Uma vida de raposa
1 A raposa solitária do templo
Chuva. O barulho daquela chuva forte preenchia meus ouvidos cobrindo qualquer outro som que a floresta fizesse. O templo estava com o pátio completamente molhado, eu já me sentia cansado apenas de pensar que teria que limpar tudo isso depois.
Coloquei os pés para fora do pátio deixando que a água molhasse meus pés quando caia e me deitei aproveitando o primeiro vento frio daquele maldito calor de verão, mas logo meu descanso é interrompido pelo barulho de quatro patas batendo contra as poças de água no chão.
— Você voltou cedo, Fuyuki. — digo para o espirito familiar da raposa parado em minha frente, seu belo pelo branco completamente molhado e cobrindo umas partes de suas marcas de cor vermelha do rosto
— Daichi, há uma criança humana aqui
— Uma criança? Deixe que os espíritos lidem com ela. — digo voltando a me deitar
— Mais especificamente, um bebê humano
— Eu não quero saber, não é problema meu. — protesto
— Ela tem os olhos vermelhos, Daichi
Ficamos os dois em silêncio por alguns segundos, segundos que pareciam completamente longos na minha cabeça.
— Ela não é uma criança qualquer, não é? — pergunto por fim me sentando para olhar para ele
— Se fosse, eu apenas deixaria que os espíritos a pegassem, afinal... — ele olha fixamente nos meus olhos — Não é problema nosso
— Hmm.... — coço a parte de trás da cabeça e desço com dificuldade do pátio alto por causa do quimono que dava menor mobilidade para minhas pernas — Vamos antes que eu desista
— Entendido
Fuyuki corre rapidamente por entre as árvores, habilidade essa que é quase impossível para um homem de 30 anos usando um quimono e sandálias de madeira, mas tento me manter o mais próximo dele o possível.
— Chegamos. — ele para em frente a um cesto pequeno e frágil abandonado perto de uma árvore grande
Me aproximo e retiro o pequeno pano cor de rosa de cima do corpo do bebê, uma garotinha dormindo com uma respiração muito fraca estava de baixo dele, suas pequenas mãos tateavam inutilmente pelo ar tentando encontrar pelo toque seu pano par mantê-la aquecida e começa a chorar logo depois de não encontra-lo na terceira tentativa.
— Temos que tirá-la daqui. — me abaixo para segurar o pequeno corpo gelado da criança e, assim que o fiz, uma sensação diferente percorreu todo o meu corpo, meu coração bateu em descompasso e me senti tonto, mas a criança logo parou de chorar e quando sentiu o calor de outro corpo junto ao dela, a menina riu e o céu acima de nossas cabeças clareou quase que instantaneamente
— Eu disse que não era uma criança qualquer. — diz Fuyuki aproximando seu focinho da menina para sentir seu cheiro
— Ela é tão pequena e seu futuro já está completamente escrito, não é? — eu sorrio para ela — Vamos cuidar de você até que consiga encontrar o seu caminho
Caminhamos calmamente com a garota nos meus braços, ela parecia estar bem calma, mas ainda estava com um corpo frio. Já dentro do templo, Fuyuki me ajuda a preparar um banho quente para a garota, a colocamos na banheira com cuidado e a lavamos, ela abre os olhos e encara nós dois como se nos analisasse e sorri para nós segurando meu polegar com sua pequena e macia mão.
— Como acha que devemos chama-la? — pergunto
— Podemos apenas chama-la de "a garota", eu não vejo problema com isso
— Não podemos, humanos tem que crescer com nomes
— Apenas escolha qualquer um então
— Então que tal....... Naomi? Sayuri?......
— Parecem nomes muito fortes para alguém tão pequeno
— Ela ainda vai crescer bastante. — continuo lavando a criança que parece aproveitar a água quente — Nana....
