Umbra

4 Ovelha negra


Encarei o buraco deixado pelo meu punho naquela imensa parede de concreto. Restrições, restrições por todo o lado. “Já chega, Ícelo. Você anda exagerando de mais, Ícelo. Tenha pelo menos um pouco de noção pelos seus atos, Ícelo”. Dei outro soco no mesmo lugar da parede, estraçalhando mais ainda o material cinzento já rachado.

–QUE MERDA! –gritei descontando a raiva nas palavras. O líquido quente escorria pelos meus dedos, colorindo o cinza de vermelho.

Ser encarado por olhares tortos sempre ao chegar de um dia de “trabalho”, sentir a reprovação nas feições dos que me cercam, julgando cada pequeno movimento. Em um lugar de seres divinos, recheados por virtude, glória e sabedoria, eu era a ovelha negra, um destino que me aguardava dês do dia da minha criação. Ser odiado, amado, quem se importava? Ser bom ou ruim, nem tem diferença! Chamamos os outros de maus apenas por viverem uma realidade diferente. Mas quer saber? Que se foda tudo isso! Eu não costumava dar ouvidos ao que eles falavam, eu seguia minha própria trilha, isso até interferirem meu caminho. Lembro do rosto furioso de Coh ao me prensar contra a parede de cristal do Jardim do Sol, segurando-me pela gola e me olhando nos olhos:

“-Você já está me tirando do sério, garoto! Todo meu trabalho é sempre em vão! Eu cuido para que os sonhos de todos ocorram normalmente, mas você simplesmente os estraga!

–Bom, EU não tenho nada a ver com isso. Seu trabalho pode ser criar sonhos, mas o meu é cuidar dos pesadelos. Se isso te incomoda tanto senta em um canto e chora. – falei empurrando os ombros dele com força.

–Pesadelos não servem para nada!

–Isso é o que anencéfalos como você pensam!”

Faith sempre acabava com as brigas com um simples “basta”, mas a vontade que eu tinha era de retalhar a cara daquele palhaço. Mas qual era o grande motivo por todos me encararem com cautela? Simplesmente pelo fato deles terem medo do meu temperamento. Faith era a maior força, a mais pura, mais luminosa, contanto havia outra força que merecia reconhecimento: Umbra. Qualquer um que sucumbisse a ela era considerado ameaça e pelo fato de eu ter um percentual um pouco maior de trevas do que os outros eles já me colocavam em observação. Só de pensar nisso já sinto meus chifres começarem a sair.

Tudo a minha volta estava agitado, os monstro percebem minha raiva e resolvem manifestar a deles. Caminhei sem rumo pelas florestas de árvores secas, encarando o chão com um olhar impaciente e mãos nos bolsos. As criaturas me rodeavam e olhavam para mim inquietas, voando e correndo de um lado para o outro, rugindo, grunhindo e chiando. Logo senti algo puxando meu casaco, já me preparei para me virar e mandar o monstro que estava me incomodando para longe, mas vejo que o monstro era na verdade uma pequena garotinha.

–O Ícelo está mais agitado que o normal hoje. –ela disse me encarando com seus olhos grandes.

–Ah, oi Ênio. Só estou um pouco irritado. –falei esfregando o rosto.

–Uh... A Ênio teve um dia chato também. Se você quiser ela mata quem estiver irritando o Ícelo.

–Não precisa. –falei sorrindo com o jeito dela. –Quer caminhar um pouco?

Ela concordou imediatamente e me seguiu com olhos brilhantes. Continuamos caminhando reto, chegando a uma extensa plantação de abóboras. Olhei para a enorme coisa laranja junto aos meus pés e a chutei para longe. Ela saiu voando a uma enorme velocidade, mas foi interceptada por um corte certeiro. Ênio encarou a abóbora cortada ao meio com seu grande machado em mãos, rindo descontroladamente.

–Mais uma! Mais uma! A Ênio quer outra! –ela gritou em meio a uma risada.

Chutei outra abóbora, seguida por muitas outras, todas acabando com o mesmo final: sendo cortada pela imensa lâmina do machado. Ênio ria e se divertia enquanto cortava as abóboras, com risadas pausadas, mas desesperadas. Fui até ela e acariciei sua cabeça. Seu cabelo era cinza, preso em duas espécies de tranças que imitavam chifres de carneiro.

–Faz muito tempo que você não faz nada? –perguntei olhando para o horizonte e depois para os olhos dela.

–A Ênio não tem mais o que fazer. Ela não anda recebendo mais trabalhos. –disse Ênio em um sorriso aleatório, com os olhos meio embaçados.

Concordei com a cabeça como sinal de compreensão. Ênio abraçou minha perna e tratou de fazer seu machado sumir. Ficamos quietos por um tempo.

–Os monstros estão inquietos hoje. O Ícelo deve estar com algum problema. –Ênio disse finalmente, acariciando o que parecia ser um gato preto.

–Apenas me ouça: quando você crescer me prometa que não irá ser o que os outros querem só porque eles querem. Ok?

Ela concordou e apertou mais o abraço, “tudo que o Ícelo disser”, era sua resposta de sempre. Pedi para ela me deixar o pouco sozinho, o que ela obedeceu meio desanimada. Continuei caminhando pela plantação, meu olhar vagava pela paisagem até chegar a uma montanha alta e de terra escura. Sua silhueta dava impressão de ser uma grande pedra pontiaguda e seu topo parecia um grande espeto. Caminhei em direção à montanha para desestressar, passando por lagos e colinas, sempre na mesma trilha de areia. Os monstros já estavam menos agitados, deixavam eu me concentrar em meus pensamentos, só desviavam minha atenção com algum barulho de vez em quando. Já no pé da montanha avancei pelas suas inclinações íngremes, transformando-me em uma espécie de vulto de poeira negra, que parecia se teletransportar de um lado para o outro. Ao chegar ao topo sentei em uma rocha grande e arredondada, olhando em volta e contemplando a paisagem. Meu “quarto” me lembrava das cenas de apocalipse de alguns filmes. Todo o seu extenso território era ocupado por planícies irregulares e de um mesmo tom acinzentado. O ar era gelado e causava muito desconforto para as pessoas, como se a brisa entrasse em seus pulmões e os espetassem com várias agulhas. Para mim aquele era o clima ideal, nunca gostei dos dias quentes de verão, sempre preferi sentir a neve caindo sobre minha pele e respirar o ar revigorante do inverno.

Joguei uma pedrinha para longe, observando até onde ela ia. Depois de refletir alguns assuntos aleatórios projetei um tipo de espelho à minha frente, nele eu podia ver pelos olhos dos monstros que vagavam pelo mundo material. A maioria mostrava pessoas depressivas, vi até alguns suicídios, mas a imagem de uma garota sentada em um balanço chamou minha atenção. Seus cabelos eram negros, compridos até o final das costelas, era uma mistura de cachos e fios lisos. Seu rosto era delicado e belo, olhos verdes e de cílios longos e pretos. Sorri enquanto a encarava. Me levantei da pedra e estalei meus ombros.

–Vamos nos divertir um pouco.