Uma tarde ao seu lado
1 Capítulo único
Já fazia um bom tempo que Kanon não tirava uma folga para simplesmente passar o dia atoa e como só teria um compromisso no final do dia onde teria que se encontrar com seu irmão Saga no templo de Gêmeos, pensou que seria uma boa tarde para sair com alguém: e não poderia ser ninguém menos que o cavaleiro de escorpião.
Combinou então de encontra-lo em uma colina fora dos limites do santuário. O local parecia ter sido habitado há muito tempo, mas agora não havia ninguém lá. Quando criança conheceu aquele local por acaso em uma de suas fugas dos treinos e desde então passou a visitar o lugar quando queria ficar sozinho e longe dos outros aspirante a cavaleiro.
Não havia muitas coisas por lá, apenas uma casinha de um quarto com uma cozinha antiga, tão antiga que fogão ainda era a lenha. A vegetação do lado de fora era rasteira e tinha apenas algumas árvores espalhadas, mas a vista lá de cima era realmente bonita. De lá era possível ver os campos de treinamento e um visão exclusiva das 12 casas e para completar, ainda dava para ver Rodorio ao fundo. Era um belo lugar e o lugar perfeito para ficar a sós com Milo. Combinou então de encontra-lo lá durante a tarde.
Chegou ao ápice da colina e estava contemplando a vista quando ouviu uma voz resmungar trás dele.
— Ei, você demorou demais sabia? Desse jeito não aceito mais seus convites... — disse Milo e encarou o geminiano assim que ele se virou.
Kanon arqueou uma sobrancelha ao ver o loiro deitado em baixo de uma macieira e comendo um de seus frutos. A luz do sol batia nas folhas das arvores que faziam leves sombras sobre a pele dele, o ar de despreocupação também estava estampado em seu rosto e por alguns instantes, Kanon ficou ali observando o mais novo com uma expressão boba. Ele estava realmente fofo daquele jeito, com cara de manhoso e preguiçoso debaixo da arvore.
— Você é que chegou muito cedo — finalmente respondeu quando o outro percebeu seu devaneio e voltou sua atenção para a paisagem — é um lugar muito bonito, não é? Gostou?
— Realmente, e ótimo para um cochilo quando alguém se esquece de um compromisso e você é obriga a ficar esperando por mais de uma hora — bocejou — Ah! Mas tudo bem, você nem fez falta! Preferia ficar sozinho aqui mesmo... — tirou mais um pedaço da maçã.
Fechou a cara para o escorpiano e estalou a língua, sentando-se a seu lado logo em seguida só para implicar com ele e passou o braço por volta da cintura dele.
— Nem me atrasei tanto, do jeito que você fala parece que te deixei plantado aqui por horas. E olha que você ainda ficou deitado só de preguiça... – disse aproximando seus rostos com um sorriso travesso nos lábios, quando sentiu os restos da maçã baterem em sua cabeça. A esfregou no local onde foi acertado dando tempo para que Milo se levantasse com uma cara emburrada.
— E só por isso ia me deixar aqui? Eu poderia estar descansando no meu templo, fazendo uma visita ao Camus ou qualquer outra coisa além de ficar parado esperando um certo Kanon – disse encostando as costas no tronco da arvore – esta me devendo um pedido de desculpas.
Riu da cara que Milo fez quando disse isso e por causa disso ele pareceu ficar mais irritado e decidido a ir embora, foi quando sentiu o braço ser puxado pelo cavaleiro de Gêmeos. Esperneou e tentou puxar o próprio braço para se libertar, mas o aperto no pulso estava muito forte. Que cara irritante, e aquele sorrisinho meio de lado na cara dele só o deixava mais irritado, pois não conseguia resistir aquele sorriso do geminiano.
— Me deixe ir.
— Bem, se está aqui, pra que tanta pressa para ir embora? – sorriu – eu vou pedir desculpas, mas antes... me dê um beijo, sim?
— Beijo?! Tá brincando né? – deu uma alta gargalhada.
Aproveitou a situação epuxou o mais novo para perto dele. Não demorou nem um segundo para o rosto do cavaleiro de escorpião ficar coberto com uma cor escarlate que só se tornou mais intensa assim que Kanon abraçou a cintura do loiro o trazendo para mais perto de seu corpo. O loiro empurrou o peito dele em uma tentativa de ganhar distância entre seus corpos, porém falhou nessa tentativa, só fazendo-o com que ficasse com os braços prensados contra o peitoral musculosos do gêmeo.
