos e colando um selinho demorado na boca, “já que você não vem até mim...”
Quinn gargalha alegremente, “eu... desculpa”
Rachel sela seus lábios novamente, sorrindo, “tudo bem, eu estava brincando. Você quer ir tomar banho agora ou...?”
A loira se levanta e pega sua roupa nas bolsas em cima da cama de Naomi, “Sim, eu estava só esperando você voltar”
“Estava pensando em te levar pra tomar café em um Starbucks, pode ser?”
“Claro”
“Vou ligar pros meus pais, então, enquanto eu te espero”
“Tudo bem”
Quinn se repreende mentalmente porque ela sabe que vai ser pegajosa; como Santana riu dela uma vez: mel, mel pegajoso por todas as partes. Mas a loira simplesmente não consegue agir diferente, agora que todo seu potencial romântico é voltado para Rachel. O perfume da morena, o hálito quente, seu abraço. Se Quinn pudesse ter essas sensações o dia inteiro, sem dúvidas ela teria.
Então ela vai até Rachel se “despedir” para ir tomar seu banho, para depois encontrá-la outra vez para passarem o dia inteiro juntas. Apenas alguns minutos a separarão, e ela ri do quão boba ela parece. Mas ela deixa a vergonha de lado e abraça Rachel, mantendo seus braços bem apertados em volta do corpo menor, sentindo o cheiro fresco invadindo seu olfato. Rachel não hesita e segura Quinn também, equilibrando a tolha molhada nas mãos para não molhar as costas da loira.
“Eu sei que parece idiota, mas eu não queria me separar de você”
Rachel sorri, com o coração acelerado, “não é idiota, Q”
“São só alguns minutos”, ela traça pequenas retas com seus dedos no ombro de Rachel, “mas meu corpo não quer”
“Seu corpo não quer ir pro banho, Quinn?”
A loira ri com a voz brincalhona de Rachel, “Ok, isso saiu meio errado”
“Yeah”
Ambas suspiram, ainda abraçadas. É tão certo e... perfeito o calor daquele lugar. Quinn sente que tudo fica bem quando seu mundo se resume à apenas aquilo ali.
“Eu vou”, Quinn diz em um tom brincalhão, já ditando que vai ser assim o resto do dia, “Mas eu volto”
Rachel ri e sente a loira escapar dos seus braços. Ela para na porta, ainda olhando para a morena, suspira, e sai sorrindo. A pequena gargalha com Quinn sendo tão fofa e adorável. Sua melhor amiga que ela sente tanta falta quando vai embora. Sua Quinn Fabray. Sua.
Ela respira fundo, se sentando confortavelmente na cadeira giratória de frente para a estante, pegando seu celular e discando o número da casa dos pais. Leroy e Hiram tem muitos assuntos a serem comentados com a filha.
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“Oi pai”, Rachel diz com animação, quando Leroy atende seu telefone depois de duas chamadas.
“Estrelinha!”, Leroy responde a filha com o mesmo entusiasmo, “Eu comentei com seu pai antes de ele ir para o trabalho que eu ia ligar para você hoje mesmo!”
Ela sorri, “Eu liguei pra vocês antes mas vocês nunca estavam!”
“Desculpe por isso, meu amor. Seu pai tem estado tão ocupado no trabalho, e ainda está trazendo mais trabalho para casa. Já reclamei dezenas de vezes, mas ele não me ouve. Ele não é mais um jovem pra ficar abusando da saúde assim”
“Diga ao papai que ele não tem meu apoio se ficar trabalhando desse jeito... eu odiava quando ele levava trabalho para casa”, Rachel comenta e lembranças surgem instantaneamente de parte de sua infância, onde Hiram voltava cheio de coisas do trabalho para resolver e não dava a atenção que ela queria, para ver seus musicais preferidos comentando com seu papai.
“Eu vou chantageá-lo com isso, filha, pode ter certeza”, o homem muda seu tom e pergunta com leveza, “e você, meu amor, como você está?”
“Eu estou bem, pai”
“Quinn está aí com você?”
“Ela foi tomar um banho, porque combinamos de sair hoje”, ela diz animada.