— Você nem se esforçou com esse nome
— Ela tem 7 marcas, vê? — aponto para seu ombro esquerdo, onde haviam 6 triângulos negros formando um circulo apontando para dentro, onde, no meio, havia a sétima marca com forma de magatama — Uma magatama, não é? Essa pequena é realmente esquisita
Tiramos Nana do banho, a secamos e levamos para a sala a deixando sentada no tapete, não fazíamos ideia do que fazer com um bebê, em teoria nós somos apenas existência, somos um fim sem começo, o que sabíamos sobre crianças era o mero fato de que eles existiam e nada mais.
— O que vamos fazer com ela? — Fuyumi pergunta
— Cuidar... eu acho.... — Nana começa a chorar e nós dois ficamos paralisados pensando no que fazer — O que se faz com uma bebê chorando?
— Como eu vou saber? Ela não fala!
— Ah, bebês bebem leite, não bebem? — eu pego ela no colo e a seguro com um braço contra meu corpo — Espero que tenha algum na geladeira
Corremos para a cozinha e achar um pouco de leite que havia sobrado e colocamos no fogão enquanto tentávamos fazer Nana parar de chorar, a panela com o leite começou a vazar e borbulhar, eu a tiro sem desligar o fogão tentando não deixa-la cair enquanto o bebê chorava desesperadamente.
— Damos para ela agora? — pergunto levantando a panela
— Claro que não, seu idiota, isso está fervendo! — grita comigo — Me dá ela aqui — ele segura ela com a boca pela parte de trás da roupa dela — Ahora dê um heito de achar alhuma hoisa ra holohar o leihe — diz confusamente sem conseguir mover a boca corretamente por segurar a menina
— Certo, alguma coisa... alguma coisa... — olho pelos lados e encontro uma garrafa de plástico — Como isso?
— Prehisa de um biho
— Bico? — ele balança a cabeça — Acho que tenho aquelas luvas descartáveis em algum lugar — procuro nas gavetas da cozinha por um tempo e encontro um das luvas, pego uma tesoura e corto o polegar da luva o prendendo na boca da garrafa e fazendo um pequeno furona ponta, coloco o leite dentro da garrafa depois de garantir que parecia certo — O que acha? — ele põe Nana no chão que fica sentada chorando
— Coloque a garrafa dentro de uma panela de água fria
Eu fiz o que ele mandou e em pouco tempo o leite ficou morno, Nana o bebeu e parrou de chorar finalmente, seu pequeno rosto estava completamente vermelho e molhado das lagrimas, pego ela no colo enquanto ela bebe o leite tranquilamente e a embalo de leve.
— Sabe o que eu estava pensando? — Fuyumi pergunta me olhando cuidar da Nana
— O que?
— E se estivermos cometendo um erro?
— O que quer dizer?
— Talvez eu tenha me enganado, talvez ela tenha sido abandonada por ser perigosa
— Ser diferente não significa necessariamente ser perigoso
— A garota tem muito poderes, não podemos nos dar ao luxo de deixa-la descontrolada
— Mais um motivo para ela ficar com a gente
Caminho até um pequeno altar na sala do tempo e pego o cordão de magatama de jade encima dele e coloco no pescoço de Nana.
— Se sente melhor se contermos o poder dela?
— É a decisão mais inteligente
— Ela pode nunca descobrir quem é, nem a controlar os poderes dela e certamente pode não cumprir sua missão
— Temo o fato de não sabermos se ela é uma escolhida para o bem ou para o mal
— Se isso te deixará dormir melhor a noite. — eu toco gentilmente o buraco da magatama, que começa a brilhar em seu tom claro de jade e seu brilho envolver o corpo de Nana, ainda distraída com a mamadeira improvisada — Está feito, enquanto ela tiver essa magatama.... — toco gentilmente a pedra no pescoço dela — Ela não será capaz de saber o que ela realmente é
— E o que ela realmente é — ele me pergunta
— Acho que nunca descobriremos também
Suspiro com um sorriso acariciando os ralos cabelos castanhos de Nana.
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