Undead World.
6 Capítulo 6 - Ghost of the past.
Notas iniciais
Quinn balançava a cabeça no ritmo de Smells Like Teen Spirit enquanto Charlie dirigia atenta ao mínimo movimento da estrada. Não deveria passar das oito e pouco da manhã, pois ainda estava meio frio mesmo com o sol escaldante.
– Não devemos demorar mais de trinta minutos para chegarmos na fazenda, se a localização que Sam me deu estiver certa e realmente for próximo de Akron. – Disse a gêmea mais velha, seguindo a rota traçada no mapa aberto sob o painel do carro. -
Quinn soltou um barulho estranho que lembrava um ‘aham’, sua cabeça repousava preguiçosamente na janela; Ela nunca foi uma pessoa da manhã. –
Quando Beth acordou de seu adorado sono para espirrar baixinho, Quinn sorriu de lado, observando-a pelo retrovisor, porém logo sua felicidade morreu e foi substituída pela tristeza, e subitamente entrou em estado de torpor; Como pôde deixar tudo aquilo de lado pelo próprio orgulho?
Charlie mantinha um olho na irmã minutos mais nova, ainda em silêncio, bufou demoradamente. Sentia pena de Quinn. Ela havia errado feio ao deixar Rachel sozinha com Beth, mas era por que sempre quis evitar relacionamentos por um trauma que sofreu no seu primeiro e único namoro. Depois daquilo, ela simplesmente decidiu ser ela mesma e ter orgulho do que era, e um bom começo para a época foi sua mudança drástica de visual.
Mas o único problema da Quinn mais verdadeira que Charlie já conheceu desde o útero, eram as milhares de muralhas construídas em volta de seus sentimentos. Nada de relacionamentos, nada de amor, nada de dor. Mas todas as barreiras foram quebradas depois que Beth nasceu, só Quinn que não queria admitir, porém Charlie lembrava-se claramente da imagem da irmã voltando para casa bêbada na noite seguinte após ver aquela garotinha no hospital. Após dar um banho na mais nova e vestir roupas confortáveis sobre o corpo alto e esguio, Charlie serviu de ombro para Quinn chorar até dormir.
– Char? Char! Tá fazendo aquilo de novo. – A punk riu, estalando os dedos na frente dos olhos de sua irmã, que aos poucos deixou seu mundo de pensamentos para rir envergonhada. –
– Desculpe ... – Respondeu em um sussurro. Quinn riu, porém logo retornaram ao silêncio. –
Tirando as vezes em que Marley ligava pelo walkie talkie, o Cadillac estava num clima morto, todos quietos e presos em seus próprios pensamentos.
...
Cerca de uma hora de distância de Akron, Sam apontou para uma pequena estradinha de terra ligada á estrada na qual seguiam. Charlie pigarreou, arqueando uma sobrancelha.
– Como assim? Você não disse que era em Perry Township? Não estamos lá ainda! – Ralhou a gêmea mais velha, sua cabeça escondida entre o mapa da região. –
– Eu disse que era perto de Perry Township, não que era em Perry Township. – Sam murmurou enquanto virava uma garrafinha d’água. Charlie bufou irritada. –
– Não importa! – Ela tomou o walkie talkie das mãos de Quinn sem muita delicadeza. – Alô? Alô? Aqui é a Charlie. Marley, tá vendo aquela entradinha de terra à esquerda? Entre lá. – Pediu ao revirar os olhos. –
– Mas ainda não estamos em Perry Tow-
– O Samantha não explicou direito! Só entre, ok? – Ralhou, e Quinn conseguiu ver nitidamente Marley se encolhendo contra o banco. Charlie sempre fora tão calma .. –
Os carros então entraram na estradinha estreita no meio do milharal, e Santana encolheu-se no banco de tal modo que parecia querer fundir-se com o couro. Quem iria imaginar que a latina durona, que matava zumbis, que salvou Marley da morte certa ficaria com medo de matas, plantações e coisas do gênero após ver um filme de terror perturbador na infância.
Após atravessarem o milho, encontraram, não muito longe da vasta plantação, portões grandes e firmes feitos de carvalho, a cerca pouco menor do que um homem adulto circulava uma casa branca até que bem bonitinha e um celeiro médio, ao lado do que parecia ser uma pequena estufa.
– Não temos animais aqui porque só vínhamos de vez em quando, por isso o celeiro é um tipo de despensa com algumas ferramentas e sementes ... Já temos comida e armas. – Disse Sam, e Santana como sempre, revirou os olhos. –
– Isso se já não roubaram tudo. Se tivermos sorte, encontramos só walkers aí dentro, nada de humanos. – A latina deu de ombros, sua frieza ao tocar no assunto fez Rachel estremecer. -
– Santana! – Quinn ralhou, encarando a morena pelo retrovisor. –
– Está assustando Rachel. – Charlie emendou, revirando os olhos. –
Sam desceu do Cadillac com uma faca média em mãos, sempre atento ao mínimo barulho anormal por perto. Caminhou em passos leves e silenciosos até o portão de carvalho preso por um cadeado intacto, e logo retirou uma pequena chave do bolso. Quando Lima recebeu um alerta de emergência mundial semanas depois de New York ser sitiada, a primeira coisa em que pensou foi em ter uma chance de viver na fazenda da família, que ficava tecnicamente no meio do nada.
