Uma vida em neon
1 O mundo é minha ostra
Quando você está realizando um sonho, normalmente imagina um céu claro, um sol estridente e nuvens que você consegue enxergar ursos e balões.
Mas, ironicamente, quando eu pisei na Coreia, estava caindo uma chuva torrencial.
E eu estava tão animada que nem cabia dentro de mim o pensamento de que talvez aquilo fosse um mau presságio.
Eu só queria agarrar aquela oportunidade com todas as forças.
Porque o que eu não parava de pensar era:
“Finalmente está acontecendo!”
Protegia a bolsa da chuva enquanto saia do aeroporto, tentando equilibrar o peso dela com a alça da mala que eu puxava atrás de mim. Meu cabelo já estava começando a perder qualquer aparência de organização, e o moletom que eu tinha escolhido para a viagem parecia uma armadura improvisada contra o frio.
Eu conhecia Seul. Já tinha sido trainee e não parei mesmo quando deixei o país. Continuei minha rotina de horas em salas de ensaio, repetindo movimentos até as pernas doerem, cantando até a voz pedir descanso e aprendendo coreano o suficiente para conseguir me virar.
Só que dessa vez eu não estava de volta como uma garota que ainda tentava descobrir se conseguiria realizar o próprio sonho. Dessa vez, eu estava chegando para vivê-lo.
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Na manhã seguinte, pulei da cama do hotel.
O Sol mal nasceu e meus olhos já não conseguiam ficar fechados. Eu ficava repetindo o mantra: “respira e não pira”.
Não estava funcionando muito bem.
Eu continuava calculando, pela milésima vez, todos os compromissos e horários da agenda, teria ainda que encaixar ao menos uma refeição no meio disso tudo.
Eu precisava ir até a Kube, a agência, pegar alguns documentos e resolver alguns trâmites. Depois, descobriria onde ficava o estúdio. Pelo que tinham me dito, haveriam alguns testes de voz e, dependendo do resultado, as gravações poderiam começar ainda hoje.
E tinham as coreografias!
Eu já tinha recebido os vídeos, claro. Tinha passado horas assistindo aos ensaios, tentando decorar os movimentos, na intenção de chegar um pouco preparada. Mas assistir a uma coreografia na tela e precisar executá-la ao lado de pessoas que já a conheciam de cor eram coisas completamente diferentes.
Fora essa adaptação da rotina, conhecer e entender quem era quem na empresa, os melhores caminhos para chegar no horário, definir com a equipe os looks para cada ocasião e claro,
como me portar em cada situação e a cada companhia. Porém, havia algo que, por algum motivo, conseguia me deixar ainda mais nervosa: conhecer minhas novas melhores amigas (era meu sonho).
Sim, eu definitivamente desejava isso, mas havia um inevitável medo também com a possibilidade de não ser exatamente assim. Foram tantos cenários imaginários desde que recebi a confirmação de que eu faria parte do grupo agora que a Mini saiu.
Tinha imaginado abraços. Sorrisos. Perguntas. Talvez um silêncio constrangedor nos primeiros segundos.
Talvez elas não gostassem de mim.
Talvez gostassem.
Talvez eu falasse alguma coisa completamente errada.
Talvez meu coreano travasse justamente quando eu mais precisasse dele.
As possibilidades se multiplicavam na minha cabeça enquanto eu tentava convencer meu estômago a parar de se comportar como se houvesse milhares de borboletas morando ali.
Respirei fundo.
Respira e não pira — Dessa vez quase funcionou.
É que, apesar de toda a ansiedade, eu tinha certeza que queria conhecê-las.
Queria saber quem eram aquelas três mulheres com quem, dali a pouco, dividiria ensaios, camarins, viagens, palcos, entrevistas, casa, refeições apressadas e provavelmente uma quantidade absurda de momentos surreais.
Eu estava entrando na história delas. E elas estavam prestes a entrar na minha.
Peguei minha bolsa, conferi pela última vez se estava com tudo e olhei para a porta.
Chegou a hora, mais um passo.
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Foi só um dia fora desse quarto de hotel, mas pareceu uma semana. Fiz tanta coisa que é como se o tempo aqui na Coréia triplicasse, ao menos era o que eu gostaria que acontecesse já que precisava dormir e o dia começava cedo mais uma vez. Dessa vez o despertador teria sua utilidade.
