Uma vida de raposa

3 O trabalho da raposa


— Pirralha. — escuto a voz de Daichi me chamando enquanto ele balança meu ombro — Você só vai acordar amanhã se eu deixar, vamos, levante

— Não tenho nenhum motivo especial para levantar. — resmungo cobrindo a cabeça com o lençol

— Isso mesmo! — diz A

— Nos deixe dormir em paz, velhote. — completa Un

— Escuta aqui. — ele puxa o lençol e aperta minhas bochechas com muita força — Eu vou ter que sair pra fazer um trabalho, então é melhor você ficar de olho na casa

— Trabalho? — pergunto abrindo os olhos finalmente e o encarando preocupada — Já tem que voltar? — encaro tristemente meus pés enquanto nervosamente mexo seus dedos

— É.... — ele suspira — Alguém tem que cuidar disso para nossa segurança, não?

Apenas murmuro em afirmação e ele bagunça meu cabelo carinhosamente rindo e se levantando para guardar o futon onde eu estava dormindo. A e Um começaram a flutuar despreocupadamente pela casa perseguindo um ao outro.

— Bem, eu tenho que sair, acredito que tenha algo na geladeira pra você comer, mas qualquer coisa é só fazer torradas ou qualquer coisa. — ele ajeita seu quimono e coloca a máscara branca de raposa, a máscara me encara sem que eu possa definir a expressão que está por trás dela, mas a olho com um rosto triste — Vai ficar tudo bem. — Daichi fica de joelhos segurando meus ombros e bate com o focinho da máscara no meu nariz — Quem vai proteger a casa como uma boa raposa?

— Eu vou! — digo animada e escuto um riso

— Eu vou voltar em alguns dias, tudo bem?

— Tudo certo, capitão! — faço uma continência e ele repete o gesto para mim depois de ficar de pé, sai logo depois disso enquanto eu observo apenas a sua silhueta sumindo por entre as árvores

Caio de joelhos no chão e começo a chorar alto, não era incomum, eu não tinha vergonha disso, Daichi é a única pessoa, ou pelo menos se parece com uma, que cuida de mim e não me odeia por ser humana, querendo ou não, eu tinha apenas ele comigo, então quando ele tinha que trabalhar matando e purificando os espíritos malignos que viviam pela montanha era realmente solitário, mesmo que eu tentasse parecer durona constantemente na frente dele eu ainda tinha 6 anos e qualquer criança de 6 anos entraria em colapso de ter que ficar sozinha em casa por alguns dias sem seus pais. A e Un pararam de correr e começaram a me rodear esfregando suas cabeças em mim.

— Não fique triste! — diz A com uma voz preocupada

— Estamos aqui para você. — sorri Un

— Eu estou bem. — sorrio para eles e enxugo as lágrimas — Vamos procurar por algo na cozinha

Daichi tinha deixado bolinhos de arroz na geladeira, pego o prato gelado onde eles estavam e dou uma mordida em um deles.

— Salgado. — reclamo me recusando a colocar outro na boca e devolvendo o prato para a geladeira

Encaro por algum tempo o interior da geladeira procurando algo que seria fácil até para uma criança fazer, mas no fim cheguei a conclusão de que uma criança criada por alguém que não sabe fazer um simples bolinho de arroz também não obteria muito sucesso na cozinha do dia para a noite.

— Sensei. — escuto uma voz vinda do pátio — Você está em casa?

Vou para fora da cozinha e vejo Midori olhando pelo templo a procura de Daichi.

— Ele já saiu. — respondo da porta da cozinha

— Ah, entendo

— O que queria perguntar?

— Eu queria falar apenas com ele. — ela se vira para ir embora

— Não precisa ser assim o tempo todo. — bato o pé no chão — Nunca fiz nada de errado pra você

Ela me ignora e apenas continua andando, eu corro atrás dela e a faço parar ficando a sua frente.

— Por que trata o Daichi tão bem e não gosta de mim? Nós dois somos raposas, não existe uma diferença entre nós!

— Você não é uma raposa. — ela me olha furiosamente — Você é uma humana! E tenha mais respeito quando fala com o sensei, não saia chamando os mais velhos pelo primeiro nome

— Ele não é meu professor, ele é meu pai. — bato o pé ainda mais forte no chão, eu nunca tinha o chamado de pai antes, mas de certa forma pensava nele como um, só que, naquele momento, aquela palavra veio a minha mente como uma choque, como se, pelo primeira vez, eu me sentisse realmente como uma igual a ele

— Você não é como as raposas! As raposas são as maiores protetoras da montanha e o sensei é a raposa mais forte que existe no mundo, não ache que só porque deu sorte dele te criar que você pode ser igual a ele

— Eu vou provar que sou igual as raposas! A, Un! — eu os chamo e eles vem flutuando até mim e me rodeando como de costume — Eu tenho espíritos familiares como uma raposa

Ela os encara por um momento sem saber o que dizer, parecia irritada, mas claramente não queria dar o braço a torcer.

— Isso não significa nada, veja, eles também não são raposas

— Nem todos os familiares de raposas tem que ser raposas

— Eu não quero saber, estou indo embora. — ela desvia de mim e eu continuo ficando a sua frente para não a deixar ir, depois de 5 vezes ela desiste — O que quer de mim? — minha barriga começa a roncar

— Você sabe cozinha? — pergunto

— Claro que sei

— Daichi não sabe cozinhar, então ele nunca me ensinou. — minha barriga ronca novamente — Faça algo para eu comer

— Por que eu faria isso?

— Porque você não é um demo.... — encaro seus chifres por um momento — Bem, tecnicamente, você é, mas..... Por favor.... — a olho triste

— Ok. — ela suspira desistindo — O que tem na sua geladeira?