Assim que abriu os portões, o Cadillac entrou e então foi estacionado ao lado da casa, e em seguida o Ford parou ao lado do carro vermelho.
– Nem acredito que estou de pé! – Marley murmurou enquanto se espreguiçava ao sair do banco do motorista. –
– Certeza de que é bem seguro, não é? – Mike indagou aproximar-se de Sam, e o loiro assentiu. – Bem, teremos certeza agora. – Novamente empunhou sua faca, e junto de Puck e Quinn, entrou na pequena varandinha em frente a porta. –
Contando silenciosamente até três, ele destrancou-a e então abriu, ao mesmo tempo adentrando a casa com Puck enquanto Quinn apontava sua arma para qualquer coisa que não fossem os dois.
– Eu tava pensando e ... Você é como a Quinn? Tipo, sabe, lá? – Marley indagou, indo direto ao assunto sem rodeios enquanto sinalizava em frente ao meio de suas pernas. –
Charlie corou furiosamente e então encarou os próprios pés, sorrindo sem graça. Que diabos de pergunta foi aquela?
– Tudo limpo aqui em cima! – Salva pelo gongo. A voz de Sam vindo de uma janela no segundo andar da casa alertou todos eles. –
– B-bom! Então ... Vamos guardar nossas coisas ... – Charlie murmurou, logo indo em direção ao porta malas do carro de seu falecido avô, evitando qualquer contato visual com a morena de olhos azuis. –
...
Particularmente, Quinn estava em um estado considerável feliz. Até mais que os outros do grupo, se bobear. Pois, numa fazenda longe de tudo, com plantações e um pequeno fosso, estaria livre de preocupações e poderia conviver com Beth e Rachel. Ou ao menos tentaria.
Após descarregar as coisas dos carros, Rachel sentou-se na varanda em frente a casa enquanto observava Beth, que dava alguns passos e então caia na grama verde e fofinha, logo levantando-se com uma carinha irritada e tentava manter o equilíbrio, novamente, caindo.
– Oi. – Charlie disse enquanto aproximava-se, sentando ao lado da garota enquanto tinha o olhar fixo na sobrinha e sua batalha pessoal para aprender a andar. –
Rachel desfocou de sua filha para então fitar a loira ao seu lado por alguns segundos. Aquilo era tão estranho, uma versão ‘alternativa’ de Quinn, fã de quadrinhos e super-heróis. Ao mesmo tempo em que via Quinn no rosto de Charlie, não via, era como se mesmo que tivessem as mesmas feições faciais, fossem pessoas diferentes. Claro que são pessoas diferentes, são gêmeas! Pensou consigo mesma, e logo que viu as orbes verdes fitando-lhe em busca de uma resposta, sussurrou involuntário.
– Oi. –
– Está cansada. – Não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Rachel riu anasalado, quanta ironia foi aquilo, não? –
– Na última vez que um rosto como o seu me disse isso eu engravidei. – Aquilo foi automático, seus olhos marejaram e coçaram para permitir que as lagrimas caíssem enquanto sua garganta fechou, e ela mal sabia o motivo. Beth não foi um erro, era a coisa mais maravilhosa de sua vida, ela só veio muito cedo. Mas como se ainda fosse há um ano atrás, quando o seu mundo ainda se baseava em musicais, Broadway e Finn, ela lembrou-se. –
Lembrou-se de ver Quinn pela primeira vez, a piscadela em sua direção, os sorrisos trocados durante os dias, e até que Finn convenceu-a que a festa de Puck não seria tão ruim, e então tudo começou. Não tudo, tudo para o mundo. Tudo para ela.
Charlie assentiu, respirando pesado.
– Você tem motivos para odiar a Quinnie, sério. Mas acho que deveriam sentar e conversar melhor sobre isso, até hoje só foram olhares odiosos e patadas, mas já que o mundo já virou essa desgraça que é atualmente, por que não joga tudo para o ar e tenta ouvir o que ela vem planejando dizer há dias? – Rachel fitou-a com um misto de curiosidade e esperança , Charlie apenas riu de lado ao arquear uma sobrancelha. O mesmo movimento irritante que Quinn fazia involuntariamente ao achar algo estranho, que também estava na genética de Beth, que fazia de vez em quando. –
A diva levantou e foi em encontro com Beth, desejando interromper a garotinha e sua árdua tarefa de aprender andar corretamente, quando foi impedida por Charlie, que segurou-a pelo pulso gentilmente.