E sim, foi MARAVILHOSO conhecer meu mais novo trio preferido. As meninas me receberam super bem, com presentinhos e abraços. Me senti muito acolhida e isso me deixou muito mais segura para enfrentar o que ainda estava por vir.
Eu finalmente posso dizer que entrei no grupo Chon-sa e agora, junto com Hana, Sora e Yeji vou viver as coisas mais incríveis e loucas que eu tanto sonhei. Eu vou me esforçar ainda mais, pois as meninas são muito boas em tudo que fazem e eu preciso acompanhá-las.
Hana é a líder do grupo, a vocalista principal e a que representa o visual do grupo. Tão linda, parece uma princesa coreana, se elas fossem góticas e vestissem Schiaparelli. Ela tem uma presença naturalmente acolhedora e parece ser daquelas pessoas que a gente gosta de conversar e desabafar.
Já a Sora apesar de não ser a vocalista principal e nem a rapper principal ela faz os dois muito bem e dá suporte nas duas funções. Ela é absurda! Não é atoa que um dos seus papéis é ser o rosto do grupo, pois além das qualidades técnicas Sora é super carismática e sociável, mas também deu pra ver que é bem prática e deve ser fundamental para ajudar no gerenciamento do grupo.
Tem também a Yeji, a maknae do grupo. Sabe, ela foi a primeira pessoa a fazer eu me sentir menor estrangeira. Apesar de ser a mais nova tem um vocabulário incrível, talvez por isso tenha assumido a posição de rapper principal. Yeji tem uma energia surreal, além de muita espontaneidade, não é atoa que ela é o suporte da dançarina principal. Sinto que aprenderei muito com ela.
E bem, eu darei suporte no vocal e serei a dançarina principal. Já pensou? Eu, Li, dançarina principal e membro da vocal line do Chon-Sa! Ainda é difícil de acreditar que tudo isso está acontecendo. Preciso me esforçar muito para dar orgulho para as minhas novas melhores amigas e a base de fãs que elas construíram até aqui.
Por isso, chegou a hora de dar tchau e dormir, recarregar a bateria para enfrentar o dia de amanhã que será intenso. Essa é minha vida daqui pra frente.
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Um mês depois, apesar de excitada eu ainda estava sobrecarregada. Eram muitas músicas para aprender e gravar, além das coreografias.
Ao menos agora estava mais familiarizada com todos, sabendo quem era quem na empresa e finalmente me mudei para o apartamento junto com as meninas. Elas foram tão receptivas. Tem sido muito bom poder contar com esse carinho e toda ajuda delas.
Elas foram tão receptivas desde o primeiro dia que, às vezes, eu ainda me perguntava como tinha tido tanta sorte.
Cada uma, à sua maneira, tinha encontrado um espaço para mim naquela rotina que já existia muito antes da minha chegada. Yeji me ajudava com alguma palavra que eu não entendia. Sora aparecia com comida quando percebia que eu tinha passado horas sem comer. Hana simplesmente sentava ao meu lado depois de um dia particularmente difícil, sem fazer perguntas.
Era um tipo de carinho que eu não sabia que precisava. E, talvez por isso mesmo, estava aprendendo a aceitar.
Claro que elas também estavam exaustas.
A saída de uma integrante tinha criado uma espécie de terremoto silencioso ao redor do grupo. Enquanto eu treinava para entrar, elas precisavam manter tudo funcionando: ensaios, gravações, eventos, compromissos com marcas, conteúdo para os fãs.
Era como tentar reconstruir um barco enquanto ele ainda estava navegando.
Todas nós estávamos com as agendas abarrotadas.
Eu me achava ainda mais sortuda, já que além das minhas companheiras de grupo, também ganhei dois amigos que me acolheram muito bem, Taejun e Juwon. Eles eram de um dos maiores grupo de K-pop do país, o ALIENZ. Para minha sorte também eram agenciados pela Kube e por isso foi tão fácil a proximidade.
Ao perceberem o quanto eu estava perdida e, com as meninas super ocupadas, tomaram a iniciativa de me apresentar à indústria. Começaram a me levar para eventos mais estratégicos, esses de bastidor mesmo, me ajudando a entender aquele mundo que, de fora, parecia muito mais simples do que realmente era.
