Unchained Melody
16 In the next day
Notas iniciais
Capítulo 15
Era sábado e a família Fernandes almoçava reunida na casa de Helena. Comentavam o jantar da noite anterior. Todos eram só elogios ao namorado de Chica, à sua filha e também à prima dele.
Durante o tempo em que falavam de Marina, Chica observava a filha mais nova. A mãe ainda não tinha conseguido absorver o que havia constatado durante o jantar e quando Clara se levantou afirmando precisar ir embora porque tinha muita coisa a fazer em casa antes de um coquetel de negócios que iria mais tarde com Marina o olhar que Chica dirigiu a ela foi um misto entre indagação e acusação. Na mesma hora a filha entendeu que a mãe não passara alheia à noite passada. Gelou, pois sabia como tudo devia ter parecido aos da mesma e não poderia lhe tirar a razão, afinal de contas, ela estava traindo o marido, com uma mulher. Mas, tudo era tão mais que isso. Fugiu, foi a única coisa que lhe ocorreu fazer.
Marina passara o dia aguardando ansiosamente a chegada da noite. Havia saído por algumas horas, mas, no mais seu sábado havia sido constituído de espera.
Quando convidara Clara para acompanhá-la naquele coquetel a primeira reação da dona de casa foi negar-se.
_Eu, Marina? No meio de um monte de gente importante? Não, não tenho jeito pra isso. Acho que não sei nem como me vestir pra esse tipo de coisa.
_Bom, eu poderia dizer que você fica melhor sem vestir nada mesmo, mas...
Disse abaixando o tom de voz, pois estavam trabalhando e as meninas estavam presentes.
_Pára com isso.
Respondeu a assistente corando.
_Mas, agora é sério. Vem comigo por favor. Para com essa ideia de pensar que você não tem jeito pra isso ou pra aquilo. Que bobagem.
Clara pareceu pensar por alguns segundos.
_Heim? Heim?
_Como se eu conseguisse dizer não pra você.
Marina já comemorava, e a outra continuou:
_Mas eu preciso saber o dia e a hora direitinho por causa do Ivan, você sabe.
Marina assentiu alegremente.
Convidara-a porque a cada dia sentia mais necessidade da presença dela, além de outros motivos ainda alheios ao conhecimento da mesma. No entanto, a ansiedade que tomava conta de Marina agora se devia ao rumo que a estória delas poderia tomar a partir daquela noite. Aquela noite lhes seria decisiva, para o bem ou para o mal. Não haveria mais saída.
O motorista da fotografa estacionou em frente ao prédio de Clara pontualmente as 19:00. Iriam a um coquetel de negócios, em razão da “média” que Marina tinha que fazer as vezes para garantir patrocínios e eventuais clientes publicitários. “Uma chatice” sempre pensava ela. Porém, dessa vez, agradecia internamente sua realização, seria perfeito para colocar em prática o que tinha em mente ou pelo menos parte do que tinha em mente. Clara a enganara quando lhe disse não saber se vestir para “esse tipo de evento” lembrava exatamente as palavras dela. Estava maravilhosa. Deixou a fotografa babando quando surgiu, saindo pela portaria do prédio, contudo, quando entrou no carro se sentando ao lado da outra foi a sua vez de maravilhar-se. Marina estava um escândalo. Sem contar o cheiro que exalava de sua pele. Era novo, diferente e por estar em um ambiente fechado, tomava conta de toda a atmosfera ali dentro.
O perfume novo aguçara, imediatamente, os sentidos da dona de casa, ela achara-o tão perfeito que pensou seriamente na possibilidade de desistirem do programa daquela noite e fossem a outro lugar onde ela poderia desfrutar livremente da portadora de um aroma tão delicioso. Resolveu parar de pensar nessas coisas. Ainda era muito cedo para se deixar levar por esses pensamentos.
Além do efeito causado pelo perfume de Marina, Clara ainda teve que lidar com o quanto se sentia intimidada dentro daquele carro, a beleza de Marina, sua elegância e imponência, o ar sedutor a fazia sentir-se assim, nunca se acostumaria.
Marina por sua vez, comportava-se impecavelmente objetivando a inquietação da outra. Precisava perturbá-la, atormentá-la. Seu objetivo naquela noite era mexer com sanidade de Clara e o levaria a extremos. Faria de si a tormenta a qual, se tudo desse certo, ela jamais conseguiria se livrar.