— Me deixa Kanon! Não vejo graça no que esta fazendo.
—Não era para você achar engraçado mesmo– riu e pegou uma mecha dos fios loiros e começou a enrola-la no dedo, pensativo. O sorrisinho debochado apenas crescendo em seus lábios.
—Para com isso! – Kanon apenas arqueou uma sobrancelha e quando abriu a boca pra falar algo foi cortado pelo mais novo – Para com essa palhaçada e me deixe ir...
Sentiu os lábios sendo pressionados contra os seus em um beijo suave, calando-se por um instante. Kanon sorriu por entre o beijo, rindo de leve.
Milo ficou sem reação por uns bons minutos, mas aqueles lábios eram tão bons que nem depois de processar o que acabara de acontecer ele quis separa-los. Maldito, fazendo a raiva e chateação do escorpiano agir a seu favor... Mas levou os braços timidamente até o pescoço do outro, que sorriu por causa do gesto.
Beijaram mais uma vez até que o loiro separasse seus lábios novamente, mas o geminiano insistia para que isso não ocorresse, mordendo de leve o lábio do mais novo até que seus dentes não conseguissem mais segurar o lábio inferior do outro
—Você não presta sabia?
— É, já ouvi isso um monte de vezes.
— E ainda se acha por isso.
—Hm... Mas você gostou né? Pelo jeito que me retribuiu agora a pouco... — disse em tom provocante, roçando seus lábios nos do outro.
—Quem sabe? – riu e empurrou o rosto do mais velho – Mas então, não vai me pedir desculpas?
Suspirou e fez um bico irritado, parecendo uma criança quando os pais recusam comprar algo para ela.
— Ok, me desculpe. Só não acabe com o clima da próxima ein, loirinho.
Passaram algumas horas ali, sentados de baixo da macieira, até por volta das três da tarde. Tudo estava muito tranquilo e a tarde continuava a prosseguir de forma lenta e tranquila, até que sentiram uma brisa diferente. Com vento gelado, veio a chuva, e por estarem longe do santuário decidiram entrar na casa que tinha ali ao lado. Não seria um problema esperar a chuva passar ali.
—Aqui podemos esperar a chuva passar — disse Kanon fechando a porta por trás.
Milo se debruçou na janela, deixando que alguns pingos respingassem em seu rosto que já estava molhado por causa da chuva. Kanon foi até o quartinho e achou alguns panos, levando um para que Milo se secasse. O jogou para o loiro e depois começou a secar os próprios cabelos com um outro pano.
Percebeu que secar os longos cabelos ondulados parecia estar sendo um desafio para o escorpiano, sorriu debochado e puxou o loiro para o quartinho, fazendo ele se sentar na cama de solteiro, ao seu lado. Assim que Milo se sentou, a velha cama rangeu com o peso extra, assustando-o e fazendo o pano que estava em suas mãos cair sobre a cabeça, cobrindo o rosto. O mais velho riu e pôs o tecido que estava usando sobre os próprios ombros, levantando o que cobria o rosto do outro apenas para dar-lhe um leve beijo, como se tirasse o véu da noiva.
O loirinho corou instantaneamente e puxou a improvisada toalha para baixo na intenção de cobrir as bochechas rosadas novamente, começado a fazer um discurso de como Kanon era idiota. Ele apenas riu achando aquela cena uma graça e começou a secar os fios dourados do menor. Deu um pouco de trabalho, mas logo os cachos estavam secos novamente. Milo se ofereceu para fazer o mesmo com os cabelos de Kanon e quando terminou o trabalho, fez com que os fios escorressem por seus dedos. Deixando um suspiro escapar e abraçando o maior de surpresa, fazendo com que ambos deitassem na cama.
—N-não interprete isso de forma errada, imbecil... é só que está frio e não tem um cobertor...
Kanon acariciou o rosto do pequeno e em seguida o abraçou apertado, este segundo sorriu minimamente em resposta.
— Claro, frio... Disse o amigo de Camus – riu levemente.
— Isso não teve graça... – Milo murmurou escondendo o rosto na curva do pescoço do mais velho.