Cantar, dançar, trabalhar duro, tudo isso eu sabia fazer. O que eu não sabia era como atravessar uma sala cheia de pessoas importantes sem parecer completamente deslocada. Não sabia quais eventos eram realmente indispensáveis. Não sabia quem eu deveria conhecer, quem deveria cumprimentar primeiro, quando uma conversa era apenas uma conversa e quando, na verdade, havia alguma coisa acontecendo por trás dela.
As meninas faziam o possível, mas também estavam tentando manter o próprio mundo de pé.
Taejun e Juwon começaram me levando para eventos mais estratégicos, lugares onde eu pudesse observar, conhecer pessoas e entender um pouco melhor como aquela indústria funcionava quando as câmeras não estavam apontadas diretamente para os idols.
Eu ainda não sabia se aquilo me fazia sentir mais preparada ou apenas mais consciente do tamanho, e do peso, do futuro que tinha escolhido.
Meu sonho estava se materializando. Só que viver um sonho também podia ser exaustivo.
Afinal, o tempo estava correndo e meu debut seria dali a um mês.
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— Eu estou animado! Certeza que você vai curtir a aula de hoje — Disse Taejun. Era assim que eles chamavam nossos compromissos, aula.
— Ah é? E qual o rolê dessa vez? — Perguntei intrigada, mesmo já sabendo que podia confiar nos dois.
— Surpresa. — Interrompeu Juwon antes mesmo de dar tempo do Taejun dizer alguma coisa.
Chegando no local eles me encaravam para observar de camarote a minha reação.
— A aula de hoje é no show dos Holliganz?! — Quase gritei, já que definitivamente isso não passava nem perto do que eu imaginava.
Juwon sorriu, claramente satisfeito com a minha surpresa.
— Eu disse que hoje seria divertido — reforçou Taejun.
— Isso não é uma aula — pontuei.
— É uma aula — insistiu Juwon. — Só que uma aula que você provavelmente vai gostar.
Eu ri, ainda sem acreditar.
— Vocês estão tentando me ensinar a ser idol me levando para shows?
— Não exatamente — ponderou Juwon.
— Então o que exatamente eu deveria aprender?
Taejun fez uma expressão pensativa e respondeu — A observar.
— Observar o quê?
— Tudo — Ele continuou.
Olhei para os dois. Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso. Não tinha como não ser mágica essa noite.
Talvez aquela fosse, de fato, a melhor ideia que eles tinham tido desde a minha chegada.
Estava há semanas tentando absorver uma quantidade absurda de informações, aprendendo músicas e coreografias enquanto descobria como funcionar dentro de uma indústria que, até pouco tempo atrás, eu conhecia apenas de longe.
Uma noite em um show parecia exatamente o tipo de pausa que eu precisava.
E, se eles estavam chamando aquilo de aula, eu podia dizer que estava trabalhando.
Afinal eu estava ansiosa para viver algo que não envolvesse uma sala de ensaio ou encontro com executivos. Pela primeira vez em semanas eu poderia desopilar um pouco, ainda que eu precisasse assistir ao show sob uma nova lente.
A energia no estádio era surreal.
A expectativa de milhares de pessoas esperando pela mesma coisa era algo eletrizante. Como se a ansiedade de cada uma delas se somasse até formar uma espécie de corrente invisível, percorrendo as arquibancadas.
No momento em que todas as luzes se apagaram, o calor da plateia tomou conta do lugar.
Era possível ouvir gritos, choros, sentir a euforia que dominava o estádio. O som da plateia mudou antes mesmo de qualquer coisa acontecer no palco. Foi como se milhares de pessoas tivessem prendido a respiração ao mesmo tempo, esperando pelo instante seguinte.
O murmúrio virou grito.
Os gritos se transformaram em uma onda.
Eu sentia a eletricidade percorrendo meu corpo e o coração acelerado no peito, antes mesmo de conseguir entender o que estava acontecendo.
Então, as primeiras luzes se acenderam.
O palco ganhou vida.
E eles apareceram.
Por um breve momento não pensei na empresa, no grupo, na ex-integrante ou mesmo nesse espaço que agora seria meu.