“Onde vocês vão, estrelinha?”, ele pergunta com sua voz mais alegre e o coração de Rachel aperta de saudade. Seu pai Leroy sempre foi mais parecido com ela em seu jeito de ser.
“Combinamos de ir até a Times Square hoje... Ver as pessoas, esbarrar nelas, os outdoors, tirar algumas fotos. Coisas de turista”, ela ri.
“Bom, vocês tem que aproveitar o tempo que Quinn está aí... tome cuidado amanhã, Rach, quando você for comemorar a virada do ano. Eu e seu pai já preparamos uma breve palestra sobre as precauções que vocês duas devem tomar na Times Square caso desejam passar a meia noite lá!”, ele alerta, e Rachel gargalha alto fazendo seu pai rir também.
“Não se preocupe, pai, eu mesma já fiz uma lista de coisas que serão necessárias para nossa segurança!”
“Eu sei, meu amor, eu estava brincando”, ele pára de falar e suspira, “Nós sentimos muito a sua falta, estrelinha. Eu sei que você já fez dezoito anos e já mora em outro lugar, faz sua faculdade, tem sua própria vida e seus próprios sonhos, mas saiba que eu e seu papai morremos de saudades de você”
Rachel inevitavelmente se emociona com as palavras de Leroy, e afasta as lágrimas jogando os olhos pra cima, “eu te amo, pai”
“Eu também te amo, estrelinha”
“Se o papai estivesse aí ele brigaria com o senhor por me deixar emotiva tão cedo!”, ela ri e muda o clima da conversa.
“Com certeza, meu amor”, o velho homem ri também, “ele já teria me jogado um travesseiro na cabeça para eu parar de falar. E você e Quinn, Rach? Você está se sentindo melhor em relação à ela, filha?”
Rachel lembra da conversa um pouco desconfortável que teve com seus pais, pedindo ajuda à eles, conselhos sobre qual direção tomar agora que ela se via gostando de Quinn. Ela ainda estava amadurecendo e aceitando a ideia de estar apaixonada pela loira, e perguntar para eles não foi muito satisfatório, já que eles eram melhores amigos antes de Hiram confessar que estava apaixonado por Leroy. E hoje eles eram casados e tinham uma filha, logo, eram suspeitos para dar opiniões.
“Eu me declarei, pai”, ela confessa, mas o peso dessa decisão já passou. Hoje ela só se sente grata por ter conseguido, “Eu disse que estava apaixonada por ela”
“Que bom, filha! Você já sabia que ela correspondia a esses sentimentos, então foi fácil, certo?”
“Bom”, ela pausa e pensa como responder essa questão honestamente, “Não foi a coisa mais fácil que fiz na vida. Apesar de Quinn ser apaixonada por mim e isso não me fazer dar tiros no escuro, foi difícil finalmente dizer essas palavras, porque as coisas ficaram mais reais depois disso. Foi uma sentença, sabe, eu aceitei e finalmente pude dizer à ela sem machucá-la por mais alguma coisa”
“Mas e agora, meu amor? Como vocês estão?”, Leroy pergunta animado e Rachel ri de seu pai. Eles são tão iguais, por Deus.
“Estamos... nos conhecendo”, ela segura uma risada estridente.
“Vocês se conhecem há anos, Rachel Barbra Berry!”, ele ri, “Não faça graça às custas do seu pobre pai”
Ela solta a risada e pensa que Leroy deveria ser seu pai biológico, porque o drama estava na genética, “Desculpe, pai. O que eu quero dizer é que eu estou conhecendo essa nova faceta da Quinn que eu não conhecia, o lado romântico dela. E ela está conhecendo o meu”, ela sorri satisfeita, “E eu estou amando conviver com ela assim”
“Vocês estão namorando?”, ele pergunta em um tom mais sério e Rachel se lembra que apesar de seu melhor amigo e confidente, Leroy ainda era seu pai.
