Umbra

6 Já nos vimos antes?


Acordei pela manhã em uma cama que não me pertencia, a garota da noite passada dormia ao meu lado, enrolada no lençol branco. Me sentei e dando um longo bocejo. A manhã estava meio nublada, ameaçava chover. Hoje era halloween, uma das minhas datas preferidas. Eu podia andar pelas ruas normalmente com meus chifres à mostra que todos achariam que era uma fantasia, também era a data perfeita para assustar crianças. Me levantei da cama e coloquei minhas roupas, desci as escadas da casa e abri a porta com a chave que estava na fechadura. Antes de sair dei um passo para trás e escrevi “feliz halloween” em um grande espelho que ficava ao lado da entrada, usando uma caneta esferográfica preta que ficava na mesinha à frente do espelho.

Saí da casa e fui andando sem rumo pelas ruas, a última coisa que eu queria era voltar para casa. Decidi ir até a floresta, que ficava a duas quadras de onde eu estava. Olhei em volta, a vizinhança estava toda decorada com coisas de halloween, lanternas de abóboras, bonecos assustadores e muitas outras coisas. Logo cheguei à floresta, ela era cheia de pinheiros altos, todos com tons alaranjados ou avermelhados por causa do outono. Era um lugar muito bonito. Fui caminhando por meio das árvores, ouvindo os estalos das folhas secas no chão, um som reconfortante que me lembrava da infância. O silêncio era a melhor parte, não podia se ouvir nada além dos meus passos e do vento.

Tudo estava mais que tranquilo, quando vejo ao longe uma flecha acertar um cervo na clareira à minha frente. Me aproximei cautelosamente. Quando olhei em volta para achar alguém vi o que devia ser o dono da flecha. Ele segurava um arco de madeira, com alguns detalhes entalhados. Nesse mesmo momento o vento parou. Ele parecia medir 1.80, seu cabelo era marrom escuro, a parte de trás ia mais ou menos até o fim do pescoço e sua franja caia sobre uma pequena parte de seu olho esquerdo, deixando dois fios caírem sobre o rosto. Seus olhos eram verdes e sua pele era pálida, com um leve tom avermelhado entre os olhos. Seu rosto era mais fino que o meu, suas orelhas eram pontudas como as de um elfo. Ele usava um colete verde por cima de uma camisa branca, calças e botas marrons e um cinto de couro. Ficamos nos encarando, sua expressão era de surpresa e ao mesmo tempo parecia confusa.

–Já... Nos vimos antes? –ele perguntou me encarando.

–Acho que não. –menti recuando com calma. Eu já havia visto ele antes.

–Você não vai fugir não. –ele disse apontando o arco e flecha para a minha direção.

–Opa! A moça ficou braba! –falei colocando as mãos na cabeça. –Se eu fosse você não faria isso. –continuei com um sorriso desafiador.

–Duvida? –ele perguntou soltando uma flecha.

A flecha veio em alta velocidade na minha direção, mas quando ela estava para me acertar meu corpo se desfez em poeira, aparecendo atrás do cara, segurando ele e tapando sua boca. Ele me dá uma cotovelada na barriga, mas eu continuo prendendo-o. Eu podia sentir seu coração acelerado.

–Como tem gente teimosa nesse mundo. –falei com um ar de deboche.

Ele ficou quieto por um tempo, mas com um movimento brusco me empurrou para trás. Tropecei em uma corda esticada logo atrás dos meus pés, o cara aproveitou para se soltar e me dar um chute. Uma armadilha. Antes que a rede escondida no chão pudesse me prender puxei a perna que ele usou para me chutar, trazendo ele comigo. Nós dois ficamos presos.

–Filho da mãe! Por que você tinha que me puxar?! –ele perguntou tentando se soltar.

–Hah! Achava que eu ia sozinho? -perguntei me mantendo parado. –Se você parasse de se mexer tanto eu agradeceria. –murmurei.

–Que merda... Se eu conseguir... –ele disse falando consigo mesmo. Ele pega o arco e tentou achar uma posição boa para atirar uma flecha, seu alvo era a corda que prendia a rede.

Ele deu um tiro certeiro que corta a corda, fazendo com que nós dois caíssemos no chão. Ele caiu em cima da minha barriga, era muito mais leve do que aparentava ser.

–Me responda. Quem é você? –ele perguntou com um tom firme, segurando a gola do meu casaco com força.

–É assim que você faz amigos? Caralho, você tem que aprender a ser mais amigável. –falei apoiando minha nuca com as mãos.

Ele suspirou irritado e se levantou. Me surpreendo ao ver sua mão erguida para mim. Segurei a mão dele e tomei impulso para me levantar. Estendi a mão para ele com uma expressão indiferente.

–Ícelo.