Unchained


Parte I


Existem dias e dias. Em alguns o sol brilha e aquece os ossos em uma manhã tranquila e sossegada. Junto de uma xícara de café e o cantar dos pássaros, você toma o cereal preferido e assiste o telejornal matinal. Em outros até um pequeno raio que escapa entre as cortinas é o suficiente para irritar, para lembrar que mais um dia está começando e você não é capaz de impedir, para Edward Miller, na maioria dos dias, só existe a segunda opção.


Metrópolis é a cidade do futuro, o lugar onde jovens buscam oportunidades e a esperança voa pelos céus vestida de azul e capa vermelha. Controvérsias a parte, Super-man faz um bom trabalho em impedir que a merda atinja níveis estratosféricos, geralmente jogando os vilões o mais longe possível do centro populoso e os espancando.


Mas os danos colaterais dessas lutas? Basta dizer que as companhias de seguro tentam a anos catalogar Meta-humanos como desastres sem controle, eles pagam o mesmo carro toda semana a algum pobre taxista indiano que só quer ganhar a vida e por isso sobem as taxas, o custo de vida aumenta e os salários se mantém. O governo diz que não há inflação, as empresas dizem que não há como pagar salários maiores, existem muitas leis trabalhistas impedindo-as de recompensar corretamente os funcionários, elas atam suas mãos.


A cidade então? O prefeito pode dar ao Super-man quantas chaves da cidade ele quiser, no fim do dia, mesmo que ele ajude na ‘limpeza’ as obras são pagas com dinheiro dos contribuintes, e na periferia onde Edward mora? Essas obras não acabam nunca, o lixo demora a ser recolhido e dependendo da sorte, a água é cortada e só volta depois de cinco dias, um maldito robô gigante esmagou uma adutora de água. A parte central da cidade recebendo prioridade como sempre no reparo não sente isso, não sente os engarrafamentos devido a obras nas pistas ou nas linhas de trem destruídas.


Pelo menos o outro lado da baía não esconde isso, Gotham em toda a sua perversidade não finge ser mais do que realmente é, um antro do crime e de loucos psicóticos que tentam matar uma família de morcegos. E ao se olhar bem, Metrópolis é igual, uma cidade que se consome de dentro pra fora só apenas fingindo ter um sorriso podre no rosto.


Toda a manhã em que Edward se arrasta para fora da cama, o despertador lembrando-o de um de seus empregos, ele se lembra também dos dias mais tranquilos quando ele e sua mãe moravam em uma cidade com menos problemas.


Para o inferno com o que dizem de sua cidade natal, Detroit era dez vezes mais tranquila e segura, e mesmo assim o título de cidade do amanhã pesou e muito na decisão de se mudar com sua mãe por um tratamento melhor para sua rara forma de Leucemia.


Jane Miller era durona, isso era fato. Capitã das forças especias, serviu junto de seu irmão gêmeo Willfrith em mais países que podia dizer.


Cada partida pesava em seu coração e de seu filho, a possibilidade de não voltar sempre batendo à porta, aniversários e apresentações escolares sendo apenas histórias contatas por terceiros e não vistas com os próprios olhos. Mas Jane sempre conseguiu, sempre voltou com um sorriso no rosto e um abraço que significava o mundo para seu filho.


Jane Miller sempre foi forte, até não ser mais. Com a morte dos pais, a fraqueza que era impossível de esconder após um tempo e um filho para cuidar, Jane se aposentou das forças armadas. Seu salário e suas economias eram razoáveis ela pensou, daria para se tratar… Não demorou muito para a noção dos gastos hospitalares ser sentida em sua casa.


E por isso aos doze anos, Edward tomou sua decisão, ele faria tudo que pudesse para ajudar sua mãe. Com muito esforço, e com muitos mais pedidos de Jane, Edward se formou na escola secundária enquanto empilhava dois empregos de meio período em dias alternados. Seu tio Willfrith também ajudava o máximo que podia, ele literalmente dava tudo o que juntava e sumia por mais dois meses atrás de mais dinheiro em sua vida desregrada.


Não haviam condições de cursar uma universidade para Edward, e ele aceitou isso no dia que conseguiu um emprego integral na produção de uma metalúrgica do grupo Wayne aos dezoito anos. Não era um salário espetacular mas matinha as contas em dia. O segundo emprego, noturno como atendente de loja de conveniência de madrugada era o extra, mas era esse extra, quatro vezes por semana que garantia dinheiro suficiente para água quente caso algum imprevisto acontecesse. O pequeno bico em uma oficina de carros nos fins de semana, esse aí garantia o aluguel se o salário atrasasse.


Não havia razão para tomar café da manhã em casa, era perda de dinheiro e bons dez minutos a mais de sono necessário. Não havia razão para tomar banho antes de sair, ele fazia isso quando chegava todas as noites, fazer de manhã era outro desperdício de dinheiro e tempo. E mais uma vez não havia razão para ter carro ou pegar um ônibus para o trabalho quando em uma bicicleta usada e com pneus sete vezes remendados ele cortava todos os sinais de trânsito ao ir trabalhar, o vento no rosto ajudava a acordá-lo.


Com os olhos pesados e com grandes bolsas roxas em baixo dos olhos, Edward se troca no vestiário da empresa, toma dois copos de café grátis no refeitório, ambos conseguidos após muitas brigas sindicais. Começa seu trabalho depois de marcar seu ponto no relógio, nem um minuto atrasado mas nem um segundo adiantado.