Até que as borboletas resolveram aparecer me fazendo imaginar como seria estar ali em cima. Afinal, daqui a um mês eu estaria em algum palco sendo observada daquela mesma maneira. Olhada. Julgada. Aclamada. Tendo expectativas ao meu respeito e a minha performance.
A ideia deveria ter me assustado. E assustou. Mas, junto dela, veio uma alegria tão grande que quase doeu. Eu realmente tinha conseguido chegar até ali.
Talvez ainda não soubesse exatamente onde aquele caminho terminaria, mas, pela primeira vez, conseguia enxergar a estrada.
E então comecei a prestar atenção de verdade, não apenas na apresentação, mas na plateia. Na maneira como eles olhavam para as fãs. Na forma como respondiam aos gritos, como agradeciam, como faziam questão de reconhecer cada reação que vinha das arquibancadas.
Havia uma intimidade curiosa naquilo.
Eles estavam diante de milhares de pessoas, mas conseguiam fazer parecer que estavam conversando com cada uma delas.
Essa era uma das coisas que eu mais admirava no K-pop.
Desde que comecei a sonhar em ser idol, muito antes de entender como aquela indústria funcionava de verdade, eu imaginava como seria ter pessoas que conhecessem minhas músicas, que esperassem por uma apresentação, que cantassem comigo.
Eu sabia que a relação entre idols e fãs era diferente. Sabia da proximidade, das mensagens, dos eventos, dos fan meetings, das cartas, de todas aquelas pequenas formas de construir uma relação que ultrapassava o palco.
Mas assistir àquilo ao vivo era diferente.
Havia uma delicadeza na maneira como eles olhavam para as fãs. Como respondiam aos gritos e como agradeciam. Pareciam realmente enxergar as pessoas diante deles.
Aquilo me tocou.
Porque, no fundo, era exatamente isso que eu sempre tinha imaginado quando pensava em ser idol. Não apenas subir em um palco. Não apenas cantar ou dançar diante de milhares de pessoas. Eu queria saber como era criar alguma coisa que pertencesse também a elas.
Uma música que alguém escutasse em um dia ruim e que, por três minutos, fizesse o mundo parecer um pouco mais suportável. Uma apresentação que alguém lembrasse anos depois. A sensação de olhar para uma multidão e saber que aquelas pessoas estavam ali, naquele momento, porque alguma coisa que você fez significava algo para elas.
Talvez fosse isso que mais me atraía naquela vida.
A gratidão parecia existir dos dois lados. Os fãs entregavam tempo, carinho, atenção e uma parte da própria vida. E os idols pareciam carregar a consciência de que nada daquilo era garantido e por isso precisavam se esforçar e conquistar diariamente esse amor. Eu queria descobrir como seria sentir aquilo do outro lado.
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Juwon claro que havia organizado um after para matar a saudade dos amigos do grupo Hooliganz. Seria algo simples na casa de um deles, nem todos poderiam ir já que a agenda de idol é aquela coisa bem movimentada. Ainda assim, seria legal comer uma pizza e relaxar (se é que isso era possível) com eles.
Chegando ao apartamento as apresentações aconteceram aos poucos. Sorrisos, aperto de mãos, pequenas reverências, perguntas educadas.
Eu respondia em coreano, quase sempre sem precisar pensar.
— Você fala muito bem — alguém comentou.
Agradeci.
O apartamento era do Cap, líder do grupo, e tinha uma energia completamente diferente da que eu tinha experimentado nos eventos anteriores. Ali, ninguém parecia estar preocupado em manter uma postura.
As vozes se sobrepunham, alguém ria de alguma coisa na cozinha, Chul-woo que era o rapper principal do grupo, discutia com Juwon sobre a quantidade das pizzas e Cap tentava, sem muito sucesso, organizar o caos. Havia uma intimidade entre eles que era fácil de perceber, mesmo para alguém que tinha acabado de chegar.
Eu fiquei mais na minha.
Não por estar desconfortável. Todos tinham sido extremamente simpáticos comigo. Mas havia alguma coisa quase reconfortante em apenas observar.
Talvez porque eu ainda estivesse aprendendo a reconhecer aquele mundo.
Eu gostava de perceber como as pessoas se comportavam quando não precisavam performar.
Foi assim que notei Minjun.
