Notas iniciais
Hey :) Boa leitura.

— ...Então a princesa fechou os olhos e inclinou-se, dando um beijo no sapo. — dizia Madelaine.

— Eww! Que nojo. — Daniela franziu o nariz e depois riu, sendo acompanhada pela babá — Eu nunca beijaria um sapo, Laine. Eles são feios e nojentos.

— Nem se ele virasse um príncipe?

— Não, nem assim. Como eu iria saber se ele não estava mentindo e não estivesse mesmo enfeitiçado?

Madelaine riu, Daniela era uma menina muito inteligente e realista.

— Ok, senhorita desconfiada. Posso continuar a história? — Daniela assentiu sorrindo.

Daniela estava relativamente bem. As sessões de quimioterapia a deixavam cansada e enjoada, mas depois que dormia, acordava melhor e sorrindo. Cecília avisou na empresa que daria atenção somente à filha que estava doente. Alternava com Madelaine as noites no hospital, mas passava o dia com a menina.

Naquela tarde, deixou-a alguns minutos com Madelaine enquanto ia em casa buscar roupas, era sua noite no hospital. Sua relação com a filha estava cada vez melhor, as duas brincavam, riam, se divertiam juntas. Daniela estava amando aquela atenção, não sabia como era bom ter a mãe assim perto dela. A todo momento davam beijos e abraços. Fernando, depois daquela conversa com a esposa, passou a visitar a filha, mas ainda não demonstrava carinho, e dava a impressão de que estava ali por obrigação, não por vontade própria ou preocupação. E isso estava irritando Cecília profundamente. Parecia que a conversa que tiveram havia sido em vão, pelo menos ela estava tentando mudar. Qualquer um sabia que a mudança não viria de um dia para o outro, era uma questão de tempo, mas Fernando sequer se esforçava, para ele sempre estava tudo bem, quando na verdade não estava.

Assim que o motorista parou em frente a mansão, Cecília saltou do carro e foi às pressas arrumar suas roupas, queria voltar ao hospital logo e ficar com sua menina. Aproveitou para tomar um banho e comer, pois mal se alimentava com a preocupação. O dia estava frio, então vestiu roupas quentes e separou um par de pijamas de inverno para ela e a filha. Já estava saindo de novo quando Fernando entrou em casa, o paletó sobre o ombro, a gravata afrouxada e a pasta nas mãos. Ele sorriu e foi em direção à esposa para lhe dar um beijo, porém a mesma virou o rosto, séria. Fernando bufou com o gesto, mas ignorou.

— Aonde está indo? — ele perguntou ao ver que a esposa carregava uma pequena mala.

— Hoje é minha noite no hospital. — disse seca, enquanto ajeitava os últimos detalhes.

— Hmm, ok. — ele deu de ombros — Volta amanhã cedo?

— Volto a hora em que minha filha estiver bem. — e saiu sem dizer mais nada.

Fernando suspirou quando Cecília bateu a porta de entrada com força. Subiu as escadas e foi ao quarto tomar banho. Cecília já o tratava assim há dias, trocavam poucas palavras, quase não a via em casa, não haviam mais trocas de carinho entre eles e isso o deixava frustrado. Simplesmente não conseguia ter a mesma determinação que a esposa ao se tratar de Daniela. Amava a filha, mas a demonstração não vinha, ele travava ao pensar em abraçá-la. O modo como tratava Daniela era o mesmo que ele fora tratado quando criança. Seus pais o deixavam sob cuidados de outros, nunca frequentara uma escola e não tinha amigos de sua idade. E hoje era um homem que cresceu bem na vida e tinha benefícios, e passava o mesmo à filha, querendo transformá-la em uma pessoa tão boa quanto ele era. Não boa em sentimentos, mas sim em se dar bem na vida, financeira e socialmente. Para ele, conviver com outras crianças não era sinônimo de ser uma verdadeira dama, pois a influência infantil era degradante. Ele não admitia que Daniela tivesse atitudes infantis, ela tinha que ser madura e educada, um comportamento excepcional. Por mais nova que fosse, a educação que tinha que receber era desde cedo.

Após trocar-se, se jogou na cama e o cansaço o venceu. Dormiu sem se preocupar ou pensar em mais nada.

...

— Mamãe! — Daniela exclamou contente ao ver Cecília entrar no quarto.

— Oi, querida. — deu um beijo na cabeça da filha — Como está?

— Um pouquinho melhor. — então o sorriso sumiu da expressão da pequena.

Cecília estranhou. Olhou para a babá, que encolheu os ombros em dúvida também. Se voltou para a filha.

— O que houve? Que carinha é essa, meu anjo?

Daniela suspirou antes de falar.

— Eu pensei que a senhora não vinha mais. — disse em um sussurro.

Cecília sentiu o coração apertar. Por mais que houvesse mudado com a filha, com certeza ainda haveria os momentos de inseguranças por parte da pequena. Para quem viveu sete anos sem a presença dos pais, qualquer saída era motivo de temer uma possível partida emocional. O maior medo de Daniela era estar vivendo um sonho e um dia acordar e voltar a ser tudo como era antes. Se uma criança não sente aquela segurança imprescindível para seu crescimento e formação, as incertezas e os medos da rejeição tomam conta de toda uma mente infantil.

— Eu prometi que voltaria, não foi? — disse olhando nos olhos da menina.

— Sim, mamãe. Desculpe. — abaixou a cabeça, envergonhada.

— Meu anjinho, não se desculpe. Eu é que peço desculpas. Aliás, devo pedir perdão. Perdão por não lhe dar atenção e amor que necessitas. — já estava chorando de novo.

Daniela estendeu a pequena mão que não estava com o acesso do soro e acariciou a bochecha da mãe, limpando as lágrimas que ali escorriam.

— Mamãe, não chore, não gosto de ver a senhora triste. — disse e tombou a cabecinha para o lado, dando um ar angelical — Eu desculpo a senhora, mamãe. Sei que era ocupada, a senhora não tem culpa disso.

A inocência de Daniela fez Cecília querer se chutar mentalmente. A filha estava ali desculpando-a tão docemente depois de sofrer tanto, depois de tudo o que passou. Tinha, com certeza, uma filha que não merecia ser sua. Era realmente uma lição para ela. Cecília pousou sua mão por cima da de Daniela ainda em seu rosto. A menina sorriu para a mãe e Cecília lhe retribuiu, antes de deitar-se ao lado da filha e abraçá-la fortemente até adormecer.

Notas finais
É isso... No próximo teremos boas notícias para a baixinha :) Até semana que vem, queridos. Mesmo quem não comenta, espero que esteja gostando :)