O outro motivo, alheio ao conhecimento da assistente, que levara Marina a convidá-la era que a fotografa compareceria a esse evento porque buscava estabelecer contatos em relação a um futuro patrocínio para a exposição que começava a ser pensada por ela.
A verdade é que Marina notara uma certa mudança no próprio trabalho desde que Clara passara a integrar sua equipe. Sua maneira de fotografar havia mudado e consequentemente isso refletira no resultado de suas fotografias. A fotografa percebeu que tal fato se desencadeara, a princípio, pela interferência da outra em alguns aspectos, como por exemplo, na luz. As vezes Marina pedia para que Clara direcionasse a luz para um lado e a mesma direcionava-a para outro e antes que Marina tencionasse corrigi-la acabava dando-se conta de que o ângulo ficara melhor daquela forma. Por isso, com o tempo passou a pedir a opinião da assistente antes de se decidir sobre esses detalhes. O resultando foi, na visão de Marina, perfeito. A partir dai para a fotografa era como se seus olhares fossem complementares. Recebera, inclusive, elogios, além dos que já estava acostumada a receber, em trabalhos que fizera para a publicidade. Partiu disso a ideia de uma nova exposição, que revelasse esse novo olhar, aliás, que revelasse um olhar que fosse delas, em conjunto, um trabalho em parceria. Contudo, não havia dito nada à outra porque a ideia ainda não era mais que apenas mera intenção. Existia um longo caminho pela frente e a fotografa ainda nem estava certa de que daria certo, embora quisesse muito que desse. Por isso, era vital, também, que apresentasse Clara a algumas pessoas.
Durante o evento tudo ocorreu como a fotografa esperava, aliás, até melhor. Apresentou Clara a muitas pessoas e a mesma se saiu muito bem. Foi articulada ao se expressar além de que sua beleza chamava atenção. O que deixou Marina, no fundo, envaidecida mesmo que não tenha podido apresentá-la como sua mulher. No entanto, mais do que falar de negócios, naquela noite as duas também se divertiram até porque surgira, de última hora, uma necessidade mais urgente que qualquer exposição, era o destino delas que estava em jogo, Marina precisava agir.
Como era um local totalmente impessoal onde não havia presença de pessoas que pudessem saber que Clara era casada ou que se importassem com o tipo de relação das duas, puderam viver coisas que não lhes era habituais, como beber um pouco mais ou dançar juntas, por exemplo. É claro que Marina aproveitava todas as oportunidades que tinha para provocar a outra, quer fosse diretamente com palavras, quer fosse com gestos e olhares, no que obviamente sempre obtinha êxito, sempre obtivera no quesito: Perturbar Clara.
A certa altura, estando as duas já um pouco altas em decorrência da bebida, Marina encarrava a assistente fixamente durante uma dança, seu olhar era apaixonado, transmitia veneração Dançavam uma música lenta, “The way you look tonight” num canto mais afastado em que o ambiente se mantinha à meia luz, seus corações batiam descompassados, seus corpos dividiam a energia do amor que lhes transbordava. Nunca se esqueceriam daquele momento, era a primeira dança, a primeira vez que o amor delas não era vivenciado apenas entre quatro paredes. Por vezes diante do olhar fixo e brilhante da fotografa, Clara chegava a corar e abaixava a cabeça fitando os próprios pés ou levantava-a observando o teto tentando desviar os olhos dos dela, pois a figura de Marina a emocionava sem que ela conseguisse controlar ou disfarçar. As vezes chegava a pensava que se não o desviasse da figura a sua frente começaria a chorar. Já Marina ia além, se imaginava dançando daquela forma com a assistente nos mais variados e românticos locais do mundo. Os que ela conhecia e queria apresentar a mulher amada e também os que não conhecia e que sonhava que conhecessem juntas. A fotógrafa sabia com todas as forças de seu ser que aquela a sua frente era a mulher com quem desejava dividir a vida. Nesse momento seu peito chegou a apertar e o medo dominou-lhe como nunca havia antes, sempre fora tão segura. “E se Clara não tiver a mesma vontade”? Aterrorizava-se pensando. Contudo, se assim fosse essa noite ela saberia, não viveria com a dúvida ou o medo por muito mais tempo.