— Hmmm. — paro pra pensar um pouco — Ovos, resto de bolo, uma cenoura, peixe, carne...

— Bolinhos de arroz salgados. — A completa com entusiasmo

— E torrada queimada. — diz Un

— Não acho que podemos fazer muito com isso, mas posso dar um jeito

Midori vai para a cozinha, ela me mostra um pouco como fazer um ensopado com a carne, cenoura e algumas batatas que encontramos escondidas na ultima gaveta da geladeira.

— Obrigada pela comida! — digo alegremente balançando minhas pernas curtas na cadeira enquanto levo a colher à boca — Isso é realmente muito bom! — sorrio e começo a comer rapidamente enquanto A e Un dividem um prato sujando seus rostos

— Não precisa agradecer. — Midori responde com uma expressão neutra

Depois que terminamos de comer, eu lavo a louça e guardo os pratos no lugar.

— Acho que eu deveria ir agora. — ela diz se levantando da mesa

— Agora? Não pode ficar um pouco mais?

— Por que não pede para seus amigos ficarem aqui com você?

— Goro e Izumi não podem ficar fora d'água por muito tempo e não tem um lago próximo por aqui

— Eu preciso ir para casa. — ela vira de costas e sai andando

— O seu pai faz dangos, não faz?

— O que tem?

— Eu quero comer dango

— Não vai mesmo me deixar em paz hoje, não é? — suspira

— Não

— Tudo bem, mas só um

Ela continua a andar e eu a sigo alegremente mostrando um pouco da floresta para o gatos, eles flutuam entre as árvores rindo e conversando comigo. A casa de Midori era uma casinha normal de madeira, não era um templo como a minha casa, tinha muitos moveis e não era apenas uma grande sala vazia com um altar, portas de correr, um único armário onde guardávamos as poucas roupas que tínhamos e alguns objetos aleatórios que usávamos diariamente como um balde de madeira e nossos futons, uma cozinha pequena e um banheiro, comparado à minha casa, a dela parecia muito mais um lar, pelo menos ela tinha alguns brinquedos de madeira para brincar que estavam espalhados pelo chão da sala.

— Ah, Midori, conseguiu falar com o velhote? — pergunta o pai dela animadamente dando um sorriso caloroso. O pai de Midori tinha pele vermelha, uma grande barriga, geralmente usava regatas para qualquer coisa junto com shorts, era meio careca no topo da cabeça onde ficavam seus chifres

— Ele já tinha saído. — ela sobe o pátio alto de madeira que ficava da altura de nosso peito, não muito diferente do pátio do templo na verdade

— Mesmo? Sempre ocupado. — ele ri coçando seus ralos cabelos negros de trás da cabeça — Ora, se não é a pequena aprendiz de raposa. — dá um belo sorriso para mim — O que a trás aqui?

— Dango. — digo sem rodeios

— Eu estava realmente com vontade de comer alguns também, vocês podem brincar por ai enquanto eu os faço. — ele vai em direção a cozinha

Midori não fala comigo enquanto estamos sozinhas, elas penas me ignora como de costume e desenha alguma coisa em um pedaço de papel branco com giz de cera, então eu apenas fico conversando com A e Un enquanto a comida não fica pronta. O pai de Midori volta algum tempo depois com um prato com 4 espetinho de dango e deixa para nós duas.

— Vamos comer juntas? — pergunto

Ela não me responde, apenas pega um espetinho e o come enquanto desenha. Não tinha muito o que fazer, então pego 2 espetinhos e vou para fora os comendo sentada no pátio balançando as pernas pendidas para fora, A e Un comem comigo e não para de dizer o quão bom era aquilo.

— Acham que o Daichi vai voltar logo? — pergunto para os gatos que se entreolham por um tempo

— Você o conhece a mais tempo. — fala A

— Você quem deviria nos dizer. — completa Un

Eu paro em silencio olhando para o nada por um tempo.

— Vamos. — digo por fim, me levantando e colocando minhas sandálias de madeira para ir embora, os gatos me seguem

O caminho para casa parecia longo, deviam ser quase 16 horas, o tempo realmente passou rápido, para mim parecia que ainda eram 2 da tarde, o templo parecia mais vazio do que de costume e eu me segurava para não chorar desesperadamente como antes, eu não tinha muitas opções além de ficar sozinha, Midori não me queria por perto e meus amigos vivem no lago, dormir debaixo d'água não era uma boa opção. Pego a caixa de fósforos da cozinha e acendo um incenso para colocar no templo e junto as mãos para fazer uma pequena oração para que Daichi volte para casa o quanto antes.

Eu sentia medo de estar ali sozinha, não tinha praticamente nada para me distrair, eu sempre brincava apenas com Daichi ou ele me ensinava um pouco sobre as raposas, não tínhamos televisão, mas pelo menos havia luz na casa, então eu podia fechar as portas e janelas sem que ficasse escuro onde eu estivesse. Acabei comendo macarrão instantâneo que encontrei nos armários da cozinha no jantar e depois passei um bom tempo desenhando junto com A e Un. Na hora de dormir, peguei o futon de Daichi e me deitei nele agarrando o desenho que eu fizera dele, continuei chorando até pegar no sono, era realmente escuro e solitário sem ele ali comigo, mesmo quando implicávamos um com o outro.

— Nana

— Nana

Os gatos chamam meu nome enquanto eu estou de olhos fechados, abro os olhos para ver o que os dois querem e percebo que a magatama que eu sempre usava estava brilhando em uma cor verde muito intensa, aquilo me deixou calma, era como se Daichi estivesse de volta e me desse um abraço caloroso me dizendo o quão corajosa fui por ter ficado bem e cuidado do templo, me deitei de volta e os gatos deitaram junto comigo, a magatama ainda brilhava quando peguei no sono.