Una lección de vida
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Os dias em casa foram melhores. Daniela não tinha mais a energia de antes, mas ainda tinha uma vida de brincadeiras como qualquer criança. Os horários das refeições eram bem rigorosos, assim como os de dormir, e a pequena só reclamava quando tinha que usar a máscara algumas horas por dia. Fernando chegava apenas à noite e jantava com a família, já Cecília passava o dia em casa. Aos poucos a rotina foi voltando e Daniela tinha também algumas aulas por semana, para não se cansar.
Mãe, filha e babá também faziam passeios juntas. Foram ao shopping, cinema, parques e sorveteria. Os poucos momento que Fernando estava em casa, Cecília influenciava o contato pai e filha, o que não dava muito certo por parte de Fernando. O casal já não era como antes. Dormiam ainda no mesmo quarto, mas mal se tocavam ou conversavam. Fernando ficava cada dia mais frustrado com isso, amava demais a esposa e essa rejeição o matava por dentro. Até o dia que ela foi direta e seca com ele.
— Agora vê como Daniela se sente? Isso é provar do próprio veneno.
Ele pensara nisso por dias. Sua esposa estava certa, mas ele não via como resolver o problema. Na teoria parecia ser simples, mas na prática não era tão fácil assim. Daniela dava aberturas para um relacionamento normal de pai e filha, o problema era que Fernando não via essa abertura. A coisa era que ele morria de medo de dizer algo errado à menina, de não fazer direito, então ignorava para não magoá-la. Mas o que ele não sabia era que já estava fazendo errado. Não só com ela, mas também com a esposa. Sua promessa não cumprida era o que mais magoava a esposa, e ela não responderia por ela se sequer visse a decepção no olhar da filha que em sua inocência achava que o pai não ficava com ela por trabalhar demais.
Algo inusitado aconteceu enquanto ele se arrumava para mais um dia na empresa. Cecília havia saído cedo com Daniela para tomarem um sol matinal. Ouviu batidas na porta enquanto fazia o nó na gravata.
— Entre.
Madelaine surgiu atrás da porta e a fechou atrás de si. Observou o patrão por alguns minutos, antes do mesmo virar-se para ela com o cenho franzido.
— O que foi, Madelaine? Veio aqui apenas para me olhar?
— Você não se dá conta, Fernando? — disse direta.
Fernando arregalou os olhos de surpresa, mas logo se recompôs.
— Como ousa falar comigo assim, Madelaine? Quem pensa que é?
— Sou a mesma que trocou-lhe as fraldas quando pequeno. — disse séria.
— E o que isso tem a ver com você me dirigindo a palavra dessa forma?
— Sabe, Fernando, lembro-me bem quando você era apenas um garotinho no meio daquela casa enorme e sem ter com quem brincar. — deu uma pausa para ver a reação do patrão. Este estava sério — Seus pais me contrataram assim que nasceu, então conheço sua família há anos. E hoje, é como se eu estivesse tendo um déjà vu dentro desta casa.
Um silêncio da parte dos dois se instalou no cômodo. Fernando se lembrava perfeitamente de sua infância. Madelaine continuou.
— Você era uma criança triste, Fernando. Tive que consolá-lo noites seguidas, enquanto você se lamentava pela família que tinha. E as vezes em que você se arrepiava só em ouvir seu pai lhe chamando para conversar. Ou quando sua mãe saía e você ficava sentado na escada da frente esperando que ela voltasse para brincar com você, mas ela demorava, e você passava o resto do dia sem vê-la.
Fernando virou-se de costas para Madelaine. Aquela conversa o deixava mal.
— Você sabe muito bem o quão ruim era aquela vida, o quanto você sofria. Mas sabe o que você não sabe? — ela deu uma pausa e respirou fundo — Que Daniela vive a mesma vida que você viveu.
Fernando sentiu os olhos arderem. Aquele sentimento de abandono e rejeição que teve durante toda a infância e adolescência vindo a tona como uma enxurrada. Aos 14 anos, ele odiava os pais com todas as forças, sua vontade era de fugir e nunca mais voltar. Não tinha amigos, não tinha a presença paterna para lhe aconselhar, só havia Madelaine. E agora a verdade lhe era jogada em cima sem pausa para assimilar tudo. Ele merecia, e sabia disso. Aquela vida que teve, onde sofreu e chorou tanto e não desejava para ninguém, estava acontecendo bem debaixo de seu nariz, com sua própria filha. Se sentia um miserável, um merda por isso tudo acontecer.
Lembrou-se das vezes que seu pai lhe chamava para dar bronca e pegava pesado, não batia, mas agredia verbalmente, o que é pior, pois as palavras machucam mais que um tapa. E agora sua filha passava por isso. Sentiu ódio dos pais e agora corria o risco da filha odiá-lo também. Quis se bater mentalmente, a raiva o tomando por inteiro. Raiva de si mesmo, raiva dos pais, raiva da vida que teve e passava adiante.
Olhou Madelaine soturnamente e deixou-se desabar ali mesmo.
— Tive que fazer isso, Fernando. Só assim para você abrir os olhos e ver o que se passa dentro de sua própria casa. Lhe conheço há tanto tempo e sei que não és uma pessoa ruim. — Madelaine aproximou-se do patrão e lhe deu um abraço.
O mesmo retribuiu no mesmo instante. Abraçou aquela pessoa que esteve ao seu lado em todos os momentos, a única que não lhe deu as costas, e agradecia aos céus por sua filha ter tido ela ao seu lado também.
— Obrigado. — disse com a voz trêmula — Obrigado, por tudo.
Madelaine nada disse, apenas se afastou e lhe acariciou o rosto, limpando as lágrimas e sorriu.
— Vejo aquele menininho neste momento. — Fernando riu pelo nariz — Não há de quê, querido. Agora limpe esse rosto que você tem uma família maravilhosa que lhe espera.
No momento em que terminou de descer os degraus, a porta da frente se abriu revelando Cecília e Daniela com sorvetes nas mãos. A pequena sorriu assim que viu o pai. Fernando, sem aviso prévio, correu até a filha e a levantou nos braços, abraçando-a fortemente enquanto soluçava. Daniela se assustou no início, mas logo deixou cair o sorvete e envolveu seus bracinhos em volta do pescoço do pai enquanto lágrimas cobriam seu rostinho pálido.
— Desculpe, filha. Desculpe! Desculpe! — murmurava torpemente.
Daniela apertou os bracinhos e assentiu. Fernando a afastou um pouco e olhou seu rostinho, querendo memorizar cada parte. Daniela passou suas mãozinhas pelo rosto do pai e sorriu, beijando-lhe a bochecha. Fernando sorriu e olhou em volta, vendo uma Cecília sorrindo com lágrimas por todo o rosto. Ele a chamou com a cabeça e os três se abraçaram juntos. Fernando murmurava "desculpa" enquanto apertava sua pequena família, mas para nunca mais soltar.
No alto da escada, Madelaine assistia tudo com a sensação de dever cumprido. Ela fez o certo em colocar o patrão na parede, pois só assim para fazê-lo enxergar aquilo que estava perdendo aos poucos. Fernando a olhou pelo vão entre as cabeças da filha e da esposa escondidas em seu pescoço e sorriu, quando Madelaine pode ler em seus lábios um singelo "obrigado".
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