Ele estava mais quieto do que os outros, mas parecia prestar atenção em tudo. Percebendo que eu o olhava, ele se aproximou de mim.
— Então você é a nova integrante?
Eu quase ri.
Não pela pergunta em si, mas pela forma como ele falou, como se estivesse confirmando uma informação que já tinha ouvido de várias pessoas.
— Ainda não oficialmente.
— Mas é verdade?
Olhei para ele por um segundo.
— É.
Ele sorriu.
— Então eu estava certo.
— Você tinha dúvidas?
— Não exatamente — Ele se sentou a uma distância confortável, apoiando os braços nas pernas. — Deve ser estranho.
— Entrar em um grupo que já existe.
Assenti.
— Bastante.
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de completar:
— Eu acho que sei um pouco como é.
Foi aí que entendi.
Minjun tinha passado por um período de afastamento do grupo. Um hiato que, pelo que eu sabia, tinha sido longo o suficiente para mudar a maneira como ele enxergava a própria carreira. Tinha precisado se afastar por causa dos problemas com a voz e, durante aquele tempo, precisou lidar com a possibilidade de talvez não conseguir voltar.
Eu não sabia todos os detalhes.
Nem precisava.
Algumas experiências não precisavam ser explicadas para serem reconhecidas.
— Deve ter sido difícil voltar — falei.
Ele deu de ombros, mas o movimento não parecia casual.
— Foi.
Depois sorriu de leve.
— Quando você fica muito tempo fora, começa a pensar que todo mundo continuou sem você.
A frase ficou entre nós por alguns segundos.
Eu sabia exatamente o que ele queria dizer.
Era diferente, claro.
Ele estava voltando para um lugar que já era dele.
Eu estava entrando em um lugar que ainda precisava aprender a chamar de meu.
Mas havia alguma coisa parecida naquele medo.
A sensação de chegar a um espaço onde as relações já existem, as pessoas já têm suas próprias histórias, seus próprios códigos, suas próprias lembranças.
E você precisa encontrar um jeito de caber sem apagar aquilo que já estava ali.
— Acho que é isso que mais me assusta — confessei. — Não quero que elas sintam que estou tentando ocupar o lugar de alguém.
Minjun me olhou com atenção.
— Você não pode ocupar o lugar de outra pessoa.
Olhei para ele que continuou.
— Você só pode ocupar o seu.
Fiquei quieta.
Era uma frase simples.
Mas alguma coisa nela me acertou.
Talvez porque eu ainda estivesse tentando descobrir qual era exatamente o meu lugar.
Minjun sorriu.
— E, se serve de alguma coisa, você não parece tão perdida quanto acha.
— Eu pareço perdida. — Brinquei.
— Um pouco.
Eu ri.
— Obrigada.
— Foi um elogio.
— Claro.
Ele riu também.
E foi assim, no meio de uma sala cheia, enquanto os outros discutiam sobre pizza e alguém colocava música para tocar, que comecei a conversar de verdade com ele.
Sem câmeras.
Sem palco.
Sem uma sala de reunião.
Sem que eu precisasse provar que merecia estar ali.
Pela primeira vez desde que cheguei, alguém parecia entender que talvez o mais difícil não fosse aprender as músicas ou as coreografias.
Era aprender a pertencer.
E, naquele momento, entre uma pizza, algumas risadas e o cansaço acumulado de semanas, a Coreia pareceu um pouco mais familiar.
Talvez um sonho começasse justamente assim.
Não com um palco.
Mas com pequenas coisas.
Uma chuva na chegada.
Um apartamento compartilhado.
Pessoas dispostas a ajudar.
Uma plateia que me lembrava por que eu queria estar ali.
E um grupo de desconhecidos que, aos poucos, começava a deixar de parecer tão desconhecido.
E, bem, além da cidade tinham outras coisas lindas por aqui.
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Ps. Chegando em casa Li tomou um banho e ao deitar na cama o celular apitou com uma mensagem do Juwon. — Não olha as notícias antes de dormir, nos vemos na Kube amanhã. Bom descanso.
Dizer isso era o mesmo que dizer para ela abrir os jornais imediatamente. Fotos dela com Juwon, ainda que afastados, sugerindo algo entre os dois estavam por toda parte.
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