Umbra

8 O que é você afinal?


Meus olhos seguiam Ahmset, que andava de um lado para o outro com expressões preocupadas. Ele pensava em voz alta, algo sobre um arco e flecha ou um galpão de armas. Deitei no sofá e usei meus braços como apoio para a cabeça.

–E você vai ficar aí parado?! Se aquele cara explodir a minha casa eu vou pendurar a sua cabeça na lareira! –ele disse gesticulando com a faca na mão.

–Cuidado para não cortar o rostinho. –falei fechando os olhos. –Me chame quando eles chegarem...

–Quem são “eles”? Isso você pode me dizer pelo menos?

Suspirei e voltei a olhar para Ahmset, que me encarava furioso, esperando por respostas. Era engraçado como ele corava facilmente, estando envergonhado ou até mesmo com muita raiva. Pensei um pouco, tentando achar a palavra certa para explicar a situação.

–Você já ouviu aquelas historinhas de caçadores de recompensas, certo? Eu posso dizer que aquele cara é um. Ele vem me procurando faz um tempo e pelo visto me achar é algo difícil. –falei achando graça da dificuldade deles.

–Ou seja... Eles ficaram sem a parte da recompensa. –disse Ahmset checando o fio da sua faca.

–E não é que você conseguiu entender rapidinho?

Ele revirou os olhos e pediu licença, indo até a porta da frente do chalé e saindo para a floresta. Por pura curiosidade fui atrás dele, que parou em frente a uma árvore enorme. Ahmset colocou as palmas das mãos sobre o tronco, tateando a superfície até achar uma fenda quase imperceptível, puxando o que parecia ser uma portinha. O tronco oco dava para uma escada estreita, na qual não se podia enxergar o final por causa do escuro. Ahmset desceu as escadas, adentrando na parede de trevas como se conhecesse o lugar o suficiente para percorrê-lo de olhos fechados. Eu enxergava no escuro tanto quanto durante o dia, como se meus olhos se adaptassem a qualquer tipo de iluminação, a não ser por aqueles dias muito claros que incomodavam minhas retinas. Desci as escadas, chegando a um cômodo quadrado, de paredes feitas do próprio solo da floresta. Lá havia uma pequena mesa que me pareceu ser onde Ahmset fazia suas flechas. Ela estava lotada de diferentes facas para esculpir e materiais como madeira, penas ou pontas de ferro. Nas paredes estavam diferentes tipos de arcos, todos bem executados, pelo menos ao meu ver. Ouço um som de “clic” e então o cômodo fica claro.

–Você quem fez? –perguntei olhando em volta.

–Eu fiz tudo o que tem aqui sozinho. O lugar, os arcos, as flechas... –ele respondeu pegando um arco da parede. O arco era grande, feito de madeira detalhadamente trabalhada. Em cada uma das duas pontas havia um símbolo que não me era estranho, feito de um material esverdeado.

–Fazia diferença você pegar outro arco? –murmurei coçando a cabeça.

–Você vai ver. –Ahmset respondeu com um sorriso, na qual pude perceber um pouco de animação por trás.

Dei de ombros e subi a escada, caminhando em direção ao chalé. A noite já havia chegado e a temperatura se resumia àquela fumacinha branca que aparece quando se abre a boca. Voltei para a casa sem Ahmset, que havia ficado para trás por algum motivo que, para falar a verdade, eu não dava a mínima. Ao chegar perto da construção de madeira vi um bando de homens entrando no lugar, guiados pelo mesmo homem que batera na porta aquela hora. Todos vestiam ternos pretos.

–É muito feio invadir a casa dos outros, sabia? –perguntei com um tom de voz alto o suficiente para eles ouvirem. Todos viram para mim um tanto confusos, mas logo ficaram em posição de luta.

–Finalmente tomou coragem para aparecer? Vagabundo. –disse uma voz vinda de trás da muralha de homens.

–Grasso M. Eastwood. Há quanto tempo, velho amigo. –falei sarcasticamente. –Parece que você queria falar comigo.

–Ah, sim, camarada. Eu queria saber se estava tudo bem contigo. –ele disse saindo de trás dos “homens de preto”, com um sorriso cínico. -Você está nos devendo algo, pelo que me lembro.

Fiquei cercado rapidamente, na mira de inúmeros revólveres. Coloquei as mãos nos bolsos e desmanchei meu sorriso falso, olhando para Grasso. Uma neblina negra começa a subir do chão, um ou outro homem recuou um paço, mas todos permaneciam estáticos, com as armas em mãos.

–Parem de brincadeira. –disse dando um passo a frente

–ATIREM!!! –gritou Grasso com um tom autoritário.

Todos apertam os gatilhos. Em vez de balas comuns as armas lançavam pequenos arpões, que quando presos a alguma superfície liberavam uma corrente muito forte de eletricidade. Quando a cessão de tiros acaba o resultado aparece: os arpões estavam parados no ar, como se estivessem presos em um campo de força invisível. O que os prendia começa a se tornar visível, mostrando uma sombra que saia do meu corpo, uma silhueta enorme com chifres e garras. O gigante levantou uma das mãos e deu um soco no chão, fazendo uma corrente de vento que jogou todos os homens para longe. Grasso era o único que permanecia de pé.

–SEU... –ele começou a dizer, mas aí sua pele rasgou, fazendo com que uma criatura de pele coberta por fungos surgisse de dentro de sua carcaça. Sua forma física podia ser comparada a de um homem muito gordo, alto e de pele queimada, seus olhos eram profundamente negros e seu pescoço se tornava uma única dobra de gordura. O pior de tudo era o cheiro desagradável que ele soltava dos poros de suas costas.

Ele vem correndo em minha direção, quando uma flecha cravou o chão há minha frente. Raízes grossas e fortes sairam do solo e perfuram o Grasso, jogando sangue e tripas para todas as direções. Olho para os lados procurando quem jogara a flecha, então vejo Ahmset parado em cima de uma árvore, mirando para onde eu estava. Logo ele desceu e veio na minha direção. Eu não sabia se estava confuso ou impressionado, tentei pensar em alguma relação lógica entre as raízes e a flecha, mas não achei nenhuma.

–Obrigada por jogar as tripas dele pra cima de mim. –disse voltando à realidade, olhando para as minhas roupas. –Espero que você saiba lavar roupas direitinho.

–Mas o q... Como assim você... O que foi aquilo..? –ele perguntou apontando para mim confuso.

Sorri para ele e virei as costas, indo na direção do chalé.

–Vou tomar um banho. Você não se importa de me emprestar algumas roupas, né? E é melhor entrar logo que já vai chover. –disse passando pela porta, com uma pequena vontade de rir.

As nuvens negras vinham do norte a toda velocidade.