Umbra
12 Um sonho chamado Coh
Olhei para o cume das árvores, sentindo os fios de grama passarem entre meus dedos e a água deslizando pelo cascalho na ponta de meus pés. Minhas costas já se encontravam úmidas por causa do orvalho. Lilith mordia as unhas incessantemente, olhando fixamente a qualquer movimento do leito do rio.
–Eu te disse, não disse? Esse tal de Ahmset com certeza é quem estamos procurando. –disse encarando-a. Ela parecia não estar prestando atenção em nada que eu dizia, como se sua mente estivesse fora de seu corpo. –Nós...
–Não dá para entender isso. –ela disse finalmente, atropelando minha fala. –Quer dizer... A Faith sabe de absolutamente tudo que acontece nesse mundinho ordinário. Não consigo imaginar nós dois descobrindo o paradeiro do sétimo antes dela. –prosseguiu, não tirando os dedos da boca.
Eu já havia pensado sobre isso antes. Se Faith sabia onde ele estava, o que não duvido, porque não o trouxera de volta? Ou até mesmo, porque não nos contara? Essa dúvida me fez deixar minha descoberta em segredo. Devia haver algum motivo, mas não há nada que me venha à cabeça no momento. Era como se Ahmset estivesse sendo mantido longe da realidade, isolado em um chalé de madeira com apenas a sua própria visão do mundo como guia. Mas mais importante...
–O Ícelo... –comecei a dizer sentando-me de pernas cruzadas, sendo atropelado novamente.
–Não me venha falar sobre aquele pirralho. Há quanto tempo eles estão se encontrando afinal? E o que ele pretende fazer com o sétimo? Francamente aquele... –murmurou Lilith, dessa vez sendo interrompida por mim.
–Talvez esteja fazendo o mesmo que nós.
Ela me olha, finalmente deixando suas unhas de lado. “O que você quer dizer com isso?”, era o que os seus olhos parecia querer dizer.
–O que estou querendo dizer é que talvez ele só esteja tentando descobrir. Viemos aqui por curiosidade, fizemos perguntas para Ahmset que, apesar de nem todas terem sido respondidas, nos ajudaram um pouco aumentar nossa certeza. –falei tocando uma pedrinha gelada de cascalho com a ponta dos dedos, segurando-a e jogando-a na água.
–Desculpe Coh, mas eu não consigo imaginar isso! Se ele está querendo entender as coisas assim como nós que seja, mas não me sai da cabeça os outros motivos que ele tem por trás! –ela respondeu perturbada com seus próprios pensamentos.
–Ícelo não é um monstro. –disse sério.
–Bom, ele é o rei deles!
Ambos ficamos quietos por alguns segundos. Quando o clima de tensão se acalmou um pouco Lilith suspirou.
–Sei que posso julga-lo muito às vezes, mas estou falando sério. É impossível não haver segundas intenções quando algo assim é mantido em segredo. –ela disse com uma voz mais calma.
Dei um leve sorriso e coloquei minha mão sobre a cabeça dela.
–Eu sei que você está preocupada com o sétimo, mas não precisa se precipitar tanto. Pode deixar comigo, ok? Vou cuidar para não aconteça nada com ele até conseguirmos todas as respostas que precisamos. –disse piscando o olho.
Ela me encarou com uma leve irritação e tirou minha mão de sua cabeça.
–Você é um idiota... – murmurou se levantando. –Te vejo depois. – disse em um breve aceno. Então ela se foi, deixando uma leve poeira pairando pelo ar.
Sorri sozinho para o lago e me levantei calmamente. Eu não tinha muita certeza do que fazer. A melhor ideia que me vinha à mente era manter isso em segredo por enquanto e ver se Ícelo havia algo planejado. Eu tinha medo que se eu contasse para Faith sobre os encontros secretos dele com o sétimo ele acabasse fazendo algo ruim. Mas será que esperar era a coisa certa a fazer?
Com a noite chegando teria de voltar aos meus afazeres. Passar de casa em casa, espalhando esse cobertor dourado por cima de todas as camas. Essa rotina que nunca muda, mas que ao mesmo tempo nunca me aborreceu. Sou o que chamam de "sonho", meu verdadeiro nome é Coh, mas já recebi tantos nomes que já perdi a conta. Sandman é outro apelido que me deram, que para falar a verdade achei divertido. Minha vida gira em torno da noite, o momento do dia em que dou luz às sombras, mas assim como guardião já fui humano, tenho minhas dificuldades e meus sentimentos, como a curiosidade.
“-Eu não sei quem são vocês. Se querem alguma coisa digam logo.
–Não... É só... Qual o seu nome?
–...Ahmset.
–Você mora sozinho aqui?
–Porque a pergunta? Não tenho que responder.
–Tem falado com alguém estranho ultimamente? Recebido alguém suspeito em sua casa?
–...Não.”
Uma sombra de cabelos brancos pulava de telhado em telhado, acabando com a quietude e a substituindo por algo desconfortável. Desequilibrando o ar e prevalecendo as trevas da noite. Olhei para ele de longe, encostado em uma parede arenosa de tijolos.
–O que você está pensando?
Talvez as coisas estejam prestes a mudar.
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