“Não, pai...”, ela suspira, “estamos andando devagar... caminhando para onde nossa relação deve ir, mas à passos calmos. Quinn ainda é minha melhor amiga apesar de tudo o que já aconteceu, e machucá-la é a última coisa que eu pretendo fazer”
Ele adoça sua voz diante da seriedade da filha, “Que bom que você pensa assim, filha. Cuida do seu coraçãozinho. Você sabe o quão maravilhoso é estar apaixonada por alguém, mas a intensidade desse sentimento bom é a exata intensidade da dor que você vai sentir se algo der errado. Então cuide da relação de vocês, porque sua amizade também tem que ser levada em conta”
Seu coração se aquece com as palavras de seu pai. Ele a conhece tão bem. Ela pensa exatamente a mesma coisa sobre toda a história, e por isso quer levar as coisas devagar.
“Eu te amo, pai. Obrigada por essas palavras”
“Eu te amo, Rach, e quero apenas o melhor para você, filha”
“Um beijo para o senhor e outro para o papai”, ela se despede, apoiando os cotovelos na estante cheia de livros.
“Qualquer coisa ligue para nós, estrelinha. Nós te amamos”
Rachel tira o telefone da orelha e observa a foto de seus pais, abraçados, desaparecer de sua tela indicando que a chamada foi encerrada. Ela suspira e apenas espera Quinn terminar seu banho para elas começarem o dia, mas algo chama a atenção dela dentro de um livro. Um post-it, do tipo que ela ganhou de Quinn de presente, com um pouco menos da metade colorida para o lado de fora.
Ela abre o livro na determinada página e encontra o post-it, que a faz rir apenas por lembrar do momento em que encontrou o Berry Awesome escrito nos pequenos balões. Mas quando ela lê a frase escrita com a caligrafia que ela reconhece como a de Quinn, seu coração acelera instantaneamente.
“When the evening shadows and the stars appear, and there is no one there to dry your tears”
E na outra página, outro post-it, com a continuação.
“I could hold you for a million years to make you feel my love”
Com um pequeno desenho dentro do morango: um coração riscado rápido, com o contorno ultrapassando em algumas linhas.
Rachel leu mais de dez vezes as duas frases, que ela conhecia de uma música da Adele. Quinn já havia escutado com ela uma vez, em que elas dividiam o fone de ouvido enquanto se bronzeavam. Ela perguntou quem era o homem que cantava aquela versão que elas ouviam, e a loira respondeu sorridente Bob Dylan, um dos artistas que ela mais admirava no mundo principalmente por causa dessa canção, que ela achava linda e de uma delicadeza e verdade extrema.
Algumas memórias vieram à mente da morena enquanto ela lia o gesto fofo e romântico de Quinn. A noite em que ela se declarou. As vezes em que ela tremia só de pensar em sentir os lábios da garota maior sobre os seus. O show do Passion Pit, como aquela noite foi especial em diversas maneiras, Quinn deitada ao seu lado ligando um projetor de constelações e dizendo que faltava ela fazer um desejo.
Parecia que muito tempo havia se passado, mas isso aconteceu em poucos dias.
Não que Rachel estivesse reclamando, pelo contrário.
Ela sempre quis viver um romance assim. Ela sempre quis ser amada dessa maneira.
Porém, ela nunca achou que viveria, pelo menos não antes de estar na Broadway, formada, com 2 Tonys na estante, antes de ter 25 anos.
Toda uma vida imprevisível que ela metodicamente tentou prever, estava indo abaixo quando ela se viu apaixonada por Quinn e Quinn irremediavelmente apaixonada por ela.
Era isso, o romance épico que Rachel sempre quis ter com alguém, ela teve certeza, naquele momento, que seria com Quinn. E ao invés de sentir medo, ou frustração por ter seus planos desfeitos, ela se levantou, guardando os post its em sua gaveta como sua primeira pequena lembrança romântica de Quinn, e foi abrir a porta, para esperar Quinn sair do banheiro coletivo.
Quando avistou a loira, que saiu sorrindo do banheiro, ela afastou as lágrimas emocionadas e não respondeu à nenhuma pergunta dela, querendo saber o por quê do choro. Ela apenas a deixou gentilmente entrar no dormitório primeiro, colocando a mão na base de suas costas, e respirou fundo o perfume gostoso da garota maior, antes de unir seus lábios languidamente aos de Quinn.
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