Em um outro momento em que se encontravam próximas, porém, não tanto quanto antes, Marina encarrava a assistente fixamente de novo, no entanto, dessa vez, de maneira diferente. Seu olhar era outro. Imponente, sedutor, sexy. Fazia com que Clara se sentisse nua. Sempre que a fotografa a olhava daquele jeito Clara sentia como se ela pudesse desvendar seus segredos mais íntimos. O que, nesse caso, eram todos relacionados à própria Marina. Concluía que ela apenas com o olhar era capaz de lhe provocar um incêndio de dentro para fora, como se entrasse em autocombustão.
Após tentar mais uma vez sem sucesso se desviar daquele olhar que a invadia tão profundamente desnudando-a, Clara resolveu falar, rindo de si mesma e tentando censurar a outra:
_Eu não sei o que eu faço com você quando me olha desse jeito.
_Pois, eu sei. É simples.
Falou virando os olhos para o teto e num tom divertido.
Chegou perto do ouvido da outra e sussurrou, dessa vez, em um tom que era pura sensualidade:
_Me castiga.
O que para Clara soou tão indecente quanto um “Me come” ou um “Me fode” ela sentiu o ar lhe faltar, o clima daquele espaço de repente ficou pesado. O sexo, entre as pernas pulsou como se seu coração tivesse escorregado direto para lá. Marina a enlouqueceria. Estava certa disso, não havia a menor possibilidade de continuar convivendo com ela e conseguir preservar a própria sanidade.
_Você é muito vagabunda mesmo, né?
_Você ainda não viu nada.
Disse isso com olhar de promessa. E saiu, dando as costas.
Deixando uma Clara totalmente atordoada atrás de si. Quando a assistente a alcançou, ela conversava distraidamente com algumas pessoas, como se nada tivesse sido dito segundos atrás. Apresentou-a gentilmente aos outros, e seguiu conversando, atitude que fez com que Clara tivesse, obrigatoriamente, que, ao menos, tentar se fazer sã. O que, em absoluto, não desligou, dentro dela, o mecanismo que a fotografa tinha, propositalmente, acabado de ligar. Dele saia fogo, um fogo eterno e desesperado que a consumia e que precisava ser apagado com frequência.
Saíram de lá ainda era relativamente cedo, como Marina previra. Não passando das 23 horas. Quando entraram no carro e antes que pudesse dizer ao motorista aonde iriam, a fotografa se dirigiu à mulher ao seu lado:
_Clarinha, sei que você tem que ir pra casa, mas é que eu precisava muito te mostrar uma coisa lá no estúdio.
_Me mostrar uma coisa? Sei.
Falou Clara prevendo as más intenções da outra.
_Não, é sério. É coisa de trabalho, eu podia esperar até segunda, mas, é que não me contenho. Queria muito que você visse, me desse sua opinião.
Respondeu Marina com seriedade.
Ao que a outra, no fundo, se decepcionou. Esperava mesmo que as intenções de Marina fosse as piores. Mesmo que soubesse que não poderia se demorar.
_Bom, tudo bem. Mas, só se você prometer que realmente vai ser rápido. Deixei meu filho com a Rosa e o Cadu ficou de buscá-lo quando chegasse. Há essas horas eles já devem estar dormindo, mas, você sabe. Não posso passar a noite fora. Ainda não.
Olhou fixamente para a outra quando disse essa última parte. E Marina surpreendeu-se ao ouvi-la.
Era a primeira vez que Clara lhe dava qualquer satisfação em relação a própria vida ou ao casamento.
Partiram conversando despretensiosamente a caminho da mansão da fotografa. E embora, cada uma estivesse naquele momento desenvolvendo desfechos alternativos para a conversa indecente que haviam tido há minutos, eles permaneceram apenas na mente de cada uma. Nada foi feito naquele caminho. Não se beijaram, não se atacaram, não se provocaram. Ao menos não abertamente. Entretanto, tinham uma imensa vontade uma da outra, ao ponto de suas bocas salivarem. Mas, aquele ato de conversarem como se nada estivesse acontecendo dentro delas fazia com que o calor já habitual que as possuía aumentasse a cada metro entre onde estavam e a casa da fotografa no fim do caminho. Por isso, não se tocariam. Havia um jogo silencioso entre elas e elas gostavam dele, gostavam muito.
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