– Acho que é bom ir só você, eu fico de olho nela, relaxa. – Sorriu amigavelmente, um sorriso que nunca veria no rosto de Quinn, mas poderia imaginar com base na gêmea mais velha. –
Fitando os olhos verdes meio dourados um tanto incerta, por fim assentiu. Antes de Quinn ao menos se tornar uma boa mãe, Charlie fora de grande ajuda com Beth.
Respirando fundo, a pequena judia deu as costas para a loira fadada a resolver o que precisava com Quinn de uma vez por todas.
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A punk estava terminando de arrumar suas roupas na pequena cômoda rústica do quarto que Sam lhe arrumou, quando escutou batidas na porta. Bufou revirando os olhos, achando que era Santana novamente, acusando-a de roubar a maldita pasta de dente.
– Santana, desgraça, eu não peguei a porra da sua pasta de dente! – Ralhou sem olhar para trás, Rachel segurou o riso, porém logo voltou com a expressão séria. O assunto que foi debater era algo sério. –
– Sou eu. – Sussurrou, encostada no batente da porta. Quinn virou-se e analisou Rachel, o pescoço torcido para trás deixava a tatuagem à mostra, a maquiagem de gato do Peter Criss, o baterista do KISS, que cantava a música Beth, e uma frase retirada da música estava escrita logo em baixo. –
– Olá. – Respondeu sem animo, logo voltando a atenção para suas roupas. –
Tudo ficou em silêncio. Quinn queria falar algo, mas só não sabia o que dizer. Rachel sabia o que queria, só não sabia como dizer. Ela se sentia quebrada. Mesmo sendo a Quinn antiga e cafajeste na época, doía, e muito, até hoje, lembrar-se que foi abandonada quando mais precisava. Isso era imperdoável.
– Por quê? – Ela sussurrou, novamente sentindo os olhos arderem. Não. Não queria chorar agora. Não queria ser fraca como fora desde o inicio, ao menos, não na frente de Quinn. –
– Por que o quê? – Indagou, completamente inconsciente da verdadeira atmosfera criada naquele quarto. –
– Por que abandonou Beth? Comigo eu entendo, nós nunca tivemos nada mas ... Você ... Você me abandonou grávida. – Ela disse mais alto do que o desejado, as lágrimas agora incontroláveis ofuscavam sua visão. –
Quinn permaneceu imóvel, de costas para a porta, seu estado não muito diferente do de Rachel.
– Me desculpe ... – Sussurrou. – Me desculpe ... – Repetia, aumentando consideravelmente o tom de voz. –
– Te desculpar!? Há – Riu sarcástica. – Você acha que o que você fez é perdoável? ... Só me diga o por quê! – Foi um grito consideravelmente alto, agora a diva debulhava-se em lágrimas, escondendo o rosto com as mãos. –
– Taylor Lane. – Respondeu, sua voz pateticamente falha . – Foi minha primeira e única namorada. Depois da nossa primeira vez, aquela vadia deu um jeito de tirar fotos minhas e todos ficaram sabendo sobre minhas condições ... Aqueles bastardos ... Eles me espancaram, acho que com todos esses meses no fim do mundo, foi lá o mais próximo que eu já cheguei da morte. Fui parar no hospital, quase todos os ossos quebrados. Você acha que é fácil gostar de alguém, sempre tendo medo de que essa pessoa pudesse te apunhalar pelas costas? – Ela virou-se para Rachel, os olhos verdes como os de Beth estavam avermelhados, lágrimas escorriam ao lembrar-se do acontecido. –
– Meus pais me mudaram de escola, e eu só sou assim – Apontou para os piercings, o cabelo colorido já desbotando e as tatuagens visíveis pela regata. – Por que na verdade, eu odiava o mundo depois daquilo. Eu sofri quando sobe que você estava grávida, mas eu não quis me prender com ninguém, se todos parassem de me achar a ‘punk fodona’, talvez eu voltasse a ser aquela garotinha de óculos patética. Eu fui egoísta com você, Beth e todos os outros, mas não pense que mesmo assim, por um misero segundo dessa merda de vida, eu não deixei de pensar em vocês, tá bem? –
Rachel quis gritar. Quis bater em Quinn, pois sabia que era mentira. Ou queria convencer-se disso. As duas já não se continham com as lágrimas, Rachel com a expressão sofrida, Quinn com a expressão dura, ela odiava a si mesma, odiava seu passado, e principalmente, odiava aquele mundo.
Ela aproximou-se de Rachel, e com o toque firme porém suave, segurou-a pelos ombros, o castanho aprofundou-se no verde. E quando menos esperava, Quinn fez o impensável; Uniu seus lábios, encaixando-se lentamente ao corpo pequeno. Uma chama se acendeu naquele quarto.
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