Ficaram ali por um tempo, abraçados esperando a chuva passar e o céu abrir novamente. Ficaram de bobeira conversando até que Kanon virou o rosto para a janela, para ver se a chuva parecia diminuir.
— A chuva parece que vai demorar um pouco para passar... — comentou em um tom preocupado.
Milo fez bico, incomodado com aquela observação. Abraçou o mais velho com força como se quisesse impedir que ele saísse dali.
— E isso é um problema?
— Eu tinha um compromisso agora no fim da tarde... Acho que vou ter que voltar debaixo da chuva mesmo. Você fica aqui, para não adoecer — Apesar do tom suave em sua voz, o que disse parecia mais uma ordem.
Mesmo com a resistência do loirinho, levantou-se e afagou a cabeça do menor antes de ir em direção a saída. O outro sentou-se na cama quase que imediatamente e agarrou a sua camisa, o que não foi suficiente para impedir a ida do geminiano. Então se levantou e o seguiu até a porta principal da casa.
— Ei! Espera ai, se você sair nessa chuva é você que vai pegar um resfriado! Melhor esperar a chuva passar e...
O outro então sorriu pra ele, disse que não tinha problema adoecer e que em outra oportunidade gostaria de se encontrar com ele naquele lugar de novo.
Abriu a boca para protestar mais uma vez, mas Kanon já tinha saído, fechando a porta. Retornou para o quartinho e se jogou, chateado, na cama que rangeu alto e parecia que ia quebrar a qualquer momento. Encolheu-se, abraçando o travesseiro perto de seu rosto, de alguma forma os lençóis ainda tinha o cheiro do geminiano... parecia que Kanonvisitava aquele lugar a muito tempo, pois para o cheiro dele ter ficado nos lençóis daquela forma... Ficou pensativosobre o que tinha acontecido mais cedo, parecia tudo tão planeja e a forma como o outro se comportou era bem incomuns da parte dele.Milo também percebeu que não se importava se Kanon tinha que ir embora, só queria ter ido embora com ele e não ser deixado para trás.
Deixou escapar um suspiro... Tudo bem que ele tinha um compromisso, mas bem que o outro poderia ter pensado um pouco mais nele e se organizado melhor para não abandona-lo sozinho ali.
Decidiu segui-lo, pulou da cama e correupara a entrada, abrindo a porta bruscamente e indoatrás dele. A chuva molhou novamente o corpo que tinha secado a pouco tempo. Ah! Mas isso não importava agora.
O encontrou pouco tempo depois e não muito longe do local onde estavam. Não pensou duas vezes antes de gritar o nome do azulado, e quando ele virou, também não pensou duas vezes antes de socar a cara dele.
—Não acredito que ia me deixar sozinho lá, seu idiota. Se queria tanto encarar essa chuva, eu iria com você! Não são gotas d'água que irão me matar — reclamou abraçando ele apartado.
Kanon se surpreendeu com o abraço repentino e piscou os olhos confusos com a reação bipolar do menor antes de retribuir o abraço, suspirando ao ver a chateação estampada naqueles belos olhos azuis que agora o encaravam.
— Não queria que você ficasse doente...
— Ah! Conta outra! É só uma gripe não é?
—Mas... é verdade...
— Sem “mas”! Eu quero ficar com você! Ouviu? Se for ficar jogando charme pra mim ao menos não me largue sozinho em uma casa velha!
Kanon riu e pressionou os lábios contra os do outro grego, em um beijo molhado e carinhoso debaixo daquela chuva. Milo retribuiu e depois falouem tom baixo sem por distância entre eles.
—Kanon, eu estava pensando... Por que você fez tudo isso? Essa brincadeira toda... desde que chegou você...Eu não te entendo as vezes...
O geminiano ficou em silencio por um tempo, mas riu e sorriu gentil.
— Como você é burro. Não percebeu ainda?
—Perceber...?
— Eu queira poder finalmente passar o tempo com você, depois de tanto de observar de longe, achei que hoje sera a oportunidade perfeita pra te deizer isso, mas acabei não tendo coragem... Milo... eu te amo.
Milo piscou os olhos e sorriu largo, segurando o rosto do outro em suas mãos e beijando ele de leve.
— Podia ter me dito abertamente isso antes. Porque... eu também te amo...
A partir dai, Kanon tomou a mão de seu amado e a segurou com força, como se não quisesse solta-la. E os dois voltaram ao santuário.
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