Ele e mais algum colega alinham a grande chapa de aço no molde, contam até três, esperam o sinal sonoro e apertam juntos um botão cada para acionar a grande prensa. Com um golpe violento a chapa de metal é embutida em um molde e um para-lama novo em folha é retirado da prensa, colocado em palete que irá para expedição embalar. Mais uma chapa é retirada da pilha e alinhada, o trabalho recomeça sempre da mesma forma, sempre tendo novas chapas sendo abastecidas antes mesmo que acabem e os trabalhadores tenham um mísero tempo ocioso.


Meia hora de almoço com uma refeição no local é tudo o que eles ganham, um bônus de produção também, mas desde os primeiros meses Edward aprendeu a não forçar demais o ritmo de produção pois no mês seguinte a cobrança será maior, e os bônus cada vez mais impossíveis. Os empregados acordaram entre si buscar a meta apenas na época das festas de fim de ano.


É fácil perder esses míseros trinta minutos de pausa, mas os operários em geral os aproveitam bem. Cinco minutos ou menos limpam montanhas de comida nas bandejas, em cada canto onde os olhos dos chefes e encarregados ignoram, papelões se espalham com homens deitados cochilando ao som da batida das prensas e seu tremor no chão.


E exatamente quando o sono o atingiu, ainda faltando vinte e dois minutos e trinta e quatro segundos de pausa, o velho telefone de Edward tocou, um toque diferente de seu alarme pré-programado para despertá-lo.


“Alô?”. Ele pergunta ainda deitado e grogue de sono, com um braço sobre o rosto para tampar a claridade.


“Ed, sou eu, vai trabalhar hoje naquela loja?”. A voz que Edward suspeita ser de seu tio pergunta do outro lado da linha.


“Hoje não, porque?”.


“Tem um negócio que vai rolar, e estamos precisando de mais gente”.


“E o que eu tenho com isso?”.


“Você não entendeu garoto, os russos idiotas estão trazendo dois Meta-humanos, DOIS. O chefe contratou um mas está difícil achar algum na cidade que não está ocupado no momento”.


“Preso… ele não conhece nenhum que não esteja preso, você quis dizer”. Edward completou.


“É isso também. De qualquer forma, eu pensei em você, não ousei falar com o chefe sobre isso sem ter sua confirmação mas ele deve pagar bem, pelo menos o suficiente para você largar esse seu emprego noturno durante um tempo, ou no melhor caso ele pode te contratar”.


Nesse ponto Edward se sentou, e mesmo sussurrando seu tom foi duro. “E eu lá tenho cara de quem quer trabalhar para a Intergang?”.


“Vamos Ed, sua mãe não precisa saber. Eu sei que ela nunca te quis seguindo uma vida perigosa, mas você tem dons que deveria usar para algo! Você tentou seu melhor, você tentou ser um bom homem seguidor da lei e o que isso te trouxe? Absolutamente nada!”. Willfrith disse do outro lado da linha e suas palavras pesaram em Edward.


Aproveitando o silêncio que conseguiu, Willfrith suspirou e voltou a falar. “Olha garoto, eu sei como é não sair do lugar, sei a sensação de tentar correr para frente em um caminho de lama até os joelhos. Quando deixei o exército eu… eu não estava nas melhores condições e talvez ainda não esteja, você sabe disso, sua mãe sabe disso. Ser mercenário é a única coisa que eu sei fazer e algum dia desses vai ser meu fim, mas você? Você pode fazer mais do que faz, pode ser mais, pode mudar a vida das pessoas, então comece mudando a sua!”.


Edward ficou pensativo mais alguns instantes e dessa vez seu tio não falou mais, simplesmente esperando sua resposta, deixando as palavras pesarem. “Vocês vão fazer o quê essa noite?”.


“Uma troca de mercadorias, jogo rápido e com você, teremos dois Metas do nosso lado para equilibrar o jogo”. Willfrith disse e Edward quase o imaginou sorrindo do outro lado da linha.


“Miller! De volta ao trabalho!”. A voz severa do encarregado gritou antes que Edward pudesse responder a seu tio.


Jonah Martelli era um baixinho, gordo e careca mas que gostava de gritar com os funcionários. Assim que o ouviu, Edward desligou sua ligação e viu as horas, franzindo o cenho ele percebeu que sua pausa ainda não havia acabado.


“Jonah, ainda faltam vinte minutos da minha pausa”.


“Você volta a trabalhar quando eu disser, entendeu garotão?”. Jonah respondeu e encarou Edward que havia se levantado, havia ali uma grande diferença de altura.


“Vai fazer alguma coisa garoto? Vai?”. Jonah provocou mais uma vez e empurrou Edward. Contente em não receber uma resposta quando o jovem bateu as costas na parede, Jonah riu com escárnio. “Foi o que eu pensei, agora para o trabalho, já! Arthur faltou e a prensa 3 está vazia!”.


O maldito encarregado se foi, provavelmente a procura de mais alguém para intimidar. Edward bateu a cabeça na parede atrás de si e respirou fundo algumas vezes para se acalmar. Não era a primeira vez que ele teve de tolerar esse tipo de atitude para manter seu emprego e provavelmente não foi a última, não foi a primeira vez que ele disse a sua mãe que tudo estava bem na época da escola quando não estava nada bem, e o fato que com o mínimo dos esforços Edward podia explodir a cabeça de Jonah não o ajudava a se acalmar, na verdade esse tipo de pensamento o preocupava.


Se arrastando de volta a sua prensa, Edward marcou seu ponto e voltou ao trabalho monótono com as palavras de seu tio ecoando cada vez mais em sua cabeça.


‘Você tem poderes que podem mudar o mundo, então comece mudando a sua vida!’, e Edward jogou sua última ressalva ao vento quando o rosto cansado de sua mãe apareceu em sua mente, ele mudaria seu destino hoje e o dela também, bom ou mau ele abraçaria e aceitaria as consequências de suas ações, pois Edward Miller estava cansado da vida.