Uma troca justa

1 Capítulo 1 - Dias iguais


O velho relógio pendurado na parede marcava 19 horas e 2 minutos. Os raios do sol já se pondo, adentravam a janela pelas frestas da velha cortina. Era um final de tarde quente, mas o pequeno apartamento do qual estamos falando era de algum modo frio. Sentado em uma poltrona aconchegante, com seu cachimbo Dunhill billiard fumacento na mão, estava James Weber. Ao som de George Gershwin (uma das poucas músicas que conhecera em sua vida) tocando em seu velho toca-discos, estava pensando sobre sua vida de aposentado. O dia estava acabando como mencionei a poucas linhas atrás, mas a única coisa de que James conseguia se lembrar de ter feito foi acordar, tomar seus remédios e pagar as contas. De fato, sua rotina não era muito interessante. Como poderia ser?

Desde seus 16 anos, quando começou a trabalhar com seu pai, não teve tempo para se preocupar com uma vida de verdade. Ele aprendeu que o dinheiro era o mais importante e quanto mais dinheiro ele conseguisse, mais ele poderia aproveitar a vida no futuro. Bom, não foi bem assim que aconteceu. É claro, James tinha um carro bonito, um apartamento decorado e uma bela coleção de cachimbos da qual se orgulhava. Mas não tinha amigos, esposa ou filhos para lhe fazer companhia. Além disso, toda sua aposentadoria acabava sumindo entre impostos, hospitais, remédios e consultas.

— O médico! –Disse James em voz alta, por ter se lembrado.

Se levantou da poltrona, e andou com sua bengala até o balcão da cozinha onde deixava alguns papéis como receitas de remédio, contas e lembretes. Retirou seus óculos de grau do bolso e sem colocá-lo, aproximou ao olho para ler um lembrete que dizia:

“Consulta com Dr. Thurow Jr. – 19/11 as 9 horas”.

Olhou para o calendário e era uma quarta-feira do dia 18 de novembro.

— Que sorte! Pensei que tivesse perdido a consulta de novo! – desabafou aliviado.

O doutor Thurow Júnior era um médico alemão que montou um consultório perto do centro há uns 10 anos atrás. O seu pai, Dr. Hans Thurow era um cardiologista famoso na cidade e seu filho decidiu seguir a profissão. James gostava de se consultar com ele, embora muitas vezes perdia a consulta por causa de sua memória já falha.

Apagou seu cachimbo, desligou o toca-discos e após escovar os dentes, foi se deitar ainda antes do céu escurecer por completo. Ao deitar-se, puxou a coberta de lã sobre suas pernas e sua cabeça afundou em seu travesseiro de plumas. Não conseguia dormir. Sua mente ia ao passado e voltava com pequenos acontecimentos sem importância, mas que sua memória fraca não conseguia apagar.

— Droga! – resmungou a lembrar que não havia tomado o remédio antes de dormir.

Se levantou lentamente com dificuldades da cama e começou a tossir. A tosse se intensificava e parecia que quanto mais ele tossia, mais a garganta coçava somente para tossir novamente. Tomou o remédio com um copo de água, mas uma tosse involuntária surgiu fazendo com que ele se engasgasse e acabasse derramando agua no chão. Limpou a boca com a manga de seu pijama e sentou-se novamente na cama. Quando foi puxar o cobertor em de volta em suas pernas, percebeu uma mancha escura perto de sua mão. E ao puxar a manga de sua blusa, um sentimento de calafrio o possuiu.

Era sangue. Seu braço estava com uma mancha de sangue. Começou a sentir em sua boca o gosto do sangue que até então não tinha reparado.

Então deitou-se e começou a chorar como uma criança. Enquanto chorava, pensava coisas como ”Como poderia o fim estar tão perto? Sempre pensei que poderia aproveitar a vida por muitos anos se trabalhasse bastante, mas agora vi que trabalhei toda minha vida e não me sobrou nada.”.

Decidiu que iria esquecer disso apenas por aquela noite e no dia seguinte iria ao médico mesmo sem preguiça ou vontade. James sabia que não lhe restara muito tempo de vida, mas mesmo assim não pretendia desperdiçá-lo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.